Antiguidade Bíblica
Samuel (Shemuel) — Artigo Enciclopédico
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1. Lead e Ficha
Samuel (hebraico שְׁמוּאֵל, Shemuel) é, no cânon hebraico, um só livro, entre os Nevi’im (Profetas) e no bloco dos Profetas Anteriores (Josué, Juízes, Samuel, Reis). O nome segue a tradição judaica dos incipits e homenageia o profeta que unge os dois primeiros reis: a etimologia oscila entre “nome de Deus” (shem + El) e a leitura etiológica de 1 Sm 1,20, “Deus ouviu” (shama + El) (en.wiki [W]). A divisão em dois livros é posterior e não hebraica: vem da Septuaginta, que o reparte como Βασιλειῶν Α’-Β’ (“1-2 Reinados”, no cômputo grego que reúne Samuel e Reis em quatro volumes), e é seguida pela Vulgata de Jerônimo, onde o conjunto aparece como Regum I-IV (en.wiki [W]). Esse é o motivo pelo qual este dossiê cobre 1 e 2 Samuel como unidade: a fatia é greco-latina, não hebraica, e corta ao meio um único arco narrativo — Samuel, Saul, Davi.
A narrativa vai da crise dos juízes ao fim do reinado de Davi: monarquia, ascensão e queda de Saul, ascensão de Davi, o pecado com Bate-Seba, a guerra civil pela coroa e a promessa dinástica de 2 Sm 7 — que alimentará todo o messianismo posterior (Enter the Bible [W]). É a obra mais literária da historiografia hebraica, com personagens (Saul, Davi, Jônatas, Absalão, Natã) de rara ambiguidade moral (Alter 1999 [W]).
Ficha técnica.
| Campo | Dato | Marcador |
|---|---|---|
| Nome hebraico | שְׁמוּאֵל, Shemuel | [V] texto; taxonomia do projeto |
| Nome grego (LXX) | Βασιλειῶν Α’-Β’ (1-2 Reinados) | [W] en.wiki |
| Nome latino (Vulgata) | Regum I-II (de um total de IV) | [W] en.wiki |
| Posição no cânon hebraico | Nevi’im — Profetas Anteriores; um só livro | [W] en.wiki |
| Divisão em dois | Secundária, de origem grega/latina | [W] en.wiki |
| Extensão | 1 Samuel: 31 capítulos; 2 Samuel: 24 (55 no total) | [V] texto |
| Idioma | hebraico bíblico | [V] |
| Autoria | anônima; tradição judaica atribui a Samuel (com Gad e Natã, 1 Cr 29,29) | [W] tradição |
| Redação | parte da História Deuteronomista (DtrH) | [V] Noth 1943 |
| Datação dos estratos | séc. X-VIII a.C. (fontes) a séc. VI a.C. (redação exílica) | [W] síntese crítica |
| Ambiente | Siló, Mispá, Ramá, Gilgal, Vale de Elá, Hebrom, Jerusalém | [V] texto |
| Menção extrabíblica | Estela de Tel Dan (בית דוד, “casa de Davi”), 1993-94 | [V] Biran & Naveh 1993 |
| Versão crítica | BHS/BHQ (massorético; LXX e 4QSam em aparato) | [V] uso padrão |
2. Contexto e Autoria
A História Deuteronomista (DtrH). A hipótese hoje mais aceita é a de Martin Noth (Überlieferungsgeschichtliche Studien, Halle: Niemeyer, 1943; trad. ingl. The Deuteronomistic History, Sheffield: JSOT, 1981): Deuteronômio–Josué–Juízes–1-2 Samuel–1-2 Reis formariam uma obra historiográfica unitária e anônima, redigida no exílio babilônico (séc. VI a.C.) e teologicamente determinada pelo juízo sobre a infidelidade de Israel (Bible Odyssey [W]; BSac [W]). Samuel é a dobradiça que explica por que o povo pediu um rei e onde isso levou.
As fontes identificadas pela crítica. O marco é Leonhard Rost, Die Überlieferung von der Thronnachfolge Davids (BWANT 42; Stuttgart: Kohlhammer, 1926) [V — Internet Archive; JBL 121/1], que isolou a “História da Sucessão de Davi” (2 Sm 9-20 + 1 Rs 1-2) como obra literária autônoma, cuja pergunta central é: por que Salomão, e não um irmão mais velho, herdou o trono? (Rost 1926 [V]; JSOT 2020 [W]). Junto a ela a crítica costuma distinguir a História da Arca (1 Sm 4-6 + 2 Sm 6), a História da Ascensão de Davi (1 Sm 16 - 2 Sm 5), o ciclo Samuel-Saul (1 Sm 1-15) e o Apêndice final (2 Sm 21-24) ([W] síntese crítica padrão).
Debate de datação. As fontes mais antigas remontam aos séculos X-VIII a.C.; a redação deuteronomista situa-se no séc. VII (reforma de Josias) e sobretudo no exílio (séc. VI). A tradição judaica e boa parte da exegese confessional atribui o núcleo a Samuel com acréscimos proféticos (1 Cr 29,29) — posição que a crítica moderna geralmente rejeita como autoria global ([W] en.wiki). O texto é estratificado, com camadas que se contradizem por acúmulo redacional.
3. Estrutura (55 capítulos)
1 Samuel (31 capítulos) — três movimentos. Samuel, último juiz (1-7): nascimento e vocação (1-3); perda da arca e a “glória que partiu” (4); pragas dos filisteus e devolução (5-6); vitória em Mispá (7). Saul, o rei rejeitado (8-15): o pedido de rei (8); unção (9-10); coroação em Gilgal (11); despedida de Samuel (12); violação do herem e oráculo de rejeição (13-15). Saul e Davi (16-31): unção de Davi (16); Golias (17); Jônatas e ataques de Saul (18-23); clemência em En-Gedi (24); Nabal e Abigail (25); Zicf (26); a necromante de Endor (28); derrota e morte em Gilboa (31).
2 Samuel (24 capítulos) — três blocos e um apêndice. Davi, rei (1-10): luto por Saul e Jônatas (1); guerras entre as casas (2-4); Jerusalém e a arca (5-6); o oráculo de Natã (7); vitórias (8); Mefibosete (9); Bate-Seba, Urias e Natã (11-12). Revolta e guerra civil (15-20): Absalão toma o trono, Davi foge, Absalão morre; revolta de Seba. Apêndice (21-24): gibeonitas e heróis (21-23); censo, peste e o altar na eira de Araúna (24) — material avulso recolhido ao final ([W] síntese crítica).
4. Conteúdos-chave com Debate
4.1 A origem da monarquia e as três versões (1 Sm 8-12)
O bloco é o cavalo de batalha da crítica literária de Samuel: há relatos divergentes do mesmo evento e com avaliações opostas do rei. 1 Sm 8 — Samuel, velho, é pedido por um rei; Javé diz “não rejeitaram a ti, mas a mim”; segue o ius regis. 1 Sm 9,1-10,16 — versão favorável: Javé escolhe Saul e Samuel o unge em secreto. 1 Sm 10,17-27 — assembleia em Mispá, Saul por sorteio. 1 Sm 11,1-15 — Saul salva Jabes-Gileade dos amonitas e é aclamado em Gilgal, versão pró-monarquia e sem Samuel. 1 Sm 12 — despedida de Samuel, que retoma o tom crítico. A leitura dominante é que se justapuseram tradições pró e contra a realeza, harmonizadas pelo redator de modo a deixar intactas as tensões (BYU RSC [W]; Enter the Bible [W]). O debate: (a) as duas atitudes refletem polos teológicos genuínos; (b) são estratos em choque — a interpolação antimonárquica (8; 10,17-27; 12) contra a tradição monárquica antiga (9-10; 11) (Rost 1926 [V]; en.wiki [W]).
