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Samuel (Shemuel) — Artigo Enciclopédico

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Você não precisa ler tudo. Escolha um degrau — cada um é um estado final satisfatório, não um fragmento de curso. A ordem abaixo não é a ordem das seções: o texto vem antes do comentário, de propósito.

Você vai precisar saber antes: que fontes são estas e como se datam

  1. 00

    A porta5–10 min

    A pergunta e a resposta rápida, sem rodeio. Ao fim você tem uma resposta utilizável e o mapa do que existe.

  2. 01

    Ler o texto15–30 min

    A passagem inteira, em duas traduções de tradições diferentes, sem comentário. Comparar as duas é o exercício que mais rende: mostra onde o original é ambíguo.

  3. 02

    O contexto20–40 min

    O mundo em que o texto surgiu: geografia, arqueologia, paralelos do Antigo Oriente Próximo.

    §2 §9

  4. 03

    O debate30–60 min

    As posições em disputa, com quem as sustenta, onde publicou e qual é a réplica.

    §4 §10

  5. 04

    A recepção30–60 min

    O que se fez do texto: Padres, medievo, tradições confessionais.

    §6 §11

  6. 05

    As quatro camadas40–90 min

    Comparação com a mitologia, as perguntas filosóficas, os debates teológicos e o que a ciência diz — e onde não tem competência.

    §9 §10 §11 §12

  7. 06

    O dossiê integral1,5–3 h

    Tudo, na ordem, mais bibliografia com selo de acesso e as lacunas assumidas.

Outras portas de entrada
  • Quero só a resposta. Pare no degrau 0 — ele é completo em si.
  • Quero conferir se é verdade. Vá ao degrau 3 (o debate) e olhe as fontes de cada afirmação, com o selo de acesso.
  • Quero ler o texto com calma. Degrau 1, com o glossário ao lado.
  • Vim da fé e quero entender. Comece pelo degrau 4 (a recepção) — reconhecer a tradição primeiro ajuda a receber a crítica sem se sentir emboscado.
  • Vim do ceticismo. Comece pelo degrau 2 (contexto e arqueologia), pelo motivo simétrico: começa pelo verificável.
Como saber se você entendeu

Ao fim de cada degrau, tente responder às três. Se as três não saem, o degrau seguinte vai confundir — volte um.

  1. Compreensão. Consigo dizer o que o texto diz, com minhas palavras?
  2. Análise. Consigo dizer qual problema este texto levanta, e por quê?
  3. Debate. Consigo dizer quem discorda de quem, e sobre o quê?

1. Lead e Ficha

Samuel (hebraico שְׁמוּאֵל, Shemuel) é, no cânon hebraico, um só livro, entre os Nevi’im (Profetas) e no bloco dos Profetas Anteriores (Josué, Juízes, Samuel, Reis). O nome segue a tradição judaica dos incipits e homenageia o profeta que unge os dois primeiros reis: a etimologia oscila entre “nome de Deus” (shem + El) e a leitura etiológica de 1 Sm 1,20, “Deus ouviu” (shama + El) (en.wiki [W]). A divisão em dois livros é posterior e não hebraica: vem da Septuaginta, que o reparte como Βασιλειῶν Α’-Β (“1-2 Reinados”, no cômputo grego que reúne Samuel e Reis em quatro volumes), e é seguida pela Vulgata de Jerônimo, onde o conjunto aparece como Regum I-IV (en.wiki [W]). Esse é o motivo pelo qual este dossiê cobre 1 e 2 Samuel como unidade: a fatia é greco-latina, não hebraica, e corta ao meio um único arco narrativo — Samuel, Saul, Davi.

A narrativa vai da crise dos juízes ao fim do reinado de Davi: monarquia, ascensão e queda de Saul, ascensão de Davi, o pecado com Bate-Seba, a guerra civil pela coroa e a promessa dinástica de 2 Sm 7 — que alimentará todo o messianismo posterior (Enter the Bible [W]). É a obra mais literária da historiografia hebraica, com personagens (Saul, Davi, Jônatas, Absalão, Natã) de rara ambiguidade moral (Alter 1999 [W]).

Ficha técnica.

CampoDatoMarcador
Nome hebraicoשְׁמוּאֵל, Shemuel[V] texto; taxonomia do projeto
Nome grego (LXX)Βασιλειῶν Α’-Β (1-2 Reinados)[W] en.wiki
Nome latino (Vulgata)Regum I-II (de um total de IV)[W] en.wiki
Posição no cânon hebraicoNevi’im — Profetas Anteriores; um só livro[W] en.wiki
Divisão em doisSecundária, de origem grega/latina[W] en.wiki
Extensão1 Samuel: 31 capítulos; 2 Samuel: 24 (55 no total)[V] texto
Idiomahebraico bíblico[V]
Autoriaanônima; tradição judaica atribui a Samuel (com Gad e Natã, 1 Cr 29,29)[W] tradição
Redaçãoparte da História Deuteronomista (DtrH)[V] Noth 1943
Datação dos estratosséc. X-VIII a.C. (fontes) a séc. VI a.C. (redação exílica)[W] síntese crítica
AmbienteSiló, Mispá, Ramá, Gilgal, Vale de Elá, Hebrom, Jerusalém[V] texto
Menção extrabíblicaEstela de Tel Dan (בית דוד, “casa de Davi”), 1993-94[V] Biran & Naveh 1993
Versão críticaBHS/BHQ (massorético; LXX e 4QSam em aparato)[V] uso padrão

2. Contexto e Autoria

A História Deuteronomista (DtrH). A hipótese hoje mais aceita é a de Martin Noth (Überlieferungsgeschichtliche Studien, Halle: Niemeyer, 1943; trad. ingl. The Deuteronomistic History, Sheffield: JSOT, 1981): Deuteronômio–Josué–Juízes–1-2 Samuel–1-2 Reis formariam uma obra historiográfica unitária e anônima, redigida no exílio babilônico (séc. VI a.C.) e teologicamente determinada pelo juízo sobre a infidelidade de Israel (Bible Odyssey [W]; BSac [W]). Samuel é a dobradiça que explica por que o povo pediu um rei e onde isso levou.

As fontes identificadas pela crítica. O marco é Leonhard Rost, Die Überlieferung von der Thronnachfolge Davids (BWANT 42; Stuttgart: Kohlhammer, 1926) [V — Internet Archive; JBL 121/1], que isolou a “História da Sucessão de Davi” (2 Sm 9-20 + 1 Rs 1-2) como obra literária autônoma, cuja pergunta central é: por que Salomão, e não um irmão mais velho, herdou o trono? (Rost 1926 [V]; JSOT 2020 [W]). Junto a ela a crítica costuma distinguir a História da Arca (1 Sm 4-6 + 2 Sm 6), a História da Ascensão de Davi (1 Sm 16 - 2 Sm 5), o ciclo Samuel-Saul (1 Sm 1-15) e o Apêndice final (2 Sm 21-24) ([W] síntese crítica padrão).

Debate de datação. As fontes mais antigas remontam aos séculos X-VIII a.C.; a redação deuteronomista situa-se no séc. VII (reforma de Josias) e sobretudo no exílio (séc. VI). A tradição judaica e boa parte da exegese confessional atribui o núcleo a Samuel com acréscimos proféticos (1 Cr 29,29) — posição que a crítica moderna geralmente rejeita como autoria global ([W] en.wiki). O texto é estratificado, com camadas que se contradizem por acúmulo redacional.

3. Estrutura (55 capítulos)

1 Samuel (31 capítulos) — três movimentos. Samuel, último juiz (1-7): nascimento e vocação (1-3); perda da arca e a “glória que partiu” (4); pragas dos filisteus e devolução (5-6); vitória em Mispá (7). Saul, o rei rejeitado (8-15): o pedido de rei (8); unção (9-10); coroação em Gilgal (11); despedida de Samuel (12); violação do herem e oráculo de rejeição (13-15). Saul e Davi (16-31): unção de Davi (16); Golias (17); Jônatas e ataques de Saul (18-23); clemência em En-Gedi (24); Nabal e Abigail (25); Zicf (26); a necromante de Endor (28); derrota e morte em Gilboa (31).

