Antiguidade Bíblica
Lamentações (Eikhah) — Artigo Enciclopédico
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1. Lead e Ficha
Lamentações (hebr. אֵיכָה, Eikhah, “Como!”, a primeira palavra do livro; gr. LXX Θρῆνοι, Threnoi; lat. Lamentationes/Threni; hebr. rabínico קִינוֹת, Kinot) é um dos cinco Megillot e, no cânon hebraico, pertence aos Ketuvim, não aos Profetas [W]. No cânon cristão, colocado depois de Jeremias pela ordem da Septuaginta e da Vulgata, figura entre os proféticos e ocupa a 31.ª posição da taxonomia deste site [V]. Tem 5 capítulos e 154 versículos, e não é relato nem coleção de oráculos: é um conjunto de cinco poemas independentes, escritos em resposta à destruição de Jerusalém e do Templo pelos babilónios em 587/586 a.C. [W — Berlin, 2002; Hillers, 1972].
O traço que singulariza o livro é a forma: quatro dos cinco poemas são acrósticos alfabéticos, com cada versículo, ou grupo de versículos, abrindo por uma letra sucessiva do alfabeto hebraico. Os capítulos 1, 2 e 4 têm 22 versículos; o 3 tem 66, três por letra; o 5 tem 22 versículos mas não é acróstico — e essa quebra, num livro construído sobre a ordem alfabética, é dos problemas mais discutidos da crítica [V — Assis, 2007; Guillaume, 2009]. Na sinagoga, Eikhah é lido no Tishá be-Av, jejum que comemora a destruição do Primeiro e do Segundo Templo [V — Sefaria; W].
| Campo | Dado | Marcador |
|---|---|---|
| Nome hebraico | Eikhah (אֵיכָה, “Como!”) | [V] texto |
| Nome rabínico | Kinot (קִינוֹת, “lamentos”) | [W] |
| Nome grego/latino | Threnoi / Lamentationes (Threni) | [W] |
| Cânon hebraico | Ketuvim; terceiro dos cinco Megillot | [W] |
| Cânon cristão | 31.º livro; após Jeremias (LXX/Vulgata) | [V] taxonomia |
| Capítulos / versículos | 5 / 154 | [W] |
| Poemas | 5, provavelmente independentes | [W — Hillers, 1972] |
| Forma | acróstico alfabético em 1, 2, 3 e 4; cap. 5 sem acróstico | [V — Assis, 2007] |
| Idioma | hebraico bíblico tardio, com aramaísmos | [W — Hurvitz, 2014] |
| Autoria | anónima; atribuída a Jeremias na tradição | [V — Kalman, 2009] |
| Datação | pouco depois de 587/586 a.C. | [W — Berlin, 2002] |
| Uso litúrgico | Tishá be-Av (9 de Av) | [V] Sefaria |
2. Contexto e Autoria
O evento. O livro nasce de um acontecimento datável: a conquista de Jerusalém por Nabucodonosor II e a destruição do Templo de Salomão, em 587/586 a.C., após um cerco de dezoito meses [W — Lipschits, 2005]. A tradição judaica fixou a data no 9 de Av e reuniu a esse dia, mais tarde, a memória da destruição romana de 70 d.C. [W]. Lamentações não nomeia o inimigo, o rei babilónico, o ano nem Jeremias: descreve a catástrofe em imagens — a cidade viúva (1,1), o ouro escurecido (4,1), as mães que cozinham os filhos (2,20) [W — Berlin, 2002]. É poesia ritual, não relato.
A autoria tradicional: Jeremias. A Septuaginta abre o livro com um prefácio: “depois de Israel ser levado cativo e Jerusalém ficar desolada, Jeremias sentou-se a chorar e entoou este lamento” [W — Berlin, 2002]. A Vulgata, o Targum Eikhah e o Talmude (Bava Batra 14b) seguem-na [V — Sefaria; W]. Daí o título medieval Lamentationes Ieremiae Prophetae. Jason Kalman, em “If Jeremiah Wrote It, It Must Be OK” (Acta Theologica 29, 2009), mostra que a atribuição rabínica é argumento teológico, não memória de autoria: se o profeta que anunciou a catástrofe também a chorou, o sofrimento fica justificado [V — Kalman, 2009].
Por que a crítica a rejeita. (i) o hebraico é tardio e traz aramaísmos que não condizem com a poesia de Jeremias [W — Hillers, 1972; Hurvitz, 2014]; (ii) as cinco composições têm métrica, léxico e teologia diferentes entre si, o que sugere mãos e momentos distintos [W — Westermann, 1994]; (iii) Jeremias é personagem ativa na sua própria história e não aparece em Lamentações [W]; (iv) a teologia da culpa e da esperança do livro não é a do profeta [W — Provan, 1991]. Hillers resume: dizer que Jeremias o escreveu está “tão firmemente enraizado na tradição que ninguém se dá conta de que não há prova” [V — Hillers, 1972]. A posição hoje dominante é de anonímia [W — Berlin, 2002].
Composição e datação. A tese mais difundida — Hillers (1972), Berlin (2002), a Society for Old Testament Study (2018) — situa a composição em Jerusalém, nos meses ou anos imediatamente posteriores a 587/586, por testemunhas diretas ou poetas próximos do acontecimento [W]. A língua tardia aponta para o século VI a.C. avançado [W — Dobbs-Allsopp, 2002].
3. Estrutura (5 capítulos / 5 poemas)
A forma é o dado central: não há trama nem personagens em ação, há cinco poemas cuja arquitetura — acróstico, número de versículos, mudança de voz — organiza a experiência da catástrofe [W — Dobbs-Allsopp, 2002].
| Cap. | Versículos | Acróstico | Versos por letra | Voz dominante |
|---|---|---|---|---|
| 1 | 22 | sim (alef a tav) | 3 | narrador; Sião personificada |
| 2 | 22 | sim | 3 | narrador; Sião no fim |
| 3 | 66 | sim | 3 (cada letra abre um trio) | o geber, “o homem” |
| 4 | 22 | sim | 2 (dísticos) | narrador |
| 5 | 22 | não | — | a comunidade: “nós” |
O acróstico. Em 1, 2 e 4, cada versículo começa pela letra seguinte do alfabeto hebraico, de alef a tav [V — Assis, 2007]. No capítulo 3, cada letra abre três versículos — daí os 66 —, o que faz do poema central o mais longo [W]. Em 2, 3 e 4, as letras pe e ayin aparecem invertidas em relação à ordem padrão, detalhe discutido como descuido, variante dialetal ou escolha deliberada [W — Assis, 2007]. Elie Assis, “The Alphabetic Acrostic in the Book of Lamentations” (Catholic Biblical Quarterly 69, 2007, pp. 710-724), sustenta que o acróstico não é moldura decorativa, mas estrutura significante: o poema “esgota” o alfabeto, e portanto a linguagem inteira, para dizer o indizível [V]. A leitura mais repetida — e mais discutida — é que o acróstico representa a totalidade da dor, ou, ao contrário, que constrange o lamento a uma ordem que a experiência não tem [W — Freedman, 1972; Linafelt, 2000].
