A pergunta parece uma só. São duas — e quase toda a confusão do debate vem de juntá-las.
A resposta em uma frase
A arqueologia não contesta que houve um reino em Jerusalém no século X a.C.; ela contesta que esse reino tivesse a escala e o esplendor que 1 Reis descreve [W]. Uma coisa é a existência de um Estado judaíta no Ferro II antigo; outra, o império de 1 Rs 1–11. A evidência sustenta melhor a primeira do que a segunda [W].
O que 1 Reis descreve
1 Reis 1–11 é a vida de Salomão em três blocos [V — texto]:
- O Templo (1 Rs 6–8): obra de sete anos sob contrato com Hirão de Tiro (5,17–6,38), planta tripartida, querubins e mobiliário de ouro; seguida da oração de dedicação e da promessa davídica condicional (8,22–26; 9,4–9) [V].
- A sabedoria e a riqueza (3,16–28; 4,29–34; 10): o juízo das duas mães, a fama internacional, a frota de Társis, a rainha de Sabá (10,1–13) e o ouro dos tributos [V].
- A apostasia (11,1–13): altares a Astarte, Milcom e Moloque, e o anúncio de que o reino será dividido [V].
O narrador acrescenta um dado que a propaganda régia costuma omitir: a corveia e a sublevação do norte contra o jugo de Salomão (12,1–19) [V] — ele não era unanimemente aceito.
O que foi encontrado — e onde
O caso clássico é o dos portões de seis câmaras. Yadin escavou estruturas de mesmo plano em Gezer, Hazor e Megido — três cidades que 1 Rs 9,15 associa a trabalhos forçados de Salomão — e propôs que fossem todas do século X, obra de um poder central salomônico [W].
Finkelstein reatribuiu essas mesmas estruturas ao século IX, à época de Onri e Acabe (Finkelstein & Silberman 2001 [W]) — não porque os portões não existam, mas porque a cerâmica e a estratigrafia os colocariam um século depois do que a cronologia tradicional exige.
O outro achado citado está na Síria. O templo de ‘Ain Dara (escavado em 1980–1985; ocupação c. 1300–740 a.C.) tem planta tripartida — pórtico com duas colunas, sala principal, câmara interna — e relevos de leões e esfinges comparáveis aos querubins de 1 Rs 6 [V]. Como é anterior ao Templo na datação tradicional, a dependência aponta do mundo sírio-hittita para Jerusalém, não o contrário [V]. Isso não prova o Templo de Salomão: mostra que sua planta é plausível no Levante.
E há a Inscrição de Siloé (achada em 1880, em paleo-hebraico, KAI 189, c. 700 a.C.), que descreve as duas equipes de perfuradores se encontrando no meio do túnel [V]. É testemunho de engenharia, não de teologia; ligá-la ao cerco de 701 a.C. é leitura majoritária, mas não provada [—].
A briga das cronologias
Aqui está o nó técnico. A datação de todo o período depende de uma única âncora absoluta externa: a lista assíria de epônimos (limmu) registra um eclipse solar no ano de Bur-Sagale, identificado com o de 15 de junho de 763 a.C. [V]. Dele se datam Salmanasar III, a batalha de Qarqar (853 a.C.) e o tributo de Jeú (841 a.C.) — marcos que cruzam com Reis [V].
O problema é anterior a 853. Edwin Thiele (1951; 3. ed. 1983 [V]) emenda as contradições internas de Reis por anos de ascensão não coincidentes (Israel em Tishri, Judá em Nisã), co-regências e mudanças de método [V]. Jeremy Hughes (1990 [W]) lê a cronologia de Reis como sistemática e teológica — esquemas de 20 e 40 anos — mais que documental [W]. Finkelstein desloca as âncoras arqueológicas para baixo e reposiciona todo o Ferro II [W].
A divergência não é sobre os números assírios, que são sólidos. É sobre como conciliar a cronologia bíblica com os sincronismos assírios: as datas de Reis são reconstrução hipotética, não consenso fechado [V; W; W].
O que a evidência não resolve
Nenhuma inscrição do século X a.C. — egípcia, fenícia, aramaica — nomeia Salomão [W]. O Templo não foi encontrado: o terraço onde ele teria estado está ocupado por construções posteriores [—]. Não existem anais assírios que alcancem o século X; a base externa firme começa no século IX, com Acabe. Antes disso, a única testemunha é o próprio texto bíblico, escrito séculos depois dos eventos que narra (Noth 1943 [V]; Cross 1973 [V]).
Isso corta nos dois sentidos. Não há prova de que o esplendor descrito seja invenção — e não há prova de que seja registro. A arqueologia decide se uma afirmação factual é compatível com o observado; ela não decide se uma voz falou do céu nem data a fé de ninguém [W].
O que responder, então
Se alguém pergunta se o reino de Salomão existiu, a resposta mais exata é:
Existiu, com alta probabilidade, um reino em Jerusalém no século X a.C. O que a evidência não confirma é que fosse o império de 1 Reis: nem a extensão, nem a riqueza, nem o Templo monumental, nem a rainha de Sabá. Para o século IX em diante, os anais assírios dão base externa real; para o X, a reconstrução depende de um texto escrito muito depois.
O debate completo, com as posições, a discussão sobre a História Deuteronomista e a bibliografia inteira, está no dossiê de Reis.
Fontes
- Finkelstein, Israel; Silberman, Neil Asher. The Bible Unearthed. Free Press, 2001.
- Thiele, Edwin R. The Mysterious Numbers of the Hebrew Kings. 1951; 3. ed. Zondervan, 1983.
- Hughes, Jeremy. Secrets of the Times: Myth and History in Biblical Chronology. JSOTSup 111, Sheffield, 1990.
- Cross, Frank Moore. Canaanite Myth and Hebrew Epic. Harvard University Press, 1973.
- Noth, Martin. Überlieferungsgeschichtliche Studien. Halle: Niemeyer, 1943.