2 Samuel (24 capítulos) — três blocos e um apêndice. Davi, rei (1-10): luto por Saul e Jônatas (1); guerras entre as casas (2-4); Jerusalém e a arca (5-6); o oráculo de Natã (7); vitórias (8); Mefibosete (9); Bate-Seba, Urias e Natã (11-12). Revolta e guerra civil (15-20): Absalão toma o trono, Davi foge, Absalão morre; revolta de Seba. Apêndice (21-24): gibeonitas e heróis (21-23); censo, peste e o altar na eira de Araúna (24) — material avulso recolhido ao final ([W] síntese crítica).

4. Conteúdos-chave com Debate

4.1 A origem da monarquia e as três versões (1 Sm 8-12)

O bloco é o cavalo de batalha da crítica literária de Samuel: há relatos divergentes do mesmo evento e com avaliações opostas do rei. 1 Sm 8 — Samuel, velho, é pedido por um rei; Javé diz “não rejeitaram a ti, mas a mim”; segue o ius regis. 1 Sm 9,1-10,16 — versão favorável: Javé escolhe Saul e Samuel o unge em secreto. 1 Sm 10,17-27 — assembleia em Mispá, Saul por sorteio. 1 Sm 11,1-15 — Saul salva Jabes-Gileade dos amonitas e é aclamado em Gilgal, versão pró-monarquia e sem Samuel. 1 Sm 12 — despedida de Samuel, que retoma o tom crítico. A leitura dominante é que se justapuseram tradições pró e contra a realeza, harmonizadas pelo redator de modo a deixar intactas as tensões (BYU RSC [W]; Enter the Bible [W]). O debate: (a) as duas atitudes refletem polos teológicos genuínos; (b) são estratos em choque — a interpolação antimonárquica (8; 10,17-27; 12) contra a tradição monárquica antiga (9-10; 11) (Rost 1926 [V]; en.wiki [W]).

4.2 Saul e a rejeição da realeza (1 Sm 13-15)

Saul é o primeiro rei e o primeiro fracasso. Em 1 Sm 13, não espera Samuel e oferece o sacrifício, usurpando função sacerdotal; em 1 Sm 15, poupa Agague e o melhor do gado, violando o herem (interdito). O oráculo é taxativo: “o obedecer é melhor do que o sacrifício” (15,22); “Javé rasgou de ti o reino de Israel” (15,28) (texto [V]). Debate: a rejeição é por um só ato (15) ou por uma espiral (13 + 15 + 28)? A crítica lê o “arrependimento” divino (15,11.35) como antropomorfismo tenso e a deposição como moldura para explicar a ida a Davi ([W] síntese exegética; Greenstein, JBL 1981, apud estudo local [W]).

4.3 Davi e Golias (1 Sm 17) — a versão curta da Septuaginta

A Septuaginta de 1 Sm 17-18 é quase 40-45% mais curta que o massorético: falta 39 dos 88 versículos — justamente a segunda metade do capítulo (a apresentação de Davi a Saul, o irmão Eliab, a repetição do relato da vitória) (Emanuel Tov, The Composition of 1 Samuel 16-18… [V — PDF emanueltov.info]; TheTorah.com [W]). Implicações: (i) o texto hebraico usado pelos tradutores gregos era mais curto — provavelmente um estágio anterior; (ii) o cap. 17 massorético seria expansão posterior, e não o grego abreviação (“hipótese da adição” vs. “da omissão”, com a proposta recente de Hutton sobre reparo de rolos) (Hutton [W]); (iii) o gigante varia de altura: 4QSamᵃ pode ler “quatro côvados e um palmo” (~2 m) em vez de “seis e um palmo” (mais de 3 m) (Notre Dame News [W]). O episódio é o exemplo-modelo de que a LXX e o Mar Morto atestam um texto hebraico mais antigo e divergente do massorético (Cross; Ulrich — §4.11).

4.4 A arca (1 Sm 4-6)

A História da Arca narra a derrota contra os filisteus (4), a captura da arca, a queda de Eli e o “Icabô” — “partiu a glória de Israel” (4,21) — e a saga da arca entre os filisteus: queda de Dagom, tumores, e a devolução em carro com vacas leiteiras (5-6). A crítica lê o bloco como narrativa antiga e autônoma (silonita), integrada à obra maior para explicar por que a arca termina em Jerusalém sob Davi (2 Sm 6) ([W] síntese crítica).

4.5 A aliança davídica (2 Sm 7)

O oráculo de Natã é, para a maioria, o centro teológico de toda a obra. Davi quer construir um “casa” (templo) a Javé; Deus recusa e inverte a promessa: será Javé quem fará a Davi uma casa — dinastia perpétua (“tua casa e teu reino serão firmes para sempre”, 7,16) (texto [V]; Enter the Bible [W]; Avioz [W]). Debate: (a) o oráculo é pré-exílico (memória de corte) ou exílico (retrojeção legitimadora)? (b) Como conciliar a promessa incondicional com a teologia condicional deuteronomista (cf. 1 Rs 9,4-5)? (c) Da promessa nasce o messianismo do “filho de Davi” (Is 11,1; Jr 23,5; Sl 2; 89; 132) [W].

4.6 A “História da Sucessão” (2 Sm 9-20 + 1 Rs 1-2)

Como obra autônoma (Rost 1926 [V]), a História da Sucessão é um relato de corte quase romanesco: vai da bondade de Davi a Mefibosete à afirmação de Salomão. O pecado com Bate-Seba (2 Sm 11) e a parábola da cordeirinha (12) são a dobradiça moral (“a espada não se afastará da tua casa”, 12,10) (texto [V]). Amnom viola Tamar, Absalão se rebela, Davi perde e retoma o trono — ao custo da morte do filho. O debate: é apologia da dinastia ou crítica velada à casa real? (Rost 1926 [V]; JSOT 2020 [W]).

4.7 A estela de Tel Dan e a “casa de Davi”

Descoberta em 1993 por Gila Cook, da equipe de Avraham Biran, e publicada por Biran & Naveh no Israel Exploration Journal 43 (1993), pp. 81-98 [V — JSTOR 27926300], a estela de Tel Dan (basalto, aramaico antigo em alfabeto fenício) é a primeira evidência extrabíblica de uma dinastia de Davi: a expressão בית דוד (bytdwd, “casa de Davi”) consta da inscrição, hoje no Museu de Israel, datada do século IX a.C. (870-750 a.C.) e atribuída, provavelmente, a Hazael de Aram-Damascim (en.wiki [V]; BAS [W]). Um segundo fragmento foi achado em 1994 (Biran & Naveh, IEJ 45, 1995 [W]). Debate: minimalistas (Lemche, Davies) contestaram a leitura de bytdwd como nome dinástico e a autenticidade, mas o consenso aceita a expressão como referência à dinastia davídica — o que não prova a historicidade de todos os detalhes narrativos (BAS [W]).

4.8 A estela de Mesha (Moabita)

A Estela de Mesha (“Pedra Moabita”), em basalto negro, foi encontrada em 1868 em Dibom (Dhiban, Jordânia) e está no Louvre (AO 5066). Tem 34 linhas e celebra as vitórias do rei moabita Mesha sobre Israel e, possivelmente, Judá. Na linha 31, a leitura “casa de Davi” está na parte danificada; Lemaire & Delorme (BAR, inverno 2022) sustentam que ela se confirma, com base em nova evidência do squeeze feito antes do dano (BAS [W]). A datação oscila entre c. 840 a.C. (conexão com 2 Rs 3) e c. 810 a.C. (Lemaire & Delorme) (BAS [W]). É a segunda atestação extrabíblica candidata da dinastia davídica e dialoga com 2 Reis 3 (texto [V]).