A qinah e o metro 3+2. Karl Budde, em “Das hebräische Klagelied” (ZAW 2, 1882), propôs para o lamento hebraico um ritmo próprio — a qinah (קִינָה) —, o desequilíbrio 3+2: metade longa, metade curta, como o passo de quem caminha curvado sob o luto [W — Budde, 1882]; Hermann Gunkel estendeu a tese aos Salmos e a Lamentações [W — Gunkel, 1933]. A tese está contestada: Michael P. O’Connor, Hebrew Verse Structure (Eisenbrauns, 1980) [V — archive.org], e Wilfred G. E. Watson, Classical Hebrew Poetry (JSOT Press, 1984) [V — archive.org], mostraram que o sistema hebraico não permite contar sílabas com esse rigor, e que “qinah” descreve tendência, não lei [W]. David Noel Freedman, “Acrostics and Metrics in Hebrew Poetry” (Harvard Theological Review 65, 1972, pp. 367-392), reabriu o problema por outra via [V — Cambridge]. A 3+2 fica como descrição tradicional, hoje debatida [W].
As vozes. O livro é polifónico [W — Berlin, 2002]: o narrador que viu a cidade (“Como está sentada solitária a cidade que era tão povoada!”, 1,1); Sião personificada, a בַּת־צִיּוֹן, Bat-Tzion (“Filha de Sião”), que fala como mulher — viúva, mãe despojada (1,12-22) [W — O’Connor, 2002]; o גֶּבֶר, geber (“varão”), que fala na primeira pessoa no capítulo 3; e a comunidade, que no capítulo 5 ora em “nós” [W]. A personificação feminina é o traço mais discutido: a cidade sofredora é mulher, impura e desnudada (1,8-10), o que faz do capítulo 1 texto central do debate sobre violência e género [W — Trible, 1984].
A quebra do capítulo 5. O quinto poema tem 22 versículos — o número do alfabeto — e nenhuma letra inicial acróstica [V — Guillaume, 2009]. As explicações propostas: (a) forma abandonada — o lamento comunitário, mais espontâneo, renuncia ao artifício [W]; (b) completude implícita — o número 22 mantém a moldura alfabética [W — Assis, 2007]; (c) sétimo acróstico — Philippe Guillaume, “Lamentations 5: The Seventh Acrostic” (Journal of Hebrew Scriptures 9, 2009, DOI 10.5508/jhs.2009.v9.a16) [ACAD], defende um acróstico oculto, pelas iniciais no interior das linhas; tese engenhosa e minoritária [ACAD]; (d) razão teológica — a oração final, que pergunta “ou nos rejeitaste para sempre?” (5,22), não admite regra, porque o livro termina em abertura [W — Linafelt, 2000].
4. Conteúdos-chave com Debate
4.1 O acróstico como teologia
Ao percorrer as vinte e duas letras, o poema diz que a catástrofe atinge a totalidade da linguagem e da vida coletiva [W — Freedman, 1972]. Assis acrescenta a função pedagógica: memorizável, o lamento pode ser recitado por uma comunidade que perdeu tudo [V — Assis, 2007]. Contra, Tod Linafelt, Surviving Lamentations (Chicago, 2000), sustenta que a forma ordenada domestica a dor, e que a grandeza do livro está em resistir à consolação [V — Linafelt, 2000].
4.2 A qinah e o problema da métrica hebraica
A qinah é herança de Budde (1882) e Gunkel (1933); os capítulos 1, 2 e 4 teriam versos em 3+2, o 3 mais próximo da forma “pura”, o 5 mais prosaico [W]. O’Connor (1980) e Watson (1984) contestam a existência de um metro hebraico regular e tratam a qinah como padrão estatístico [V]; Watson observa ainda que ela ocorre em textos que não são lamentos [W]. Conclusão prudente: a forma acróstica é verificável; a métrica é hipótese [W].
4.3 A personificação de Sião e o género do poema
Em Lamentações a cidade é sujeito falante [W — Berlin, 2002]. Bat-Tzion chora, interpela Deus e descreve-se como uma mulher exposta: “todos os que a honravam a desprezam, porque viram a sua nudez” (1,8) [W]. Kathleen M. O’Connor, Lamentations and the Tears of the World (Orbis, 2002) [V — OL], lê o livro como testemunho de trauma coletivo e propõe a leitura em voz alta, em grupo, como prática de cura [V]. Phyllis Trible, Texts of Terror (Fortress, 1984) [V — OL], já o usara como exemplo-limite do “texto de terror”: a mulher de quem o texto fala é também a que fala [V]. Objeção: Bat-Tzion é figura retórica, e a analogia com violência real não é imediata [W].
4.4 O capítulo 3 — o geber, o centro e o problema da esperança
Um homem, o geber, fala em primeira pessoa (3,1: “Eu sou o homem que viu a aflição”) e descreve Deus como adversário que o cercou e o fez sentar na escuridão (3,1-18) [W]. E no centro do capítulo — no centro do livro — aparece o único trecho de confiança: “As misericórdias de Javé não têm fim… renovam-se cada manhã” (3,22-23), seguido da confissão “examinemos os nossos caminhos” (3,40-42) [W]. O debate: Westermann lê aqui o eixo teológico do livro, o lamento que pode invocar a misericórdia [W — Westermann, 1994]; Linafelt sustenta que a confiança é uma interrupção na corrente de lamento, e que o livro não deixa que ela estabilize o sentido [W — Linafelt, 2000]; a tradição cristã extraiu daqui o hino de Chisholm (1923) [V — Hymnary.org].
4.5 Os capítulos 4 e 2 — a fome do cerco
O capítulo 4 abre com o ouro escurecido e os “filhos de Sião” desvalorizados (4,1-2); o capítulo 2 culmina com as mães que cozinham os filhos (2,20; 4,10) [W]. As imagens correspondem às condições de um cerco prolongado, descritas também em 2 Reis 6,26-29 [W]. A crítica vê aí realismo documental [W — Dobbs-Allsopp, 2002]. A teologia declarada é a do juízo — “Javé fez o que tinha planejado” (2,17) —, e o texto ao mesmo tempo pergunta se a ira foi excessiva (“Olha, Javé, e vê a quem trataste assim!”, 2,20) [W]. A coexistência de confissão de culpa e protesto contra a desmesura é a assinatura teológica do livro [W — Brueggemann, 1997].
4.6 O capítulo 5 — a oração comunitária
O último poema muda de sujeito e de forma: fala a comunidade (“Lembra-te, Javé, do que nos sucedeu”, 5,1), em texto próximo da oração coletiva dos Salmos (cf. 79; 89) [W]. As descrições são as mais concretas do livro: a água comprada, a lenha paga, o socorro pedido a egípcios e assírios (5,4-6), a herança passada a estranhos (5,2) [W]. Termina com pergunta sem resposta: “Por que te esqueces de nós?… ou nos rejeitaste para sempre?” (5,20-22) [W] A tradição litúrgica judaica repete o versículo 21 depois do 22, para que a leitura pública não termine na rejeição [W]. Debate: censura da tradição ou decisão de fé? Guillaume (2009) lê o capítulo como o sétimo membro de um sistema acróstico [ACAD].
