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Antiguidade Bíblica

Quem escreveu o Deuteronômio?

A crítica localiza o núcleo do Deuteronômio no século VII a.C. e na reforma de Josias — hipótese dominante, não consenso. O livro difere da escola.

Resposta rápida

Quem escreveu o Deuteronômio?

A tradição atribui o livro a Moisés, mas a crítica moderna localiza o núcleo do Deuteronômio (o Código de Dt 12–26) no século VII a.C., em Jerusalém, ligado ao "livro da lei" encontrado no Templo no ano 18 de Josias (2 Rs 22). Martin Noth (1943) mostrou que o livro abre uma obra historiográfica única — a História Deuteronomista — que corre de Josué a 2 Reis. A datação no século VII é a hipótese dominante, não consenso unânime, e o livro não se confunde com a escola deuteronomista que o produziu.

Onde o Gênesis é um arquivo de camadas antigas, o Deuteronômio tem um ponto de ancoragem na história datada de Judá.

A resposta em uma frase

O Deuteronômio não tem autor único: a crítica localiza seu núcleo legal (o Código de Dt 12–26) em Jerusalém, no século VII a.C., e lê o livro como produto de uma escola escribal cujo texto acabou por abrir uma grande história de Israel — enquanto a tradição judaica e a cristã o atribuem, com o Pentateuco inteiro, a Moisés (en.wiki [W]).

O livro que aparece no templo (2 Rs 22)

Segundo 2 Rs 22,1–23,30, no ano 18 de Josias (c. 622 a.C.) o sumo sacerdote Hilquias encontrou no Templo um “livro da lei” (2 Rs 22,8.11), entregue ao escriba Safán, lido em público e base de uma reforma que centralizou o culto em Jerusalém e suprimiu os santuários locais (2 Rs 23,4–24) (SOTS [W]).

A maioria dos especialistas identifica esse rolo com o núcleo do Deuteronômio, os caps. 12–26 (en.wiki [W]). W. M. L. de Wette (1805) fixou a posição que se tornou predominante: o livro não foi redescoberto, foi escrito para ser encontrado, composto no século VII a.C. no horizonte das reformas de Ezequias e Josias (Britannica [V]; SOTS [W]). O achado narrado não é a origem do texto; é a sua forma de entrar em cena.

O que Noth propôs

Martin Noth (1943), em Überlieferungsgeschichtliche Studien, notou um fato que a leitura isolada esconde: Dt não termina, continua. Sem final que o feche, a morte de Moisés (Dt 34) dá lugar direto à entrada de Josué na terra (Noth 1943 [V]).

Noth concluiu que Deuteronômio–Josué–Juízes–1-2 Samuel–1-2 Reis formam uma obra historiográfica unitária e anônima, a História Deuteronomista (DtrH), redigida no exílio sob um único critério teológico: a fidelidade à lei explica a posse da terra, a infidelidade explica a catástrofe (Noth 1943 [V]; en.wiki [W]). A pergunta passa a ser sobre uma história de Israel em sete rolos (JSOT Press, 1981 [V]) cujo primeiro volume é o Deuteronômio.

As redações e o que cada uma defende

O debate passou a girar em torno do número de mãos que atravessaram a obra:

  • Frank Moore Cross (1973), em Canaanite Myth and Hebrew Epic, propôs uma redação dupla: uma edição josiana pré-exílica, propagandística da reforma, e uma exílica que relê a catástrofe (Cross 1973 [V]).
  • Richard Elliott Friedman (1981) também defende duas edições, mas situa o autor exílico em outro ponto da obra (Friedman 1981 [V]).
  • Rudolf Smend (1971) e a escola de Göttingen multiplicam as camadas redacionais dentro do estrato exílico (Smend 1971 [W]).
  • Rainer Albertz (1994) insere o deuteronomismo numa história da religião: reação teológica a uma crise política, não escola literária isolada (Albertz 1994 [V — Internet Archive]).

Moshe Weinfeld (1972) desenhou uma escola escribal laica e cortesã, com afinidades entre Dt 28 e os tratados de Esarhaddon (Weinfeld 1972 [V]). Gerhard von Rad (1953) lera o mesmo material como pregação levítica (von Rad 1953 [W]).

A hipótese é consenso?

A datação no século VII a.C. é a hipótese dominante — não um consenso unânime (Britannica [V]). As alternativas têm defensores: Ezequias (716–687 a.C.), Manassés, o exílio ou a época persa (séc. V a.C.) (en.wiki [W]). A composição é escalonada: 12–26 são a seção mais antiga; os prólogos (1–4; 5–11) e o final (31–34) vieram depois (en.wiki [W]).

Bernard M. Levinson (1997) mostrou que Dt revoga e substitui leis anteriores do Código da Aliança (Êx 21–23), apresentando a inovação como revelação mosaica original (Levinson 1997 [V]). Em Dt 17,14–20, a lei do rei limita a monarquia — não multiplicar cavalos, mulheres e prata, e copiar a Torá para ler todos os dias (Levinson [V]): crítica constitucional antecipada, em texto que se diz de Moisés.

O que responder, então

Se alguém pergunta “quem escreveu o Deuteronômio”, a resposta mais exata é:

Uma escola escribal anônima de Jerusalém, ativa no século VII a.C. e prolongada no exílio, cujo núcleo legal (Dt 12–26) foi apresentado como a lei de Moisés — e que acabou por se tornar o primeiro volume de uma história de Israel de Josué a 2 Reis.

Duas distinções evitam a confusão. Primeira: o livro e a escola deuteronomista não são a mesma coisa — a escola produziu o livro e o editou de Josué a Reis. Segunda: a datação no séc. VII não decide a fé de ninguém — a ciência data e classifica; não decide se o texto é revelado (en.wiki [W]).

Não há nome para pôr no lugar de Moisés — há um modelo. O debate completo, com as redações concorrentes e a bibliografia inteira, está no dossiê do Deuteronômio.

Fontes

  1. Noth, Martin. Überlieferungsgeschichtliche Studien. Halle: M. Niemeyer, 1943.
  2. Cross, Frank Moore. Canaanite Myth and Hebrew Epic. Harvard University Press, 1973.
  3. Friedman, Richard Elliott. The Exile and Biblical Narrative. 1981.
  4. Weinfeld, Moshe. Deuteronomy and the Deuteronomic School. Oxford: Clarendon, 1972.
  5. Levinson, Bernard M. Deuteronomy and the Hermeneutics of Legal Innovation. Oxford University Press, 1997.