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Gênesis 6–9 · núcleo bíblico

O dilúvio

A passagem que reúne as duas camadas do dilúvio, a tradição mesopotâmica que a precede e dois mil anos de interpretação.

Resposta rápida

O dilúvio de Gênesis 6–9 existiu, e de onde vem esse relato?

Gênesis 6–9 não é um relato único: são duas versões costuradas, com números e vocabulário divergentes. Elas pertencem a uma tradição de dilúvio difundida em toda a Mesopotâmia, anterior ao texto bíblico em sua forma conhecida. Não há evidência de um dilúvio global; o que existe é um relato cuja história de interpretação é tão estudada quanto o próprio texto.

Gênesis 6–9 é a passagem onde o aparato crítico fica visível sem precisar de argumento. Não é preciso aceitar hipótese nenhuma sobre autoria para notar que há duas versões do mesmo evento, com regras diferentes, colocadas uma sobre a outra.

Texto

O primeiro dado é a contagem de animais. Uma camada manda levar um par de cada espécie e faz o dilúvio durar 150 dias (Gn 6,9-22; 7,6-24; 8,1-19). Outra manda levar sete pares dos animais puros e faz durar 40 dias (Gn 7,1-5.7-10; 8,20-22) [V] (Friedman, 1997 [V]; Baden, 2012 [V]; Westermann, 1984 [V]).

Não é imprecisão de copista: é a costura de dois relatos. E o vocabulário confirma — a camada sacerdotal (P) usa Elohim; a javista (J) usa YHWH.

Camada PCamada J
Animaisum par de cadasete pares dos puros
Duração150 dias40 dias
Nome divinoElohimYHWH
ReferênciasGn 6,9-22; 7,6-24; 8,1-19Gn 7,1-5.7-10; 8,20-22

A estrutura do livro reforça a leitura estratificada: a fórmula elleh toledot (“estas são as gerações”) articula o Gênesis em seções, e o dilúvio abre em Gn 6,9 com toledot de Noé [V] (Blenkinsopp, 1992 [V]; Sarna, 1989 [V]).

A arca mede 300 côvados de comprimento (Gn 6,15) [V] — dado do texto, não medida de objeto encontrado. A distinção importa: a divulgação costuma tratar essa cifra como se fosse resultado de escavação.

O que a passagem não diz. O texto não explica de onde vem a água, não fixa a extensão geográfica do dilúvio em termos geológicos, e não apresenta a narrativa como crônica de um evento natural. Ela é apresentada como juízo divino sobre a humanidade — categoria teológica, não relatório.

Contexto

Aqui a pergunta deixa de ser “de onde vem” e passa a ser “o que havia antes”.

Existem dois relatos mesopotâmicos centrais, e ambos são anteriores ao texto bíblico em sua forma conhecida:

  • Atrahasis — poema acádio do século XVII a.C. Edição crítica de Lambert & Millard (Oxford, 1969) [V].
  • A Tábua XI de Gilgamesh — nela Utnapishtim narra o dilúvio. Tradução de referência: Andrew George (Penguin, 1999) [V].

Os paralelos são estruturais, não vagos: dilúvio decretado, herói avisado, embarcação construída, seres vivos preservados, pássaros enviados para reconhecer a terra firme, sacrifício ao final [V] (Westermann, 1984 [V]).

Há paralelos de detalhe ainda mais estreitos, e é aí que a comparação fica difícil de descartar [V] (Finkel, 2014 [W]):

  • A área do convés das três embarcações é praticamente a mesma — cerca de 14.400 côvados² nas versões de Atrahasis e de Utnapishtim, 15.000 na de Noé, uma diferença de poucos por cento [W].
  • A palavra hebraica para “arca”, tēvāh, é próxima do acadiano ṭubbû, “barco oblongo” — e em hebraico o b e o v são a mesma letra [W].
  • As formas, porém, divergem: a arca de Atrahasis era circular, como uma quffa gigante; a de Utnapishtim era cúbica, com seis conveses de sete compartimentos cada, cada um dividido em nove; a de Noé era retangular, de três conveses [W].

E há uma diferença de enredo que a comparação costuma perder: nos relatos acádios o dilúvio é decisão dos deuses, e o motivo é vago; em Gênesis ele é juízo moral sobre a humanidade [V].

Ler isso como “a Bíblia copiou” é raso nos dois sentidos. O que os estudos sustentam é uma tradição compartilhada do Antigo Oriente, com a direção do empréstimo não estabelecida [V] (Westermann, 1984 [V]). Reciclar material tradicional era a norma na Antiguidade — o que distingue a versão bíblica é o que ela faz com o material, não o material.

Um paralelo interno merece registro: a estrutura da arca foi descrita como homóloga à do Templo de Jerusalém e do seu culto, cada convés com a altura do santuário e três vezes a área do átrio do tabernáculo [W] (Blenkinsopp, 2011 [W]). Se a leitura se sustenta, o autor viu arca e tabernáculo como o mesmo gesto — preservação da vida.

