Antiguidade Bíblica
Baruque (Barukh) — Artigo Enciclopédico
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1. Lead e Ficha
O Livro de Baruque (gr. Βαρούχ; hebr. בָּרוּךְ, Barukh, “abençoado”; lat. Baruch) é um escrito deuterocanônico do Antigo Testamento, canônico para católicos e ortodoxos e apócrifo para o judaísmo e as confissões protestantes — ainda que presente nas Bíblias protestantes que imprimem os Apócrifos [V — Barton; Muddiman, 2007, p. 699]. O livro se apresenta como obra de Baruque ben Neriah, o escriba e secretário do profeta Jeremias (Jr 36; Jr 45), escrita na Babilônia e enviada a Jerusalém [W].
Duas coisas dão ao dossiê a sua forma. A primeira é a atribuição pseudepigráfica: o texto declara uma autoria e um cenário que a crítica histórica não aceita, e a distância entre o quadro ficcional e a datação provável é o eixo de quase todo o debate (§2, §4.1). A segunda é a questão do texto: o livro sobreviveu em grego — na Septuaginta, onde Baruque e a Carta de Jeremias são dois livros separados —, e a Vulgata o agregou com a Carta como capítulo 6 [V — Barton; Muddiman, 2007]. É desse arranjo que nasce a diferença de numeração: 5 capítulos na Septuaginta e nas Bíblias ortodoxas; 6 capítulos na Vulgata e nas Bíblias católicas, em que o sexto é a Carta de Jeremias [W].
Este dossiê trata as duas obras — Baruque e a Carta de Jeremias —, porque é assim que elas circulam em português: a Bíblia Pastoral da PAULUS imprime “CARTA DE JEREMIAS” como capítulo 6 de Baruc [V — biblia.paulus.com.br].
| Campo | Dado | Marcador |
|---|---|---|
| Nome hebraico | Barukh (בָּרוּךְ), “abençoado” | [W] texto |
| Nome grego | Βαρούχ | [W] texto |
| Posição no cânon católico | livro profético, depois de Lamentações e antes de Ezequiel | [W] |
| Posição na Septuaginta | Baruque e a Carta de Jeremias separados, após Jeremias e Lamentações | [V] Adams, 2014, p. 1 |
| Capítulos | 5 (LXX e Bíblias ortodoxas); 6 na Vulgata e nas católicas (cap. 6 = Carta de Jeremias) | [V] Barton; Muddiman, 2007 |
| Língua de composição | hebraico, provavelmente (as versões derivam do grego); a tese grega original tem defensores | [V] Adams, 2014, p. 4; W — Tov, 1975 |
| Autoria | pseudepigráfica: atribuída a Baruque ben Neriah; a crítica rejeita a autoria declarada | [V] Barton; Muddiman, 2007, p. 699 |
| Datação provável | séc. II a.C. ou mais tardio (200–100 a.C. proposto); a tradição declara o séc. VI a.C. | [V] Barton; Muddiman, 2007; W — Luza, 2022 |
| Gêneros internos | oração de confissão (prosa), poema sapiencial, poema de consolação; a Carta é sátira contra a idolatria | [V] Henderson, 2016, pp. 543–556; W — Moore, 1977 |
| Quadro narrado | deportação para a Babilônia, “no quinto ano” após a queda de Jerusalém (Br 1,1–2) | [W] |
2. Contexto e Autoria
O quadro ficcional. O livro abre com uma moldura narrativa de precisão calculada: Baruque escreve “as palavras deste livro” em Babilônia, “no quinto ano, no sétimo dia do mês, no tempo em que os caldeus tomaram Jerusalém e a incendiaram” (Br 1,1–2) [W]. Ele lê o rolo aos deportados, que choram, jejuam e oram; e, com prata recolhida, envia o livro e os utensílios do Templo a Jerusalém, para que os sacerdotes ofereçam sacrifícios e orem “pela vida de Nabucodonosor, rei da Babilônia, e pela vida de Baltasar, seu filho” (Br 1,10–12) [W]. O escritor imita deliberadamente o episódio de Jr 36, em que Baruque escreve e lê as profecias de Jeremias [V — Bogaert, 2005, pp. 286–342].
Como moldura, ela funciona. Como registro histórico, tem dois defeitos que a crítica aponta há dois séculos. O primeiro é Baltasar: chamado “seu filho” (1,11), quando as fontes cuneiformes o mostram como filho de Nabonido, não de Nabucodonosor — o mesmo deslize que aparece em Daniel [W]. O segundo é a própria moldura temporal: o livro usa a fórmula “no quinto ano”, mas o conteúdo que segue não condiz com o século VI [W].
