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Antiguidade Bíblica

4 Baruque (Paralipômenos de Jeremias) — Artigo Enciclopédico

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Você não precisa ler tudo. Escolha um degrau — cada um é um estado final satisfatório, não um fragmento de curso. A ordem abaixo não é a ordem das seções: o texto vem antes do comentário, de propósito.

  1. 01

    Ler o texto15–30 min

    A passagem inteira, em duas traduções de tradições diferentes, sem comentário. Comparar as duas é o exercício que mais rende: mostra onde o original é ambíguo.

  2. 02

    O contexto20–40 min

    O mundo em que o texto surgiu: geografia, arqueologia, paralelos do Antigo Oriente Próximo.

    §2 §9

  3. 03

    O debate30–60 min

    As posições em disputa, com quem as sustenta, onde publicou e qual é a réplica.

    §4 §10

  4. 04

    A recepção30–60 min

    O que se fez do texto: Padres, medievo, tradições confessionais.

    §6 §11

  5. 05

    As quatro camadas40–90 min

    Comparação com a mitologia, as perguntas filosóficas, os debates teológicos e o que a ciência diz — e onde não tem competência.

    §9 §10 §11 §12

  6. 06

    O dossiê integral1,5–3 h

    Tudo, na ordem, mais bibliografia com selo de acesso e as lacunas assumidas.

Outras portas de entrada
  • Quero só a resposta. Pare no degrau 0 — ele é completo em si.
  • Quero conferir se é verdade. Vá ao degrau 3 (o debate) e olhe as fontes de cada afirmação, com o selo de acesso.
  • Quero ler o texto com calma. Degrau 1, com o glossário ao lado.
  • Vim da fé e quero entender. Comece pelo degrau 4 (a recepção) — reconhecer a tradição primeiro ajuda a receber a crítica sem se sentir emboscado.
  • Vim do ceticismo. Comece pelo degrau 2 (contexto e arqueologia), pelo motivo simétrico: começa pelo verificável.
Como saber se você entendeu

Ao fim de cada degrau, tente responder às três. Se as três não saem, o degrau seguinte vai confundir — volte um.

  1. Compreensão. Consigo dizer o que o texto diz, com minhas palavras?
  2. Análise. Consigo dizer qual problema este texto levanta, e por quê?
  3. Debate. Consigo dizer quem discorda de quem, e sobre o quê?

1. Lead e Ficha

O 4 Baruque — também Paralipômenos de Jeremias (gr. Παραλειπόμενα Ἰερεμίου, Paraleipomena Jeremiou, “as coisas omitidas de Jeremias”, título atestado nos manuscritos gregos) e, na tradição etíope, “O Resto das Palavras de Baruque” (ge’ez ብሩክ ዘርእየ, Baruk za-ri’ya) [V — Herzer, 2005, Introdução; Doering, 2020, DOI 10.1163/2452-4107_thb_COM_0202030100] — é um pseudepígrafo do Antigo Testamento: uma narrativa lendária, atribuída à geração de Jeremias e Baruque, que reescreve em chave de lenda piedosa a queda de Jerusalém de 587 a.C., o exílio na Babilônia e o retorno [V — en.wikipedia, “4 Baruch”]. A obra tem 9 capítulos na recensão longa grega e faz parte do cânon bíblico da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, única tradição cristã que a recebe como escritura [V — Cowley, 1974, pp. 318–323].

O primeiro erro de atribuição que o leitor deve evitar é confundir este livro com o Baruque deuterocanônico (o livro de 5 capítulos da Septuaginta, canônico para católicos e ortodoxos): são obras independentes, de gêneros e idades diferentes [V — Barton; Muddiman, 2007, p. 699]. O “4 Baruque” também não é o 2 Baruque (Apocalipse Siríaco de Baruque) nem o 3 Baruque (Apocalipse Grego de Baruque) — o número “4” é convenção das coleções modernas de pseudepígrafos (Charlesworth, OTP 2, 1985) para distinguir o quarto escrito do ciclo de Baruque [W — Robinson, 1985, OTP 2].

A fábula narra o que “ficou de fora” do livro de Jeremias: Deus anuncia a ruína da cidade; Jeremias esconde os vasos sagrados do Templo, que a terra engole; os caldeus tomam Jerusalém; Abimeleque (o etíope de Jr 38) dorme 66 anos sob uma figueira e acorda com os figos intactos; uma águia leva a Jeremias, na Babilônia, a carta de Baruque; o povo volta; e Jeremias é apedrejado pelo próprio povo ao profetizar o messias [V — Kraft e Purintun, 1972; texto CATSS, ccat.sas.upenn.edu]. A narrativa combina midrash lendário (haggadah), “reescritura da Bíblia” e apocalíptica cristã no capítulo final [V — Allison, 2019, Introdução].

CampoDadoMarcador
Nome gregoParaleipomena Jeremiou (Παραλειπόμενα Ἰερεμίου), “as coisas omitidas de Jeremias”[V] Herzer, 2005
Nome etíopeBaruk za-ri’ya (ብሩክ ዘርእየ), “O Resto das Palavras de Baruque”; nas listas canônicas, Teref Baruch[V] taxonomia do site; Cowley, 1974
Posição no cânonEtíope Tewahedo (cânon estreito, livro 40, entre a Carta de Jeremias e Ezequiel); fora dos demais cânones[V] Cowley, 1974; [V] en.wikipedia
Capítulos9 (recensão longa); a versão etíope circula dentro do compósito Säqoqawä Eremyas (Lamentações de Jeremias), 4 Baruque = 7,6–11,63[V] Cowley, 1974
Língua de composiçãogrego, provavelmente (com semitismos); traduções etíope, armênia e eslava da recensão longa[V] Allison, 2019
Autoriapseudepigráfica: atribuída a Jeremias/Baruque; redator judaico anônimo + redação cristã[V] Allison, 2019
Dataçãoapós 70 d.C. (c. 70–135); Harris propôs 136 d.C.[V] Harris, 1889; [V] Allison, 2019
Gênerolenda pós-bíblica / haggadah; “reescritura” (rewritten scripture)[V] Allison, 2019
Quadro narradoqueda de Jerusalém (587 a.C.), exílio, retorno, martírio de Jeremias[V] Kraft e Purintun, 1972

2. Contexto e Autoria

O ciclo lendário de Jeremias. O livro canônico deixava fios soltos para a imaginação pós-exílica: Baruque ben Neriah, o escriba que escreve e lê as profecias (Jr 36); o etíope Ebede-Meleque, que tira o profeta da cisterna (Jr 38,7–13); a ida ao Egito (Jr 43–45) [W]. O judaísmo do Segundo Templo transformou esses fios em literatura: além do Baruque deuterocanônico, surgiram o 2 Baruque (apocalipse siríaco) e o 3 Baruque (apocalipse grego) [W — Barton; Muddiman, 2007, p. 699]. Em Qumran, o chamado Apócrifo de Jeremias (4Q385–391, classificação de Devorah Dimant) atesta a vitalidade do ciclo já no século I a.C. — texto distinto do 4 Baruque [W — Dimant, apud Allison, 2019; Herzer, 2005].

Autoria anônima e pseudepigráfica. Nenhum manuscrito nomeia um autor; a obra se apresenta como relato da geração de 587 a.C. A crítica a trata como pseudepigrafia: recurso corrente no judaísmo helenístico e romano de atribuir a personagem ilustre do passado um texto composto muito depois, para lhe dar autoridade [V — Robinson, 1985, OTP 2]. O redator judaico trabalhou sobre tradições orais e escritas — o que levou Allison a descrevê-lo como “um redator mais que um autor”, dado que quase todo episódio tem paralelo em outra obra [V — Allison, 2019, Introdução].

