Onde o Gênesis é um arquivo de camadas antigas, o Deuteronômio tem um ponto de ancoragem na história datada de Judá.
A resposta em uma frase
O Deuteronômio não tem autor único: a crítica localiza seu núcleo legal (o Código de Dt 12–26) em Jerusalém, no século VII a.C., e lê o livro como produto de uma escola escribal cujo texto acabou por abrir uma grande história de Israel — enquanto a tradição judaica e a cristã o atribuem, com o Pentateuco inteiro, a Moisés (en.wiki [W]).
O livro que aparece no templo (2 Rs 22)
Segundo 2 Rs 22,1–23,30, no ano 18 de Josias (c. 622 a.C.) o sumo sacerdote Hilquias encontrou no Templo um “livro da lei” (2 Rs 22,8.11), entregue ao escriba Safán, lido em público e base de uma reforma que centralizou o culto em Jerusalém e suprimiu os santuários locais (2 Rs 23,4–24) (SOTS [W]).
A maioria dos especialistas identifica esse rolo com o núcleo do Deuteronômio, os caps. 12–26 (en.wiki [W]). W. M. L. de Wette (1805) fixou a posição que se tornou predominante: o livro não foi redescoberto, foi escrito para ser encontrado, composto no século VII a.C. no horizonte das reformas de Ezequias e Josias (Britannica [V]; SOTS [W]). O achado narrado não é a origem do texto; é a sua forma de entrar em cena.
O que Noth propôs
Martin Noth (1943), em Überlieferungsgeschichtliche Studien, notou um fato que a leitura isolada esconde: Dt não termina, continua. Sem final que o feche, a morte de Moisés (Dt 34) dá lugar direto à entrada de Josué na terra (Noth 1943 [V]).
Noth concluiu que Deuteronômio–Josué–Juízes–1-2 Samuel–1-2 Reis formam uma obra historiográfica unitária e anônima, a História Deuteronomista (DtrH), redigida no exílio sob um único critério teológico: a fidelidade à lei explica a posse da terra, a infidelidade explica a catástrofe (Noth 1943 [V]; en.wiki [W]). A pergunta passa a ser sobre uma história de Israel em sete rolos (JSOT Press, 1981 [V]) cujo primeiro volume é o Deuteronômio.
As redações e o que cada uma defende
O debate passou a girar em torno do número de mãos que atravessaram a obra:
- Frank Moore Cross (1973), em Canaanite Myth and Hebrew Epic, propôs uma redação dupla: uma edição josiana pré-exílica, propagandística da reforma, e uma exílica que relê a catástrofe (Cross 1973 [V]).
- Richard Elliott Friedman (1981) também defende duas edições, mas situa o autor exílico em outro ponto da obra (Friedman 1981 [V]).
- Rudolf Smend (1971) e a escola de Göttingen multiplicam as camadas redacionais dentro do estrato exílico (Smend 1971 [W]).
- Rainer Albertz (1994) insere o deuteronomismo numa história da religião: reação teológica a uma crise política, não escola literária isolada (Albertz 1994 [V — Internet Archive]).
Moshe Weinfeld (1972) desenhou uma escola escribal laica e cortesã, com afinidades entre Dt 28 e os tratados de Esarhaddon (Weinfeld 1972 [V]). Gerhard von Rad (1953) lera o mesmo material como pregação levítica (von Rad 1953 [W]).
A hipótese é consenso?
A datação no século VII a.C. é a hipótese dominante — não um consenso unânime (Britannica [V]). As alternativas têm defensores: Ezequias (716–687 a.C.), Manassés, o exílio ou a época persa (séc. V a.C.) (en.wiki [W]). A composição é escalonada: 12–26 são a seção mais antiga; os prólogos (1–4; 5–11) e o final (31–34) vieram depois (en.wiki [W]).
Bernard M. Levinson (1997) mostrou que Dt revoga e substitui leis anteriores do Código da Aliança (Êx 21–23), apresentando a inovação como revelação mosaica original (Levinson 1997 [V]). Em Dt 17,14–20, a lei do rei limita a monarquia — não multiplicar cavalos, mulheres e prata, e copiar a Torá para ler todos os dias (Levinson [V]): crítica constitucional antecipada, em texto que se diz de Moisés.
O que responder, então
Se alguém pergunta “quem escreveu o Deuteronômio”, a resposta mais exata é:
Uma escola escribal anônima de Jerusalém, ativa no século VII a.C. e prolongada no exílio, cujo núcleo legal (Dt 12–26) foi apresentado como a lei de Moisés — e que acabou por se tornar o primeiro volume de uma história de Israel de Josué a 2 Reis.
Duas distinções evitam a confusão. Primeira: o livro e a escola deuteronomista não são a mesma coisa — a escola produziu o livro e o editou de Josué a Reis. Segunda: a datação no séc. VII não decide a fé de ninguém — a ciência data e classifica; não decide se o texto é revelado (en.wiki [W]).
Não há nome para pôr no lugar de Moisés — há um modelo. O debate completo, com as redações concorrentes e a bibliografia inteira, está no dossiê do Deuteronômio.
Fontes
- Noth, Martin. Überlieferungsgeschichtliche Studien. Halle: M. Niemeyer, 1943.
- Cross, Frank Moore. Canaanite Myth and Hebrew Epic. Harvard University Press, 1973.
- Friedman, Richard Elliott. The Exile and Biblical Narrative. 1981.
- Weinfeld, Moshe. Deuteronomy and the Deuteronomic School. Oxford: Clarendon, 1972.
- Levinson, Bernard M. Deuteronomy and the Hermeneutics of Legal Innovation. Oxford University Press, 1997.