4.2 Saul e a rejeição da realeza (1 Sm 13-15)
Saul é o primeiro rei e o primeiro fracasso. Em 1 Sm 13, não espera Samuel e oferece o sacrifício, usurpando função sacerdotal; em 1 Sm 15, poupa Agague e o melhor do gado, violando o herem (interdito). O oráculo é taxativo: “o obedecer é melhor do que o sacrifício” (15,22); “Javé rasgou de ti o reino de Israel” (15,28) (texto [V]). Debate: a rejeição é por um só ato (15) ou por uma espiral (13 + 15 + 28)? A crítica lê o “arrependimento” divino (15,11.35) como antropomorfismo tenso e a deposição como moldura para explicar a ida a Davi ([W] síntese exegética; Greenstein, JBL 1981, apud estudo local [W]).
4.3 Davi e Golias (1 Sm 17) — a versão curta da Septuaginta
A Septuaginta de 1 Sm 17-18 é quase 40-45% mais curta que o massorético: falta 39 dos 88 versículos — justamente a segunda metade do capítulo (a apresentação de Davi a Saul, o irmão Eliab, a repetição do relato da vitória) (Emanuel Tov, The Composition of 1 Samuel 16-18… [V — PDF emanueltov.info]; TheTorah.com [W]). Implicações: (i) o texto hebraico usado pelos tradutores gregos era mais curto — provavelmente um estágio anterior; (ii) o cap. 17 massorético seria expansão posterior, e não o grego abreviação (“hipótese da adição” vs. “da omissão”, com a proposta recente de Hutton sobre reparo de rolos) (Hutton [W]); (iii) o gigante varia de altura: 4QSamᵃ pode ler “quatro côvados e um palmo” (~2 m) em vez de “seis e um palmo” (mais de 3 m) (Notre Dame News [W]). O episódio é o exemplo-modelo de que a LXX e o Mar Morto atestam um texto hebraico mais antigo e divergente do massorético (Cross; Ulrich — §4.11).
4.4 A arca (1 Sm 4-6)
A História da Arca narra a derrota contra os filisteus (4), a captura da arca, a queda de Eli e o “Icabô” — “partiu a glória de Israel” (4,21) — e a saga da arca entre os filisteus: queda de Dagom, tumores, e a devolução em carro com vacas leiteiras (5-6). A crítica lê o bloco como narrativa antiga e autônoma (silonita), integrada à obra maior para explicar por que a arca termina em Jerusalém sob Davi (2 Sm 6) ([W] síntese crítica).
4.5 A aliança davídica (2 Sm 7)
O oráculo de Natã é, para a maioria, o centro teológico de toda a obra. Davi quer construir um “casa” (templo) a Javé; Deus recusa e inverte a promessa: será Javé quem fará a Davi uma casa — dinastia perpétua (“tua casa e teu reino serão firmes para sempre”, 7,16) (texto [V]; Enter the Bible [W]; Avioz [W]). Debate: (a) o oráculo é pré-exílico (memória de corte) ou exílico (retrojeção legitimadora)? (b) Como conciliar a promessa incondicional com a teologia condicional deuteronomista (cf. 1 Rs 9,4-5)? (c) Da promessa nasce o messianismo do “filho de Davi” (Is 11,1; Jr 23,5; Sl 2; 89; 132) [W].
4.6 A “História da Sucessão” (2 Sm 9-20 + 1 Rs 1-2)
Como obra autônoma (Rost 1926 [V]), a História da Sucessão é um relato de corte quase romanesco: vai da bondade de Davi a Mefibosete à afirmação de Salomão. O pecado com Bate-Seba (2 Sm 11) e a parábola da cordeirinha (12) são a dobradiça moral (“a espada não se afastará da tua casa”, 12,10) (texto [V]). Amnom viola Tamar, Absalão se rebela, Davi perde e retoma o trono — ao custo da morte do filho. O debate: é apologia da dinastia ou crítica velada à casa real? (Rost 1926 [V]; JSOT 2020 [W]).
4.7 A estela de Tel Dan e a “casa de Davi”
Descoberta em 1993 por Gila Cook, da equipe de Avraham Biran, e publicada por Biran & Naveh no Israel Exploration Journal 43 (1993), pp. 81-98 [V — JSTOR 27926300], a estela de Tel Dan (basalto, aramaico antigo em alfabeto fenício) é a primeira evidência extrabíblica de uma dinastia de Davi: a expressão בית דוד (bytdwd, “casa de Davi”) consta da inscrição, hoje no Museu de Israel, datada do século IX a.C. (870-750 a.C.) e atribuída, provavelmente, a Hazael de Aram-Damascim (en.wiki [V]; BAS [W]). Um segundo fragmento foi achado em 1994 (Biran & Naveh, IEJ 45, 1995 [W]). Debate: minimalistas (Lemche, Davies) contestaram a leitura de bytdwd como nome dinástico e a autenticidade, mas o consenso aceita a expressão como referência à dinastia davídica — o que não prova a historicidade de todos os detalhes narrativos (BAS [W]).
4.8 A estela de Mesha (Moabita)
A Estela de Mesha (“Pedra Moabita”), em basalto negro, foi encontrada em 1868 em Dibom (Dhiban, Jordânia) e está no Louvre (AO 5066). Tem 34 linhas e celebra as vitórias do rei moabita Mesha sobre Israel e, possivelmente, Judá. Na linha 31, a leitura “casa de Davi” está na parte danificada; Lemaire & Delorme (BAR, inverno 2022) sustentam que ela se confirma, com base em nova evidência do squeeze feito antes do dano (BAS [W]). A datação oscila entre c. 840 a.C. (conexão com 2 Rs 3) e c. 810 a.C. (Lemaire & Delorme) (BAS [W]). É a segunda atestação extrabíblica candidata da dinastia davídica e dialoga com 2 Reis 3 (texto [V]).
4.9 Finkelstein & Silberman: “cronologia baixa” vs. tradicional
Finkelstein & Silberman, The Bible Unearthed (2001), sustentam a “cronologia baixa”: estratos datados pela arqueologia tradicional do séc. X a.C. (época de Davi e Salomão) seriam cerca de um século mais recentes, o que reduz a “monarquia unida” a um pequeno reino tribal das terras altas, sem grande império nem monumentalidade (en.wiki [W]; biblearchaeology.org [W]). A cronologia tradicional (Amihai Mazar e outros) mantém esses estratos no séc. X e, portanto, uma monarquia davídico-salomônica mais ampla (biblearchaeology.org [W]). Finkelstein voltou ao tema em The Forgotten Kingdom (2013) [V — academia.edu; BAR 2014]. O dossiê apresenta as duas posições: a existência de assentamentos é factual; a extensão e centralização do reino de Davi é que está em disputa (en.wiki [W]).
4.10 A necromante de Endor (1 Sm 28)
No capítulo final de Saul, o rei — que havia eliminado os necromantes (28,3) — consulta uma médium em Endor para evocar Samuel, porque “Javé não lhe respondia, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas” (28,6) (texto [V]). Há ao menos sete linhas, sintetizadas em dois estudos locais (“Exegese de 1 Samuel 28”; “Endor e Transfiguração”):
- Literal/tradicional — o verdadeiro Samuel apareceu por permissão excepcional de Deus: o texto diz “Samuel disse a Saul” (28,15), a profecia se cumpre (28,19; 1 Sm 31,2-6), a médium se assusta (28,12); defensores: Orígenes, Jerônimo, Agostinho, Calvino, Lutero ([W] estudo local).
- Demoníaca — um espírito maligno personificou Samuel; a Lei proibia a necromancia (Dt 18,10-11) e “os mortos nada sabem” (Ec 9,5); Tertuliano (De anima 57), escolásticos, puritanos (Perkins, 1608) ([W]).