4.7 Datação: a queda de Jerusalém e a janela de composição
A datação gira em torno de um evento datável por fontes externas [W — Lipschits, 2005]. A Crónica de Nabucodonosor (BM 21946) documenta a tomada de Jerusalém em 597 a.C., mas os registos cuneiformes conservados não relatam a campanha de 587/586 de forma direta; a data fixa-se por conjugação de 2 Reis 25 e Jeremias 39 e 52 com Josefo e a cronologia assírio-babilónica [W — Lipschits, 2005]. A crítica conclui por composição pouco posterior a 587/586 [W — SOTS, 2018; Berlin, 2002], sabendo que o argumento linguístico é relativo e está contestado [W — Hurvitz, 2014; Young, Rezetko e Ehrensvärd, 2008].
4.8 A autoria: o fim da atribuição a Jeremias
A atribuição permanece viva na devoção — muitas Bíblias portuguesas ainda intitulam o livro “Lamentações de Jeremias” — mas foi abandonada pela exegese crítica [W]. Baruch Espinosa, no Tractatus Theologico-Politicus (1670), inclui Lamentações entre os livros cuja autoria o texto não permite determinar [W — Espinosa, 1670]. Estilo, língua e teologia consolidaram a conclusão: o livro é anónimo, provavelmente compósito [W — Hillers, 1972]. Kalman (2009) mostra que a atribuição repousa na coerência narrativa entre profeta e catástrofe, não em testemunho histórico [V]. A leitura devocional pode manter Jeremias; a histórica não pode apresentá-lo como dado [W].

5. Temas
- Destruição: a cidade vazia, o Templo queimado, os nobres enforcados, os velhos no chão (2,10; 5,11-14) [W].
- Lamento e protesto: o direito de falar a Deus sem consolação (2,20-22; 5,20-22) [W — Brueggemann, 1997].
- Culpa e confissão: o pecado reconhecido e o juízo aceite (1,18; 3,40-42), ao lado da queixa (1,12-16) [W].
- Teodiceia: como pode o Deus da aliança destruir a sua casa e o seu povo? [W].
- Ausência de Deus: o “cobrir-se de nuvem”, a oração que não passa (3,8; 3,43-44) [W — Balentine, 1983].
- A cidade-mulher: Sião viúva e mãe despojada; género e violência (1,1-11) [W — Trible, 1984].
- Sobrevivência: o testemunho dos que restaram e a esperança de 3,22-23 [W — Linafelt, 2000].
6. Recepção
Judaísmo. Lamentações é o Megillá do Tishá be-Av, lido com canto próprio e à luz reduzida; é o único dos cinco Rolos lido numa ocasião de luto [W]. Acompanham-no os kinot, elegias litúrgicas compostas ao longo dos séculos para as catástrofes da história judaica [W]. O Eikhah Rabbah, um dos mais antigos midrashim compilados, comenta o livro versículo por versículo; Rashi, Radak e Ibn Ezra comentaram-no em edição digital na Sefaria [V — Sefaria].
Cristianismo. Na tradição latina, o livro é lido na Semana Santa, no ofício das Trevas (Tenebrae); as lições dos três nocturnos vêm dele [W]. Essa associação da queda de Jerusalém à paixão de Cristo explica boa parte da sua fortuna na música sacra [W].
Música. Lamentações é provavelmente o livro mais musicado do Renascimento tardio: Thomas Tallis, Lamentations of Jeremiah, c. 1560s, duas lições a cinco vozes para o ofício de Trevas [V — Westminster Abbey]; Orlande de Lassus, Lamentationes Hieremiae Prophetae, 1585 [V — IMSLP]; Giovanni Pierluigi da Palestrina, Lamentationum Hieremiae prophetae, Roma, 1588 [V — Hyperion]; na tradição francesa, as Leçons de ténèbres, com François Couperin [W]. No século XX, Ernst Krenek, Lamentatio Jeremiae Prophetae op. 93 (1941-1942), e Igor Stravinsky, Threni (1958) [V — IMSLP; Boosey & Hawkes].
Hinologia e arte. Thomas O. Chisholm escreveu em 1923 Great Is Thy Faithfulness, a partir de Lamentações 3,22-23, com música de William M. Runyan [V — Hymnary.org]. Rembrandt, Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém, 1630, Rijksmuseum, Amsterdã, é a ilustração canônica da queda [V]. Gustave Doré incluiu cenas do livro nas xilogravuras de La Grande Bible de Tours (1866) [W].
Teologia contemporânea. Depois da Shoá, o livro passou a ser lido como liturgia da sobrevivência: O’Connor (2002) propõe-no como instrumento de elaboração do trauma, Linafelt (2000) confronta-o com a literatura dos sobreviventes, e as leituras feminista, pós-colonial e ecológica entraram na bibliografia corrente [W — Thomas, 2013].


7. Traduções PT e Comentários PT
Bíblias portuguesas que incluem Lamentações — na prática todas, já que o livro integra o cânon hebraico, o católico, o ortodoxo e o etíope [V] taxonomia:
- Almeida (tradição de João Ferreira de Almeida; revisões ARC, ARA, ACF, NAA) [W].
- Bíblia de Jerusalém (edição brasileira da Bible de Jérusalem; Paulus; revisão de 2002), ISBN 978-8534919777 [V — loja.paulus.com.br].
- TEB — Tradução Ecumênica da Bíblia (edição brasileira da TOB; Loyola, 2010), ISBN 978-8515030163 [V — loyola.com.br].
- Bíblia Pastoral (Paulus), com texto integral no serviço bíblico da editora [V — biblia.paulus.com.br].
- Bíblia Ave-Maria (Paulus) e edições devocionais correlatas [W].
Edição crítica PT-PT a partir do grego. Frederico Lourenço traduziu e comentou a Bíblia Grega em seis volumes pela Quetzal Editores; Lamentações figura entre os livros proféticos [W — Quetzal]. Não confirmei nesta sessão o volume nem o ISBN específico que o contém: fica como lacuna [—].

Comentário PT verificado.
- R. K. Harrison, Jeremias e Lamentações: introdução e comentário, São Paulo: Edições Vida Nova, 1980, 192 páginas, ISBN 9788527500142 [V — Amazon.com.br; CLC Portugal]. Tradução do inglês Jeremiah and Lamentations (Tyndale Old Testament Commentaries), é o comentário PT dedicado a Lamentações mais facilmente alcançável [V].
Comentários e auxílios PT (marcadores conservadores).
- Série comentário expositivo — Jeremias e Lamentações (Vida Nova) [W — ISBN não conferido].