4.9 Finkelstein & Silberman: “cronologia baixa” vs. tradicional

Finkelstein & Silberman, The Bible Unearthed (2001), sustentam a “cronologia baixa”: estratos datados pela arqueologia tradicional do séc. X a.C. (época de Davi e Salomão) seriam cerca de um século mais recentes, o que reduz a “monarquia unida” a um pequeno reino tribal das terras altas, sem grande império nem monumentalidade (en.wiki [W]; biblearchaeology.org [W]). A cronologia tradicional (Amihai Mazar e outros) mantém esses estratos no séc. X e, portanto, uma monarquia davídico-salomônica mais ampla (biblearchaeology.org [W]). Finkelstein voltou ao tema em The Forgotten Kingdom (2013) [V — academia.edu; BAR 2014]. O dossiê apresenta as duas posições: a existência de assentamentos é factual; a extensão e centralização do reino de Davi é que está em disputa (en.wiki [W]).

4.10 A necromante de Endor (1 Sm 28)

No capítulo final de Saul, o rei — que havia eliminado os necromantes (28,3) — consulta uma médium em Endor para evocar Samuel, porque “Javé não lhe respondia, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas” (28,6) (texto [V]). Há ao menos sete linhas, sintetizadas em dois estudos locais (“Exegese de 1 Samuel 28”; “Endor e Transfiguração”):

  1. Literal/tradicional — o verdadeiro Samuel apareceu por permissão excepcional de Deus: o texto diz “Samuel disse a Saul” (28,15), a profecia se cumpre (28,19; 1 Sm 31,2-6), a médium se assusta (28,12); defensores: Orígenes, Jerônimo, Agostinho, Calvino, Lutero ([W] estudo local).
  2. Demoníaca — um espírito maligno personificou Samuel; a Lei proibia a necromancia (Dt 18,10-11) e “os mortos nada sabem” (Ec 9,5); Tertuliano (De anima 57), escolásticos, puritanos (Perkins, 1608) ([W]).
  3. Psicológica — alucinação induzida por jejum, insônia e terror (“não comeu pão todo aquele dia e toda aquela noite”, 28,20); Wundt, W. James (1902), Freud, Jaynes (1976), Luhrmann (2012) ([W]).
  4. Literário-teológica — o narrador oculta a ontologia para focar a teologia (apostasia de Saul, soberania de Javé, ilegitimidade da necromancia); Alter (1981), Fokkelman (1990), Brueggemann (1990) ([W]).
  5. Mediadora (exceção soberana punitiva) — Samuel apareceu pelo poder de Deus, não da feiticeira: Agostinho, De cura pro mortuis gerenda, c. 13-15 (“não por sua própria virtude mas pelo poder divino… não para que a magia se tornasse crível, mas para que a impiedade de Saul fosse condenada”); Tomás de Aquino, ST II-II q. 95 a. 4 e Quodlibet VII a. 14 ([W] citação no estudo local).
  6. Rabinica (Talmude/Midrash) — Samuel sobe do Xeol por seu mérito; a médium vê mas não ouve: Talmude Bavli Sanhedrin 65b (R. Akiva vs. R. Yose ha-Gelili, “subiu por sua grandeza”), Chullin 7b (“os justos são maiores na morte que na vida”), Zohar Vayikra 88b-89a ([W]).
  7. Histórico-crítica — lenda etiológica que traduz práticas cananeias de necromancia para polemizar contra o sincretismo; estratigrafia: núcleo antigo (séc. X-VIII a.C.), edição Dtr1 (c. 620 a.C., v. 3 e 9), moldura Dtr2 (c. 550 a.C.); paralelos ANE: Gilgamesh XII, rituais ugaríticos dos rpum (KTU 1.161), cartas egípcias aos mortos; Wellhausen (1878), Gunkel (1917), Noth (1943) ([W]).

Todas convergem em um ponto: a necromancia é ilícita (1 Cr 10,13-14) e o episódio adverte contra buscar orientação fora da aliança.

4.11 Crítica textual: Mar Morto, Septuaginta e Massorético

Samuel é, com Jeremias, o livro do AT com as divergências textuais mais graves. Os achados de Qumran incluem 4QSamᵃ, 4QSamᵇ e 4QSamᶜ:

  • 4QSamᵇ é o mais antigo manuscrito hebraico conhecido do livro (e um dos mais antigos de Qumran), de meados do séc. III a.C. ou antes (Cross [V] — cojs.org);
  • 4QSamᵃ é o manuscrito-chave: cerca de 150 variantes, com leituras que se alinham com frequência à Septuaginta em vez do Texto Massorético — prova de que o grego traduz um texto hebraico antigo, não massorético (academia.edu [W]; Brill, Textual History of Samuel [W]).

Passagens hoje “canônicas” no massorético (como a metade de 1 Sm 17 ou blocos de 1 Sm 14) têm estágio mais curto e anterior atestado por Qumran e pela LXX (Tov [V]; Cross/Ulrich [W]). O trabalho fundador é de Frank Moore Cross e Eugene Ulrich — a edição crítica de Samuel na série Discoveries in the Judaean Desert consagrou essa prioridade do texto curto ([W] linha de pesquisa).

Saul e Davi
Saul e Davi · 1Sm 16,14-23Rembrandt, ou sua oficina, pinta 1Sm 16,14-23: Davi toca a harpa para acalmar Saul, atormentado por um espírito mau. O dossiê usa a cena porque ela abre a relação mais longa do livro — a música que consola o rei é do mesmo Davi que o substituirá, e o quadro deixa isso no silêncio entre os dois.Rembrandt or workshop · between 1650 and 1670 · óleo sobre tela · Mauritshuis, Haia (621)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

5. Temas

  • Realeza ambígua: o rei é dom de Deus e apostasia; 1 Sm 8-12 mantém as duas vozes (BYU [W]).
  • Profecia e poder: Samuel, Natã e Gade confrontam reis — a palavra profética como limite do poder (texto [V]).
  • Aliança davídica / messianismo: 2 Sm 7 funda a esperança dinástica que atravessa Salmos (2; 89; 132), profetas (Is 11,1; Jr 23,5) e o NT (Lc 1,32-33) [W].
  • Arrependimento e pecado: o Salmo 51 e o “coração contrito” derivam da tradição davídica; 2 Sm 12 é o modelo do juízo e da misericórdia (texto [V]).
  • A arca / presença divina: a glória (kavod) que parte (1 Sm 4,21) e retorna a Jerusalém (2 Sm 6) [W].
  • Guerra, violência e herem: o interdito (1 Sm 15) e a violência de corte (2 Sm 11; 13) não são idealizados ([W] Alter 1999).
  • Mulheres e poder: Ana, Mical, Abigail, Bate-Seba, Tamar, a médium de Endor — figuras que deslocam a ação e expõem o custo do poder masculino ([W] leitura narrativa corrente).
  • O Espírito de Javé: apodera-se de Saul, depois se retira (1 Sm 16,14) — teologia da eleição e da rejeição (texto [V]).

6. Recepção

Davi derruba Golias
Davi derruba Golias · 1Sm 17,38-51Gravura de Doré para 1Sm 17: Davi derruba Golias com a funda, e o texto insiste que ele recusa a armadura de Saul (1Sm 17,38-40). O dossiê usa a cena porque é o episódio que a arte transformou em imagem da força que não vem do armamento — e o ponto do capítulo é justamente a rejeição das armas do rei.Gustave Doré · 1866 · xilogravura (série Doré's English Bible, 1866) · Série Doré's English Bible (1866)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

Judaísmo. Samuel é lido nas haftarot do ano litúrgico (em Rosh Hashaná, 1 Sm 1-2), e o episódio de Endor é comentado no Talmude Bavli Sanhedrin 65b [W]. O Targum Jonathan paráfraseia o livro, e Rashi, Radak e Abarbanel discutem a moral de Saul e a legitimidade de consultar os mortos ([W]).

Cristianismo. A linhagem de Jesus passa por Davi (Mt 1,6; Lc 3,31) e o anjo anuncia que Ele herdará “o trono de Davi, seu pai” (Lc 1,32-33) [W]; Hebreus 1,5 cita 2 Sm 7,14. No NT, Davi é o pai messiânico e o modelo do rei-arrependido (texto [V]).

Davi na arte.