- Psicológica — alucinação induzida por jejum, insônia e terror (“não comeu pão todo aquele dia e toda aquela noite”, 28,20); Wundt, W. James (1902), Freud, Jaynes (1976), Luhrmann (2012) ([W]).
- Literário-teológica — o narrador oculta a ontologia para focar a teologia (apostasia de Saul, soberania de Javé, ilegitimidade da necromancia); Alter (1981), Fokkelman (1990), Brueggemann (1990) ([W]).
- Mediadora (exceção soberana punitiva) — Samuel apareceu pelo poder de Deus, não da feiticeira: Agostinho, De cura pro mortuis gerenda, c. 13-15 (“não por sua própria virtude mas pelo poder divino… não para que a magia se tornasse crível, mas para que a impiedade de Saul fosse condenada”); Tomás de Aquino, ST II-II q. 95 a. 4 e Quodlibet VII a. 14 ([W] citação no estudo local).
- Rabinica (Talmude/Midrash) — Samuel sobe do Xeol por seu mérito; a médium vê mas não ouve: Talmude Bavli Sanhedrin 65b (R. Akiva vs. R. Yose ha-Gelili, “subiu por sua grandeza”), Chullin 7b (“os justos são maiores na morte que na vida”), Zohar Vayikra 88b-89a ([W]).
- Histórico-crítica — lenda etiológica que traduz práticas cananeias de necromancia para polemizar contra o sincretismo; estratigrafia: núcleo antigo (séc. X-VIII a.C.), edição Dtr1 (c. 620 a.C., v. 3 e 9), moldura Dtr2 (c. 550 a.C.); paralelos ANE: Gilgamesh XII, rituais ugaríticos dos rpum (KTU 1.161), cartas egípcias aos mortos; Wellhausen (1878), Gunkel (1917), Noth (1943) ([W]).
Todas convergem em um ponto: a necromancia é ilícita (1 Cr 10,13-14) e o episódio adverte contra buscar orientação fora da aliança.
4.11 Crítica textual: Mar Morto, Septuaginta e Massorético
Samuel é, com Jeremias, o livro do AT com as divergências textuais mais graves. Os achados de Qumran incluem 4QSamᵃ, 4QSamᵇ e 4QSamᶜ:
- 4QSamᵇ é o mais antigo manuscrito hebraico conhecido do livro (e um dos mais antigos de Qumran), de meados do séc. III a.C. ou antes (Cross [V] — cojs.org);
- 4QSamᵃ é o manuscrito-chave: cerca de 150 variantes, com leituras que se alinham com frequência à Septuaginta em vez do Texto Massorético — prova de que o grego traduz um texto hebraico antigo, não massorético (academia.edu [W]; Brill, Textual History of Samuel [W]).
Passagens hoje “canônicas” no massorético (como a metade de 1 Sm 17 ou blocos de 1 Sm 14) têm estágio mais curto e anterior atestado por Qumran e pela LXX (Tov [V]; Cross/Ulrich [W]). O trabalho fundador é de Frank Moore Cross e Eugene Ulrich — a edição crítica de Samuel na série Discoveries in the Judaean Desert consagrou essa prioridade do texto curto ([W] linha de pesquisa).

5. Temas
- Realeza ambígua: o rei é dom de Deus e apostasia; 1 Sm 8-12 mantém as duas vozes (BYU [W]).
- Profecia e poder: Samuel, Natã e Gade confrontam reis — a palavra profética como limite do poder (texto [V]).
- Aliança davídica / messianismo: 2 Sm 7 funda a esperança dinástica que atravessa Salmos (2; 89; 132), profetas (Is 11,1; Jr 23,5) e o NT (Lc 1,32-33) [W].
- Arrependimento e pecado: o Salmo 51 e o “coração contrito” derivam da tradição davídica; 2 Sm 12 é o modelo do juízo e da misericórdia (texto [V]).
- A arca / presença divina: a glória (kavod) que parte (1 Sm 4,21) e retorna a Jerusalém (2 Sm 6) [W].
- Guerra, violência e herem: o interdito (1 Sm 15) e a violência de corte (2 Sm 11; 13) não são idealizados ([W] Alter 1999).
- Mulheres e poder: Ana, Mical, Abigail, Bate-Seba, Tamar, a médium de Endor — figuras que deslocam a ação e expõem o custo do poder masculino ([W] leitura narrativa corrente).
- O Espírito de Javé: apodera-se de Saul, depois se retira (1 Sm 16,14) — teologia da eleição e da rejeição (texto [V]).
6. Recepção

Judaísmo. Samuel é lido nas haftarot do ano litúrgico (em Rosh Hashaná, 1 Sm 1-2), e o episódio de Endor é comentado no Talmude Bavli Sanhedrin 65b [W]. O Targum Jonathan paráfraseia o livro, e Rashi, Radak e Abarbanel discutem a moral de Saul e a legitimidade de consultar os mortos ([W]).
Cristianismo. A linhagem de Jesus passa por Davi (Mt 1,6; Lc 3,31) e o anjo anuncia que Ele herdará “o trono de Davi, seu pai” (Lc 1,32-33) [W]; Hebreus 1,5 cita 2 Sm 7,14. No NT, Davi é o pai messiânico e o modelo do rei-arrependido (texto [V]).
Davi na arte.
- Donatello, David em mármore (c. 1408-1409) e David em bronze (c. 1435-1440), ambos no Museo Nazionale del Bargello, Florença — o bronze é a primeira estátua humana nua em bronze desde a Antiguidade (en.wiki [V]; V&A [W]).
- Michelangelo, David (c. 1501-1504), mármore, desvelado em 8 de setembro de 1504, na Galleria dell’Accademia, Florença (galleriaaccademiafirenze.it [V]; en.wiki [V]).
- Gian Lorenzo Bernini, David (1623-1624), mármore, na Galleria Borghese, Roma — Davi no instante de arremessar a pedra (collezionegalleriaborghese.it [V]).
- Caravaggio (Michelangelo Merisi), David com a Cabeça de Golias (c. 1605-1610), óleo na Galleria Borghese, Roma, pintado no exílio napolitano (collezionegalleriaborghese.it [V]).
Davi no cinema e na TV.
- David and Bathsheba (1951), dir. Henry King, com Gregory Peck (en.wiki [V]).
- King David (1985), dir. Bruce Beresford, com Richard Gere (en.wiki [V]).
- David (1997), telefilme da série The Bible Collection, dir. Robert Markowitz, com Nathaniel Parker (en.wiki [V]).
- Solomon (1997), minissérie RAI dir. Roger Young, com Ben Cross e Max von Sydow como o velho Davi (en.wiki [W]).
Música. Georg Friedrich Händel, oratório Saul (HWV 53), libreto de Charles Jennens, estreado no King’s Theatre de Londres em 16 de janeiro de 1739 — inclui a célebre Dead March fúnebre (en.wiki [V]; Opera Today [W]).
Islã. Dāwūd é profeta, mensageiro de Alá e rei divinamente ungido; o Corão narra a vitória sobre Jalut (Golias) em 2:251 e refere ter-lhe dado os Zabūr (Salmos) (Quran.com [W]; en.wiki, David in Islam [W]).
Salmos e liturgia. A tradição atribui a Davi o grosso do Saltério; os Salmos 3; 18; 51; 57; 60; 63; 142 trazem rubricas ligadas a episódios de sua vida (texto [V]). Na liturgia cristã, Davi é o profeta-rei dos salmos, e os Royal Psalms alimentam a teologia do Cristo-Rei ([W] en.wiki).