A datação real. A erudição crítica é praticamente unânime em recusar a autoria de Baruque ou de Jeremias e a datação no exílio [V — Barton; Muddiman, 2007, p. 699]. Os paralelos temáticos e linguísticos apontam para Daniel e para o Eclesiástico (Sirácida) — duas obras do século II a.C. —, e a purificação do Templo depois da profanação de Antíoco IV Epifânio oferece o cenário histórico mais provável; propõe-se a faixa de 200–100 a.C. [V — Barton; Muddiman, 2007, p. 699]. O comentário católico brasileiro de Nilo Luza repete a mesma datação em registro popular: “a redação final foi feita durante o domínio grego, talvez no 2.º ou 1.º século a.C.” [V — Luza, 2022, Paulus]. Quem sustenta a datação declarada são as confissões tradicionalistas e boa parte da leitura devocional; a posição não é majoritária na exegese [W].
Por que a crítica não aceita a data declarada. Três argumentos, em ordem de força. (1) Dependência literária. A oração de confissão (Br 1,15–3,8) depende de Dn 9,4–19, ele mesmo um texto do século II [W — Collins, 1993]. (2) Linguagem compósita. Emanuel Tov descreveu Baruque como um “mosaico de passagens bíblicas”: o autor costura fórmulas de Jeremias, Daniel, Deuteronômio e dos Salmos, o que indica um escritor tardio, saturado das Escrituras [V — Tov, 1975]. (3) Ausência de testemunho antigo em hebraico. Nem Orígenes, na preparação da Hexapla, nem Jerônimo conheciam um texto hebraico de Baruque [V — Adams, 2014, pp. 2–3].
O ponto é de método: a leitura tradicional vê um relato do escriba do exílio; a crítica, uma obra pseudepigráfica [W].
3. Estrutura (5 capítulos e a Carta de Jeremias)
Baruque não é um livro contínuo: é uma coleção de três peças de gêneros distintos, sobrepostas por uma moldura em prosa, mais a Carta anexa. Em português católico, a numeração corrente é a da Vulgata (com a Carta no cap. 6); nas Bíblias derivadas da Septuaginta, a Carta é livro autônomo [V — Barton; Muddiman, 2007].
- Br 1,1–14 — Prólogo em prosa. A moldura narrativa: Baruque escreve na Babilônia, lê aos deportados, envia o rolo e a prata a Jerusalém [W].
- Br 1,15–3,8 — Oração de confissão e súplica (prosa). A “vergonha da face”: “A justiça é do Senhor nosso Deus; a nós, porém, cabe a vergonha da face” (1,15) [W]. A confissão desemboca em pedido de misericórdia (2,11–3,8).
- Br 3,9–4,4 — Poema da sabedoria (verso). A busca da sabedoria que ninguém encontrou (“Quem subiu ao céu e a tomou?”, 3,29) e a sua identificação com a Torá: “Este é o livro dos mandamentos de Deus” (4,1) [W].
- Br 4,5–5,9 — Poema de consolação (verso). Sião personificada fala como mãe e viúva, exorta os filhos exilados e recebe a visão da Jerusalém futura: “Depõe, Jerusalém, o teu vestido de luto e de aflição” (5,1); “Levanta-te, Jerusalém… olha para o Oriente e vê teus filhos reunidos” (5,5) [V — Henderson, 2016, pp. 543–556].
- Br 6 (Carta de Jeremias) — Sátira contra a idolatria. “Cópia da carta que Jeremias mandou aos prisioneiros” (6,1); a peça desmonta, item por item, a pretensão dos ídolos de ouro, prata e madeira (6,3–72) [V — biblia.paulus.com.br; W — Moore, 1977].
A moldura unifica o que os gêneros separam, e é essa costura que autoriza a hipótese de Tov e Bogaert de que Baruque nasceu, no uso cristão grego, como continuação editorial de Jeremias [V — Bogaert, 2005, pp. 286–342].
4. Conteúdos-chave com Debate
4.1 O quadro ficcional e a pseudepigrafia
O livro diz de si mesmo que é de Baruque, escriba de Jeremias. A crítica reconhece na figura de Baruque o protótipo do escriba fiel — modelo que valoriza a obra atribuída a ele — e lê o livro como pseudepigrafia: o recurso, comum no judaísmo do Segundo Templo, de atribuir um texto a personagem ilustre do passado para conferir-lhe autoridade [V — Barton; Muddiman, 2007; W — Luza, 2022]. O debate teológico que disso decorre — se a pseudepigrafia compromete a inspiração — é tratado em §11 [W].