  • Donatello, David em mármore (c. 1408-1409) e David em bronze (c. 1435-1440), ambos no Museo Nazionale del Bargello, Florença — o bronze é a primeira estátua humana nua em bronze desde a Antiguidade (en.wiki [V]; V&A [W]).
  • Michelangelo, David (c. 1501-1504), mármore, desvelado em 8 de setembro de 1504, na Galleria dell’Accademia, Florença (galleriaaccademiafirenze.it [V]; en.wiki [V]).
  • Gian Lorenzo Bernini, David (1623-1624), mármore, na Galleria Borghese, Roma — Davi no instante de arremessar a pedra (collezionegalleriaborghese.it [V]).
  • Caravaggio (Michelangelo Merisi), David com a Cabeça de Golias (c. 1605-1610), óleo na Galleria Borghese, Roma, pintado no exílio napolitano (collezionegalleriaborghese.it [V]).

Davi no cinema e na TV.

  • David and Bathsheba (1951), dir. Henry King, com Gregory Peck (en.wiki [V]).
  • King David (1985), dir. Bruce Beresford, com Richard Gere (en.wiki [V]).
  • David (1997), telefilme da série The Bible Collection, dir. Robert Markowitz, com Nathaniel Parker (en.wiki [V]).
  • Solomon (1997), minissérie RAI dir. Roger Young, com Ben Cross e Max von Sydow como o velho Davi (en.wiki [W]).

Música. Georg Friedrich Händel, oratório Saul (HWV 53), libreto de Charles Jennens, estreado no King’s Theatre de Londres em 16 de janeiro de 1739 — inclui a célebre Dead March fúnebre (en.wiki [V]; Opera Today [W]).

Islã. Dāwūd é profeta, mensageiro de Alá e rei divinamente ungido; o Corão narra a vitória sobre Jalut (Golias) em 2:251 e refere ter-lhe dado os Zabūr (Salmos) (Quran.com [W]; en.wiki, David in Islam [W]).

Salmos e liturgia. A tradição atribui a Davi o grosso do Saltério; os Salmos 3; 18; 51; 57; 60; 63; 142 trazem rubricas ligadas a episódios de sua vida (texto [V]). Na liturgia cristã, Davi é o profeta-rei dos salmos, e os Royal Psalms alimentam a teologia do Cristo-Rei ([W] en.wiki).

Prato bizantino com Davi ungido por Samuel
Prato bizantino com Davi ungido por Samuel · 1Sm 16,1-13Prato de prata bizantino de 629-630, no Metropolitan Museum: Davi é ungido por Samuel, e o friso ao redor traz cenas de sua vida. O dossiê usa o objeto na seção de recepção porque a unção de 1Sm 16,1-13 se tornou programa imperial — Davi como modelo do rei ungido por Deus, num objeto de mesa anterior às pinturas que o acervo mostra noutros dossiês.anônimo · 629–630 · prato de prata trabalhada · The Metropolitan Museum of Art, Nova York (open access)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: CC0

7. Traduções PT e Comentários PT

Bíblias PT-BR/PT-PT (Samuel circula dentro da Bíblia completa). Cobre o livro a tradição Almeida (NT 1681; Bíblia completa 1753; revisões ARC, ARA, ACF) [W]; a Bíblia de Jerusalém (ed. brasileira da Bible de Jérusalem, Paulus/Paulinas) [W]; a TEB — Tradução Ecumênica da Bíblia (Loyola, trad. da TOB francesa) [W]; a NVI (Nova Versão Internacional) [W].

Edição bilíngue grego-português verificada. O volume V, Tomo I da Bíblia de Frederico Lourenço“Antigo Testamento: Os Livros Históricos” (Josué, Juízes, Samuel-Reis/“Reinados” e Rute, na tradição da História Deuteronomística) — foi publicado pela Quetzal Editores (Lisboa) em março de 2023, ISBN 9789897224621, 528 páginas, capa dura [V — wook.pt: ISBN, editora, data e idioma conferidos]. É a tradução moderna portuguesa da Septuaginta que cobre Samuel.

Comentários PT.

  • Joyce G. Baldwin, 1 e 2 Samuel: Introdução e Comentário (Série Cultura Bíblica), São Paulo: Vida Nova, 1996 — trad. de Márcio Loureiro Redondo [W — referência em cópia de estudo; ed. inglesa 1 and 2 Samuel, IVP, 1988 [V] Internet Archive; ISBN 8527501910 não conferido [—]].
  • Robert B. Chisholm Jr., 1 e 2 Samuel (Série Comentário Expositivo), Vida Nova, 2017, 352 p., ISBN 9788527506953 [V — ficha de varejo]; indexado na Estante Virtual [W].
  • Paulus Editora, volume “12. Segundo livro de Samuel” — página do catálogo institucional; autor, série e ISBN não conferidos [W].
  • Novo Comentário Bíblico São Jerônimo — Antigo Testamento (org. Raymond E. Brown), edição brasileira [W — inventário Tanakh 2026 v25].
O Davi de Michelangelo
O Davi de Michelangelo · 1Sm 17,32-40 (recepção)O Davi de Michelangelo, esculpido entre 1501 e 1504, mostra o jovem antes do combate de 1Sm 17 — não o vencedor com a cabeça do gigante, mas o momento em que decide enfrentá-lo. O dossiê usa a escultura para discutir a recepção do personagem: o herói de Samuel se torna, no Renascimento, imagem da cidade que se prepara para resistir.Livioandronico2013 · 2015-12-06 19:42:19 · escultura em mármore · Exposta em Florença; fotografia de Livioandronico2013, CC BY-SA 4.0Fonte: Wikimedia Commons · Licença: CC BY-SA 4.0

Obras-âncora sem tradução PT localizada. Rost (1926), Noth (1943), Alter (The David Story, 1999 [V — Internet Archive]), Tsumura (The First Book of Samuel, NICOT, Eerdmans, 2007 [V — eerdmans.com]), McCarter (AB) [W]: sem tradução portuguesa [—]. Finkelstein & Silberman, The Bible Unearthed (2001), tem versão brasileira A Bíblia não tinha razão (São Paulo: A Girafa, 2003, 520 p., ISBN 85-89876-18-7) [V — pt.wiki; Internet Archive], e a espanhola La Biblia desenterrada (Siglo XXI, 2003) [W].

8. Audiovisual e Games

TítuloDadoValidaçãoMarcador
Davi e Bate-Seba (David and Bathsheba, 1951)Henry King; Gregory Pecktítulo consagrado; dublagem histórica[V] en.wiki
Rei Davi (King David, 1985)Bruce Beresford; Richard GereBRA “Rei Davi”[V] en.wiki
David (The Bible Collection, 1997)Robert Markowitz; Nathaniel Parkertelefilme TNT[V] en.wiki
Salomão (Solomon, 1997)Roger Young; Ben Cross; Max von Sydow (Davi)minissérie RAI[W] en.wiki
Händel, Saul (1739)oratório, estreado em Londresgravações comerciais (harmonia mundi, René Jacobs) [W][V] en.wiki
FIVE: Guardians of David (Steam)action-RPG sobre a guarda de Davi, com Samuelsem localização PT-BR confirmada[W] gamingandgod
Videogame bíblico PT-BR com Samuelnão localizado[—]

Áudio PT: 1 e 2 Samuel estão integralmente em áudio na versão Almeida de domínio público (WordProject) [W] e em aplicativos de leitura (BibleProject Português) [W]. Nenhum jogo comercial localizado trata diretamente de Samuel em português; a produção PT-BR concentra-se em peças devocionais e vídeos de estudo [—].

9. Mitologia e Literatura Comparada

O método do projeto: procurar o paralelo mais próximo, datar a relação e declarar se dependência, poligenia ou resolução por um terceiro é o sustentável. Em Samuel, quatro complexos de motivos rendem comparação útil.

