O Levítico dedica sete capítulos a explicar sacrifícios — com uma precisão que não combina com a ideia de um gesto único. A pergunta «para que serviam» tem, por isso, resposta técnica antes de devocional.
A resposta em uma frase
O sacrifício levítico servia para manter a possibilidade da presença de Deus no meio do povo: reparar o santuário das impurezas que o contaminavam e devolver ao ofertante a condição de participar do culto (Lv 1–7) [W].
O que o texto manda fazer (a distinção dos tipos de sacrifício)
Cinco tipos, do ponto de vista do ofertante (Lv 1–5), com instruções sacerdotais espelhadas (Lv 6–7) [W]:
- `olah, o «holocausto»: a oferta que «sobe», queimada inteira no altar [W].
- minjah: a oferta vegetal, de farinha e azeite — o caso sem sangue [W].
- shelamim, o sacrifício de paz/comunhão: refeição repartida entre o altar, o sacerdote e o ofertante, que comem diante da divindade [W].
- ḥaṭṭāʾt, a oferta de purificação/expiação [W].
- ʾasham, a oferta de culpa/reparação [W].
O sangue é manejado exclusivamente pelos sacerdotes, e as porções dividem-se entre altar, sacerdote e oferente [W]. O nome inglês tradicional do ḥaṭṭāʾt, «sin offering», é enganoso segundo Milgrom (1991) [V]: no seu núcleo o rito é de purificação do santuário e da impureza, não de castigo. Kiuchi (1987) [V] propõe a tese mais influente contra ele: o kipper («cobrir», «expiar») inclui purificação e assunção de culpa — ao purificar os objetos santos, o sacerdote carrega sobre si a culpa associada à impureza.
De onde vem esse sistema (o paralelo do Antigo Oriente Próximo)
O vocabulário não é invenção israelita isolada. O termo shelamim deriva da raiz semita š-l-m, «ser inteiro, são, estar em paz»; a mesma raiz reaparece no ugarítico šlm, situando o sacrifício de comunhão num léxico oeste-semita compartilhado (Milgrom, 1991) [V] [W].
A comparação clássica é a que Milgrom faz com as purificações do Ano Novo babilônico (Akitu). No programa do festival («Temple Program for the New Year’s Festivals at Babylon», trad. A. Sachs, in Pritchard, ed., 1955, pp. 331–334) [V], um sacerdote purifica o templo; a carcaça de uma ovelha serve para kuppuru — apagar a mancha do espaço sagrado — e depois é lançada no rio. Milgrom vê aí o paralelo estrutural de Lv 16: a purgação (kipper) do santuário seguida da eliminação da impureza para fora do acampamento, com o bode enviado ao deserto (Milgrom, 1991) [V]. A direção do empréstimo permanece aberta — o paralelo é convergência de função, não cópia [W].
O que quebrou a leitura simples
Primeira: o sacrifício não é o ideal, é a acomodação. Maimônides, no Guia dos Perplexos III:32, sustenta que o serviço sacrificial não é o objeto primário dos mandamentos: Deus o acomodou à psicologia de um povo criado no hábito idólatra (Maimônides, c. 1190) [V]. O sacrifício seria remédio histórico, não ideal eterno. Contra esse racionalismo, Ibn Ezra (séc. XII) lê o Levítico pelo sentido literal e gramatical [W].
Segunda: o bode expiatório não carrega os pecados. Em Lv 16 dois machos cabríos são escolhidos: um oferecido «a Jeová», outro enviado vivo ao deserto «para Azazel» (Lv 16:8,10) [W]. O termo «bode expiatório» (scapegoat) foi criado por William Tyndale em 1530 ao verter la-ʿAzazel como «escape goat» — «a cabra que escapa». Milgrom rejeita a leitura vicária que daí deriva: o bode de Azazel não carrega os pecados do povo; é veículo para expulsar a impureza para o ermo [W].
Terceira: a natureza do ḥaṭṭāʾt está em disputa entre purificação (Milgrom) e purificação com assunção de culpa (Kiuchi) (Milgrom, 1991; Kiuchi, 1987) [V].
Como se sabe disso
- A terminologia. Os nomes derivam de raízes hebraicas e semíticas rastreáveis fora do texto bíblico — o caso do š-l-m / shelamim (Milgrom, 1991) [V].
- A estrutura literária de Lv 16. Rodríguez («Leviticus 16: Its Literary Structure», AUSS 34/2, 1996, pp. 269–286) demonstra a unidade quiástica do capítulo, contra os modelos redacionais que o tratavam como remendo de fontes [V].
- O sangue. Lv 17:11 afirma que «a vida da carne está no sangue»; daí a proibição do consumo e a reserva do sangue ao altar [W] — tabu oeste-semita amplamente partilhado, não particularismo israelita [W].
- A lacuna. A verificação página a página de Milgrom 1991 está pendente: só se documentou a seção sobre Lv 16 (pp. 1061–1065, por referência em Rodríguez 1996, p. 270 n. 1) [V] — [—] para o resto do volume.
O que responder, então
Se alguém pergunta para que serviam os sacrifícios do Levítico, a resposta mais exata é:
Um sistema de ritos distintos — holocausto, comunhão, purificação e reparação —, destinado a sustentar a presença de Deus no meio de um povo que a podia contaminar, e cujo sentido exato os comentaristas ainda disputam.
O livro não pergunta «por que sacrificar»; Maimônides é que o perguntou, séculos depois.
O debate completo está no dossiê do Levítico.
Fontes
- Milgrom, Jacob. Leviticus 1-16. Anchor Bible. Yale University Press, 1991.
- Kiuchi, Nobuyoshi. The Purification Offering in the Priestly Literature. JSOT Supplement Series 56. Sheffield Academic Press, 1987.
- Rodríguez, Ángel M. "Leviticus 16: Its Literary Structure." Andrews University Seminary Studies 34/2 (1996), pp. 269-286.
- Maimônides, Moisés. Guia dos Perplexos, III:32. c. 1190.