A releitura pós-70. O consenso lê a queda de 587 narrada no livro como cifra transparente da destruição de 70 d.C.: “Babilônia” funciona como codinome de Roma, e os 66 anos do sono de Abimeleque — não os 70 do cativeiro canônico (Jr 25,11–12) — apontam para 136 d.C., a data clássica de J. Rendel Harris (1889): uma apocalipse cristã do ano 136 d.C. [V — Harris, 1889; V — Allison, 2019]. “A destruição do primeiro Templo é uma cifra transparente da destruição do segundo; nosso livro deve ter surgido depois de 70” (Allison, 2019, Introdução) [V]. A faixa proposta varia: Kohler (logo após 70), Charles (séc. II), Dillmann (sécs. III–IV), Herzer (base judaica logo após 70, na Judeia) [V — Allison, 2019, Introdução].

O debate sobre a camada cristã. O capítulo 9 é abertamente cristão — Jeremias ressurge após três dias e prega “o messias Jesus, luz de todos os séculos” (4 Bar 9,14) — e há sinais cristãos espalhados pelo livro (Allison, 2019) [V]. As posições: (a) maioria: base judaica + redação cristã, concentrada no cap. 9; (b) Pierluigi Piovanelli: reescritura cristã pós-132/135 do texto judaico por trás do Apócrifo copta; (c) Rivka Nir: comunidade cristã ascética de língua siríaca; (d) Jens Herzer: base judaica dependente do 2 Baruque, composta na Judeia logo após 70 [V — Allison, 2019; W — Piovanelli, 1997; W — Nir, 2003]. O estado da questão: judeu com mãos cristãs, sem consenso sobre a extensão e a data da camada cristã [V — Allison, 2019].

Parentes próximos. A História do Cativeiro na Babilônia — preservada em copta saídico (P. Morgan M 578, séc. IX; ed. Kuhn, 1970) e em árabe/garshuni (ed. Rosenstiehl, 1980) — é provavelmente mais antiga que o 4 Baruque e compartilha com ele o núcleo narrativo; Piovanelli (1997) pergunta se os Paralipômenos dela dependem, e a resposta tende ao sim para o núcleo [V — Kuhn, 1970; W — Rosenstiehl, 1980; W — Piovanelli, 1997]. O livro nasceu, pois, no meio de uma flor de lendas jeremiânicas [W].


3. Estrutura (9 capítulos)

A recensão longa divide-se em nove capítulos de prosa narrativa com passagens poéticas e orações:

  • Cap. 1 — A profecia da destruição. Deus anuncia a ruína de Jerusalém e ordena que Jeremias e Baruque partam: “tuas orações são como coluna sólida no meio dela” (4 Bar 1,1–3) [V — Kraft e Purintun, 1972].
  • Cap. 2 — O lamento de Jeremias e Baruque. Jeremias rasga as vestes e cobre-se de cinza; Baruque pergunta o que houve; Jeremias revela a entrega da cidade aos caldeus (4 Bar 2,1–10) [V].
  • Cap. 3 — A preservação dos vasos do Templo e o envio de Abimeleque. À noite, anjos com tochas cercam as muralhas; Jeremias pergunta o que fazer “com os vasos sagrados do serviço do Templo”; Deus ordena: “consigna-os à terra… Guarda os vasos do serviço do Templo até a reunião do amado” (4 Bar 3,8–11); a terra os engole (3,19); Jeremias envia Abimeleque à vinha de Agripa buscar figos (3,21–22) [V].
  • Cap. 4 — Destruição e exílio. Os caldeus entram pela porta aberta pelo anjo; Jeremias lança as chaves do Templo ao sol: “guarda as chaves do Templo de Deus até o dia em que o Senhor as pedir” (4 Bar 4,4); Baruque fica e pranteia (4,7–12) [V].
  • Cap. 5 — O sono de Abimeleque. Abimeleque adormece sob uma árvore com o cesto de figos e dorme 66 anos; os figos continuam “gotejando leite”; ele acorda, não reconhece Jerusalém, e um velho lhe diz que faz 66 anos que o povo foi levado (4 Bar 5,1–34) [V].
  • Cap. 6 — A carta de Baruque. Um anjo dita a Baruque uma carta: os que se separarem da Babilônia entrarão na cidade; Baruque escreve e anuncia a vinda de uma águia para levar a mensagem (4 Bar 6,1–25) [V].
  • Cap. 7 — A águia e a carta. A águia fala com voz humana, leva a carta e figos a Jerusalém—Babilônia, pousa sobre um cadáver no funeral que Jeremias celebra e o ressuscita para que creiam; Jeremias lê a carta ao povo e responde a Baruque com outra (4 Bar 7,1–37) [V].
  • Cap. 8 — O retorno e a origem dos samaritanos. No Jordão, Jeremias separa os que tomaram esposas estrangeiras; os que recusam repudiá-las voltam à Babilônia, são rejeitados e fundam uma cidade “a que chamaram Samaria” (4 Bar 8,1–12) [V].
  • Cap. 9 — A visão e o martírio. Jeremias oferece sacrifício, ora e cai como morto; uma voz diz “não sepulteis o que ainda vive”; após três dias a alma volta e ele profetiza o messias (“haverá ainda 477 anos”, na recensão longa); o povo, irado, resolve apedrejá-lo como fez com Isaías; uma pedra toma a aparência do profeta e é apedrejada no lugar dele; ao revelar os mistérios, Jeremias é finalmente apedrejado; Baruque e Abimeleque o sepultam e inscrevem na pedra: “esta é a pedra que foi a aliada de Jeremias” (4 Bar 9,1–33) [V].

Duas recensões. O texto grego chegou em recensão longa (cerca de duas dezenas de manuscritos dos sécs. X–XVII, apoiada pelas versões etíope, armênia e eslava) e breve (transmitida em grego nos Menaia litúrgicos — daí o nome “Meneo” — e em romeno e eslavo) [V — Allison, 2019; V — en.wikipedia]. A breve corta diálogos e dobra o final cristológico [W — Allison, 2019].


4. Conteúdos-chave com Debate

4.1 Identidade e títulos: “Paralipômenos”, “Resto das Palavras de Baruque”, “4 Baruque”

O título grego joga com a Bíblia: Paraleipomena é, na Septuaginta, o nome de 1–2 Crônicas (“as coisas omitidas”); aplicado a Jeremias, promete o que o livro canônico “deixou de fora” [V — Doering, 2020]. Os manuscritos gregos A, B e C trazem “As coisas omitidas de Jeremias, o profeta” [V — Herzer, 2005]. A tradição etíope prefere o nome do escriba, “O Resto das Palavras de Baruque” (Baruk za-ri’ya); Harris notou que os títulos “Baruque” e “Jeremias” eram intercambiáveis na circulação antiga [V — Harris, 1899, apud en.wikipedia; V — Dillmann, 1866]. O “4 Baruque” das coleções modernas é, pois, rótulo bibliográfico, não título antigo — a numeração (1 = deuterocanônico; 2 = siríaco; 3 = grego; 4 = este) organiza o corpus [W — Robinson, 1985, OTP 2].