7. Traduções PT e Comentários PT
Bíblias PT-BR/PT-PT (Samuel circula dentro da Bíblia completa). Cobre o livro a tradição Almeida (NT 1681; Bíblia completa 1753; revisões ARC, ARA, ACF) [W]; a Bíblia de Jerusalém (ed. brasileira da Bible de Jérusalem, Paulus/Paulinas) [W]; a TEB — Tradução Ecumênica da Bíblia (Loyola, trad. da TOB francesa) [W]; a NVI (Nova Versão Internacional) [W].
Edição bilíngue grego-português verificada. O volume V, Tomo I da Bíblia de Frederico Lourenço — “Antigo Testamento: Os Livros Históricos” (Josué, Juízes, Samuel-Reis/“Reinados” e Rute, na tradição da História Deuteronomística) — foi publicado pela Quetzal Editores (Lisboa) em março de 2023, ISBN 9789897224621, 528 páginas, capa dura [V — wook.pt: ISBN, editora, data e idioma conferidos]. É a tradução moderna portuguesa da Septuaginta que cobre Samuel.
Comentários PT.
- Joyce G. Baldwin, 1 e 2 Samuel: Introdução e Comentário (Série Cultura Bíblica), São Paulo: Vida Nova, 1996 — trad. de Márcio Loureiro Redondo [W — referência em cópia de estudo; ed. inglesa 1 and 2 Samuel, IVP, 1988 [V] Internet Archive; ISBN 8527501910 não conferido [—]].
- Robert B. Chisholm Jr., 1 e 2 Samuel (Série Comentário Expositivo), Vida Nova, 2017, 352 p., ISBN 9788527506953 [V — ficha de varejo]; indexado na Estante Virtual [W].
- Paulus Editora, volume “12. Segundo livro de Samuel” — página do catálogo institucional; autor, série e ISBN não conferidos [W].
- Novo Comentário Bíblico São Jerônimo — Antigo Testamento (org. Raymond E. Brown), edição brasileira [W — inventário Tanakh 2026 v25].

Obras-âncora sem tradução PT localizada. Rost (1926), Noth (1943), Alter (The David Story, 1999 [V — Internet Archive]), Tsumura (The First Book of Samuel, NICOT, Eerdmans, 2007 [V — eerdmans.com]), McCarter (AB) [W]: sem tradução portuguesa [—]. Finkelstein & Silberman, The Bible Unearthed (2001), tem versão brasileira A Bíblia não tinha razão (São Paulo: A Girafa, 2003, 520 p., ISBN 85-89876-18-7) [V — pt.wiki; Internet Archive], e a espanhola La Biblia desenterrada (Siglo XXI, 2003) [W].
8. Audiovisual e Games
| Título | Dado | Validação | Marcador |
|---|---|---|---|
| Davi e Bate-Seba (David and Bathsheba, 1951) | Henry King; Gregory Peck | título consagrado; dublagem histórica | [V] en.wiki |
| Rei Davi (King David, 1985) | Bruce Beresford; Richard Gere | BRA “Rei Davi” | [V] en.wiki |
| David (The Bible Collection, 1997) | Robert Markowitz; Nathaniel Parker | telefilme TNT | [V] en.wiki |
| Salomão (Solomon, 1997) | Roger Young; Ben Cross; Max von Sydow (Davi) | minissérie RAI | [W] en.wiki |
| Händel, Saul (1739) | oratório, estreado em Londres | gravações comerciais (harmonia mundi, René Jacobs) [W] | [V] en.wiki |
| FIVE: Guardians of David (Steam) | action-RPG sobre a guarda de Davi, com Samuel | sem localização PT-BR confirmada | [W] gamingandgod |
| Videogame bíblico PT-BR com Samuel | não localizado | — | [—] |
Áudio PT: 1 e 2 Samuel estão integralmente em áudio na versão Almeida de domínio público (WordProject) [W] e em aplicativos de leitura (BibleProject Português) [W]. Nenhum jogo comercial localizado trata diretamente de Samuel em português; a produção PT-BR concentra-se em peças devocionais e vídeos de estudo [—].
9. Mitologia e Literatura Comparada
O método do projeto: procurar o paralelo mais próximo, datar a relação e declarar se dependência, poligenia ou resolução por um terceiro é o sustentável. Em Samuel, quatro complexos de motivos rendem comparação útil.
A consulta aos mortos (1 Sm 28) e a necromancia do ANE. O recurso de Saul à médium de Endor não é motivo isolado: pertence a um sistema documentado de culto funerário em toda a região. Na Mesopotâmia, a sombra do falecido era o gidim sumério, emprestado ao acádio como eṭemmu — a personalidade que se separa do corpo na morte e precisa ser alimentada pelos vivos (en.wiki, Ghosts in Mesopotamian religions [V]). Esse cuidado se institucionaliza no kispu (kispum), o rito periódico de oferendas aos mortos e ancestrais reais, cuja continuidade garantia a paz do eṭemmu e a bênção da casa (en.wiki [V]; a formulação de Bottéro [W]). Em Ugarit, o texto funerário KTU 1.161 convoca os rpum (rapi’ūma, os “refaim”) — mortos régios e ancestrais — num ritual de banquete, com a deusa solar Šapšu atuando como psicopompo que conduz os mortos ao Xeol (JBL 135/1, 2016 [V]). A estela de Kuttamuwa (KTMW), achada em 2008 em Sam’al/Zincirli (Turquia) pela expedição Neubauer do Oriental Institute de Chicago, é decisiva: basalto do séc. VIII a.C., inscrição em aramaico com caracteres fenícios, na qual o oficial real manda instituir um banquete anual “para a minha alma (nephesh) que está nesta estela” (Pardee, BASOR 356, 2009, pp. 51-71 [V]; Schloen & Fink, BASOR 356, 2009, pp. 1-13 [V]). É uma das atestações mais antigas, fora da Bíblia, de uma alma separável do corpo, com um local físico onde reside (University of Chicago News, 2008 [V]). É contra esse pano de fundo que Dt 18,10-11 legisla e que Is 8,19 ataca: o texto bíblico proíbe o que o kispu e a prática de Ugarit tomavam por piedade. A direção é poligenia em tronco comum — a novidade não é a crença na sobrevivência, mas a interdição legal dela como acesso ao divino (1 Cr 10,13-14).
O rei como pastor. A unção de Davi em 1 Sm 16 e o epíteto de “pastor de Israel” (2 Sm 5,2; 7,7) traduzem um título de realeza difundido no ANE. Na Mesopotâmia o rei é sipa / rē’û, o “pastor” dos “cabeças-negras”; o motivo atravessa o Código de Hammurabi, hinos reais sumérios e epítetos assírios (Westenholz, The Good Shepherd, Melammu [V]; a síntese de Laniak sobre o pastor-rei [W]). O material é comum; varia quem é o pastor — em Israel, eleito e substituído quando falha (Saul). A direção não está provada e deve ser declarada em disputa.
O combate representativo entre campeões. O duelo de 1 Sm 17 tem análogos antigos; o mais citado é a autobiografia/estátua de Idrimi, rei de Alalaḫ (séc. XV a.C.), que narra a ascensão do soberano e seus enfrentamentos pessoais (Smith, The Statue of Idrimi, ad loc. [W]). Van Seters aproximou a “História da Ascensão de Davi” de padrões narrativos do herói fugitivo (Van Seters, *The Seters, The Biblical Saga of King David, 2009 [W]). Apresentar com cautela: a tese é de Van Seters, não consenso, e a forma de 1 Sm 17 no massorético é justamente a que a Septuaginta atesta mais curta (§4.3).
A arca como receptáculo divino portátil. A arca (1 Sm 4-6; 2 Sm 6) é um cofre com querubins carregado em varas; objetos funcionais análogos existem. No Egito, os deuses eram transportados em barcas processionais (barques), santuários portáteis em forma de modelo de barco que abrigavam a imagem divina; no mundo mesopotâmico, reis conduziam imagens de divindades em procissão (BAS [V]; Falk [W]). A comparação é de função, não de forma: mesmo dispositivo de transporte, teologia anicônica — a arca faz o que a mobilidade dos deuses do entorno fazia, sem a estátua.