4.2 A confissão de 1,15–3,8 e a dependência de Daniel 9
A oração de confissão segue o modelo da confissão deuteronomística: reconhecer a justiça de Deus, atribuir a catástrofe ao próprio pecado e pedir a restauração “por amor do teu nome” (2,11–15) [W]. A comparação decisiva é com Dn 9,4–19, com Esdras 9 e com Neemias 9 [W]. Os críticos notam o paralelo estreito com Dn 9 — discute-se qual depende do outro, com a maioria situando Baruque na dependência de Daniel [W — Collins, 1993]. É essa dependência que data o livro: se Baruque pressupõe Daniel, não é anterior ao século II a.C. [W].
4.3 O poema da sabedoria (3,9–4,4): a sabedoria é a Torá
O poema exorta Israel a aprender “onde está a prudência” (3,14) e conduz a uma das mais altas formulações da teologia sapiencial hebraica: ninguém subiu ao céu para tomar a sabedoria nem atravessou o mar para comprá-la (3,29–30); foi Deus quem a encontrou e a entregou a Jacó (3,36–37); e ela é “o livro dos mandamentos de Deus” (4,1) [W]. A identificação da sabedoria com a Torá é o ponto de virada: o que em Provérbios 8 aparece como figura feminina que assiste à criação torna-se, em Baruque, o texto legal de Israel. O paralelo mais próximo é Dt 30,11–14, no qual o “mandamento” é substituído pela “sabedoria” [W].
Daí o debate mais famoso do livro: a citação de Dt 30,12–14 por Paulo em Rm 10,6–8. Paulo altera o texto de forma que não corresponde a nenhuma tradição textual conhecida — “quem descerá ao abismo?” em lugar de “quem atravessará o mar?” —, e essa divergência, mostra Richard B. Hays, reflete a convenção sapiencial da Sophia personificada, a mesma que aparece em Bar 3,29–30: o texto que Paulo ecoa é, muito provavelmente, o de Baruque, não o de Deuteronômio cru [V — Hays, 1989, p. 80]. A tese tem peso (Hays a atribui, em parte, a M. Jack Suggs), mas deve ser tratada como hipótese: Baruque não é citado por nome em parte alguma do Novo Testamento, e há quem negue qualquer alusão [V — Adams, 2014, pp. 16–17]. A posição majoritária é que a redação paulina reflete um desenvolvimento sapiencial que Baruque documenta; que Paulo dependa diretamente de Baruque é o passo que resta discutido [W].
4.4 Sião personificada como mãe (4,5–5,9)
O poema final é a peça de maior força litúrgica do livro. Jerusalém fala em primeira pessoa: como progenitora agravada pelos filhos (4,5–9a), como mãe viúva e enlutada (4,12–16), como profetisa que exorta os exilados à perseverança (4,17–29) e, por fim, como cidade gloriosa do futuro (4,30–5,9) [V — Henderson, 2016, pp. 543–556]. Ruth Henderson mostrou que a Jerusalém que exorta com voz profética é um desenvolvimento sem precedente direto nos textos bíblicos: a cidade não só sofre, ela intercede e ensina [V — Henderson, 2016].
A imagem final — os filhos de Jerusalém “reunidos do Oriente ao Ocidente”, conduzidos por Deus “na claridade da sua glória” (5,5–9) — é o texto que a Igreja Católica canta no segundo domingo do Advento do Ano C, e que as leituras anglicanas reservam para a Vigília de Natal [V — dehonianos.org; W — Barton; Muddiman, 2007].
4.5 A Carta de Jeremias (Br 6): a sátira da idolatria
A Carta é uma sátira — não uma carta real, mas um gênero literário que se apresenta como missiva —, dirigida aos deportados que “verão na Babilônia deuses de prata, de ouro e de madeira, carregados nos ombros” (6,3) [W]. Ela desmonta o ídolo por acumulação de ridículos: os deuses têm ouro na boca mas não falam (6,7); precisam ser vestidos e limpos como gente (6,10–11); têm olhos cheios de poeira (6,16); são carregados porque não têm pés (6,25); não podem livrar o fraco do poderoso nem devolver a vista ao cego (6,33–36) [V — biblia.paulus.com.br]. A imagem de encerramento é a mais célebre: “Como espantalho em plantação de pepinos, que nada vigia, assim são esses deuses” (6,69); e, logo adiante, “como cadáver jogado em cova escura” (6,70) [V — biblia.paulus.com.br].
O gênero tem parentes próximos na própria Bíblia: Is 44,9–20 (o ferreiro que faz um deus do resto da lenha), o Salmo 115, o Salmo 135 e Hab 2,18–19 [W]. O debate é o da direção da dependência: uma corrente de sátira iconoclasta já estabelecida no Israel pós-exílico, ou uma polêmica helenística tardia? A comparação remete a um fundo sapiencial e profético comum, e o paralelo epigráfico/de sabedoria (a crítica mesopotâmica ao culto das imagens) permanece analogia de motivo, não prova de cópia [W — Mettinger, 1995].