- Novo Comentário Bíblico São Jerônimo — Antigo Testamento (Paulus), com introdução e comentário a Lamentações [W].
- Não localizei monografia brasileira dedicada exclusivamente a Lamentações com ISBN: lacuna do mercado editorial PT [—].
Comentários-âncora em inglês, sem tradução PT localizada [—], todos verificados por ISBN no catálogo aberto: Hillers (1972, ISBN 978-0385007382) [V — OL]; Berlin (2002, 978-0664229740) [V — OL]; Westermann (1994, 978-0567292261) [V — OL]; Provan (1991, 978-0802805478) [V — OL]; Salters (ICC, 2010, 978-0567576514) [V — OL]; Renkema (HCOT, 1998, 978-9042906778) [V — OL]; Dobbs-Allsopp (2002, 978-0804231411) [V — OL]; Gerstenberger (FOTL, 2001, 978-0802804884) [V — OL]; Garrett e House (WBC 23B, 2004, 978-0849908255) [V — OL]; O’Connor (2002, 978-1570753992) [V — OL]; Linafelt (2000, 978-0226481906) [V — OL]. Títulos completos na bibliografia final.
8. Audiovisual e Games
| Título | Realidade | Validação PT | Marcador |
|---|---|---|---|
| Visão Geral: Lamentações (BibleProject Português) | animação que expõe a estrutura poética dos cinco capítulos e a sua teologia | canal em PT-BR, com narração e legendas em português | [V] |
| A Bíblia (The Bible, History Channel, 2013) | minissérie que dramatiza a queda de Jerusalém e Jeremias, mas não adapta Lamentações como texto | dublagem e legendas PT amplamente disponíveis | [W] / [—] o livro |
| Jeremias (telefilme, 1998) | biografia fílmica do profeta, com Jerusalém em chamas; o livro fica ao fundo | circulação lusófona não confirmada nesta sessão | [W] |
| Longa-metragem PT ou BR dedicado a Lamentações | nenhum localizado nesta sessão | — | [—] |
| Videojogo com enredo de Lamentações | nenhum título dedicado localizado | — | [—] |
| Leitura litúrgica de Eikhah no Tishá be-Av | transmissões anuais de sinagogas e do Chabad, em hebraico e com tradução | disponíveis em vídeo, mas não são adaptações | [V] Chabad.org |
Não há, portanto, adaptação audiovisual do livro — e não é acidente: Lamentações não tem trama, tem voz. O audiovisual levou-o à liturgia e à música coral (§6), não à ficção [W].
9. Mitologia e Literatura Comparada
9.1 O género do lamento de cidade na Mesopotâmia
A comparação decisiva é com os lamentos sumérios de cidade, que choram a destruição de uma cidade e do seu templo pelos deuses [W — Kramer, 1940; Michalowski, 1989]:
- Lamentation over the Destruction of Ur, editado por Samuel Noah Kramer (Assyriological Studies 12; Chicago, 1940) [V — OL]: composto após a queda de Ur diante dos elamitas, c. 2000 a.C., põe na boca da deusa Ningal o lamento pela cidade [W].
- The Lamentation over the Destruction of Sumer and Ur, editado por Piotr Michalowski (Eisenbrauns, 1989) [V — OL] — a versão mais completa do género.
- The Curse of Agade, editado por Jerrold S. Cooper (Johns Hopkins, 1983) [V — OL], peça-limite do género.
- O Lamento de Uruk e o Lamento de Eridu completam o corpus que a assiriologia chama city laments [W].
Género, não dependência. Kramer (1940) sustentou o paralelo estrutural: o deus abandona a cidade, o templo é destruído, uma deusa chora, a cidade é restaurada [W]. Os limites são o que a crítica sublinha: os lamentos sumérios eram textos rituais, recitados para garantir a restauração do santuário, enquanto Lamentações não anuncia restauração e termina numa pergunta aberta [W — Dobbs-Allsopp, 2002]; e neles a cidade é chorada por deuses, aqui por humanos e por si mesma [W]. A conclusão dominante é de poligenia: o lamento pela cidade destruída é padrão difundido no Antigo Oriente Próximo, e Lamentações é a sua realização hebraica, não cópia [W]. Hedwig Jahnow, Das hebräische Leichenlied im Rahmen der Völkerdichtung (Giessen: Töpelmann, 1923) [V — OL], foi pioneira em inserir o lamento hebraico no quadro comparado dos lamentos fúnebres dos povos [V].
9.2 Os lamentos egípcios e a literatura da “desordem nacional”
O Egito não tem lamentos de cidade comparáveis aos mesopotâmicos; tem a literatura do caos nacional [W — Enmarch, 2008]:
- As Admoestações de Ipuwer, editadas por Alan H. Gardiner, The Admonitions of an Egyptian Sage (Leipzig: Hinrichs, 1909) [W], e reestudadas por Roland Enmarch, A World Upturned: Commentary on and Analysis of the Dialogue of Ipuwer and the Lord of All (Oxford University Press, 2008) [V — OL]: o mundo está invertido — o pobre enriquece, o rico empobrece, o rio é sangue, as mulheres não concebem [V].
- A Profecia de Neferti e O Camponês Eloquente completam o quadro [W].
- As Lamentações de Ísis e Néftis, lamento ritual sobre Osíris morto [W]: aqui a comparação é de forma litúrgica — mulheres lamentando o morto —, e não de catástrofe histórica [W].
Relação com Lamentações: paralelo tipológico e de género, não dependência textual — a literatura egípcia da desordem não tem a forma acróstica nem a teologia da aliança [W — Enmarch, 2008]. A comparação serve para mostrar o específico: em Lamentações o caos é atribuído a Javé, e o culpado é o povo — e, ao mesmo tempo, o próprio Deus [W].
9.3 A elegia na literatura comparada
No plano largo, o livro pertence à elegia, o canto fúnebre que transforma a perda em forma [W]. Margaret Alexiou, The Ritual Lament in Greek Tradition (1974; reimpressão Rowman and Littlefield, 2002) [V — OL], documentou o lamento ritual grego — entoado sobretudo por mulheres, com estrutura estrófica e refrão — e a sua sobrevivência até à poesia moderna [V]. A comparação com a qinah hebraica e com o lamento de Davi por Saul e Jónatas (2 Samuel 1,17-27) é imediata [W — Jahnow, 1923]. A direção é de convergência tipológica, não de dependência [W].
9.4 O lamento hebraico dentro da Bíblia
Lamentações não é caso isolado: o género comparece em 2 Samuel 1, Amós 5,1-2, Ezequiel 19 e 26-28, e no Salmo 137 [W]. O que distingue Lamentações é a extensão — cinco poemas inteiros — e a ausência de resolução: nos outros textos o lamento serve a profecia ou a oração; aqui, ele é o livro [W].