A consulta aos mortos (1 Sm 28) e a necromancia do ANE. O recurso de Saul à médium de Endor não é motivo isolado: pertence a um sistema documentado de culto funerário em toda a região. Na Mesopotâmia, a sombra do falecido era o gidim sumério, emprestado ao acádio como eṭemmu — a personalidade que se separa do corpo na morte e precisa ser alimentada pelos vivos (en.wiki, Ghosts in Mesopotamian religions [V]). Esse cuidado se institucionaliza no kispu (kispum), o rito periódico de oferendas aos mortos e ancestrais reais, cuja continuidade garantia a paz do eṭemmu e a bênção da casa (en.wiki [V]; a formulação de Bottéro [W]). Em Ugarit, o texto funerário KTU 1.161 convoca os rpum (rapi’ūma, os “refaim”) — mortos régios e ancestrais — num ritual de banquete, com a deusa solar Šapšu atuando como psicopompo que conduz os mortos ao Xeol (JBL 135/1, 2016 [V]). A estela de Kuttamuwa (KTMW), achada em 2008 em Sam’al/Zincirli (Turquia) pela expedição Neubauer do Oriental Institute de Chicago, é decisiva: basalto do séc. VIII a.C., inscrição em aramaico com caracteres fenícios, na qual o oficial real manda instituir um banquete anual “para a minha alma (nephesh) que está nesta estela” (Pardee, BASOR 356, 2009, pp. 51-71 [V]; Schloen & Fink, BASOR 356, 2009, pp. 1-13 [V]). É uma das atestações mais antigas, fora da Bíblia, de uma alma separável do corpo, com um local físico onde reside (University of Chicago News, 2008 [V]). É contra esse pano de fundo que Dt 18,10-11 legisla e que Is 8,19 ataca: o texto bíblico proíbe o que o kispu e a prática de Ugarit tomavam por piedade. A direção é poligenia em tronco comum — a novidade não é a crença na sobrevivência, mas a interdição legal dela como acesso ao divino (1 Cr 10,13-14).

O rei como pastor. A unção de Davi em 1 Sm 16 e o epíteto de “pastor de Israel” (2 Sm 5,2; 7,7) traduzem um título de realeza difundido no ANE. Na Mesopotâmia o rei é sipa / rē’û, o “pastor” dos “cabeças-negras”; o motivo atravessa o Código de Hammurabi, hinos reais sumérios e epítetos assírios (Westenholz, The Good Shepherd, Melammu [V]; a síntese de Laniak sobre o pastor-rei [W]). O material é comum; varia quem é o pastor — em Israel, eleito e substituído quando falha (Saul). A direção não está provada e deve ser declarada em disputa.

O combate representativo entre campeões. O duelo de 1 Sm 17 tem análogos antigos; o mais citado é a autobiografia/estátua de Idrimi, rei de Alalaḫ (séc. XV a.C.), que narra a ascensão do soberano e seus enfrentamentos pessoais (Smith, The Statue of Idrimi, ad loc. [W]). Van Seters aproximou a “História da Ascensão de Davi” de padrões narrativos do herói fugitivo (Van Seters, *The Seters, The Biblical Saga of King David, 2009 [W]). Apresentar com cautela: a tese é de Van Seters, não consenso, e a forma de 1 Sm 17 no massorético é justamente a que a Septuaginta atesta mais curta (§4.3).

A arca como receptáculo divino portátil. A arca (1 Sm 4-6; 2 Sm 6) é um cofre com querubins carregado em varas; objetos funcionais análogos existem. No Egito, os deuses eram transportados em barcas processionais (barques), santuários portáteis em forma de modelo de barco que abrigavam a imagem divina; no mundo mesopotâmico, reis conduziam imagens de divindades em procissão (BAS [V]; Falk [W]). A comparação é de função, não de forma: mesmo dispositivo de transporte, teologia anicônica — a arca faz o que a mobilidade dos deuses do entorno fazia, sem a estátua.

Os filisteus egeus. A origem egeia dos filisteus, adversários de Saul e Davi, deixou de ser só inferência textual: a genética de populações antigas confirma afluxo de linhagem relacionada à Europa no Bronze Final/Iron Age em Ascalon (Feldman et al., Science Advances 5, 2019, DOI 10.1126/sciadv.aax0061 [V]).

10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta

A monarquia e a crítica do Estado. 1 Sm 8-12 é um dos raros documentos antigos que contêm, em si, a crítica do Estado que fundam. As versões (8; 9-10,16; 10,17-27; 11; 12) são posições políticas distintas, não variações de detalhe. A pergunta que o texto força é clássica: quando o poder se concentra, quem responde por ele? A resposta é um aviso, o ius regis de 1 Sm 8,11-18 (o rei tomará filhos, campos, vinhas, rebanhos).

Espinosa e Hobbes — a teologia política. O gesto decisivo da filosofia moderna é o de Espinosa no Tractatus Theologico-Politicus (1670, publicado anonimamente), que trata as Escrituras como documento histórico e o Estado hebreu como caso de análise política: na sua leitura, o primeiro Estado hebreu foi a ascensão de uma ordem sacerdotal, e a passagem à monarquia ilustra a tensão entre poder religioso e civil (Stanford Encyclopedia of Philosophy, Spinoza’s Political Philosophy [V]). Hobbes, no Leviathan (1651), usa a monarquia hebraica como modelo do soberano que concentra o poder — avaliação oposta, método convergente. Espinosa escreve contra Hobbes que preserva o direito natural intacto (Carta a Jelles, 1674 [V]).

A “lei do rei” e a tensão com 1 Sm 8. Dt 17,14-20 permite a monarquia com limites (não multiplicar cavalos, mulheres, ouro), enquanto 1 Sm 8 a descreve como apostasia. Permitir e denunciar ao mesmo tempo é tensão estrutural, sem harmonização que não custe apagar um dos lados.

Buber e a teocracia. Martin Buber, em Königtum Gottes (A Realeza de Deus, Berlim, 1932 [V]), defende que a “teocracia” de Israel — o governo direto de Deus, sem mediador humano — foi a instituição original e autêntica, e o pedido de rei, a sua traição — a formulação mais influente da leitura anti-monárquica: a monarquia como queda, não como progresso.

A ética do poder em Davi (2 Sm 11) — e a narrativa do poder. O episódio de Bate-Seba e Urias é o teste moral do rei e o teste literário do narrador, que não julga explicitamente: encadeia “Davi enviou”, “Davi tomou”, “Davi escreveu” até a frase seca “a coisa que Davi fizera desagradou a Javé” (2 Sm 11,27). Robert Alter, em The Art of Biblical Narrative (1981 [W]) e no comentário de The David Story (1999 [V] na obra; edição PT [—]), lê isso como técnica de reticência: o poder é exposto pelo que faz, não pelo que diz. Frank Kermode (The Genesis of Secrecy, 1979 [W]) argumentou que a opacidade narrativa é parte da hermenêutica bíblica — o não-dito exige interpretação moral. A pergunta: pode o soberano ser julgado por uma lei que representa? Natã responde que sim (2 Sm 12).

O profeta contra o rei como crítica política. Samuel, Natã e Gade constituem o contrapoder institucional ao rei: a palavra profética como limite jurídico-moral do poder — o germe de uma instituição que reivindica dizer a verdade ao trono.

A amizade e o poder (Jônatas). Jônatas, herdeiro legítimo, escolhe o amigo que sabe ser o seu substituto — “tu serás rei sobre Israel, e eu o segundo depois de ti” (1 Sm 23,17): o vínculo que não cabe no cálculo do poder.

11. Teologia — os debates

Teocracia contra monarquia. Mesmo debate de Buber (§10), com voz própria na teologia: a monarquia como concessão apesar da recusa (1 Sm 8,7-9, dito com reprovação) ou como desígnio (a dinastia de 2 Sm 7). As duas coisas estão no texto, e a teologia deuteronomista as mantém em tensão.

A aliança davídica (2 Sm 7) e a recepção messiânica. O oráculo de Natã — Deus recusa a “casa” de madeira e promete a Davi uma “casa” dinástica perpétua — é o núcleo da esperança messiânica posterior: Salmos reais (2; 89; 132), o rebento davídico (Is 9; 11,1; Jr 23,5) e, no NT, o trono de Davi (Lc 1,32-33) e a citação de 2 Sm 7,14 em Hebreus 1,5. A recepção messiânica é o canal pelo qual Samuel vira texto cristológico — e é debatida, pois lê em promessa condicional um sentido que o hebraico não formula.