Os filisteus egeus. A origem egeia dos filisteus, adversários de Saul e Davi, deixou de ser só inferência textual: a genética de populações antigas confirma afluxo de linhagem relacionada à Europa no Bronze Final/Iron Age em Ascalon (Feldman et al., Science Advances 5, 2019, DOI 10.1126/sciadv.aax0061 [V]).
10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta
A monarquia e a crítica do Estado. 1 Sm 8-12 é um dos raros documentos antigos que contêm, em si, a crítica do Estado que fundam. As versões (8; 9-10,16; 10,17-27; 11; 12) são posições políticas distintas, não variações de detalhe. A pergunta que o texto força é clássica: quando o poder se concentra, quem responde por ele? A resposta é um aviso, o ius regis de 1 Sm 8,11-18 (o rei tomará filhos, campos, vinhas, rebanhos).
Espinosa e Hobbes — a teologia política. O gesto decisivo da filosofia moderna é o de Espinosa no Tractatus Theologico-Politicus (1670, publicado anonimamente), que trata as Escrituras como documento histórico e o Estado hebreu como caso de análise política: na sua leitura, o primeiro Estado hebreu foi a ascensão de uma ordem sacerdotal, e a passagem à monarquia ilustra a tensão entre poder religioso e civil (Stanford Encyclopedia of Philosophy, Spinoza’s Political Philosophy [V]). Hobbes, no Leviathan (1651), usa a monarquia hebraica como modelo do soberano que concentra o poder — avaliação oposta, método convergente. Espinosa escreve contra Hobbes que preserva o direito natural intacto (Carta a Jelles, 1674 [V]).
A “lei do rei” e a tensão com 1 Sm 8. Dt 17,14-20 permite a monarquia com limites (não multiplicar cavalos, mulheres, ouro), enquanto 1 Sm 8 a descreve como apostasia. Permitir e denunciar ao mesmo tempo é tensão estrutural, sem harmonização que não custe apagar um dos lados.
Buber e a teocracia. Martin Buber, em Königtum Gottes (A Realeza de Deus, Berlim, 1932 [V]), defende que a “teocracia” de Israel — o governo direto de Deus, sem mediador humano — foi a instituição original e autêntica, e o pedido de rei, a sua traição — a formulação mais influente da leitura anti-monárquica: a monarquia como queda, não como progresso.
A ética do poder em Davi (2 Sm 11) — e a narrativa do poder. O episódio de Bate-Seba e Urias é o teste moral do rei e o teste literário do narrador, que não julga explicitamente: encadeia “Davi enviou”, “Davi tomou”, “Davi escreveu” até a frase seca “a coisa que Davi fizera desagradou a Javé” (2 Sm 11,27). Robert Alter, em The Art of Biblical Narrative (1981 [W]) e no comentário de The David Story (1999 [V] na obra; edição PT [—]), lê isso como técnica de reticência: o poder é exposto pelo que faz, não pelo que diz. Frank Kermode (The Genesis of Secrecy, 1979 [W]) argumentou que a opacidade narrativa é parte da hermenêutica bíblica — o não-dito exige interpretação moral. A pergunta: pode o soberano ser julgado por uma lei que representa? Natã responde que sim (2 Sm 12).
O profeta contra o rei como crítica política. Samuel, Natã e Gade constituem o contrapoder institucional ao rei: a palavra profética como limite jurídico-moral do poder — o germe de uma instituição que reivindica dizer a verdade ao trono.
A amizade e o poder (Jônatas). Jônatas, herdeiro legítimo, escolhe o amigo que sabe ser o seu substituto — “tu serás rei sobre Israel, e eu o segundo depois de ti” (1 Sm 23,17): o vínculo que não cabe no cálculo do poder.
11. Teologia — os debates
Teocracia contra monarquia. Mesmo debate de Buber (§10), com voz própria na teologia: a monarquia como concessão apesar da recusa (1 Sm 8,7-9, dito com reprovação) ou como desígnio (a dinastia de 2 Sm 7). As duas coisas estão no texto, e a teologia deuteronomista as mantém em tensão.
A aliança davídica (2 Sm 7) e a recepção messiânica. O oráculo de Natã — Deus recusa a “casa” de madeira e promete a Davi uma “casa” dinástica perpétua — é o núcleo da esperança messiânica posterior: Salmos reais (2; 89; 132), o rebento davídico (Is 9; 11,1; Jr 23,5) e, no NT, o trono de Davi (Lc 1,32-33) e a citação de 2 Sm 7,14 em Hebreus 1,5. A recepção messiânica é o canal pelo qual Samuel vira texto cristológico — e é debatida, pois lê em promessa condicional um sentido que o hebraico não formula.
A judaica — Davi no Talmude e no midrash. Davi é, ao mesmo tempo, rei ideal e pecador arrependido. Ben Sira (Eclesiástico 49,4) resume a tradição: de todos os reis, “todos erraram, exceto Davi” (Ben Sira 49,4 [V]), base do midrash sobre a permanência da coroa apesar do pecado. O Talmude e o midrash discutem essa permanência e a ligação entre a linhagem davídica e o Messias. Os Salmos davídicos fazem do rei o autor da oração de Israel — o Davi-orante.
A islâmica — Dāwūd profeta e rei. No Corão, Dāwūd é ao mesmo tempo profeta e rei: vence Jālūt (Golias) em Corão 2,251 e recebe os Zabūr (Salmos) como escritura revelada. Em Corão 38,21-26 (Surata Ṣād), dois litigantes escalam o miḥrāb e pedem juízo; Davi decide e então reconhece ter falhado e pede perdão — a figura relida como advertência ao profeta-juiz (quran.com, Sad 38,21 [V]). A comparação é obrigatória; as diferenças teológicas (não há “queda” no sentido cristão) precisam ser declaradas.
A feminista — Bate-Seba, Mical, Abigail e a agência. A exegese feminista deslocou o debate: 2 Sm 11 não é história de desejo inevitável, mas de coerção de poder, e o grau de agência de Bate-Seba é a disputa. J. Cheryl Exum (Fragmented Women, 1993 [W]) e Alice Bach (Women, Seduction, and Betrayal in Biblical Narrative, 1997 [W]) leem o banho e o silêncio de Bate-Seba como submissão a um rei que tudo pode; Athalya Brenner (org., A Feminist Companion to Samuel and Kings, 1994 [W]) recolhe o debate. A leitura da “Bate-Seba sedutora” foi desmontada como projeção do olhar masculino (“Biblical Bathing Beauties” [V]; Nashim 24, 2013, Was Bathsheba the Original Bridget Jones? [V]). Mical e Abigail (1 Sm 25) agem politicamente num sistema que as trata como moeda dinástica.
A cristã — o rei como imago Dei e o “Deus de Samuel”. Na teologia cristã, o rei justo é imago Dei e o Davi-pecador-arrependido é o modelo do arrependimento (o Salmo 51 davídico). O debate sério é histórico: Marcion de Sinope (séc. II) distinguiu o Deus do Antigo Testamento (juiz, vindicativo) do Deus de Jesus (pai bondoso), com as Antíteses como prova (Ehrman [V] na exposição da doutrina). O “Deus de Samuel”, que rejeita Saul e ordena o interdito, é exatamente o material que alimentou o marcionismo — e a resposta ortodoxa (a unidade do Deus criador e redentor) definiu o cânon cristão. É história da interpretação, e a dificuldade teológica do livro é antiga e real.