10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta
10.1 O sofrimento do inocente e a teodiceia
Lamentações formula, dentro de um texto religioso, a pergunta clássica: se Deus é justo e todo-poderoso, como explicar o sofrimento de um povo que o texto reconhece culpado, mas cuja punição lhe parece excessiva? [W]. A questão é antiga na Bíblia (Jó; Salmos; Habacuque), mas aqui ganha a forma mais nua: a ira divina não tem medida conhecida (2,20-22; 5,20-22) [W].
- Baruch Espinosa (Tractatus Theologico-Politicus, 1670) é o marco da leitura crítica: ao mostrar que a Escritura deve ser lida como qualquer outro texto, retira à atribuição tradicional (Jeremias) o estatuto de autoridade e converte a autoria em problema histórico [W — Espinosa, 1670].
- Gottfried Wilhelm Leibniz, na Théodicée (1710), cunha o programa — justificar Deus no tribunal da razão — que Lamentações recusa a priori: o texto não defende Deus, queixa-se a Ele [W].
- Immanuel Kant, em “Sobre o malogro de todas as tentativas filosóficas em teodiceia” (1791), decreta o fim do programa leibniziano: a teodiceia não é objeto de demonstração, e a Job resta a honestidade de dizer a verdade sobre o seu sofrimento [W — Kant, 1791]. Lamentações é o caso paralelo: a poesia não demonstra, testemunha [W].
- J. L. Mackie, “Evil and Omnipotence” (Mind 64, 1955) [W], e William L. Rowe, “The Problem of Evil and Some Varieties of Atheism” (American Philosophical Quarterly 16, 1979) [W], formulam o argumento lógico e o evidencial do mal; lidos a partir de Lamentações, mostram que o livro não produz uma defesa, e sim a matéria-prima que as defesas tentam tratar [W].
10.2 O Livro de Jó e Lamentações
A comparação com Jó é o eixo da discussão [W]. Jó é um justo que sofre e contesta Deus num debate dialético; Lamentações é um povo culpado que sofre e ora num lamento litúrgico [W]. Gustavo Gutiérrez, On Job (Orbis, 1987) [W], sustenta que a resposta legítima ao sofrimento não é a explicação, mas a fala honesta — o que vale para os dois livros [W]. A tradição judaica aproxima-os pelo luto: ambos se leem em tempos de calamidade e recusam a retribuição imediata [W].
10.3 Violência e bode expiatório — a leitura girardiana
René Girard, em A Violência e o Sagrado (1972) e Coisas ocultas desde a fundação do mundo (1978) [W], sustenta que as sociedades em crise gerem a violência pela vitimização sacrificial de um bode expiatório — mecanismo que a Bíblia, segundo ele, expõe [W]. Lamentações dá material notável ao esquema: a cidade destruída é um corpo social desagregado pela violência (2,10; 2,20), e não há no livro nenhum sacrifício que restaure a ordem [W]. Cuidado de atribuição: Girard não escreveu comentário a Lamentações; e não encontrei fonte verificada de uma leitura girardiana dedicada ao livro [—]. A tese entra como enquadramento aplicável, não como exegese girardiana [W].
10.4 Impureza, corpo e cidade — Mary Douglas
Mary Douglas, em Pureza e Perigo (1966), mostra que as categorias de pureza e impureza organizam a ordem social: o impuro é o que não se encaixa, e a sua eliminação restaura a classificação ameaçada [W]. Lamentações usa esse vocabulário de modo perturbador: a cidade “princesa entre as províncias” torna-se viúva (1,1), e Sião é declarada impura, com a sua menstruação à vista (1,8-9, 17) [W]. O livro descreve, então, uma contaminação sem rito de purificação: enuncia a impureza e não mostra a cerimónia que a removeria [W].
10.5 A ética do lamento
Uma pergunta central, levantada por Walter Brueggemann, Theology of the Old Testament (1997) [W], é ética antes de metafísica: é legítimo protestar contra Deus? Lamentações responde que sim e faz do protesto liturgia pública — a tradição que reduz a fé à aceitação silenciosa encontra aqui uma objeção interna [W]. A questão inversa — se o lamento que aceita a culpa coletiva não legitima a violência sofrida — é o ponto em que a crítica pós-colonial e feminista ataca o texto (§11) [W].
11. Teologia — os debates
O lamento como teologia
A tese mais influente é a de Claus Westermann (Praise and Lament in the Psalms, 1965/1981; Lamentations: Issues and Interpretation, 1994) [V]: o lamento é forma de fé — falar a Deus na aflição confessa que Ele existe e ouve [V]. Israel teria construído uma teologia do lamento, não só do louvor [W].
A teologia do juízo e o seu limite
O livro ecoa a teologia deuteronomista — a catástrofe é castigo pela infidelidade (1,5, 8, 18; 4,13) — mas não fecha o círculo: em vários pontos protesta contra a desproporção do castigo (2,20-22; 5,20-22) [W]. Gerhard von Rad, na Teologia do Antigo Testamento (1957-1960) [W], observava que o lamento hebraico preserva, dentro da doutrina do juízo, uma voz que a interpela [W]; Walther Eichrodt (Theologie des Alten Testaments, 1933-1939) [W] insiste na aliança como o quadro em que a queixa se torna possível — só quem tem relação com Deus pode reclamá-lo [W].
A ausência de Deus — deus absconditus
A figura teológica central é a ocultação da face: “Tu te cobriste de nuvem, e nenhuma oração passa” (3,44) [W]. Samuel E. Balentine, The Hidden God (Oxford University Press, 1983) [W], estudou o tema como categoria teológica, não como metáfora. Aqui a ausência não é silêncio do texto — o texto fala continuamente —, é silêncio de Deus [W]. Debate: juízo (Deus retira-se porque foi ofendido) ou mistério? A tradição judaica pende para o mistério; a cristã oscila entre castigo e a derelictio de Cristo na cruz [W].
Cânon, sobrevivência e trauma
Brevard S. Childs, Introduction to the Old Testament as Scripture (Fortress, 1979) [W], propõe lê-lo como Escritura, com função canônica de dar voz ao sofrimento na comunidade da fé [W]. Walter Brueggemann (1997) vê no livro um contra-testemunho, voz que resiste à teologia oficial do triunfo [W]. Jon D. Levenson, Creation and the Persistence of Evil (Princeton, 1988/1994) [V], dá a moldura teórica: a criação é processo ameaçado pelo caos, e a destruição de Jerusalém é a irrupção do caos na ordem da aliança [V]. Tod Linafelt (2000) [V] e Kathleen O’Connor (2002) [V] deslocam o centro: o que faz de um lamento sobrevivência é manter aberta a ferida em vez de a fechar com uma moral [V] — daí a produção psicológica, ecológica e pós-colonial resumida por Heath A. Thomas, “A Survey of Research on Lamentations (2002-2012)” (Currents in Biblical Research, 2013) [V]. A objeção teológica: um livro que recusa a resolução deixa a comunidade sem resposta, e a esperança do capítulo 3 seria o centro deliberado do livro, não uma pausa [W — Westermann, 1994]. O debate entre “centro” e “abertura” é o eixo atual da exegese [W].