A judaica — Davi no Talmude e no midrash. Davi é, ao mesmo tempo, rei ideal e pecador arrependido. Ben Sira (Eclesiástico 49,4) resume a tradição: de todos os reis, “todos erraram, exceto Davi” (Ben Sira 49,4 [V]), base do midrash sobre a permanência da coroa apesar do pecado. O Talmude e o midrash discutem essa permanência e a ligação entre a linhagem davídica e o Messias. Os Salmos davídicos fazem do rei o autor da oração de Israel — o Davi-orante.

A islâmica — Dāwūd profeta e rei. No Corão, Dāwūd é ao mesmo tempo profeta e rei: vence Jālūt (Golias) em Corão 2,251 e recebe os Zabūr (Salmos) como escritura revelada. Em Corão 38,21-26 (Surata Ṣād), dois litigantes escalam o miḥrāb e pedem juízo; Davi decide e então reconhece ter falhado e pede perdão — a figura relida como advertência ao profeta-juiz (quran.com, Sad 38,21 [V]). A comparação é obrigatória; as diferenças teológicas (não há “queda” no sentido cristão) precisam ser declaradas.

A feminista — Bate-Seba, Mical, Abigail e a agência. A exegese feminista deslocou o debate: 2 Sm 11 não é história de desejo inevitável, mas de coerção de poder, e o grau de agência de Bate-Seba é a disputa. J. Cheryl Exum (Fragmented Women, 1993 [W]) e Alice Bach (Women, Seduction, and Betrayal in Biblical Narrative, 1997 [W]) leem o banho e o silêncio de Bate-Seba como submissão a um rei que tudo pode; Athalya Brenner (org., A Feminist Companion to Samuel and Kings, 1994 [W]) recolhe o debate. A leitura da “Bate-Seba sedutora” foi desmontada como projeção do olhar masculino (“Biblical Bathing Beauties” [V]; Nashim 24, 2013, Was Bathsheba the Original Bridget Jones? [V]). Mical e Abigail (1 Sm 25) agem politicamente num sistema que as trata como moeda dinástica.

A cristã — o rei como imago Dei e o “Deus de Samuel”. Na teologia cristã, o rei justo é imago Dei e o Davi-pecador-arrependido é o modelo do arrependimento (o Salmo 51 davídico). O debate sério é histórico: Marcion de Sinope (séc. II) distinguiu o Deus do Antigo Testamento (juiz, vindicativo) do Deus de Jesus (pai bondoso), com as Antíteses como prova (Ehrman [V] na exposição da doutrina). O “Deus de Samuel”, que rejeita Saul e ordena o interdito, é exatamente o material que alimentou o marcionismo — e a resposta ortodoxa (a unidade do Deus criador e redentor) definiu o cânon cristão. É história da interpretação, e a dificuldade teológica do livro é antiga e real.

11.1. Comentaristas por esfera confessional

Os debates acima são transversais; esta subseção faz o levantamento por tradição de leitura, não por cronologia — o leitor procura por esfera, e a esfera é o que situa o que ele lê. Regra de rotulagem: a perspectiva se declara, não se atribui; quando o autor não se declarou, descreve-se o método da obra, nunca a crença pessoal. O rótulo é metadado, não argumento: “é católico” não refuta o que ele demonstra, “é ateu” também não. Marcadores: [V] conferido, [W] conhecido não conferido por fonte primária, [—] lacuna.

Uma advertência sobre a assimetria deste livro. Samuel não recebeu a mesma cobertura patrística que o Pentateuco. Orígenes não deixou homilias sobreviventes sobre Samuel e não há comentário contínuo grego do livro; a via oriental para Samuel é a catena (fragmentos dos Padres compilados versículo a versículo), não uma série exegética contínua. Quem cobriu Samuel em forma contínua foram os latinos — sobretudo Beda. Dizer isso é o resultado da pesquisa, não uma desculpa.

1. Católico ocidental (latino)

Patrística latina.

  • Beda, In primam partem Samuhelis (libri IV) — o comentário a 1 Samuel, a fonte patrística latina principal sobre este livro; listado pelo próprio Beda no catálogo de suas obras [V — List of works by Bede, en.wiki; Westgard, Bede Bibliography, CPL]. O mesmo Beda deixou In Regum librum XXX quaestiones (trinta questões sobre os Reis) [V — idem].
  • Isidoro de Sevilha, Quaestiones in Vetus Testamentum (c. 612–615), cobrindo Samuel entre os livros históricos [V — catálogo de manuscritos, Bodleian medieval.bodleian.ox.ac.uk].
  • Agostinho — não comentou Samuel em forma contínua, mas usa Samuel extensamente em De civitate Dei (a monarquia, Davi, a promessa de 2 Sm 7) e em Contra Faustum (a defesa do AT contra o maniqueísmo) [W].

Medieval.

  • A Glossa Ordinaria (escola de Laon, séc. XII) — a compilação que fez do comentário bíblico padrão da Idade Média; Samuel aí aparece glosado entre os livros históricos [V — Glossa ordinaria, Klumpenhouwer/Emmaus Academic].
  • Nicolau de Lira, Postilla litteralis (c. 1322–1331) — separa o sentido literal e será canal para Lutero [W].
  • Cornélio a Lapide, Commentaria in omnes Sacrae Scripturae libros (1616–1642) — o grande comentário jesuíta e o mais influente do período católico [W]. A Sacra Pagina e o Novo Comentário Bíblico São Jerônimo prolongam essa linhagem no séc. XX [W].

2. Católico oriental e grego patrístico

  • Teodoreto de Ciro, Quaestiones in libros Regnorum (séc. V) — comentário por questões aos livros dos Reis, incluindo Samuel; alinha-se à escola antioquena (literal-histórica), contra a alegoria alexandrina [V — catholiclibrary.org, Quaestiones in libros Regnorum et Paralipomenon].
  • João Crisóstomo — não escreveu comentário contínuo a Samuel; usa Davi e Saul nas homilias morais e nos tratados sobre realeza, e é o exegeta antioqueno mais citado na liturgia [W].
  • Efrém o Sírio — tradição siríaca; seus comentários contínuos localizados são a Gênesis e o Diatessaron, não Samuel [— para Samuel].
  • As catenae gregas aos Reis — a via grega a Samuel: os fragmentos dos Padres reunidos por versículo, atribuídos a quem os compilou, não aos Padres citados [W].

3. Ortodoxo

A tradição ortodoxa lê por catena, pela liturgia e pelos Padres, e não por comentário crítico moderno. Procurar “o comentário ortodoxo de Samuel” é procurar coleções de catenae, homiliários e compilações — não uma série no sentido protestante.

  • Catena sobre os Reis — usada como fonte primária da exegese ortodoxa de Samuel [W]; a Catena aurea de Tomás de Aquino é útil mesmo fora da tradição porque reúne os gregos em latim — e é compilação feita por Aquino, não comentário de Aquino [V — en.wiki, Catena].
  • Alexander Lopukhin, Толковая Библия (Bíblia Explicativa, 12 vol., São Petersburgo, 1904–1913) — a grande compilação russa; cobre Samuel [V — discussão Logos/community.logos.com].
  • Orthodox Study Bible (Thomas Nelson, 2008) — Bíblia de estudo ortodoxa com anotações patrísticas, tradução do AT pela Septuaginta [V — en.wiki, Orthodox Study Bible].

4. Protestante

  • João Calvino, Commentary on 1–2 Samuel (os Commentarii, mais os sermões sobre Samuel publicados pela Banner of Truth) — a exposição reformada de referência [W].
  • Matthew Henry, Exposition of the Old and New Testaments (1706–1710) — o mais difundido dos comentários puritanos [V — Wikisource, An Exposition…].
  • Keil–Delitzsch, Biblical Commentary on the Books of Samuel (Edimburgo: T&T Clark, 1868) — o grande comentário do séc. XIX [V — HathiTrust, catálogo].
  • P. Kyle McCarter, Jr., I Samuel (Anchor Bible vol. 8, 1980) e II Samuel (vol. 9, 1984) — hoje o padrão técnico sobre o texto hebraico em confronto com a Septuaginta e os manuscritos do Mar Morto [V — catálogo U. Arkansas / Archive.org].
  • Robert D. Bergen, 1, 2 Samuel (New American Commentary, 1996) [W].
  • Joyce G. Baldwin, 1 and 2 Samuel (Tyndale OT Commentaries, IVP, 1988; PT: 1 e 2 Samuel, Série Cultura Bíblica, Vida Nova, 1996) [V — Archive.org; ed. PT conforme §7].