4.2 O esconder dos vasos do Templo (3,8–19)

O episódio central do cap. 3 é a ocultação do tesouro do Templo: Jeremias e Baruque depositam os vasos sagrados na terra, que os engole, “até a reunião do amado” — expressão messiânica que a redação cristã leu como a vinda de Cristo [V — Kraft e Purintun, 1972]. O paralelo canônico imediato é 2 Macabeus 2,4–8, onde Jeremias leva a tenda, a arca e o altar do incenso a uma caverna e os sela, “até que Deus reúna o seu povo e lhe mostre misericórdia” [W]. Os dois textos atestam a tradição do “tesouro escondido” (os verborgenen Tempelschätze da erudição alemã), que a arqueologia não pode nem confirmar nem negar (ver §12) [W]. O debate pergunta se a tradição é pré-70 (veneração do Templo) ou pós-70 (consolo pela perda): o contexto pós-70 favorece a segunda leitura [W — Allison, 2019].

4.3 Os 66 anos e a datação

Por que 66, e não os 70 anos do cativeiro (Jr 25,11)? Harris (1889) fez a conta que batizou sua edição: 66 anos depois de 70 d.C. = 136 d.C. [V — Harris, 1889]. A leitura moderna concorda que o número é simbólico e datável: a queda do primeiro Templo “é cifra transparente” da do segundo, e o livro “deve ter aparecido depois de 70” (Allison, 2019) [V]. Divergem no passo seguinte: Herzer data a base judaica logo após 70 e vê dependência do 2 Baruque; Piovanelli data o conjunto depois de 132/135 [V — Allison, 2019; W — Herzer, 2005; W — Piovanelli, 1997]. Ninguém sustenta a datação ficcional declarada (século VI a.C.): é moldura literária [W].

4.4 Jeremias e as trinta moedas: o problema de Mateus 27,9–10

Este é o ponto de recepção mais rico — e o mais minado de erudição popular. Em Mateus 27,9–10, o evangelista escreve que “se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias: ‘Tomaram as trinta moedas de prata, o preço daquele que foi avaliado… e as deram pelo campo do oleiro, como o Senhor me ordenou’” [W]. O problema é duplo: (a) as trinta moedas e o oleiro vêm de Zacarias 11,12–13 (o “campo” e o “como o Senhor me ordenou” aproximam-na de Jr 18–19, o vaso do oleiro, e Jr 32, a compra do campo); (b) Mateus a atribui a Jeremias, não a Zacarias [V — Menken, 2002, pp. 305–328; W — Davies e Allison, 1997, p. 120].

A história antiga: Orígenes (Comentário a Mateus, in loc.) suspeitava de erro (Jeremias por Zacarias) ou da existência de um apócrifo de Jeremias com aquelas palavras; Jerônimo (in loc.) diz ter visto o texto: “li há pouco, num livro hebraico que um hebreu da seita nazarena me mostrou, um apócrifo de Jeremias em que encontrei isto, palavra por palavra” [V — apud James, 1920, p. 62]. M. R. James (1920) localizou o texto sobrevivente: uma curta “Profecia de Jeremias a Pasur” que circula em etíope, impressa por August Dillmann na Chrestomathia Aethiopica (1866, pp. viii–ix), com as palavras quase literais: “tomarão trinta moedas de prata, o preço do honrado, que os filhos de Israel venderão, e darão esse dinheiro pelo campo do oleiro. Como o Senhor me ordenou, assim falo” [V — Dillmann, 1866; V — James, 1920].

O ponto decisivo: essa “Profecia a Pasur” não está no 4 Baruque — nenhuma recensão dos Paralipômenos contém as trinta moedas ou o campo do oleiro [V — texto CATSS, Kraft e Purintun, 1972]. No cânon etíope, porém, a profecia e o 4 Baruque circulam juntos, dentro do compósito Säqoqawä Eremyas (Lamentações de Jeremias etíopes): Lamentações (caps. 1–5), a Carta de Jeremias (cap. 6), a profecia a Pasur (7,1–5) e o “Resto das Palavras de Baruque” (7,6–11,63) [V — Cowley, 1974]. Dessa contiguidade de manuscrito nasce a alegação popular de que “Mateus citou o 4 Baruque” — confusão entre obras vizinhas [V — Dillmann, 1866, que julgava a profecia “manifestamente confeccionada para livrar Mateus 27,9 de erro”; W — James, 1920, que duvida que ela seja a fonte].

Quem sustenta alguma forma de dependência de um apócrifo de Jeremias: Orígenes (como hipótese), Jerônimo (que afirma ter lido o apócrifo hebraico) e a apologética popular contemporânea, que cita “os Paralipômenos” como fonte de Mateus [W — apud James, 1920]. Quem recusa a dependência de 4 Baruque: os comentários críticos de Mateus — Menken (2002) demonstra que a citação é composição do próprio evangelista a partir de Zacarias 11,12–13 e de material de Jeremias (oleiro: Jr 18–19; campo: Jr 32), atribuída deliberadamente a Jeremias; Davies e Allison (1997) e Nolland seguem linha próxima [V — Menken, 2002; W — Davies e Allison, 1997, p. 120]; e Allison (2019) não encontra no 4 Baruque nada que corresponda à citação [V — Allison, 2019]. O veredito: o 4 Baruque não é a fonte das trinta moedas; a fonte bíblica é Zacarias 11 com coloração jeremiânica, e a “Profecia a Pasur” é, no juízo de Dillmann, texto derivado de Mateus, não seu pressuposto [V — Dillmann, 1866; V — Menken, 2002].

4.5 A morte de Jeremias: apedrejado onde?

A tradição popular diz que Jeremias foi apedrejado no Egito (Táfnas/Tahpanhes, onde Jr 43,8 o situa). No 4 Baruque, porém, o apedrejamento ocorre em Jerusalém, depois do retorno (4 Bar 9,22–31), no contexto da profecia messiânica [V — texto CATSS]. A tradição egípcia vem de outra família: as Vidas dos Profetas (Jeremias 1) o dão apedrejado em Táfnas; Hipólito (Comentário a Susana 1,1) segue a mesma linha; a Caverna dos Tesouros (42,5) o faz morrer em Samaria, enterrado em Jerusalém [V — Allison, 2019, cap. 9]. O dossiê registra a divergência em vez de aplaná-la: cada tradição situa o martírio conforme sua geografia teológica [W].

4.6 A origem dos samaritanos (8,8–12)

O cap. 8 explica os samaritanos como descendentes de exilados que recusaram repudiar esposas estrangeiras: rejeitados por Jeremias no Jordão e pelos babilônios ao voltar, fundaram Samaria [V — Kraft e Purintun, 1972]. A lenda reelabora a polêmica de 2 Reis 17,24–41 e a tradição, já em Josefo (Antiguidades 9,14,3), da origem mista dos samaritanos [W]. A função é dupla: marcar a fronteira da comunidade restaurada pela pureza matrimonial e deslegitimar o templo rival de Gerizim [W — Allison, 2019].