A leitura feminista e a cidade violada
Phyllis Trible (1984) [V] e Kathleen O’Connor (2002) [V] são os marcos: a cidade personificada sofre a violência que o texto atribui a Deus, e a crítica pergunta se a teologia do lamento legitima a violência contra a mulher ou a expõe [W]. A leitura de resistência sublinha que Sião fala — é sujeito, não objeto — e que o livro põe na boca da mulher a maior parte do lamento [W]. Objeção conservadora: a alegoria é figurativa, e cumpre não sacrificar a figura ao literalismo [W].
A leitura judaica e a leitura cristã
Judaica: Lamentações é liturgia nacional de luto, e o Eikhah Rabbah interpreta as imagens da destruição à luz das gerações posteriores [W — Sefaria]. A tradição recusa a leitura do livro como fim da relação com Deus: o lamento existe porque a aliança continua [W]. Cristã: a leitura tradicional insere o livro na Semana Santa — a cidade destruída como tipo da humanidade, o profeta como tipo de Cristo que chora —, mas a crítica sublinha o risco do supersessionismo, que substitui Israel pela Igreja e converte a catástrofe judaica em pedagogia cristã [W].
11.1. Comentaristas por esfera confessional
Esta subseção organiza o comentário a Lamentações por tradição de leitura, não por cronologia. A regra é a do método desta camada — a perspectiva se declara, não se atribui; o rótulo é metadado, não argumento (“é ateu” não refuta o que ele demonstra). Convenções: [V] conferido nesta sessão; [W] conhecido, não reconferido; [—] lacuna.
Judaica
- Rashi (1040-1105) e Ibn Ezra (1089-1167) comentaram Lamentações, em hebraico e tradução inglesa na Sefaria [V]; o comentário de Joseph Kara (séc. XI) circula em edição crítica [W].
- Eikhah Rabbah, midrash talmúdico palestinense, um dos mais antigos compilados [V — Sefaria].
- Jason Kalman (2009) [V] — a atribuição rabínica a Jeremias como construção teológica.
Católica ocidental (latina)
- Jerónimo — a Vulgata coloca Lamentações depois de Jeremias, com atribuição ao profeta, e é a fonte da participação medieval nas leituras de Trevas; Jerónimo não deixou comentário dedicado ao livro [W].
- Paschasius Radbertus (c. 785-865), abade de Corbie, Expositio in Lamentationes Hieremiae — o principal comentário carolíngio, estudado em conjunto com o de Hrabanus Maurus [V — Brill; Traditio, Cambridge].
- Nicolau de Lira (séc. XIV), Postilla litteralis [W]; Cornélio a Lapide, Commentaria (1616-1642), que cobre todo o cânon [W].
- Kathleen M. O’Connor (2002) [V] — a leitura católica contemporânea mais influente, em chave de trauma e luto.
Católica oriental e grega patrística
- Orígenes comentou Lamentações, mas não se conservou série contínua: restam fragmentos, sobretudo em catenae e em tradução latina [W]. Dizer “Orígenes comentou Lamentações todo” é erro.
- Cyril de Alexandria e Teodoreto de Ciro são citados em catena; a atribuição de comentário corrido não foi reconferida nesta sessão [—].
- A Catena in Lamentationes reúne o Oriente — mas a crítica metodológica alerta que buscar apenas séries modernas sub-representa o Oriente por construção [W].
Ortodoxa
- Alexander Lopukhin, Толковая Библия (1904-1913) — comentário russo de referência, com seção própria sobre Плач Иеремии [V — azbyka.ru].
- Orthodox Study Bible (NT 1993; completa 2008) — notas patrísticas, Lamentações incluído [W].
- A tradição ortodoxa lê o livro sobretudo pela liturgia e pela catena [W].
Protestante histórica
- João Calvino, Commentary on Jeremiah and Lamentations (praelectiones a partir de 1563) — exegese reformada, no corpus dos Commentarii; Calvino sustenta a autoria de Jeremias, que era para ele a leitura natural do prefácio da LXX [V — CCEL].
- Matthew Henry, Exposition of the Old and New Testaments (1706-1710) — o comentário devocional mais difundido no protestantismo [W].
- John Gill, Exposition of the Old Testament (1746-1766) — comentário batista erudito, com aparato rabínico [W].
Evangélica
- Iain W. Provan (1991) [V], Garrett e House (2004) [V], Robert B. Salters (2010) [V], R. K. Harrison (Vida Nova, 1980) [V] — o canal evangélico em português — e Heath A. Thomas (2013) [W].
- Assimetria declarada: a esfera evangélica domina o mercado anglófono por fato de mercado, não de mérito [W].
Não confessional (académica e de método secular)
- Hillers (1972) [V], Berlin (2002) [V], Renkema (1998) [V], Gerstenberger (2001) [V], Linafelt (2000) [V], Nancy C. Lee, The Singers of Lamentations (Brill, 2002) [V], Elie Assis (2007) [V], Philippe Guillaume (2009) [ACAD], Miriam J. Bier, “Perhaps There Is Hope” (T&T Clark, 2015) [V], Dobbs-Allsopp (2002) [V].
- Apresentam-se por método (filologia, narratologia, crítica da forma, estudos de trauma), com a perspectiva declarada como tal — nunca usadas para refutar outra esfera, nem o rótulo confessional usado para refutar o que a crítica demonstra [W].
Balanço de esferas (contagem declarada)
| Esfera | Nomes citados | Fonte primária? |
|---|---|---|
| Judaica | Rashi, Ibn Ezra, Joseph Kara [W], Eikhah Rabbah, Kalman | sim (Sefaria, Kalman) |
| Católica ocidental | Jerónimo [W], Paschasius Radbertus [V], Nicolau de Lira [W], Cornélio a Lapide [W], O’Connor [V] | sim (Paschasius, O’Connor) |
| Católica oriental / grega | Orígenes [W, fragmentos], Cyril [—], Teodoreto [—], catena | parcial (fragmentos) |
| Ortodoxa | Lopukhin [V], Orthodox Study Bible [W] | sim (Lopukhin) |
| Protestante histórica | Calvino [V], Matthew Henry [W], John Gill [W] | sim (Calvino) |
| Evangélica | Provan, House, Garrett, Harrison, Salters, Thomas | sim (todos) |
| Não confessional | Hillers, Berlin, Renkema, Gerstenberger, Linafelt, Lee, Assis, Guillaume, Bier, Dobbs-Allsopp | sim (todos) |
O desequilíbrio visível — o Oriente com fragmentos em catena, o Ocidente com séries completas desde o século IX — não é do dossiê: é do material, e por isso fica dito. Onde o Oriente não deixou comentário corrido, a lacuna se declara [—] [W].
12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não têm competência
A regra desta seção: declarar os limites. A ciência não decide se a destruição de Jerusalém foi juízo divino; decide se as afirmações factuais do texto — a queda da cidade, o incêndio do Templo, a deportação — são compatíveis com o observável.