5. Temas
- O pecado como explicação do exílio: não se acusa Deus de infidelidade; a catástrofe é fruto da própria recusa (1,15–2,10; 4,6) [W].
- A Torá como sabedoria acessível: a sabedoria não precisa ser buscada no céu nem comprada além-mar; ela já está dada como lei (3,29–4,4) [W].
- Sião como mãe e cidade-esposa restaurada: a personificação da cidade reúne lamento e promessa (4,5–5,9) [V — Henderson, 2016].
- A diáspora e a centralidade de Jerusalém: os exilados enviam oferendas e oração “para” o Templo; o centro permanece Jerusalém (1,10–14) [W].
- Idolatria como vacuidade: o ídolo é o que não vê, não ouve, não fala e não livra (Br 6) [W].
- Oração pelos poderes estrangeiros: reza-se pela vida do imperador (1,11–12) [W].
6. Recepção
Qumran. A Carta de Jeremias tem testemunho direto: 7Q2 (7QpapEpJer), fragmento em grego no qual se leem os versículos 43–44 da Carta, em escrita asmoneia, sobre papiro [V — Baillet, 1962, DJD 3, pp. 144–145]. De Baruque, ao contrário, não se achou fragmento algum em Qumran — o que a crítica registra como dado notável e não como acidente [V — Barton; Muddiman, 2007; W — Adams, 2014, p. 19].
Judaísmo. O livro não é citado nem comentado na literatura rabínica [V — Barton; Muddiman, 2007, p. 699]. Ele ficou fora do cânon hebraico; as figuras de Baruque, porém, proliferaram na literatura apocalíptica judaica — 2 Baruque (Apocalipse Siríaco), 3 Baruque e 4 Baruque —, textos pseudepigráficos que nada têm a ver com o livro canônico e devem ser distinguidos dele [W]. A observação é de método: “Baruque” designa quatro ou mais obras independentes, e confundi-las é o erro mais comum de atribuição (§13).
Patrística e Idade Média. O primeiro uso patrístico verificado é de Atenágoras de Atenas, Legatio pro Christianis 9, de c. 177 [W — Barton; Muddiman, 2007]. Clemente de Alexandria (m. 217) cita Baruque 3,16–19; Hilário de Poitiers (m. 368) cita 3,36–38 sob o nome de Jeremias — o hábito antigo de citar Baruque como Jeremias, porque o livro circulava como apêndice a ele [V — newadvent.org]. Atanásio (Epístola 39, de 367), Cirilo de Jerusalém (Catequese 4,35) e Epifânio de Salamina (Panarion 8:6:1–3) listam Baruque entre os livros canônicos [V — newadvent.org]. Agostinho, em A Cidade de Deus 18,33, discute Baruque 3,36–38 e prefere atribuí-lo a Jeremias [V — newadvent.org]. Tomás de Aquino cita Baruque 3,37 (3,38 na Vulgata) para afirmar que “o Filho de Deus assumiu a natureza humana para se mostrar aos olhos dos homens”, na Suma Teológica III, q. 4, a. 4, e de novo em III, q. 40, a. 1 [V — newadvent.org].
Reforma e cânon. Jerônimo, embora duvidasse do estatuto canônico, incluiu Baruque na Vulgata, junto dos profetas [V — Barton; Muddiman, 2007]. O Concílio de Florença (1442) e o Concílio de Trento (1546) definem “Jeremias com Baruque” como canônico [V — ewtn.com; newadvent.org]. Lutero o deslocou para os Apócrifos, posição que o Artigo VI dos Trinta e Nove Artigos formaliza [W]. Trento fixa o cânon católico com os deuterocanônicos — o que explica por que Baruque está nas Bíblias católicas e ortodoxas e não nas protestantes, fora das edições com Apócrifos [W].
Liturgia. A presença de Baruque no culto cristão é verificável e ampla. No rito romano, Bar 3,9–38 (na forma 3,9–15.32–4,4) é a sexta leitura da Vigília Pascal; Bar 1,14–2,5; 3,1–8 é leitura do Ofício das Leituras da 29.ª semana do Tempo Comum (sexta-feira); Bar 5,1–9 é a primeira leitura do segundo domingo do Advento, Ano C [V — manyanet.org.br; arquisp.org.br; dehonianos.org; W — Barton; Muddiman, 2007]. No rito bizantino, uma seleção de Baruque — anunciada como “Jeremias”, por ser tratada como extensão do livro do profeta — é uma das oito paroemias da Véspera de Natal [W]. A Carta de Jeremias (Baruque 6) é citada no Catecismo da Igreja Católica, § 2112, na exposição contra a idolatria [V — vatican.va]. E Baruque 3,38 é referência da constituição Dei Verbum do Concílio Vaticano II [V — vatican.va].