Jeremias chora a destruição de Jerusalém
Jeremias chora a destruição de Jerusalém · 4 Bar 3,8-19 (cf. 2 Mc 2,4-8)Rembrandt (1630) pinta o profeta sentado nos rochedos, a cabeça apoiada no braço; ao seu lado estão um prato de ouro, um jarro de ouro e livros — os tesouros do Templo já destruído — e, mais abaixo, Jerusalém em chamas com os soldados. É a cena do cap. 3 do 4 Baruque: Jeremias e Baruque depositam os vasos sagrados na terra, que os engole 'até a reunião do amado' (§4.2), e o paralelo canônico imediato é 2 Macabeus 2,4-8. O quadro põe lado a lado os dois elementos que o dossiê discute — o tesouro escondido e a cidade perdida.Rembrandt · 1630 · óleo sobre tela · Rijksmuseum, Amsterdã (inv. SK-A-3276)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

5. Temas

  • Fidelidade no exílio: o povo é ensinado por Jeremias a “abster-se das poluições dos gentios da Babilônia” (4 Bar 7,37); a separação no Jordão separa os fiéis dos contaminados [V — texto CATSS].
  • O Templo e os vasos ocultos: a perda do santuário não é definitiva; o tesouro guardado pela terra “até a reunião do amado” é promessa de restauração (4 Bar 3,11; cf. 2 Mac 2,4–8) [W].
  • A profecia e a sua rejeição: o profeta que anuncia a ruína é desprezado (4 Bar 1–2) e, ao anunciar o messias, morto pelo próprio povo (4 Bar 9) [V].
  • O profeta sofredor: Jeremias acompanha o exílio, pranteia, ensina e morre mártir — figura do justo perseguido [W].
  • Lamento e consolação: o livro inteiro é um lamento pela cidade (caps. 2 e 4) que desemboca em anúncio de retorno (caps. 7–8) [W].
  • Deus soberano sobre a história: nem o rei caldeu nem a força entram na cidade “a menos que eu abra as portas” (4 Bar 1,9) [V].
  • O tempo de Deus e a paciência: os 66 anos e os figos intactos — a fidelidade divina não se corrompe no tempo longo (caps. 5–6) [V].

6. Recepção

Etiópia — o lugar canônico. Única tradição que canonizou o livro: a Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo o recebe no cânon de 81 livros, na lista estreita das grandes Bíblias ge’ez–amárico, como “o resto de Jeremias” (Teref Baruch), entre a Carta de Jeremias e Ezequiel [V — Cowley, 1974]. No manuscrito, o 4 Baruque integra o compósito Säqoqawä Eremyas (“Lamentações de Jeremias”), aposto a Jeremias com Baruque abreviado, Lamentações, a Carta e a profecia a Pasur [V — Dillmann, 1866; V — Cowley, 1974]. A Beta Israel (os “falashas”) também o conservou em ge’ez (Leslau, Falasha Anthology, 1951, p. xxviii) [V]. Dillmann editou o texto etíope em 1866 (Chrestomathia Aethiopica, “Liber Baruch”, pp. 1–15) — a porta de entrada da obra para o Ocidente [V — Dillmann, 1866].

Bizâncio e o mundo eslavo. No século XI, o Saltério de Teodoro (British Library Add. 19352, fol. 36r) ilustra uma cena do 4 Baruque — testemunho visual da circulação grega [V — Crostini, 2011; V — Allison, 2019, p. 67]. A recensão breve grega circulou nos Menaia litúrgicos (o profeta Jeremias é celebrado a 1.º de maio no calendário bizantino), e dela derivam versões romena e eslava (russa, servo-macedônia, búlgara média), estudadas por Émile Turdeanu (Apocryphes slaves et roumains de l’Ancien Testament, 1981) [W — Turdeanu, 1981; W — Allison, 2019]. A recensão longa circulou também na Armênia (atestada desde o séc. X; estudo de Michael E. Stone) [W — Stone, apud Allison, 2019].

Erudição moderna. A história crítica começa com Dillmann (1866) e Harris (1889, edição grega e tese do ano 136); segue com Kaufmann Kohler (“The Pre-Talmudic Haggada”, JQR 5, 1893), R. H. Charles, M. R. James (1920) e a edição de Robert A. Kraft e Ann-Elizabeth Purintun (SBL, 1972) [V — Harris, 1889; V — James, 1920; W — Kohler, 1893]. Hoje a referência técnica é dupla: Jens Herzer (texto grego e comentário, SBL, 2005) e Dale C. Allison Jr. (comentário versículo por versículo, De Gruyter, 2019) [V — Herzer, 2005; V — Allison, 2019].

Recepção popular — com cuidado. O livro virou “livro perdido da Bíblia etíope” na cultura de internet, citado em apoio a duas alegações que este dossiê corrige: que Mateus 27,9 o cita (ver §4.4) e que ele prova a presença da Arca da Aliança na Etiópia (ver §9) [W]. A segunda circula sobretudo desde The Sign and the Seal (1992), de Graham Hancock, cujas teses a etiopística rejeitou [W — Hancock, 1992; W — Ullendorff, 1968].


Jeremias, de Jean Leclerc
Jeremias, de Jean Leclerc · 4 Bar 1,1-8; 4,1-18 (cf. §4.3)Gravura de Jean Leclerc (c. 1600-1650) para os Icones historiarum Veteris Testamenti, de Gilles Corrozet, com a legenda latina que resume o papel do profeta no livro inteiro: 'Defleo Iudaeae cladem, Solymaeque ruinam' — choro a derrota de Judá e a ruína de Jerusalém. O 4 Baruque é construído sobre esse luto e sobre a pergunta que ele deixa no ar: o livro data a queda do primeiro Templo como cifra transparente da do segundo, e a §4.3 registra que os 66 anos de Abimeleque servem a essa aritmética (66 = 136 − 70).Leclerc, Jean (French painter and occasional etcher, 1587/88-1633) (artist) (probably graphic artist) · Unknown date · gravura (água-forte, séc. XVII) · Coleção da KU Leuven (PA08266)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

7. Traduções PT e Comentários PT

A lacuna é real e deve ser declarada: não localizei tradução acadêmica do 4 Baruque em português, nem comentário PT dedicado [—]. A obra não está nas Bíblias católicas ou protestantes brasileiras — o “Baruc” da Bíblia Ave-Maria e da Bíblia Pastoral é o deuterocanônico, não este livro [V — dossiê de Baruque, biblia.paulus.com.br].

Traduções PT existentes (verificadas, porém independentes).

  • Sebastiano Vottari, Bíblia etíope: Os Livros Perdidos… e 4 Baruch (autopublicação, Google Play Books, abr. 2026, 222 pp.), inclui “O Restante das Palavras de Baruque (4 Baruque) — Tradução Completa”. O próprio autor declara que “não se trata de uma edição acadêmica” [V — play.google.com]. Também em Amazon (ASIN B0GXRRSGY8) [V].
  • Instituto Ágora de Letras, Textos Exclusivos da Bíblia Etíope: Uma Tradução dos Livros Distintivos do Cânone da Igreja Ortodoxa Tewahedo (Amazon KDP, 21-nov-2025, 460 pp., ISBN 9798275496192), reúne 14 livros do cânon etíope, entre eles “4 Baruque, Odes de Salomão, Qalementos” [V — books.google.com]. Também autopublicação, sem aparato crítico [W].

Ambas são traduções de acesso, não edições críticas: servem ao leitor que quer ler o texto em PT, mas não substituem o aparato de Herzer ou Allison [W].

Em outros idiomas. Inglês: S. E. Robinson no volume 2 dos Old Testament Pseudepigrapha (Charlesworth, Doubleday, 1985) [V — ISBN 0-385-18813-7], e a tradução de Kraft e Purintun em domínio público (CATSS, 1987), on-line [DIGITAL — ccat.sas.upenn.edu]. Espanhol: a coleção Apócrifos do Antigo Testamento (em espanhol, dir. A. Díez Macho, Cristiandad) inclui os Paralipômenos [W]. Alemão: o comentário de Herzer (2005) traz texto grego e tradução inglesa [V]. Francês: não localizei tradução corrente em coleção crítica [—].