12.1 A arqueologia da destruição de 587/586 a.C.
A evidência material da catástrofe babilónica vem hoje de três frentes [V — Lipschits, 2005]:
- Cidade de Davi. As escavações de Yigal Shiloh (1978-1985) na Área G identificaram uma espessa camada de destruição do início do século VI, com a “Casa Queimada” (Burnt Room) e a “Casa das Bulas” (House of Bullae): cinzas, pontas de flecha de bronze e ferro e selos [V — Armstrong Institute; Shiloh, 1984].
- Ofel. As escavações de Eilat Mazar (2009-2013) expuseram um nível de incêndio atribuído à destruição babilónica, com bulas de funcionários do reino de Judá [V — Mazar, The Ophel Excavations 2009-2013, vol. II].
- Monte Sião. O Mount Zion Archaeological Project de Shimon Gibson e Rafi Lewis anunciou em 2019 uma camada de cinzas com pontas de flecha e cerâmica do século VI [V — UNC Charlotte, 2019].
A evidência babilónica. A Crónica de Nabucodonosor (BM 21946, British Museum) documenta a tomada de Jerusalém em 597 a.C. — o único registo cuneiforme direto conservado sobre a cidade [W — Lipschits, 2005]. A campanha de 587/586 não está diretamente atestada nos registos cuneiformes, e a sua data fixa-se por conjugação das fontes bíblicas (2 Reis 25; Jeremias 39 e 52) com Josefo e a cronologia assírio-babilónica [W]. É conclusão robusta, mas indireta; a escolha entre 587 e 586 depende da convenção de contagem [W].
Selos e bulas. O Corpus of West Semitic Stamp Seals de Nahman Avigad e Benjamin Sass (Jerusalém, 1997) reúne os selos do período; as bulas de Jerusalém nomeiam funcionários do reino de Judá e datam dos anos anteriores à queda [W — Avigad e Sass, 1997]. O que elas não fazem: não nomeiam o geber, a Bat-Tzion nem qualquer personagem de Lamentações; identificam cargos e indivíduos do período [W].
12.2 A linguística e a datação do hebraico
Lamentações apresenta traços de hebraico bíblico tardio — vocabulário, formas verbais e aramaísmos que a escola de Avi Hurvitz, A Concise Lexicon of Late Biblical Hebrew (Brill, 2014) [V — Brill], associa à transição entre o hebraico clássico e o pós-clássico; Hurvitz usa esses marcadores para datar textos na segunda metade do século VI a.C. [W]. A objeção metodológica vem de Ian Young, Robert Rezetko e Martin Ehrensvärd, Linguistic Dating of Biblical Texts (Equinox, 2008) [V — OL]: os traços “tardios” teriam sido convencionalizados na língua literária, e a variação seria de estilo e género, não de cronologia [V]. Resultado: a datação linguística confirma a plausibilidade de uma data do século VI, mas não a demonstra [W].
12.3 A crítica textual e os testemunhos
- Qumran. Restam quatro cópias de Lamentações entre os Manuscritos do Mar Morto — 3Q3, 4Q111 (4QLam), 5Q6 e 5Q7 —, das quais 4QLam é a maior; conserva partes de 1,1-18 e difere do massorético em pontos, incluindo um possível prólogo [V — Brill, Textual History of Lamentations].
- Septuaginta. A LXX traz, além do prefácio sobre Jeremias, um arranjo dos versículos que difere do massorético, sobretudo no capítulo 1 [W — Brill].
- Massorético. O texto é bem conservado, o que faz da forma acróstica um instrumento crítico de reconstrução: onde a ordem alfabética se quebra, suspeita-se de perturbação textual [W].
12.4 Onde a ciência NÃO tem competência
- A ciência não decide se a destruição foi castigo de Javé, nem se o livro é revelado: são questões de sentido teológico, alheias ao método empírico [W].
- A arqueologia não identifica o autor, nem liga as bulas de Jerusalém a personagens do livro: nenhuma inscrição nomeia o geber ou a Bat-Tzion [W].
- A datação linguística não produz data absoluta, apenas estimativa relativa disputada [W — Young, Rezetko e Ehrensvärd, 2008].
- A crítica textual não determina por que o capítulo 5 não é acróstico: isso é interpretação, não reconstrução do texto [W].
- E a ciência não responde à teodiceia — se o sofrimento descrito é justo —, porque é questão de valor, não de facto [W].

13. Lacunas e Correções de Atribuição
- [—] Monografia PT dedicada exclusivamente a Lamentações: não localizei obra brasileira ou portuguesa com ISBN sobre o livro isolado.
- [—] Volume da Bíblia Grega de Frederico Lourenço (Quetzal) com Lamentações: volume e ISBN não confirmados nesta sessão.
- [W] Aulas de Lutero sobre Lamentações: a existência de texto editado atribuível não foi reconferida nesta sessão.
- [W] Fragmentos de Orígenes: preservados em catena e em tradução latina; não há série contínua.
- [—] Comentário corrido a Lamentações de Cyril de Alexandria e Teodoreto de Ciro: menção em catena conhecida, comentário dedicado não conferido.
- [W] Hino Great Is Thy Faithfulness: autoria de Chisholm (1923) documentada; a data da música de Runyan não foi conferida em fonte primária.
- [—] Estatísticas do texto massorético: totais de palavras e letras não conferidos.
- [—] Traduções PT dos comentários-âncora anglófonos (§7): não localizadas.
- [—] Produção audiovisual dedicada ao livro: nenhuma localizada.
- [W] Leitura girardiana: Girard não comentou o livro; não encontrei fonte verificada de leitura girardiana dedicada.
Bibliografia-âncora verificada
- Hillers, Lamentations (Anchor Bible 7A; Doubleday, 1972). [V] ISBN 978-0385007382; OL: https://openlibrary.org/isbn/9780385007382.
- Berlin, Lamentations: A Commentary (OTL; Westminster John Knox, 2002). [V] ISBN 978-0664229740; OL: https://openlibrary.org/isbn/9780664229740.
- Westermann, Lamentations: Issues and Interpretation (Fortress/T&T Clark, 1994). [V] ISBN 978-0567292261; OL: https://openlibrary.org/isbn/9780567292261.
- Provan, Lamentations (New Century Bible; Eerdmans, 1991). [V] ISBN 978-0802805478; OL: https://openlibrary.org/isbn/9780802805478.
- Salters, A Critical and Exegetical Commentary on Lamentations (ICC; T&T Clark, 2010). [V] ISBN 978-0567576514; OL: https://openlibrary.org/isbn/9780567576514.
- Renkema, Lamentations (HCOT; Peeters, 1998). [V] ISBN 978-9042906778; OL: https://openlibrary.org/isbn/9789042906778.
- Dobbs-Allsopp, Lamentations (Interpretation; WJK, 2002). [V] ISBN 978-0804231411; OL: https://openlibrary.org/isbn/9780804231411.