11.1. Comentaristas por esfera confessional
Os debates acima são transversais; esta subseção faz o levantamento por tradição de leitura, não por cronologia — o leitor procura por esfera, e a esfera é o que situa o que ele lê. Regra de rotulagem: a perspectiva se declara, não se atribui; quando o autor não se declarou, descreve-se o método da obra, nunca a crença pessoal. O rótulo é metadado, não argumento: “é católico” não refuta o que ele demonstra, “é ateu” também não. Marcadores: [V] conferido, [W] conhecido não conferido por fonte primária, [—] lacuna.
Uma advertência sobre a assimetria deste livro. Samuel não recebeu a mesma cobertura patrística que o Pentateuco. Orígenes não deixou homilias sobreviventes sobre Samuel e não há comentário contínuo grego do livro; a via oriental para Samuel é a catena (fragmentos dos Padres compilados versículo a versículo), não uma série exegética contínua. Quem cobriu Samuel em forma contínua foram os latinos — sobretudo Beda. Dizer isso é o resultado da pesquisa, não uma desculpa.
1. Católico ocidental (latino)
Patrística latina.
- Beda, In primam partem Samuhelis (libri IV) — o comentário a 1 Samuel, a fonte patrística latina principal sobre este livro; listado pelo próprio Beda no catálogo de suas obras [V — List of works by Bede, en.wiki; Westgard, Bede Bibliography, CPL]. O mesmo Beda deixou In Regum librum XXX quaestiones (trinta questões sobre os Reis) [V — idem].
- Isidoro de Sevilha, Quaestiones in Vetus Testamentum (c. 612–615), cobrindo Samuel entre os livros históricos [V — catálogo de manuscritos, Bodleian medieval.bodleian.ox.ac.uk].
- Agostinho — não comentou Samuel em forma contínua, mas usa Samuel extensamente em De civitate Dei (a monarquia, Davi, a promessa de 2 Sm 7) e em Contra Faustum (a defesa do AT contra o maniqueísmo) [W].
Medieval.
- A Glossa Ordinaria (escola de Laon, séc. XII) — a compilação que fez do comentário bíblico padrão da Idade Média; Samuel aí aparece glosado entre os livros históricos [V — Glossa ordinaria, Klumpenhouwer/Emmaus Academic].
- Nicolau de Lira, Postilla litteralis (c. 1322–1331) — separa o sentido literal e será canal para Lutero [W].
- Cornélio a Lapide, Commentaria in omnes Sacrae Scripturae libros (1616–1642) — o grande comentário jesuíta e o mais influente do período católico [W]. A Sacra Pagina e o Novo Comentário Bíblico São Jerônimo prolongam essa linhagem no séc. XX [W].
2. Católico oriental e grego patrístico
- Teodoreto de Ciro, Quaestiones in libros Regnorum (séc. V) — comentário por questões aos livros dos Reis, incluindo Samuel; alinha-se à escola antioquena (literal-histórica), contra a alegoria alexandrina [V — catholiclibrary.org, Quaestiones in libros Regnorum et Paralipomenon].
- João Crisóstomo — não escreveu comentário contínuo a Samuel; usa Davi e Saul nas homilias morais e nos tratados sobre realeza, e é o exegeta antioqueno mais citado na liturgia [W].
- Efrém o Sírio — tradição siríaca; seus comentários contínuos localizados são a Gênesis e o Diatessaron, não Samuel [— para Samuel].
- As catenae gregas aos Reis — a via grega a Samuel: os fragmentos dos Padres reunidos por versículo, atribuídos a quem os compilou, não aos Padres citados [W].
3. Ortodoxo
A tradição ortodoxa lê por catena, pela liturgia e pelos Padres, e não por comentário crítico moderno. Procurar “o comentário ortodoxo de Samuel” é procurar coleções de catenae, homiliários e compilações — não uma série no sentido protestante.
- Catena sobre os Reis — usada como fonte primária da exegese ortodoxa de Samuel [W]; a Catena aurea de Tomás de Aquino é útil mesmo fora da tradição porque reúne os gregos em latim — e é compilação feita por Aquino, não comentário de Aquino [V — en.wiki, Catena].
- Alexander Lopukhin, Толковая Библия (Bíblia Explicativa, 12 vol., São Petersburgo, 1904–1913) — a grande compilação russa; cobre Samuel [V — discussão Logos/community.logos.com].
- Orthodox Study Bible (Thomas Nelson, 2008) — Bíblia de estudo ortodoxa com anotações patrísticas, tradução do AT pela Septuaginta [V — en.wiki, Orthodox Study Bible].
4. Protestante
- João Calvino, Commentary on 1–2 Samuel (os Commentarii, mais os sermões sobre Samuel publicados pela Banner of Truth) — a exposição reformada de referência [W].
- Matthew Henry, Exposition of the Old and New Testaments (1706–1710) — o mais difundido dos comentários puritanos [V — Wikisource, An Exposition…].
- Keil–Delitzsch, Biblical Commentary on the Books of Samuel (Edimburgo: T&T Clark, 1868) — o grande comentário do séc. XIX [V — HathiTrust, catálogo].
- P. Kyle McCarter, Jr., I Samuel (Anchor Bible vol. 8, 1980) e II Samuel (vol. 9, 1984) — hoje o padrão técnico sobre o texto hebraico em confronto com a Septuaginta e os manuscritos do Mar Morto [V — catálogo U. Arkansas / Archive.org].
- Robert D. Bergen, 1, 2 Samuel (New American Commentary, 1996) [W].
- Joyce G. Baldwin, 1 and 2 Samuel (Tyndale OT Commentaries, IVP, 1988; PT: 1 e 2 Samuel, Série Cultura Bíblica, Vida Nova, 1996) [V — Archive.org; ed. PT conforme §7].
5. Evangélica
Critério declarado: as séries críticas e expositivas de editoras e linhas evangélicas (NAC, TOTC, NICOT, NIVAC, EBC), com aparato filológico e bibliografia de primeira mão. Conferido nesta sessão no Open Library, com editora e ano no registro:
- Robert D. Bergen, 1, 2 Samuel (New American Commentary 7; Broadman & Holman, 1996) [V — OL 9780805401073] — já listado na esfera protestante acima, por série; conta uma única vez, aqui.
- Joyce G. Baldwin, 1 and 2 Samuel: An Introduction and Commentary (TOTC; Inter-Varsity Press, 1988) [V — catálogo OL]; em português, 1 e 2 Samuel: introdução e comentário (Série Cultura Bíblica; Vida Nova, ISBN 9788527501910) [V — catálogo da editora e livrarias BR; a edição PT já registrada na esfera protestante acima, pelo Archive.org, é de 1996 — as duas listagens divergem no ano e por isso o ano não é afirmado aqui].
- Bill T. Arnold, 1 & 2 Samuel (NIV Application Commentary; Zondervan, 2003) [V — OL 9780310210863].
- David Toshio Tsumura, The First Book of Samuel (NICOT; Eerdmans, 2007) [V — catálogo OL]: a leitura filológico-discursiva de 1 Samuel, atenta ao discurso direto.
- Dale Ralph Davis, 1 Samuel: Looking on the Heart (Focus on the Bible; Christian Focus, 2003) [V — catálogo OL]: exposição pastoral, no formato da série.
- Ronald F. Youngblood, 1, 2 Samuel (Expositor’s Bible Commentary 3; Zondervan, 1992) [W — o registro no Open Library é a edição revisada de 2017, com Longman e Garland como editores de série, não a original].
Fronteira declarada: P. Kyle McCarter Jr. (Anchor Bible) permanece na esfera protestante acima — é crítica textual de linha acadêmica geral, não série evangélica.
6. Ateu, agnóstico e não confessional
Categoria a manejar com cuidado: crítica bíblica de método secular não é o mesmo que polêmica de divulgação, e a posição pessoal de cada autor só se registra se ele a declarou. Sem declaração, descreve-se o método da obra.