Literatura e arte. O poeta inglês Geoffrey Hill publicou postumamente, pela Oxford University Press, The Book of Baruch by the Gnostic Justin (2019), uma sequência de 270 poemas que toma de empréstimo o nome do livro bíblico para um projeto de outra ordem [V — global.oup.com]. As edições ilustradas antigas associavam a Baruque utensílios do Templo, como no frontispício de Philip James de Loutherbourg para a Macklin Bible (1816), que ilustra Baruque 1,8–9 [V — Barton; Muddiman, 2007]. Não localizei obra de arte de grande circulação que trate a Carta de Jeremias isoladamente [—].


7. Traduções PT e Comentários PT
O ponto delicado de Baruque em português é o inverso do de Daniel: muitas edições brasileiras não trazem o livro de modo algum — ele está ausente das Bíblias protestantes correntes. Quem o procura precisa saber em quais procurar.
Bíblias brasileiras que TRAZEM Baruque (e a Carta de Jeremias).
- Bíblia Ave-Maria (Editora Ave-Maria) — edição católica clássica, com os deuterocanônicos; o livro aparece como Baruc, com a Carta no cap. 6 [V — liriocatolico.com.br, textos de Baruc 1 e 6].
- Bíblia Pastoral (São Paulo: Paulus) — tradução católica de linguagem corrente; o texto on-line da editora traz Baruc com seis capítulos, o sexto intitulado “CARTA DE JEREMIAS” [V — biblia.paulus.com.br].
- Bíblia de Jerusalém (edição brasileira: Paulus, da Bible de Jérusalem da École Biblique) — com introduções e notas da escola francesa; traz os deuterocanônicos [W].
- TEB — Tradução Ecumênica da Bíblia (Edições Loyola; nova ed. 2010, ISBN 9788515030163) — edição brasileira da TOB francesa, cânon católico [V — loyola.com.br].
- Edições CNBB e Bíblia Pastoral seguem o cânon católico; não conferi em catálogo primário o estado exato de cada tiragem [—].
Bíblias brasileiras que NÃO trazem Baruque.
- Almeida nas revisões correntes — ARC, ARA e ACF (tradição de João Ferreira de Almeida) [W].
- NVI e NTLH — versões protestantes de uso corrente, sem os deuterocanônicos [W].
Edição crítica PT-PT da Septuaginta — com a Carta de Jeremias. Frederico Lourenço (helenista, Prémio Pessoa; professor catedrático em Coimbra desde 2024) publica pela Quetzal Editores a tradução integral da Bíblia Grega. O Volume III — Antigo Testamento: Os Livros Proféticos (Quetzal, out. 2017, ISBN 9789897224027, 1016 pp.) inclui, segundo a editora, três livros “não incluídos na versão canónica das Bíblias católica e protestante”: a Epístola de Jeremias, Susana e Bel e o Dragão [V — quetzaleditores.pt]. Registre-se a formulação como dado de recepção: a Epístola está na versão canónica católica, como Baruque 6; o que a Quetzal oferece é a versão grega traduzida da Septuaginta. Se o mesmo volume traz Baruque propriamente, não consegui confirmar na sinopse da editora [—].
Comentários e estudos em português.
- Nilo Luza, “36. Livro de Baruc”, coluna Bíblia do portal Paulus (São Paulo, 17 fev. 2022) [V — paulus.com.br/portal/36-livro-de-baruc/]. Panorama popular e correto: livro deuterocanônico, pseudônimo, redação sob domínio grego.
- “19. O Livro de Baruc: É tempo de voltar para o Senhor” — estudo catequético da Editora Fique Firme [V — fiquefirme.com.br]. Uso catequético, não crítico.
- PAULUS, dossier “Profetas Bíblicos — Baruc” [V — paulus.com.br/portal/profetas-biblicos-baruc/]. Material de divulgação.
Comentários-âncora em inglês (sem tradução PT localizada). Carey A. Moore, Daniel, Esther, and Jeremiah: The Additions (Anchor Bible 44; Doubleday, 1977; ISBN 9780385047029) — o comentário das adições, com a Carta de Jeremias [V — OL4899187M]; Sean A. Adams, Baruch and the Epistle of Jeremiah (Septuagint Commentary Series; Leiden: Brill, 2014; ISBN 9789004277335) [V — brill.com]; Emanuel Tov, The Book of Baruch also Called I Baruch (Scholars Press, 1975) [W]; David G. Burke, The Poetry of Baruch (SBLSCS 10; Scholars Press, 1982) [W]. Traduções PT não localizadas [—].