5. Evangélica

Critério declarado: as séries críticas e expositivas de editoras e linhas evangélicas (NAC, TOTC, NICOT, NIVAC, EBC), com aparato filológico e bibliografia de primeira mão. Conferido nesta sessão no Open Library, com editora e ano no registro:

  • Robert D. Bergen, 1, 2 Samuel (New American Commentary 7; Broadman & Holman, 1996) [V — OL 9780805401073] — já listado na esfera protestante acima, por série; conta uma única vez, aqui.
  • Joyce G. Baldwin, 1 and 2 Samuel: An Introduction and Commentary (TOTC; Inter-Varsity Press, 1988) [V — catálogo OL]; em português, 1 e 2 Samuel: introdução e comentário (Série Cultura Bíblica; Vida Nova, ISBN 9788527501910) [V — catálogo da editora e livrarias BR; a edição PT já registrada na esfera protestante acima, pelo Archive.org, é de 1996 — as duas listagens divergem no ano e por isso o ano não é afirmado aqui].
  • Bill T. Arnold, 1 & 2 Samuel (NIV Application Commentary; Zondervan, 2003) [V — OL 9780310210863].
  • David Toshio Tsumura, The First Book of Samuel (NICOT; Eerdmans, 2007) [V — catálogo OL]: a leitura filológico-discursiva de 1 Samuel, atenta ao discurso direto.
  • Dale Ralph Davis, 1 Samuel: Looking on the Heart (Focus on the Bible; Christian Focus, 2003) [V — catálogo OL]: exposição pastoral, no formato da série.
  • Ronald F. Youngblood, 1, 2 Samuel (Expositor’s Bible Commentary 3; Zondervan, 1992) [W — o registro no Open Library é a edição revisada de 2017, com Longman e Garland como editores de série, não a original].

Fronteira declarada: P. Kyle McCarter Jr. (Anchor Bible) permanece na esfera protestante acima — é crítica textual de linha acadêmica geral, não série evangélica.

6. Ateu, agnóstico e não confessional

Categoria a manejar com cuidado: crítica bíblica de método secular não é o mesmo que polêmica de divulgação, e a posição pessoal de cada autor só se registra se ele a declarou. Sem declaração, descreve-se o método da obra.

  • Thomas L. ThompsonThe Historicity of the Patriarchal Narratives (1974) e The Mythic Past (1999), pedra do minimalismo da Escola de Copenhague; a obra é de método histórico-crítico e naturalista [V — H-Net review; en.wiki, Thomas L. Thompson]. Nenhuma declaração pessoal de crença foi localizada nesta consulta: descreve-se o método, não o rótulo [— para a crença pessoal].
  • Niels Peter Lemche, The Old Testament between Theology and History (Westminster John Knox, 2008) [V — Bible Interp / resenha].
  • Israel FinkelsteinThe Bible Unearthed (com Silberman, 2001; PT: A Bíblia não tinha razão, A Girafa, 2003) e The Forgotten Kingdom (2013): a “cronologia baixa” e a historicidade de Davi lidas pela arqueologia, em método não confessional [V — en.wiki; academia.edu]. Finkelstein é arqueólogo: rotulá-lo pela crença é erro de categoria.
  • Robert Alter, The David Story: A Translation with Commentary of 1 and 2 Samuel (Norton, 1999) — leitura literária não confessional: tradução e comentário filológico-literário que trata a narrativa como obra de arte verbal (motivo-tipo, Leitwort, ambiguidade), não como documento dogmático nem como ilustração devocional [V — Internet Archive; resenhas]. Descreve-se a abordagem da obra; não se rotula a crença do autor — o próprio Alter não se apresenta como comentarista confessional.
  • Philip R. Davies (In Search of ‘Ancient Israel’, 1992) e Keith W. Whitelam (The Invention of Ancient Israel, 1996) completam o arco minimalista [W].

7. Judaico e islâmico (vozes próprias, não pano de fundo cristão)

A leitura judaica e a islâmica já aparecem nos debates acima (§11): aqui apenas os seus comentaristas, para que não fiquem diluídos na seção cristã.

  • Radak (David Kimhi) — comentou Samuel entre os Profetas Anteriores [W]. A §6 registra que Rashi, Radak e Abarbanel discutem a moral de Saul e a necromancia de Endor [W].
  • Isaac Abravanelcomentário aos Profetas Anteriores, impresso pela primeira vez em Pesaro, 1512 [W — Haas, JSIJ].
  • Gersonides — também comentou os Profetas Anteriores [W].
  • IslãDāwūd no Corão 2,251 (vitória sobre Jālūt/Golias) e 38,21-26 (o julgamento dos dois litigantes no miḥrāb) [V — quran.com, Ṣād 38,21]; Ṭabarī e Ibn Kathīr comentam o episódio no tafsīr [W].

Contagem por esfera e desequilíbrio declarado

  • Católico ocidental (latino): 7 — Beda (In primam partem Samuhelis; XXX quaestiones), Isidoro, Agostinho, Glossa Ordinaria, Nicolau de Lira, Cornélio a Lapide (+ Sacra Pagina; São Jerônimo).
  • Católico oriental / grego patrístico: 4 — Teodoreto, Crisóstomo, Efrém, catenae gregas aos Reis.
  • Ortodoxo: 3 — catena sobre os Reis, Lopukhin, Orthodox Study Bible.
  • Protestante: 4 — Calvino, Matthew Henry, Keil–Delitzsch, McCarter.
  • Evangélica: 6 — Bergen, Baldwin, Arnold, Tsumura, Davis, Youngblood (+ as séries NICOT/NAC/TOTC/EBC).
  • Ateu / agnóstico / não confessional: 6 — Thompson, Lemche, Finkelstein, Alter, Davies, Whitelam.
  • Judaico: 3 (Radak, Abravanel, Gersonides; mais Rashi em §6). Islâmico: 3 (Corão, Ṭabarī, Ibn Kathīr).

O desequilíbrio é real e tem causa textual. O Ocidente latino domina porque Beda e a Glossa deram a Samuel uma cobertura contínua que o Oriente grego nunca teve — o Oriente cobre Samuel por catena. A esfera protestante-evangélica moderna domina a bibliografia por mercado anglófono, não por mérito exegético. Nenhuma das duas coisas deve ser lida como juízo sobre o valor das tradições: é o que a pesquisa sobre Samuel devolve, e o silêncio do Oriente nesta subseção reflete uma lacuna de fontes, não uma ausência de leitura.

Catena e compilações estão atribuídas a quem as compilou, não a quem as reúne. Nenhuma obra, ano ou página foi inventado; “p.” só aparece onde conferido.

12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não têm competência

A regra da seção. A ciência não decide se o texto é revelado; decide se uma afirmação factual do texto é compatível com o observado.

Arqueologia de Jerusalém — a Cidade de Davi, os degraus e o Millô. O sítio ao sul do Monte do Templo contém a Stepped Stone Structure (estrutura em degraus, Area G), de cerca de 18 m, escavada por Macalister, Kenyon e Shiloh, e a Large Stone Structure, escavada por Eilat Mazar (2005-2007) e proposta como parte de um palácio real do séc. X a.C. (en.wiki, Large Stone Structure [V]). Mazar conecta as duas ao Millô (“Enchimento”, 2 Sm 5,9), o aterro que delimita a construção de Davi (en.wiki [V]). A identificação é disputada, não resolvida.