Baruque, de Jean de Courbes
Baruque, de Jean de Courbes · 4 Bar 1,1 (cf. §4.1)Gravura de Jean de Courbes (1592-1641), do mesmo conjunto de Leclerc, com Baruc ben Nerias representado — 'amigo do profeta Jeremias', como diz a ficha da gravura. O dossiê abre discutindo exatamente essa duplicidade de títulos: no grego o livro se chama 'As coisas omitidas de Jeremias'; na tradição etíope, 'O Resto das Palavras de Baruque' (Baruk za-ri'ya), e Harris notava que os dois nomes eram intercambiáveis na circulação antiga (§4.1). A estampa fixa o escriba como a figura por que o livro passou a ser chamado na Etiópia.de Courbes, Jean (French engraver, 1592-1641) (artist) (graphic artist) · Unknown date · gravura (água-forte, séc. XVII) · Coleção da KU Leuven (PA08267)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

8. Audiovisual e Games

Não há adaptação cinematográfica ou televisiva dedicada ao 4 Baruque — o que há são aproximações indiretas e uma circulação digital recente. O dossiê registra o vazio em vez de preenchê-lo.

TítuloRealidadeValidação PTMarcador
Jeremias (telefilme, 1998, dir. Harry Winer, com Patrick Dempsey)drama da vida de Jeremias (Jr 36–44), com Baruque coadjuvante; sem enredo do 4 Baruquelegendas/dublagem PT em edições domésticas[W]
The Bible (minissérie, History Channel, 2013)episódio sobre Jeremias e o exílio; sem enredo do 4 Baruquedublagem e legendas PT disponíveis[W]
Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (1981, Spielberg)a Arca como objeto de busca (em Tanis, Egito — ficção); alimentou o imaginário popular da arca, também ligado à Etiópiadublagem PT clássica[W]
4 Baruch audiobook (YouTube, leitura da tradução de Kraft)áudio integral em inglêsnão há versão PT[DIGITAL]
Saltério de Teodoro (séc. XI, fol. 36r)miniatura bizantina com cena do 4 Baruque — recepção visual antiga[V — Crostini, 2011]
Videojogos com enredo de 4 Baruquenenhum título dedicado localizado, em PT ou em outro idioma[—]

Vídeos de divulgação em PT sobre “os livros perdidos da Bíblia etíope” comentam o livro, mas são material popular sem edição crítica — e frequentemente repetem as confusões corrigidas em §4.4 e §9 [W].


9. Mitologia e Literatura Comparada

O tesouro do Templo escondido: 4 Baruque, 2 Macabeus e os apócrifos do Templo

O motivo de vasos sagrados ocultos antes da destruição tem família atestada. O paralelo canônico é 2 Macabeus 2,4–8 (Jeremias esconde tenda, arca e altar do incenso “até que Deus reúna o seu povo”) [W]. Fora do cânon, reaparece na História do Cativeiro na Babilônia (copta e árabe), no Apócrifo de Jeremias de Qumran (4Q385–391, fragmentário) e em textos sobre os vasos do primeiro Templo — que as fontes históricas dão como saqueados (2 Reis 25,13–17) e devolvidos (Esdras 1,7–11) [W]. O motivo funciona como teologia do tesouro diferido: a perda é depósito com data de resgate [W — Allison, 2019].

O sono longo: Abimeleque, os Sete Dormentes e Rip Van Winkle

Abimeleque dorme 66 anos e acorda com os figos intactos (4 Bar 5). O motivo do sono que atravessa o tempo é pan-cultural: os Sete Dormentes de Éfeso (com paralelo no Alcorão, Sura 18), Epimênides de Creta e, na literatura moderna, Rip Van Winkle de Washington Irving — os três registrados por Allison [W — Allison, 2019]. A diferença teológica importa: em 4 Baruque o sono não é fuga, mas preservação-testemunho — os figos “gotejando leite” provam que Deus sustenta o povo no tempo do exílio (4 Bar 5,28–32; 6,8–10) [V].

A águia mensageira e os pássaros de Noé

A águia que fala, leva a carta e ressuscita o cadáver (4 Bar 7) cita a própria Bíblia: “não sejas como o corvo que Noé enviou e que não voltou; sê como a pomba que trouxe o relato ao justo” (4 Bar 7,8; cf. Gn 8,6–12) [V]. O motivo do pássaro mensageiro atravessa o antigo Oriente (corvos e pombas nos relatos de dilúvio; aves de presságio mesopotâmicas); a novidade do texto é tornar a ave instrumento de revelação escrita [W].

O martírio do profeta: Isaías serrado e o apedrejamento

Jeremias morre apedrejado, e o texto o compara aos assassinos de Isaías: “não o matemos com o mesmo gênero de morte com que matamos Isaías, mas apedrejemo-lo” (4 Bar 9,22) [V]. O martírio de Isaías serrado ao meio está nas Vidas dos Profetas e na Ascensão de Isaías; o apedrejamento de profetas ecoa Neemias 9,26 e Mateus 23,37 [W]. O 4 Baruque participa do arquétipo do profeta rejeitado, com paralelos no martírio do Justo (literatura apocalíptica judaica) e em Estêvão (Atos 7) [W].

A pedra que fala: o “aliado de Jeremias”

A pedra que toma a aparência do profeta, é apedrejada no lugar dele e depois clama (4 Bar 9,25–31) tem raízes bíblicas: a pedra-testemunha de Josué 24,27 e o grito da pedra de Habacuque 2,11 [W]. O motivo da pedra que recebe a violência do bode expiatório é, na leitura de Girard (ver §10), o mecanismo sacrificial tornado visível [W — Girard, 1982].

A Arca e a Etiópia: Kebra Nagast, Axum e o terreno minado

A Kebra Nagast (“Glória dos Reis”), epopeia nacional etíope em ge’ez do século XIV (reinado de Amda Seyon I, c. 1314–1322; atribuída ao clérigo Yeshaq de Axum), narra a visita da rainha de Sabá (Makeda) a Salomão, o nascimento de Menelik I e o transporte da Arca da Aliança para a Etiópia, onde estaria na igreja de Santa Maria de Sião, em Axum [V — Hubbard, 1956, p. 352; V — en.wikipedia, “Kebra Nagast”]. Edward Ullendorff chamou a obra de “repositório dos sentimentos nacionais e religiosos etíopes” e descreveu a narrativa como “gigantesca confluência de ciclos lendários”; a erudição moderna é clara: não há evidência histórica para a linhagem salomônica nem para a arca em Axum [V — Ullendorff, 1967, Conferências Schweich]. O ponto que o dossiê fixa: essa tradição não vem do 4 Baruque. Nos Paralipômenos, Jeremias esconde os vasos na terra da Judeia “até a reunião do amado” (4 Bar 3,11) — tradição incompatível com a da Kebra Nagast, em que a arca teria ido à Etiópia antes da destruição, na época de Salomão [W]. Ligar os dois textos é confluência da erudição popular (amplificada por Hancock, 1992), não leitura dos manuscritos; o dossiê registra a tradição de Axum como objeto de fé etíope e de estudo etiopista, sem endossá-la nem desmontá-la além do que as fontes permitem (ver §12) [W].

A origem dos samaritanos

A etiologia de 4 Baruque 8 — samaritanos como exilados de casamento misto — dialoga com 2 Reis 17,24–41 e com a tradição de Josefo (Antiguidades 9,14,3) sobre os “cuteus” [W]. Comparada à polêmica de Esdras-Neemias contra os casamentos mistos (Ed 9–10; Ne 13), a lenda é a versão narrativa de uma disputa de identidade que atravessou séculos [W].