8. Audiovisual e Games
Baruque é quase invisível no audiovisual de grande circulação, e o dossiê registra isso em vez de preencher com títulos que não existem.
| Título | Realidade | Validação PT | Marcador |
|---|---|---|---|
| Jeremias (filme para TV, 1998; dir. Harry Winer) | adaptação da vida de Jeremias; Baruque aparece como personagem coadjuvante do escriba | legendas/dublagem PT circulam em edições domésticas | [W] |
| The Bible (minissérie, History, 2013) | episódios sobre o exílio cobrem Jeremias; Baruque não é personagem de destaque | dublagem e legendas PT disponíveis | [W] |
| Vídeos de estudo em PT | cursos bíblicos e catequeses comentam o livro (p. ex. séries do portal Paulus e da Fique Firme) | PT-BR | [V — paulus.com.br; fiquefirme.com.br] |
| Videojogos com enredo de Baruque | nenhum título dedicado localizado em PT-BR ou fora dele | — | [—] |
Atenção a um falso parente: produções recentes usam o nome Baruk para personagens de ficção sem relação alguma com o escriba bíblico — homonímia, não adaptação [—]. Não há adaptação audiovisual dedicada à Carta de Jeremias [—].
9. Mitologia e Literatura Comparada
A confissão deuteronomística e as orações penitenciais do antigo Oriente
A oração de Baruque pertence a um gênero bem documentado no antigo Oriente: a confissão nacional que atribui a catástrofe ao próprio pecado. Na Bíblia, o grupo é claro — Esdras 9, Neemias 9 e Daniel 9 —, e a crítica trabalha a hipótese de uma liturgia penitencial comum por trás deles [W]. Fora da Bíblia, o parente mais próximo é a oração hitita: as Preces contra a peste de Mursili II confessam uma falta não identificada e pedem que o deus se aplaque — texto reunido por Itamar Singer, Hittite Prayers (SBL, 2002) [W]. Na tradição mesopotâmica, o lamento individual aparece no poema acádio “Ludlul bēl nēmeqi” e nos Shurpu, em que a causa da desgraça é buscada numa culpa oculta [W]. O estudo do gênero bíblico é o de Patrick D. Miller, They Cried to the Lord (Fortress, 1994) [W]; Mark J. Boda, Praying the Tradition (BZAW 277; de Gruyter, 1999) [W]; e, para o modelo deuteronomístico, Moshe Weinfeld, Deuteronomy and the Deuteronomic School (Oxford, 1972) [W]. Baruque não é original no gênero — é tardio: seu valor está em como recolhe e intensifica a fórmula [W].
A sátira da idolatria: sapienciais, Salmos e Isaías 44
A Carta de Jeremias continua uma veia satírica já aberta em Is 44,9–20, no Salmo 115 (“têm boca e não falam”), no Salmo 135 e em Hab 2,18–19 (“ai daquele que diz à madeira: desperta!”) [W]. O que a aproxima do material anterior é o método: enumerar as partes do corpo e o trabalho do artesão para expor o absurdo — o ouro na boca que não fala, os pés que faltam, a poeira nos olhos. Tryggve N. D. Mettinger, No Graven Image? (Almqvist & Wiksell, 1995), mostrou que a polêmica contra a imagem tem raízes antigas no aniconismo israelita [W]; Nathaniel B. Levtow, Images of Others (Eisenbrauns, 2008), leu-a como política icônica — a acusação de idolatria como forma de definir a identidade contra o outro [W]; e Michael B. Dick (org.), Born in Heaven, Made on Earth (Eisenbrauns, 1999), documenta a teologia mesopotâmica da imagem cultual (o mīs pî, que “animava” a estátua) — o que a sátira bíblica não menciona e contra o que, no fundo, argumenta [W]. A comparação mede a diferença de pressuposto, não a semelhança.
