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Oriente Próximo Antigo

Quem foram os sumérios?

A primeira civilização urbana conhecida: Eridu e Uruk, a invenção da escrita cuneiforme e uma língua sem parentesco com nenhuma outra.

Resposta rápida

Quem foram os sumérios?

Os sumérios foram a primeira civilização urbana conhecida, estabelecida no sul da Mesopotâmia — a planície aluvial entre o Tigre e o Eufrates, no atual sul do Iraque. Organizaram-se em cidades-estado como Eridu (a mais antiga, c. 5400 a.C.), Uruk, Ur e Nippur. Desenvolveram a escrita cuneiforme a partir de c. 3300 a.C. e falavam uma língua isolada, sem parentesco com nenhuma outra conhecida.

Antes do Egito faraônico, antes de qualquer império, houve uma rede de cidades no sul da Mesopotâmia que inventou coisas que usamos até hoje — inclusive a própria ideia de escrever.

Onde e quando

A Suméria ocupava o sul da Mesopotâmia, na planície aluvial entre os rios Tigre e Eufrates — hoje o sul do Iraque. Não era terra fácil: solo fértil, mas de chuvas escassas, cheias irregulares e calor extremo.

A fertilidade veio de uma obra monumental de engenharia: canais, diques e reservatórios que transformaram a planície em área agrícola produtiva. Essa infraestrutura exigia coordenação social em escala, e boa parte da pesquisa associa o surgimento do Estado nessa região justamente a essa necessidade de gestão hídrica.

As cidades

A civilização suméria se organizou em cidades-estado — unidades políticas independentes, cada uma com seu deus protetor e seu templo central.

CidadePeríodo aproximadoObservação
Eriduc. 5400 a.C.a mais antiga
Urukc. 4000–3100 a.C.a maior do período
Urc. 3800–2000 a.C.porto do Golfo Pérsico
Lagashc. 2500–2300 a.C.
Kisc. 2900–2300 a.C.
Nippurc. 2600 a.C. em diantecidade de Enlil, centro religioso

Eridu é o assentamento urbano mais antigo conhecido na região. Uruk dá nome ao período em que a escrita aparece — e é de Uruk que vem Gilgamesh, o rei que se tornaria protagonista do épico mais famoso da Antiguidade.

A língua

O sumério é uma língua isolada: não tem parentesco demonstrado com nenhuma outra língua conhecida, viva ou morta. É aglutinante e de ordem SOV (sujeito-objeto-verbo).

Esse isolamento é um dos grandes enigmas da linguística histórica. O sumério deixou de ser língua falada por volta do início do segundo milênio a.C. — mas continuou sendo língua de cultura, liturgia e erudição por mais de mil anos, como o latim na Europa medieval.

A escrita

Aqui está a contribuição mais duradoura. A escrita cuneiforme não nasceu pronta; ela tem fases:

FasePeríodoCaracterística
Protoescritac. 3300 a.C.pictogramas em argila
Cuneiforme arcaicoc. 2900 a.C.sinais em forma de cunha
Cuneiforme clássicoc. 2600–2000 a.C.logográfico-silábico

Os primeiros pictogramas de Uruk IV (c. 3300 a.C.) são, em boa parte, registros contábeis — quantidade de grão, cabeças de gado, dias de trabalho. A literatura veio depois. Isso costuma surpreender: a escrita foi inventada para administrar, não para poetar.

O ofício pertencia aos escribas (dubsar), profissional altamente valorizado, formado nas escolas chamadas edubba (“casa das tábuas”), onde se ensinava escrita, matemática e literatura.

A primeira autora conhecida da história

Enheduana (c. 2300 a.C.) é a primeira autora identificada por nome em toda a história registrada. Filha de Sargão de Acad, foi sacerdotisa de Nanna em Ur e compôs hinos — inclusive o conjunto conhecido como Hinos do Templo.

Outro nome notável: Sin-léqi-unnínni (c. 1300 a.C.), compilador da versão canônica do épico de Gilgamesh.

Um cuidado necessário: o que não é sumério

A divulgação costuma atribuir tudo da Mesopotâmia aos sumérios. Vale separar:

  • O Enūma Eliš, o poema babilônico da criação, é acadiano — não sumério.
  • O épico de Gilgamesh na sua versão canônica é acadiano, ainda que o personagem venha de Uruk e haja material sumério anterior sobre ele.
  • A escrita cuneiforme foi adotada por acádios, elamitas, hititas e outros — não é exclusividade suméria, ainda que tenha sido inventada ali.

Essa distinção não é pedantismo. Ela muda o que se está afirmando sobre continuidade cultural.

O declínio

A salinização gradual do solo, causada por irrigação intensiva e contínua, é apontada como um dos fatores do colapso agrícola e, por consequência, do declínio sumério. A tese clássica de Jacobsen e Adams (1958) sustenta essa leitura, e investigações posteriores a matizaram — a salinização é um fator entre vários, não a causa única.

A Suméria foi absorvida politicamente por potências acádias e depois babilônicas. O que sobreviveu foi mais profundo que o poder: a escrita, a escola, o arquivo, a ordem jurídica.

O tratamento completo, com cronologia, panteão e bibliografia, está no dossiê da Suméria.

Fontes

  1. Van De Mieroop, Marc. A History of the Ancient Near East, ca. 3000–323 BC. Wiley-Blackwell, 2015.
  2. Nissen, Hans J. The Early History of the Ancient Near East, 9000–2000 B.C. University of Chicago Press, 1988.
  3. Kramer, Samuel Noah. The Sumerians: Their History, Culture, and Character. University of Chicago Press, 1963.
  4. Postgate, J. N. Early Mesopotamia: Society and Economy at the Dawn of History. Routledge, 1994.
  5. Leick, Gwendolyn. Mesopotamia: The Invention of the City. Penguin, 2003.
  6. Adams, Robert McC. Heartland of Cities. University of Chicago Press, 1981.