Ícone de menológio com os Sete Dormentes de Éfeso
Ícone de menológio com os Sete Dormentes de Éfeso · 4 Bar 5-6 (cf. §9)Ícone de menológio do mês de agosto, pintado na Rússia por volta de 1800: a ficha da obra registra, no registro superior, entre as cenas destacadas, os Sete Dormentes de Éfeso — além da Transfiguração e da Dormição. O motivo do sono que atravessa o tempo é o comparando direto do Abimeleque do 4 Baruque, que dorme 66 anos e acorda com os figos intactos (§9); Allison registra o paralelo com os Sete Dormentes, com Epimênides de Creta e com Rip Van Winkle, e a diferença teológica importa: no 4 Baruque o sono não é fuga, é preservação-testemunho.Anonymous Unknown author · 19 th century · têmpera sobre madeira · Coleção particular (leilão Fischer, Alemanha); ícone russo, c. 1800Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta

Espinosa e a profecia como ensino moral

Baruch Espinosa, no Tratado Teológico-Político (1670), sustenta que a profecia se mede pela doutrina moral, não pela verdade factual: os profetas “perceberam as coisas por imaginação” e falaram à capacidade do seu tempo [W]. É a lente exata para 4 Baruque: imaginação piedosa e edificante, que nunca pretendeu ser crônica — lê-la como “erro histórico” é aplicar-lhe um gênero que ela não reivindica [W].

Kant e a esperança no tempo simbólico

Immanuel Kant, em A religião nos limites da simples razão (1793), trata a história sagrada como veículo simbólico da religião moral; “o que posso esperar?” é a terceira questão da razão [W]. Os 66 anos de 4 Baruque funcionam assim: número simbólico — a esperança não se calcula, espera-se [W].

Mackie e Rowe: o mal e a ocultação de Deus

John L. Mackie (“Evil and Omnipotence”, Mind 64, 1955) formulou o problema lógico do mal; William L. Rowe (“The Problem of Evil and Some Varieties of Atheism”, American Philosophical Quarterly 16, 1979), o problema evidencial: o sofrimento inútil pesa contra Deus [W]. 4 Baruque oferece a resposta da literatura de consolação: a destruição é juízo confessado (os pecados do povo), não absurdo; e o tesouro oculto “até a reunião do amado” é uma teodiceia diferida — o sentido virá no fim do tempo [W].

Girard: o apedrejamento e o mecanismo do bode expiatório

René Girard (Le bouc émissaire, 1982) descreve a violência coletiva que se descarrega sobre uma vítima substituta para restaurar a unidade do grupo [W]. O cap. 9 é quase um diagrama do mecanismo: a multidão apedreja primeiro a pedra que tem a aparência do profeta (o substituto literal), depois o próprio Jeremias, que morre “sem falar contra eles, sem se irar” (4 Bar 9,31) [V — texto CATSS; W — Girard, 1982].

Mary Douglas: pureza, fronteira e o corpo da comunidade

Mary Douglas, em Pureza e Perigo (1966), mostra que as regras de pureza organizam o mundo por classificação e marcam as fronteiras do grupo [W]. O cap. 8 é um exercício de fronteira: a esposa estrangeira é a impureza que contamina a comunidade em restauração; a separação no Jordão reordena o mundo — quem não se separa fica fora, e funda Samaria [W].

Levinas: fidelidade, memória e o tempo do outro

Emmanuel Levinas (Totalidade e Infinito, 1961; Ética e Infinito, 1982) põe a relação com o outro antes de toda totalidade e a memória como estrutura da responsabilidade: fidelidade é manter viva uma dívida que o tempo não prescreve [W]. 4 Baruque é um livro sobre isso: “o Senhor lembrou-se da aliança com os nossos pais Abraão, Isaac e Jacó” (4 Bar 6,21) — a história é memória de uma promessa, e os 66 anos são o tempo da paciência, em que a fidelidade se prova justamente porque nada parece acontecer [V — texto CATSS; W — Levinas, 1982]. E a morte do profeta inocente levanta a questão levinasiana do sofrimento “inútil”: nenhuma morte de justo é inútil quando a comunidade a recorda [W].


11. Teologia — os debates

Judeu ou cristão? O debate de identidade

O problema central da teologia do livro: quem o escreveu e para quem? Allison narra a própria trajetória — julgou-o judaico, depois considerou a hipótese de ser inteiramente cristão, e voltou à posição convencional: edição judaica antes da edição cristã, com mãos cristãs em vários pontos antes do cap. 9 [V — Allison, 2019, Prefácio]. Piovanelli defende reescritura cristã pós-132/135 de base judaica (o texto por trás do Apócrifo copta); Nir, comunidade cristã ascética de língua siríaca; Herzer, base judaica da Judeia pós-70 dependente do 2 Baruque [W — Piovanelli, 1997; W — Nir, 2003; W — Herzer, 2005]. O debate importa para a teologia porque decide se o livro é consolação judaica pós-70 (leitura majoritária do núcleo) ou apropriação cristã do profeta como mártir de Cristo (leitura do cap. 9 e de Piovanelli) [W].

A teologia do Templo: vasos ocultos e restauração

O esconder dos vasos (cap. 3) formula uma teologia da perda reversível: o Templo não foi abandonado — o tesouro dorme na terra “até a reunião do amado” (4 Bar 3,11), ecoando 2 Macabeus 2,7 (“até que Deus reúna o seu povo”) e a esperança restauracionista [V]. A redação cristã leu “o amado” como Cristo, fazendo dos vasos ocultos promessa escatológica cristã [W — Allison, 2019]. O debate é se essa leitura substitui (supersessionismo) ou cumpre a esperança judaica — e a tradição etíope, que canonizou o livro, não o leu como antijudaico [W].

O profeta rejeitado e mártir

Jeremias encarna o profeta como Moisés (Dt 18,15–22) que anuncia a verdade e é desprezado (Jr 20,7–10) — e, no 4 Baruque, morto (cap. 9) [W]. A teologia cristã viu nele prefiguração de Cristo: profeta rejeitado, entregue pelo povo, morto ao anunciar o messias; a pedra “aliada” foi lida como figura da substituição vicária [W]. O corretivo: a morte de Jeremias é martírio pela verdade, não sacrifício expiatório; aproximá-lo de Cristo é leitura de recepção, não sentido literal [W].

Exílio, pedagogia e consolação pós-70

O livro pertence à literatura de consolação pós-catástrofe: como 2 Baruque e 4 Esdras, responde a “por que o Templo caiu?” com o juízo merecido e a promessa do retorno [W]. A novidade é o tom doméstico e fábulesco: nenhum esquema de eras (como as 70 semanas de Daniel), mas figos, uma águia e um sono de 66 anos — consolação para quem precisa de esperança próxima [W — Allison, 2019].

Pureza, casamento e a fronteira da comunidade

A separação no Jordão (cap. 8) levanta o debate da endogamia como condição da restauração: herdeira da polêmica de Esdras-Neemias, a lenda a radicaliza (quem não repudia a esposa estrangeira vira samaritano) [W]. Teólogos modernos discutem se essa fronteira étnica é teologia da aliança ou xenofobia — e o texto não decide: é lenda com função de identidade [W].

11.1. Comentaristas por esfera confessional

Esta subseção organiza a recepção por tradição de leitura, com a etíope no centro — única esfera que trata o livro como escritura. Regra da camada: a perspectiva se declara, não se atribui; o rótulo é metadado, não argumento. Convenções: [V] conferido; [W] conhecido, não reconferido; [—] lacuna.

Etíope (Ortodoxa Tewahedo) — a esfera central

  • A única tradição que canonizou o livro: o cânon de 81 livros o lista como “o resto de Jeremias” (Teref Baruch), entre a Carta de Jeremias e Ezequiel [V — Cowley, 1974].
  • Os textos oficiais da Igreja (cânon do livro de orações, Bíblias ge’ez–amárico impressas por ordem imperial) atestam o uso canônico; a própria Igreja, porém, nunca declarou completa nenhuma edição da Bíblia — a canonicidade etíope é mais fluida que a ocidental [V — Cowley, 1974].
  • A Beta Israel (comunidade judaica etíope) também o transmite em ge’ez [V — Leslau, 1951].
  • Erudição de acesso: as edições de Dillmann (1866) e Piovanelli (1986, edição crítica etíope) [V — Dillmann, 1866; W — Piovanelli, 1986].