A personificação da cidade nos Salmos e nos lamentos de cidade antigos
Baruque põe Jerusalém a falar como mãe, viúva e profetisa. A Bíblia conhece a cidade personificada — “a filha de Sião” que geme nos Salmos (Sl 137) e que chora em Lamentações 1, onde a cidade é a viúva que “chora amargamente durante a noite” [W]. A crítica reconhece aí a herança do gênero mesopotâmico dos lamentos de cidade: a Lamentação sobre a destruição de Ur e a Lamentação sobre a destruição de Sumer e Ur põem a cidade a chorar a própria ruína [W — Kramer, ANET]. F. W. Dobbs-Allsopp, Weep, O Daughter of Zion (Biblica et Orientalia 44; Pontifício Instituto Bíblico, 1993), mapeou a passagem do gênero para a Bíblia hebraica [W]; Adele Berlin, Lamentations (OTL; Westminster John Knox, 2002), mostrou como Lamentações 1 constrói a voz da cidade [W]; e Mark E. Cohen, The Canonical Lamentations of Ancient Mesopotamia (CDL Press, 1988), fixou o corpus acádio [W]. A novidade de Baruque, como mostrou Henderson, é dar à cidade não só voz de lamento, mas voz profética e intercessória [V — Henderson, 2016, pp. 543–556].

10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta
A crítica da projeção: Espinosa e Feuerbach
A Carta de Jeremias zomba do ídolo que não fala, não vê e não livra. Baruch Espinosa, no Tratado Teológico-Político (1670), ataca a superstição como o medo que faz os homens buscarem refúgio em figuras que eles mesmos fabricam e, no Apêndice da Ética, explica a atribuição a Deus de fins e olhos humanos como ilusão antropomórfica [W]. Ludwig Feuerbach, em A Essência do Cristianismo (1841), radicaliza a tese: os predicados de Deus são os da humanidade alienada, e a teologia é antropologia — a crítica da idolatria invertida contra a própria religião [W]. A pergunta que fica: se o ídolo é projeção do desejo, que garante que o próprio Deus não o seja? Registram-se as duas como leituras, não como conclusões decidíveis [W].
A superstição e os limites da razão: Kant
Immanuel Kant, em A religião dentro dos limites da simples razão (1793), distingue a religião moral da superstição — a crença que espera de Deus o que o homem deve fazer por si [W]. A Carta, ao ridicularizar quem espera do ídolo a vida, a vista e o livramento (Br 6,35–37), formula em registro sapiencial o que Kant formularia em registro crítico [W].
Teodiceia: por que foram deportados?
A pergunta que Baruque responde é a da teodiceia coletiva: por que um povo escolhido sofre derrota, exílio e ruína do santuário? A resposta é penitencial — a culpa é do povo, e Deus permanece justo (Br 2,6–12). Leibniz deu nome ao problema (Théodicée, 1710); Kant, no ensaio sobre a teodiceia (1791), concluiu que a razão não pode justificar Deus diante do mal [W]; John L. Mackie, “Evil and Omnipotence” (Mind 64, 1955), formulou o “problema do mal” como contradição entre onipotência, bondade e mal [W]; William L. Rowe, “The Problem of Evil and Some Varieties of Atheism” (American Philosophical Quarterly 16, 1979), converteu-o em argumento evidencial [W]. Baruque não apresenta teodiceia especulativa: apresenta confissão e esperança de retorno [W].
Vítima, violência e idolatria: René Girard
René Girard leu o sacrifício como mecanismo de contenção da violência coletiva — o bode expiatório que resolve a crise mimética (Le bouc émissaire, 1982) [W]. Lido com esse instrumental, o ídolo é o dispositivo que fixa a violência num objeto externo, e a Carta, ao contestar os sacrifícios que “as mulheres salgam sem dar nada aos pobres” (Br 6,27), toca a economia sacrificial do culto [V — biblia.paulus.com.br]. A objeção exegética é a de sempre: coincidência de motivo não é influência [W].
Fronteiras, pureza e o corpo do ídolo: Mary Douglas
Mary Douglas, em Pureza e Perigo (1966), mostrou que as leis de pureza organizam o mundo por classificação e que o corpo é o mapa onde as fronteiras sociais se inscrevem [W]. A Carta é, de ponta a ponta, um discurso sobre corpos desordenados: o deus com boca que não fala, olhos com poeira, sem pés (6,7.16.25) — um corpo que mistura categorias e por isso não pode ser divino [V — biblia.paulus.com.br]. O ídolo viola a taxonomia, e a sátira explora essa violação [W].
Vergonha, aversão e a “vergonha da face”: Martha Nussbaum
A “vergonha da face” (Br 1,15) toca a filosofia moral das emoções. Martha Nussbaum, em Hiding from Humanity: Disgust, Shame, and the Law (Princeton, 2004), sustenta que a vergonha e a aversão são emoções perigosas quando convertidas em norma: projetam no outro a fragilidade que negamos em nós [W]. A confissão de Baruque é o caso inverso — a vergonha é orientada para dentro, não para estigmatizar o outro, mas para reordenar a comunidade diante de Deus [W].