Mazar vs. Finkelstein e o que o radiocarbono decide. Em 2007, Israel Finkelstein, Ze’ev Herzog, David Ussishkin e Lily Singer-Avitz rebaixaram a datação de Mazar e negaram que as duas estruturas formem um conjunto, sugerindo data helenística para a parte superior dos degraus; Amihai Mazar respondeu e William G. Dever apoiou a leitura do séc. X (en.wiki [V]; Faust, ZDPV 126, 2010 [V]). O radiocarbono não “resolve” a questão do reino unido: o problema é de calibração e contexto estratigráfico, não de medição. O debate do Ferro IIA opõe a cronologia baixa de Finkelstein e Piasetzky à cronologia convencional modificada de A. Mazar, com Tel Rehov como sítio-âncora (Finkelstein & Piasetzky, Tel Aviv 30, 2003 [V]; A. Mazar, Levant 29, 1997 [V]; resolução proposta em Mazar, The Bible and Radiocarbon Dating, 2005 [V]). As 68 datas que deslocariam o Ferro IIA de c. 1000 para c. 900 a.C. são o coração do desacordo (Radiocarbon [V]). A curva de calibração e os conjuntos interlaboratoriais (IVC) permitem comparar — mas atribuir uma data a um estrato ainda depende de julgamento arqueológico. Finkelstein voltou ao tema em The Forgotten Kingdom (2013 [V]), revendo para baixo a extensão da monarquia unida; a estratigrafia de Megiddo, Gezer e Hazor é o campo da disputa (Finkelstein et al., NEA 74, 2011 [V]; A. Mazar, NEA 74, 2011 [V]). A existência de assentamentos é fato; a extensão e a centralização do reino de Davi são interpretação.

Epigrafia — a inscrição de Gate e o nome de Golias. Em 2005, a equipe de Aren Maeir em Tel es-Safi (a Gate filisteia) achou um fragmento de cerâmica com dois nomes não semíticos em escrita proto-cananeia, ALWT e WLT, que Maeir relacionou a “um Golias, ou antes, a dois nomes do tipo Golias” (Hasel, Biblical Research Institute [V]; blog oficial da escavação [V]). Não é o Golias bíblico nomeado — é a onomaística filisteia que torna o nome atestado. Atestação de nome não é atestação de pessoa.

A leitura de bytdwd em Tel Dan, com a controvérsia. A leitura “Casa de Davi” é a da maioria, mas é disputada: a ausência de divisor entre byt e dwd, e o sentido do próprio dwd (“amado”, “tio”, ou lugar). Lemche e George Athas propuseram ler bytdwd como topônimo (a própria “Cidade de Davi”); Davies e Stavrakopoulou contestam que a expressão prove a historicidade de Davi ou um reino unido do séc. IX (en.wiki, Tel Dan stele [V]). Rainey sustenta que a ausência de divisor é irrelevante e Garfinkel classifica as alternativas como implausíveis (en.wiki [V]). O estado honesto: a estela é genuína e atesta uma dinastia chamada “casa de Davi”; ela não prova os detalhes narrativos de Samuel nem a extensão do reino.

Genética do Levante. O DNA antigo mostra que as populações “cananeias” do Bronze Final formam um grupo geneticamente coerente, com continuidade substancial até as populações levantinas atuais (Agranat-Tamir et al., Cell 181, 2020 [V]; Haber et al., AJHG 101, 2017, pp. 274-282 [V]). Onde a genética NÃO tem competência: ela não identifica a linhagem de indivíduos nomeados — Davi, Saul, Golias —, pois trabalha com populações, não biografias.

Crítica textual — LXX, TM e a recensão kaige. Samuel é, com Jeremias, o livro do AT com as divergências textuais mais graves (§4.3 e §4.11 deram o caso de 1 Sm 17 e os rolos 4QSam). A camada científica que falta nomear é a da crítica textual como disciplina histórica: a Septuaginta de Samuel-Reis contém seções recensionais — a recensão kaige (que usa kaige para traduzir o hebraico gam), identificada por Dominique Barthélemy em Les devanciers d’Aquila (1963 [V]). O trabalho fundador sobre Samuel é de Frank Moore Cross e Eugene Ulrich (§4.11), com edição crítica na série Discoveries in the Judaean Desert [W]; o problema “proto-luciânico” em 1 Samuel tem estudo próprio (Kauhanen, dissertação, Helsinque [V]). Onde a crítica textual NÃO tem competência: ela diz qual testemunho é anterior, não qual é verdadeiro historicamente — reconstruir o texto mais antigo não decide o que aconteceu, só o que se escreveu primeiro.

Samuel unge Davi, em Dura Europos
Samuel unge Davi, em Dura Europos · 1Sm 16,1-13Painel WC3 da sinagoga de Dura Europos (século III, Síria): Samuel unge Davi na presença de seus irmãos, cena de 1Sm 16,1-13. O dossiê usa o painel na seção de ciência porque, além de ser um dos testemunhos mais antigos da cena, ele mostra que o ciclo de Samuel já tinha iconografia própria numa sinagoga da fronteira romana no século III.reworked by Marsyas · 3 rd century AD · pintura mural (século III) · Sinagoga de Dura Europos, Síria (painel WC3)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

13. Lacunas e Correções de Atribuição

  1. [—] Autoria “samuelita”. Não se atribui a Samuel como autor global; a crítica sustenta composição estratificada (fontes + redação deuteronomista). “Samuel escreveu 1 e 2 Samuel” deve ser corrigido para “tradição judaica” (1 Cr 29,29).
  2. [—] Números massoréticos exatos de versículos/palavras de Samuel: não conferidos nesta sessão; evitados.
  3. [W] Datação de Tel Dan e Mesha. Tel Dan: 870-750 a.C. (consenso: séc. IX); Mesha: c. 840 a.C. ou c. 810 a.C. — a disputa entre as duas datas não deve ser fixada de memória.
  4. [—] Relação entre 4QSamᵃ, LXX e SM. 4QSamᵃ alinhado à LXX (academia.edu [W]); a contagem exata de cópias de Samuel em Qumran não foi conferida e não é citada.
  5. [—] Comentário crítico acadêmico de Samuel em PT-BR. Localizados Baldwin (Vida Nova, 1996) e Chisholm (Vida Nova, 2017) [V/W]; o volume de Paulus (“Segundo livro de Samuel”) permanece sem autor/ISBN — lacuna de catalogação das séries PT.
  6. [W] “Davi autor de todos os Salmos”. A atribuição é tradicional (rubricas), não histórica.
  7. [—] Händel e 2 Samuel. O libreto de Saul extrai sobretudo de 1 Samuel; registrar a fonte já conferida e não estendê-la a 2 Samuel.
  8. [—] Jogos PT-BR de Samuel. Ausência confirmada em ≥2 tentativas de busca; não se inventa título.
A estela de Tel Dan
A estela de Tel Dan · contexto epigráfico (séc. IX a.C.)A estela aramaica encontrada em Tel Dan, exposta no Museu de Israel, menciona a casa de Davi — a mais antiga referência extra-bíblica ao nome da dinastia. O dossiê a usa na seção de ciência porque o que ela documenta é a existência de um reino de Judá governado por uma dinastia chamada casa de Davi no século IX a.C., não os episódios narrados nos capítulos 16 a 31.Oren Rozen · 2016-01-30 11:55:30 · pedra basáltica com inscrição aramaica (séc. IX a.C.) · Museu de Israel, Jerusalém; fotografia de Oren Rozen, CC BY-SA 4.0Fonte: Wikimedia Commons · Licença: CC BY-SA 4.0

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ObraAcessoOnde
Noth, Überlieferungsgeschichtliche Studien (Niemeyer, 1943). trad. ingl. The Deuteronomistic His…livrebibleodyssey.org
Estela de Mesha (Louvre AO 5066)livrebiblicalarchaeology.org
Tov, “The Composition of 1 Samuel 16-18 in the Light of the Septuagint”livrethetorah.com
Cross (4QSamᵇ, séc. III a.C.)livrecojs.org
Avioz, Nathan’s Oracle (2 Samuel 7) and Its Interpreterslivrejhsonline.org
Rost, Die Überlieferung von der Thronnachfolge Davids (Kohlhammer, 1926)empréstimoInternet Archive
Alter, The David Story (Norton, 1999)empréstimoInternet Archive
Biran & Naveh, “An Aramaic Stele Fragment from Tel Dan”, IEJ 43 (1993), 81-98bibliotecajstor.org
Tsumura, The First Book of Samuel (NICOT; Eerdmans, 2007)compraeerdmans.com
Lourenço (trad.), Bíblia — Volume V, Tomo I: Os Livros Históricos (Quetzal, 2023), ISBN 97898972…comprawook.pt

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