- Thomas L. Thompson — The Historicity of the Patriarchal Narratives (1974) e The Mythic Past (1999), pedra do minimalismo da Escola de Copenhague; a obra é de método histórico-crítico e naturalista [V — H-Net review; en.wiki, Thomas L. Thompson]. Nenhuma declaração pessoal de crença foi localizada nesta consulta: descreve-se o método, não o rótulo [— para a crença pessoal].
- Niels Peter Lemche, The Old Testament between Theology and History (Westminster John Knox, 2008) [V — Bible Interp / resenha].
- Israel Finkelstein — The Bible Unearthed (com Silberman, 2001; PT: A Bíblia não tinha razão, A Girafa, 2003) e The Forgotten Kingdom (2013): a “cronologia baixa” e a historicidade de Davi lidas pela arqueologia, em método não confessional [V — en.wiki; academia.edu]. Finkelstein é arqueólogo: rotulá-lo pela crença é erro de categoria.
- Robert Alter, The David Story: A Translation with Commentary of 1 and 2 Samuel (Norton, 1999) — leitura literária não confessional: tradução e comentário filológico-literário que trata a narrativa como obra de arte verbal (motivo-tipo, Leitwort, ambiguidade), não como documento dogmático nem como ilustração devocional [V — Internet Archive; resenhas]. Descreve-se a abordagem da obra; não se rotula a crença do autor — o próprio Alter não se apresenta como comentarista confessional.
- Philip R. Davies (In Search of ‘Ancient Israel’, 1992) e Keith W. Whitelam (The Invention of Ancient Israel, 1996) completam o arco minimalista [W].
7. Judaico e islâmico (vozes próprias, não pano de fundo cristão)
A leitura judaica e a islâmica já aparecem nos debates acima (§11): aqui apenas os seus comentaristas, para que não fiquem diluídos na seção cristã.
- Radak (David Kimhi) — comentou Samuel entre os Profetas Anteriores [W]. A §6 registra que Rashi, Radak e Abarbanel discutem a moral de Saul e a necromancia de Endor [W].
- Isaac Abravanel — comentário aos Profetas Anteriores, impresso pela primeira vez em Pesaro, 1512 [W — Haas, JSIJ].
- Gersonides — também comentou os Profetas Anteriores [W].
- Islã — Dāwūd no Corão 2,251 (vitória sobre Jālūt/Golias) e 38,21-26 (o julgamento dos dois litigantes no miḥrāb) [V — quran.com, Ṣād 38,21]; Ṭabarī e Ibn Kathīr comentam o episódio no tafsīr [W].
Contagem por esfera e desequilíbrio declarado
- Católico ocidental (latino): 7 — Beda (In primam partem Samuhelis; XXX quaestiones), Isidoro, Agostinho, Glossa Ordinaria, Nicolau de Lira, Cornélio a Lapide (+ Sacra Pagina; São Jerônimo).
- Católico oriental / grego patrístico: 4 — Teodoreto, Crisóstomo, Efrém, catenae gregas aos Reis.
- Ortodoxo: 3 — catena sobre os Reis, Lopukhin, Orthodox Study Bible.
- Protestante: 4 — Calvino, Matthew Henry, Keil–Delitzsch, McCarter.
- Evangélica: 6 — Bergen, Baldwin, Arnold, Tsumura, Davis, Youngblood (+ as séries NICOT/NAC/TOTC/EBC).
- Ateu / agnóstico / não confessional: 6 — Thompson, Lemche, Finkelstein, Alter, Davies, Whitelam.
- Judaico: 3 (Radak, Abravanel, Gersonides; mais Rashi em §6). Islâmico: 3 (Corão, Ṭabarī, Ibn Kathīr).
O desequilíbrio é real e tem causa textual. O Ocidente latino domina porque Beda e a Glossa deram a Samuel uma cobertura contínua que o Oriente grego nunca teve — o Oriente cobre Samuel por catena. A esfera protestante-evangélica moderna domina a bibliografia por mercado anglófono, não por mérito exegético. Nenhuma das duas coisas deve ser lida como juízo sobre o valor das tradições: é o que a pesquisa sobre Samuel devolve, e o silêncio do Oriente nesta subseção reflete uma lacuna de fontes, não uma ausência de leitura.
Catena e compilações estão atribuídas a quem as compilou, não a quem as reúne. Nenhuma obra, ano ou página foi inventado; “p.” só aparece onde conferido.
12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não têm competência
A regra da seção. A ciência não decide se o texto é revelado; decide se uma afirmação factual do texto é compatível com o observado.
Arqueologia de Jerusalém — a Cidade de Davi, os degraus e o Millô. O sítio ao sul do Monte do Templo contém a Stepped Stone Structure (estrutura em degraus, Area G), de cerca de 18 m, escavada por Macalister, Kenyon e Shiloh, e a Large Stone Structure, escavada por Eilat Mazar (2005-2007) e proposta como parte de um palácio real do séc. X a.C. (en.wiki, Large Stone Structure [V]). Mazar conecta as duas ao Millô (“Enchimento”, 2 Sm 5,9), o aterro que delimita a construção de Davi (en.wiki [V]). A identificação é disputada, não resolvida.
Mazar vs. Finkelstein e o que o radiocarbono decide. Em 2007, Israel Finkelstein, Ze’ev Herzog, David Ussishkin e Lily Singer-Avitz rebaixaram a datação de Mazar e negaram que as duas estruturas formem um conjunto, sugerindo data helenística para a parte superior dos degraus; Amihai Mazar respondeu e William G. Dever apoiou a leitura do séc. X (en.wiki [V]; Faust, ZDPV 126, 2010 [V]). O radiocarbono não “resolve” a questão do reino unido: o problema é de calibração e contexto estratigráfico, não de medição. O debate do Ferro IIA opõe a cronologia baixa de Finkelstein e Piasetzky à cronologia convencional modificada de A. Mazar, com Tel Rehov como sítio-âncora (Finkelstein & Piasetzky, Tel Aviv 30, 2003 [V]; A. Mazar, Levant 29, 1997 [V]; resolução proposta em Mazar, The Bible and Radiocarbon Dating, 2005 [V]). As 68 datas que deslocariam o Ferro IIA de c. 1000 para c. 900 a.C. são o coração do desacordo (Radiocarbon [V]). A curva de calibração e os conjuntos interlaboratoriais (IVC) permitem comparar — mas atribuir uma data a um estrato ainda depende de julgamento arqueológico. Finkelstein voltou ao tema em The Forgotten Kingdom (2013 [V]), revendo para baixo a extensão da monarquia unida; a estratigrafia de Megiddo, Gezer e Hazor é o campo da disputa (Finkelstein et al., NEA 74, 2011 [V]; A. Mazar, NEA 74, 2011 [V]). A existência de assentamentos é fato; a extensão e a centralização do reino de Davi são interpretação.
Epigrafia — a inscrição de Gate e o nome de Golias. Em 2005, a equipe de Aren Maeir em Tel es-Safi (a Gate filisteia) achou um fragmento de cerâmica com dois nomes não semíticos em escrita proto-cananeia, ALWT e WLT, que Maeir relacionou a “um Golias, ou antes, a dois nomes do tipo Golias” (Hasel, Biblical Research Institute [V]; blog oficial da escavação [V]). Não é o Golias bíblico nomeado — é a onomaística filisteia que torna o nome atestado. Atestação de nome não é atestação de pessoa.