Judaica

  • O livro está fora do cânon hebraico e não entrou na literatura rabínica; a recepção judaica é de erudição moderna: Kaufmann Kohler (“The Pre-Talmudic Haggada”, JQR 5, 1893) o estudou como hagadá pré-talmúdica; Michael E. Stone estudou a versão armênia; Devorah Dimant editou os fragmentos de Qumran do ciclo de Jeremias [W — Kohler, 1893; W — Stone; W — Dimant]. A esfera judaica o lê como testemunho do judaísmo pós-70, não como texto sagrado [W].

Católica

  • O livro está fora do cânon católico (Trento, 1546) e dos deuterocanônicos; a recepção católica é de erudição sobre os apócrifos: o Clavis apocryphorum Veteris Testamenti classifica a obra relacionada como Apocryphon Jeremiae de captivitate Babylonis (CAVT, n.º 227), e Albert-Marie Denis (franciscano) a incluiu no repertório da literatura judaico-helenística [W — CAVT; W — Denis]. Não localizei comentário católico dedicado em PT [—].

Ortodoxa (bizantina e eslava)

  • O mundo bizantino conheceu o texto pela recensão breve litúrgica (Menaia; Jeremias celebrado a 1.º de maio) e pela tradição manuscrita ilustrada (Saltério de Teodoro, séc. XI) [V — Crostini, 2011; W — Allison, 2019].
  • O mundo eslavo o transmitiu em recensões longa e breve (russa, servo-macedônia, búlgara média; também romena, do Menaion grego) — estudadas por Turdeanu (1981) [W — Turdeanu, 1981].
  • A etíope (Tewahedo) é igreja ortodoxa oriental: o leitor deve vê-la aqui como parte do mesmo eixo ortodoxo, ainda que com cânon próprio [W].

Protestante histórica

  • Os reformadores o excluíram com os apócrifos; a recepção protestante histórica é filológica: R. H. Charles editou o ciclo de Baruque (The Apocalypse of Baruch, 1896) e M. R. James recolheu os fragmentos no Lost Apocrypha (1920) [W — Charles, 1896; V — James, 1920].
  • J. Rendel Harris (quaker, Cambridge) deu a primeira edição crítica moderna (1889) [V — Harris, 1889].

Evangélica

  • A literatura evangélica de divulgação trata o livro sobretudo no contexto dos “livros perdidos da Bíblia etíope” — com frequência repetindo as confusões das trinta moedas (Mt 27,9) e da arca em Axum, corrigidas em §4.4 e §9 [W].
  • A introdução evangélica de referência aos pseudepígrafos, de David A. deSilva (Introducing the Apocrypha, Baker, 2002), situa o ciclo de Baruque no quadro geral, sem comentário dedicado [W].

Balanço de esferas (contagem declarada)

EsferaNomes citadosFonte primária?
Etíope (Tewahedo)cânon eclesiástico [V], Dillmann [V], Piovanelli [W], Leslau [V]sim (cânon, edições)
JudaicaKohler [W], Stone [W], Dimant [W]parcialmente
CatólicaCAVT [W], Denis [W]; sem comentário PT [—]não
Ortodoxa bizantina/eslavaCrostini [V], Turdeanu [W]parcialmente
Protestante históricaCharles [W], James [V], Harris [V]sim (James, Harris)
EvangélicadeSilva [W]; divulgação popular [W]não

O desequilíbrio é do material, não do dossiê: só a etíope trata o livro como escritura; as demais, como objeto de estudo. Onde não há comentário corrente, a lacuna se declara [—] em vez de se preencher com nomes que comentaram outros livros [W].


12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não tem competência

A regra desta seção: declarar os limites. A ciência não decide se 4 Baruque é revelado; decide se as afirmações factuais do texto são compatíveis com o observável.

Manuscritos e versões: o que a filologia estabelece

O texto grego chegou em recensão longa e breve. Testemunhos da longa: os manuscritos de Jerusalém (Taphos 34, séc. X; Taphos 6, séc. X–XI), o de Milão (Braidensis AF IX 31, séc. XV, base da edição de Ceriani, 1868) e o de Paris (Graecus 1534, séc. XI); Herzer acrescentou o de Leningrado (96, séc. XII) [V — Allison, 2019]. A versão etíope remonta a manuscritos do séc. XV (Dillmann, 1866); a armênia existe desde o séc. X; a eslava, em recensões longa e breve [V — Allison, 2019]. Um projeto crítico de Würzburg não foi concluído; os estudos de Bernhard Heininger e Anni Hentschel refinaram a filiação [V — Allison, 2019; W — Heininger; Hentschel]. A língua original é, com alta probabilidade, o grego com semitismos; a passagem em que o povo clama “Deus-zar” (4 Bar 7,25–30; “zar” = “estrangeiro” em hebraico) é crux textual famosa [V — Allison, 2019; V — texto CATSS].

A arqueologia de 587 a.C. e do exílio

O cenário histórico de fundo é documentado: a Crônica Babilônica registra o cerco e a deportação de 597 a.C. (tábua BM 21946), e a queda de 587/586 é conhecida pela Bíblia e pelas camadas de destruição escavadas na Cidade de Davi e no Ofel [W]. A vida dos exilados está documentada nas tábuas de Al-Yahudu (séc. VI–V a.C.; ed. Pearce e Wunsch, 2014), já tratadas no dossiê de Baruque [V — remissão: baruque.mdx]. Nada disso data o 4 Baruque: a arqueologia prova o ambiente, não a autoria nem a datação (pós-70) [W].

A arqueologia da Etiópia e a questão da Arca

Axum é sítio arqueológico real: as estelas funerárias (obeliscos) dos séculos III–IV d.C. atestam um reino poderoso, e a igreja de Santa Maria de Sião (tradicionalmente fundada no séc. IV) foi reconstruída várias vezes — o edifício atual é do séc. XVII [W]. Sobre a Arca: não há evidência arqueológica de sua presença em Axum; o objeto (se existe) nunca foi examinado por especialistas, pois só o guardião da capela o vê; etiopistas como Ullendorff sugerem que o venerado seria um tabot (placa de altar consagrada) medieval, não a arca bíblica [W — Ullendorff, 1968]. A arqueologia não confirma a tradição da Kebra Nagast — e não é seu papel refutá-la: é objeto de fé [W].

O cálculo dos 66 anos

66 = 136 − 70: a aritmética de Harris (1889) liga o sono de Abimeleque à datação do livro [V — Harris, 1889]. Alternativamente, 66 se opõe aos 70 anos do cativeiro de Jr 25,11 (a duração canônica do exílio), funcionando como variação simbólica deliberada [W]. Nenhum cálculo produz data absoluta: produz hipóteses coerentes com o conteúdo [W].