Recepção

Esta é a seção que dá sentido ao eixo: o que foi feito dessa passagem.

No próprio cânon

O dilúvio é relido dentro do Novo Testamento antes de qualquer intérprete posterior. 1 Pedro 3,20-21 faz da arca e das oito pessoas salvas pela água uma figura do batismo [V] (texto). Mateus 24,37-39 usa “os dias de Noé” como tipo da vinda do Filho do Homem [V] (texto). A releitura tipológica não é invenção patrística — começa no texto canônico.

Na antiguidade cristã

Agostinho dedica a Cidade de Deus XV.26 a isso, e o título do capítulo não deixa dúvida quanto à tese: “Que a arca que Noé recebeu ordem de fazer figura, em todos os sentidos, Cristo e a Igreja”. A arca é figura da cidade de Deus peregrina no mundo, salva pela madeira na qual pendia o Mediador — e as dimensões, 300 × 50 × 30, são lidas como sinais de traços da Igreja [V].

O capítulo seguinte é o mais interessante para quem estuda método. Nele Agostinho rejeita duas posições opostas: os que aceitam a história nua e recusam a interpretação alegórica, e os que sustentam o sentido figurado sem o histórico. Ele exige os dois [V]. É a formulação patrística mais clara de que sentido literal e sentido figurado não são alternativas excludentes.

Também antiga é a leitura de Orígenes (séc. III), que imaginou a arca como uma pirâmide de base quadrada flutuando sobre uma jangada [W].

Antes disso: a arca como objeto

Flávio Josefo, nas Antiguidades I.3, não só afirma que a arca existiu como cita outros autores que falariam de seus restos na Armênia — Beroso o Caldeu, Hierônimo o Egípcio, Mnaseas, Nicolau de Damasco [V]. A busca pelo objeto começa, portanto, na Antiguidade tardia: há registro de buscas desde pelo menos Eusébio (c. 275–339) [W].

Na Idade Média

Dois pontos concretos de recepção medieval:

  • A imagem canônica da arca — casco de navio com teto inclinado e porta lateral — não vem da Bíblia. Origina-se de Hugo de São Vítor, teólogo do século XI, que dedicou um tratado a descrever a arca [W]. Antes dele, a forma visual era outra, e o texto hebraico, por si, não descreve um navio.
  • A Glossa Ordinaria sobre o Gênesis consolidou a leitura tipológica como padrão de escola: a arca como Igreja, a água como batismo, o lenho como cruz. O que Agostinho formulou como argumento tornou-se, na Idade Média, o pressuposto [W].

O dilúvio também atravessa a literatura e o drama medieval como assunto próprio — o que o torna um caso raro de passagem bíblica com recepção popular, e não apenas erudita [W].

Recepção moderna, em uma linha

O que mudou não foi a passagem: foi o que se passou a exigir dela. A primeira edição da Encyclopædia Britannica (1771) descreve a arca como fato e discute quantos animais caberiam nela; a edição de 1910 registra a rendição gradual da leitura literal diante da geologia e da crítica bíblica [W]. É a mesma passagem, sob outro regime de prova.

O que permanece em aberto

QuestãoEstado
Há duas camadas em Gn 6–9?consenso largo dos que trabalham com fontes [V]
A tradição mesopotâmica é anterior?sim, Atrahasis é anterior ao texto conhecido [V]
Qual foi a direção do empréstimo?não estabelecido [—]
Houve dilúvio global?sem evidência geológica [W]
Houve um dilúvio local que originou a tradição?hipótese apresentada, não demonstrada [—]
A arca foi encontrada?não [W]

O dossiê completo, com a hipótese documentária e a bibliografia integral, está em Gênesis.

Fontes

  1. Lambert, W. G.; Millard, A. R. Atra-Ḫasīs: The Babylonian Story of the Flood. Oxford, 1969.
  2. George, Andrew (trad.). The Epic of Gilgamesh. Penguin, 1999. ISBN 9780140449198.
  3. Finkel, Irving. The Ark Before Noah: Decoding the Story of the Flood. Hodder & Stoughton, 2014.
  4. Agostinho de Hipona. De civitate Dei, XV.26–27.
  5. Flávio Josefo. Antiquitates Iudaicae, I.3.
  6. Westermann, Claus. Genesis 1–11: A Commentary. Continental Commentary, 1984 (original alemão, 1974).
  7. Friedman, Richard Elliott. Who Wrote the Bible? 1997. ISBN 9780060630355.
  8. Baden, Joel S. The Composition of the Pentateuch. Yale University Press, 2012. ISBN 9780300152647.
  9. Blenkinsopp, Joseph. Creation, Un-Creation, Re-Creation: A Discursive Commentary on Genesis 1–11. T&T Clark, 2011. [W]