A leitura de bytdwd em Tel Dan, com a controvérsia. A leitura “Casa de Davi” é a da maioria, mas é disputada: a ausência de divisor entre byt e dwd, e o sentido do próprio dwd (“amado”, “tio”, ou lugar). Lemche e George Athas propuseram ler bytdwd como topônimo (a própria “Cidade de Davi”); Davies e Stavrakopoulou contestam que a expressão prove a historicidade de Davi ou um reino unido do séc. IX (en.wiki, Tel Dan stele [V]). Rainey sustenta que a ausência de divisor é irrelevante e Garfinkel classifica as alternativas como implausíveis (en.wiki [V]). O estado honesto: a estela é genuína e atesta uma dinastia chamada “casa de Davi”; ela não prova os detalhes narrativos de Samuel nem a extensão do reino.
Genética do Levante. O DNA antigo mostra que as populações “cananeias” do Bronze Final formam um grupo geneticamente coerente, com continuidade substancial até as populações levantinas atuais (Agranat-Tamir et al., Cell 181, 2020 [V]; Haber et al., AJHG 101, 2017, pp. 274-282 [V]). Onde a genética NÃO tem competência: ela não identifica a linhagem de indivíduos nomeados — Davi, Saul, Golias —, pois trabalha com populações, não biografias.
Crítica textual — LXX, TM e a recensão kaige. Samuel é, com Jeremias, o livro do AT com as divergências textuais mais graves (§4.3 e §4.11 deram o caso de 1 Sm 17 e os rolos 4QSam). A camada científica que falta nomear é a da crítica textual como disciplina histórica: a Septuaginta de Samuel-Reis contém seções recensionais — a recensão kaige (que usa kaige para traduzir o hebraico gam), identificada por Dominique Barthélemy em Les devanciers d’Aquila (1963 [V]). O trabalho fundador sobre Samuel é de Frank Moore Cross e Eugene Ulrich (§4.11), com edição crítica na série Discoveries in the Judaean Desert [W]; o problema “proto-luciânico” em 1 Samuel tem estudo próprio (Kauhanen, dissertação, Helsinque [V]). Onde a crítica textual NÃO tem competência: ela diz qual testemunho é anterior, não qual é verdadeiro historicamente — reconstruir o texto mais antigo não decide o que aconteceu, só o que se escreveu primeiro.

13. Lacunas e Correções de Atribuição
- [—] Autoria “samuelita”. Não se atribui a Samuel como autor global; a crítica sustenta composição estratificada (fontes + redação deuteronomista). “Samuel escreveu 1 e 2 Samuel” deve ser corrigido para “tradição judaica” (1 Cr 29,29).
- [—] Números massoréticos exatos de versículos/palavras de Samuel: não conferidos nesta sessão; evitados.
- [W] Datação de Tel Dan e Mesha. Tel Dan: 870-750 a.C. (consenso: séc. IX); Mesha: c. 840 a.C. ou c. 810 a.C. — a disputa entre as duas datas não deve ser fixada de memória.
- [—] Relação entre 4QSamᵃ, LXX e SM. 4QSamᵃ alinhado à LXX (academia.edu [W]); a contagem exata de cópias de Samuel em Qumran não foi conferida e não é citada.
- [—] Comentário crítico acadêmico de Samuel em PT-BR. Localizados Baldwin (Vida Nova, 1996) e Chisholm (Vida Nova, 2017) [V/W]; o volume de Paulus (“Segundo livro de Samuel”) permanece sem autor/ISBN — lacuna de catalogação das séries PT.
- [W] “Davi autor de todos os Salmos”. A atribuição é tradicional (rubricas), não histórica.
- [—] Händel e 2 Samuel. O libreto de Saul extrai sobretudo de 1 Samuel; registrar a fonte já conferida e não estendê-la a 2 Samuel.
- [—] Jogos PT-BR de Samuel. Ausência confirmada em ≥2 tentativas de busca; não se inventa título.
Bibliografia-âncora verificada (com links de descoberta)

- Noth, Überlieferungsgeschichtliche Studien (Niemeyer, 1943). [V] trad. ingl. The Deuteronomistic History (JSOT, 1981); Bible Odyssey: https://www.bibleodyssey.org/articles/deuteronomistic-history/; BSac: https://www.galaxie.com/article/bsac172-688-03.
- Rost, Die Überlieferung von der Thronnachfolge Davids (Kohlhammer, 1926). [V] Internet Archive: https://archive.org/details/dieberlieferungv0000rost.
- Biran & Naveh, “An Aramaic Stele Fragment from Tel Dan”, IEJ 43 (1993), 81-98. [V] JSTOR: https://www.jstor.org/stable/27926300. Estela de Tel Dan [V] en.wiki: https://en.wikipedia.org/wiki/Tel_Dan_stele (basalto, Museu de Israel; segundo fragmento, IEJ 45/1995 [W]).
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- Lourenço (trad.), Bíblia — Volume V, Tomo I: Os Livros Históricos (Quetzal, 2023), ISBN 9789897224621. [V] WOOK: https://www.wook.pt/livro/biblia-volume-v-tomo-i-frederico-lourenco/21328922.
- Baldwin, 1 e 2 Samuel: Introdução e Comentário (Vida Nova, 1996) [W]. Chisholm Jr., 1 e 2 Samuel (Comentário Expositivo; Vida Nova, 2017), ISBN 9788527506953 [V].
- Arte (fichas conferidas): Michelangelo, David — Galleria dell’Accademia [V]: https://www.galleriaaccademiafirenze.it/en/artworks/david-michelangelo/; Bernini, David — Galleria Borghese [V]: https://www.collezionegalleriaborghese.it/en/opere/david; Caravaggio, David com a Cabeça de Golias — Galleria Borghese [V]: https://www.collezionegalleriaborghese.it/en/opere/david-with-the-head-of-goliath; Donatello, David — Bargello [V] en.wiki / V&A [W]: https://www.vam.ac.uk/articles/donatellos-david.
- Cinema e música: King David (1985) [V]: https://en.wikipedia.org/wiki/King_David_(film)); David and Bathsheba (1951) [V]: https://en.wikipedia.org/wiki/David_and_Bathsheba_(film)); David (1997) [V]: https://en.wikipedia.org/wiki/David_(1997_film)); Solomon (1997) [W]: https://en.wikipedia.org/wiki/Solomon_(film)); Händel, Saul HWV 53 (1739) [V]: https://en.wikipedia.org/wiki/Saul_(Handel)); Opera Today [W]: http://www.operatoday.com/content/2007/05/handel_saul_hwv.php.
- Islã: David in Islam [W]: https://en.wikipedia.org/wiki/David_in_Islam; Corão 2:251 (Davi e Jalut) [W]: https://quran.com/al-baqarah/251.
Como conseguir estas obras
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| Obra | Acesso | Onde |
|---|---|---|
| Noth, Überlieferungsgeschichtliche Studien (Niemeyer, 1943). trad. ingl. The Deuteronomistic His… | livre | bibleodyssey.org |
| Estela de Mesha (Louvre AO 5066) | livre | biblicalarchaeology.org |
| Tov, “The Composition of 1 Samuel 16-18 in the Light of the Septuagint” | livre | thetorah.com |
| Cross (4QSamᵇ, séc. III a.C.) | livre | cojs.org |
| Avioz, Nathan’s Oracle (2 Samuel 7) and Its Interpreters | livre | jhsonline.org |
| Rost, Die Überlieferung von der Thronnachfolge Davids (Kohlhammer, 1926) | empréstimo | Internet Archive |
| Alter, The David Story (Norton, 1999) | empréstimo | Internet Archive |
| Biran & Naveh, “An Aramaic Stele Fragment from Tel Dan”, IEJ 43 (1993), 81-98 | biblioteca | jstor.org |
| Tsumura, The First Book of Samuel (NICOT; Eerdmans, 2007) | compra | eerdmans.com |
| Lourenço (trad.), Bíblia — Volume V, Tomo I: Os Livros Históricos (Quetzal, 2023), ISBN 97898972… | compra | wook.pt |
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