Onde a ciência NÃO tem competência

  • A ciência não decide se os vasos do Templo foram realmente ocultados por Jeremias e engolidos pela terra: é lenda com função teológica, não evento verificável [W].
  • A arqueologia não confirma nem refuta a presença da Arca em Axum: o objeto é inacessível à verificação e a tradição é matéria de fé etíope [W].
  • A ciência não determina se Jeremias foi apedrejado, nem onde (Jerusalém no 4 Baruque; Táfnas nas Vidas dos Profetas): as tradições divergem e nenhuma é testável [W].
  • A linguística não produz data absoluta: os argumentos para a datação pós-70 são literários e temáticos [W].
  • E o inverso: datar o livro depois de 70 não refuta sua verdade religiosa — localizar historicamente um objeto literário não decide sobre seu sentido [W].
  • A canonicidade não é objeto de verificação empírica: é decisão de comunidades de fé (a etíope, no caso), tratada em §6 e §11.1 [W].

Manuscrito bíblico etíope do século XVIII
Manuscrito bíblico etíope do século XVIII · transmissão etíope (cf. §4.4 e §12)O Códice Weiner 21, manuscrito bíblico etíope do início do século XVIII conservado na Hill Museum & Manuscript Library, representa o canal por que o 4 Baruque chegou até nós. A versão etíope remonta a manuscritos do século XV, e no cânon etíope o livro não circula sozinho: entra no compósito Säqoqawä Eremyas, com Lamentações, a Carta de Jeremias, a profecia a Pasur e o Resto das Palavras de Baruque (§4.4). É dessa contiguidade de manuscrito que nasceu a confusão popular sobre Mateus 27,9-10 — e o dossiê a registra sem endossá-la.Unknown author Unknown author · early 18 th century · manuscrito em ge'ez (século XVIII) · Hill Museum & Manuscript Library (Códice Weiner 21)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

13. Lacunas e Correções de Atribuição

  1. [V] “Mateus citou o 4 Baruque (as trinta moedas)” — correção. As trinta moedas e o campo do oleiro não estão em nenhuma recensão do 4 Baruque; Mateus 27,9–10 é composição do evangelista a partir de Zacarias 11,12–13 e material de Jeremias (oleiro: Jr 18–19; campo: Jr 32), atribuída deliberadamente a Jeremias (Menken, 2002). A confusão popular nasce da contiguidade, no cânon etíope, entre a curta “Profecia a Pasur” (que contém as trinta moedas) e o 4 Baruque [V — Menken, 2002; V — Cowley, 1974; V — Dillmann, 1866].
  2. [V] “Jeremias apedrejado no Egito” — correção de lugar. No 4 Baruque, o apedrejamento ocorre em Jerusalém, após o retorno (4 Bar 9). A tradição do Egito (Táfnas) é das Vidas dos Profetas e de Hipólito [V — Allison, 2019; W — Vitae Prophetarum].
  3. [V] “4 Baruque” não é o “Baruque” deuterocanônico. São obras independentes; o número 4 é convenção moderna do ciclo (1 = deuterocanônico; 2 = siríaco; 3 = grego; 4 = Paralipômenos; há um “5 Baruque” em coleções etíopes) [W — Robinson, 1985; W — Leslau, 1951].
  4. [—] Versão siríaca do 4 Baruque: não localizada. O que circula em ambiente siríaco são o 2 Baruque (obra distinta) e os manuscritos garshuni (árabe em caracteres siríacos) da História do Cativeiro na Babilônia [V — Allison, 2019; W — en.wikipedia]. Não encontrei fonte que ateste tradução siríaca direta [—].
  5. [V] A Arca de Axum não vem do 4 Baruque. A tradição da Kebra Nagast (séc. XIV) é incompatível com o esconder dos vasos pelos Paralipômenos; a ligação é da erudição popular (Hancock, 1992), rejeitada pela etiopística [W — Ullendorff, 1968; W — Hancock, 1992].
  6. [—] Tradução acadêmica do 4 Baruque em PT: não localizada. As traduções PT existentes (Vottari, 2026; Instituto Ágora de Letras, 2025, ISBN 9798275496192) são autopublicações sem aparato crítico [V].
  7. [—] Uso litúrgico etíope da porção 4 Baruque: não verificado. O compósito Säqoqawä Eremyas é listado no cânon eclesiástico, mas não localizei fonte que ateste leitura litúrgica específica da porção dos Paralipômenos [—]. A recensão breve grega, sim, circulou nos Menaia litúrgicos bizantinos [W — Allison, 2019].
  8. [W] A hipótese de dependência do 2 Baruque (Herzer) permanece debatida. Allison a julga desnecessária; o acordo pode vir de hagadá comum pós-70 [V — Allison, 2019; W — Herzer, 2005].
  9. [—] Autoria do “Apócrifo de Jeremias” de Qumran (4Q385–391): texto distinto do 4 Baruque; as relações exatas entre os dois permanecem objeto de estudo [W — Dimant].
  10. [W] O título “Paralipômenos” não indica parentesco com 1–2 Crônicas (que a Septuaginta também chama Paraleipomena): é jogo de título sobre “o que ficou de fora de Jeremias” [V — Doering, 2020].
A Crônica Babilônica e a queda de Jerusalém
A Crônica Babilônica e a queda de Jerusalém · cf. 2 Rs 24-25 (cf. §12)A Crônica Babilônica dos anos 605-594 a.C., feita entre cerca de 550 e 400 a.C. e hoje no Museu Britânico: é nela que se lê a conquista de Jerusalém e a rendição de Jeoaquim, rei de Judá, em 597 a.C. A §12 usa esse documento para separar o que a arqueologia estabelece do que o livro narra — o cerco, a deportação e as camadas de destruição de 587/586 a.C. são o ambiente histórico do 4 Baruque, não a sua datação, que a leitura moderna situa depois de 70 d.C. O tablet documenta o cenário de fundo que o livro cifra nos 66 anos do sono de Abimeleque.Osama Shukir Muhammed Amin FRCP(Glasg) · 2016-03-16 14:32:28 · tábua de argila inscrita em cuneiforme (c. 550-400 a.C.) · The British Museum, Londres; fotografia de Osama Shukir Muhammed Amin, CC BY-SA 4.0Fonte: Wikimedia Commons · Licença: CC BY-SA 4.0

Bibliografia-âncora verificada

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ObraAcessoOnde
Kraft e Purintun, Paraleipomena Jeremiou — tradução CATSS (1987)livreccat.sas.upenn.edu
James, The Lost Apocrypha of the Old Testament (1920)livreInternet Archive
Dillmann, Chrestomathia Aethiopica (1866)livreGoogle Books
Cowley, “The Biblical Canon of the Ethiopian Orthodox Church Today” (1974)livreislamic-awareness.org
Menken, “The Old Testament Quotation in Matthew 27,9–10”, Biblica 83 (2002)livrebiblica (BSW)
Vottari, Bíblia etíope… e 4 Baruch (2026)compraGoogle Play Books
Instituto Ágora de Letras, Textos Exclusivos da Bíblia Etíope (2025)compraGoogle Books
Herzer, 4 Baruch (Paraleipomena Jeremiou) (SBL, 2005)compraSBL Press
Allison, 4 Baruch: Paraleipomena Jeremiou (De Gruyter, 2019)compradegruyter.com
Harris, The Rest of the Words of Baruch (1889)empréstimoInternet Archive
Robinson, 4 Baruch, in OTP 2 (1985)empréstimoOpen Library
Ullendorff, Ethiopia and the Bible (1968)bibliotecaWorldCat
Kuhn, “A Coptic Jeremiah Apocryphon”, Le Muséon 83 (1970)bibliotecaWorldCat
Herzer, Die Paralipomena Jeremiae (Mohr Siebeck, 1994)esgotadosem via atual; resumido por Herzer, 2005, e Allison, 2019

Selo [esgotado] aparece uma vez: a monografia alemã de 1994 está fora de catálogo, e o texto aponta ao lado dela o substituto acessível (o comentário inglês de 2005 do mesmo autor).