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- Bíblia de Jerusalém (Paulus, 2002). [V] ISBN 978-8534919777; Paulus: https://loja.paulus.com.br/biblias/biblia-de-jerusalem.
- TEB — Tradução Ecumênica da Bíblia (Loyola, 2010). [V] ISBN 978-8515030163; Loyola: https://www.loyola.com.br/produto/biblia-teb-nova-edicao-2392.
- Bíblia Pastoral — Lamentações (Paulus). [V] https://biblia.paulus.com.br/biblia-pastoral/antigo-testamento/livros-profeticos/lamentacoes.
- Sefaria — Eichah, Rashi, Ibn Ezra e Eikhah Rabbah. [V] https://www.sefaria.org/Lamentations.
- Lopukhin, Толковая Библия — Плач Иеремии (1904-1913). [V] azbyka.ru.
- Calvino, Commentary on Jeremiah and Lamentations (1563). [V] CCEL: https://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom21.iii.iv.i.html.
- Chisholm, Great Is Thy Faithfulness (1923). [V] Hymnary.org: https://hymnary.org/text/great_is_thy_faithfulness_o_god_my_fathe.
- Tallis, Lamentations of Jeremiah (c. 1560s). [V] Westminster Abbey: https://www.westminster-abbey.org/tallis-lamentations-of-jeremiah.
- Lassus, Lamentationes Hieremiae Prophetae (1585). [V] IMSLP: https://imslp.org/wiki/Lamentationes_Hieremiae_Prophetae_%C3%A0_4%2C_LV_Anh.63-71_(Lassus%2C_Orlande_de).
- Palestrina, Lamentationum Hieremiae prophetae (Roma, 1588). [V] Hyperion: https://www.hyperion-records.co.uk/dc.asp?dc=D_CDA68284.
- Krenek, Lamentatio Jeremiae Prophetae, op. 93 (1941-1942). [V] IMSLP: https://imslp.org/wiki/Lamentatio_Jeremiae_prophetae%2C_Op.93_(Krenek%2C_Ernst).
- Stravinsky, Threni: id est Lamentationes Jeremiae Prophetae (1958). [V] Boosey & Hawkes: https://www.boosey.com/cr/music/Igor-Stravinsky-Threni-id-est-Lamentationes-Jeremiae-Prophetae/6612.
- Rembrandt, Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém (1630, Rijksmuseum). [V] Rijksmuseum: https://www.rijksmuseum.nl/en/collection/object/Jeremiah-Lamenting-the-Destruction-of-Jerusalem—8e1adedeb8e339890121dc4228dce95d.
- Gibson e Lewis, Mount Zion Archaeological Project (2019). [V] UNC Charlotte: https://inside.charlotte.edu/news-features/2019-08-12/evidence-587586-bce-babylonian-conquest-jerusalem-found-mount-zion/.
- Textual History of Lamentations (Brill Reference Works). [V] https://referenceworks.brill.com/display/entries/THBO/COM-0016010000.xml.
Como conseguir estas obras
A bibliografia de um site didático não é a de uma tese: cita o que importa e o leitor consegue alcançar. O selo diz por onde — e a tabela está ordenada por acessibilidade, do que se lê hoje ao que só se compra.
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| Obra | Acesso | Onde |
|---|---|---|
| Assis, Acrostic in Lamentations (CBQ 2007) | livre | jstor.org |
| Guillaume, The Seventh Acrostic (JHS 2009) | livre | doi.org |
| Freedman, Acrostics and Metrics (HTR 1972) | livre | cambridge.org |
| Thomas, Survey of Research (2013) | livre | journals.sagepub.com |
| Kalman, If Jeremiah Wrote It (2009) | livre | scielo.org.za |
| Bíblia Pastoral (Paulus) | livre | biblia.paulus.com.br |
| Sefaria (Eichah, Rashi, Ibn Ezra, Eikhah Rabbah) | livre | sefaria.org |
| Calvino, Jeremiah and Lamentations (1563) | livre | ccel.org |
| Chisholm, Great Is Thy Faithfulness (1923) | livre | hymnary.org |
| Textual History of Lamentations (Brill) | livre | referenceworks.brill.com |
| O’Connor, Hebrew Verse Structure (1980) | empréstimo | Internet Archive |
| Watson, Classical Hebrew Poetry (1984) | empréstimo | Internet Archive |
| Hurvitz, Late Biblical Hebrew (2014) | empréstimo | Internet Archive |
| Hillers, Lamentations (1972) | empréstimo | Open Library |
| Berlin, Lamentations (2002) | empréstimo | Open Library |
| Westermann, Lamentations (1994) | empréstimo | Open Library |
| Provan, Lamentations (1991) | empréstimo | Open Library |
| Salters, Lamentations (ICC 2010) | empréstimo | Open Library |
| Renkema, Lamentations (1998) | empréstimo | Open Library |
| Dobbs-Allsopp, Lamentations (2002) | empréstimo | Open Library |
| Gerstenberger, Psalms 2 / Lamentations (2001) | empréstimo | Open Library |
| Garrett e House, Lamentations (WBC 2004) | empréstimo | Open Library |
| O’Connor, Tears of the World (2002) | empréstimo | Open Library |
| Linafelt, Surviving Lamentations (2000) | empréstimo | Open Library |
| Lee, Singers of Lamentations (2002) | empréstimo | Open Library |
| Bier, Perhaps There Is Hope (2015) | empréstimo | Open Library |
| Levenson, Persistence of Evil (1994) | empréstimo | Open Library |
| Cooper, The Curse of Agade (1983) | empréstimo | Open Library |
| Michalowski, Sumer and Ur (1989) | empréstimo | Open Library |
| Alexiou, Ritual Lament (2002) | empréstimo | Open Library |
| Kramer, Destruction of Ur (1940) | biblioteca | Open Library |
| Jahnow, Leichenlied (1923) | biblioteca | Open Library |
| Balentine, The Hidden God (1983) | biblioteca | Oxford/OL |
| Enmarch, A World Upturned (2008) | compra | Open Library |
| Trible, Texts of Terror (1984) | compra | Open Library |
| Young, Rezetko e Ehrensvärd, Linguistic Dating (2008) | compra | Open Library |
| Lipschits, Fall and Rise of Jerusalem (2005) | compra | eisenbrauns.org |
| Harrison, Jeremias e Lamentações (1980) | compra | amazon.com.br |
| Bíblia de Jerusalém (2002) | compra | loja.paulus.com.br |
| TEB (Loyola, 2010) | compra | loyola.com.br |
| Lopukhin, Толковая Библия (1904-1913) | compra | azbyka.ru |
Selo [esgotado] não aparece aqui: quando a obra não é alcançável de nenhuma forma, o texto aponta o substituto acessível ao lado dela. As obras musicais e visuais citadas em §6 são acessíveis por gravação e por reprodução nos museus indicados, e não constam da tabela de livros.