11. Teologia — os debates
Pseudepigrafia, inspiração e autoridade
Se o livro foi escrito no século II a.C. e atribuído a um escriba do século VI, a teologia precisa dizer se isso compromete a inspiração. As respostas divergem: a evangélica e a tradicionalista sublinham a historicidade plena; a católica e a ortodoxa leem o livro como palavra de Deus na Igreja, com a autoria histórica em segundo plano; a crítica reenquadra a inspiração como autoridade da tradição que canonizou o livro [W]. A questão é teológica, não decidível por dados textuais [W].
O lugar de Baruque: livro autônomo ou apêndice de Jeremias?
O debate canônico antigo é sobre a identidade do livro. Por séculos ele foi lido como parte de Jeremias — o que explica por que os Padres o citam “sob o nome de Jeremias” [V — newadvent.org]. Pierre-Maurice Bogaert propôs que a constituição de Baruque como livro distinto foi inovação da prática cristã grega a partir do século III, partindo da forma longa de Jeremias na Septuaginta; a versão latina antiga precedeu essa prática e mantinha o texto dentro de Jeremias [V — Bogaert, 2005, pp. 286–342]. A consequência é grande: para a tradição, Baruque é um livro em separado; para a crítica, é o resultado de uma decisão editorial [W].
A sabedoria que é a Torá: de Provérbios 8 à cristologia
A identificação “sabedoria = lei” (Br 4,1) tem duas consequências teológicas. No judaísmo, consolida o que Jon D. Levenson descreveu como a integração da criação e da revelação: a ordem do mundo e a ordem da Torá são a mesma [W]. No cristianismo, o versículo Baruque 3,37–38 (“depois apareceu na terra e conviveu com os homens”) foi lido como profecia da Encarnação — Tomás de Aquino o usa na Suma Teológica III, q. 4, a. 4, e a constituição Dei Verbum o cita [V — newadvent.org; vatican.va]. A exegese atual observa que o texto, propriamente, fala da Sabedoria divina que se manifesta, e que a leitura cristológica é um desenvolvimento posterior — não uma leitura do sentido literal [W]. A questão da encarnação da sabedoria é o ponto em que Baruque mais influenciou a teologia cristã, ainda que por um caminho interpretativo [W].
Exílio, diáspora e libertação
A teologia do exílio de Baruque — a culpa é do povo, a esperança está no retorno, e a oração deve ser feita também pelos poderes estrangeiros (1,11–12) — é um programa de vida na diáspora. Gerhard von Rad e Martin Noth leram a historiografia deuteronomística como teologia do exílio e da retribuição; Frank Moore Cross mostrou a continuidade mítica que atravessa a linguagem de Sião [W]. A leitura que se apropriou do texto no século XX é a da teologia da libertação: Gustavo Gutiérrez inscreveu os profetas — e a confissão do exílio — na denúncia da opressão e na dignidade dos pobres [W]. Levenson lembra o corretivo: em Baruque, o mal não é aniquilado; o retorno é promessa, e o presente permanece ambíguo (Creation and the Persistence of Evil, 1988) [W].
Confissão, penitência e o retorno litúrgico
A oração de Baruque (1,15–3,8) tornou-se texto litúrgico (§6), e a sua teologia da vergonha alimenta a teologia da penitência [W]. O que se debate é o alcance da restauração prometida: histórica (o retorno do exílio) ou escatológica (a Jerusalém de 5,9 como cidade dos últimos tempos) [W].
11.1. Comentaristas por esfera confessional
Esta subseção organiza a recepção de Baruque por tradição de leitura. A regra de rotulagem é a do método desta camada — a perspectiva se declara, não se atribui; o rótulo é metadado, não argumento. Convenções: [V] conferido nesta sessão; [W] conhecido, não reconferido; [—] lacuna. Onde a obra não foi conferida em edição primária, isso é dito no lugar.
Judaica
A situação é peculiar e precisa ser declarada: o livro está fora do cânon hebraico e não é comentado na literatura rabínica [V — Barton; Muddiman, 2007, p. 699]. Não há, portanto, comentário judaico corrente a Baruque — e preencher a lacuna seria o erro. A erudição judaica moderna que toca o livro trata-o por vizinhança temática: Jon D. Levenson (teologia da criação e do mal), Michael Fishbane (exegese intrabíblica), e o estudo comparativo dos lamentos de cidade [W]. Registre-se ainda a abundância dos “outros Baruques” pseudepigráficos (2 Baruque, 3 Baruque, 4 Baruque), que pertencem à literatura judaica apocalíptica e não ao livro canônico [W].
Católica ocidental (latina)
- Jerônimo (c. 347–420) — incluiu Baruque na Vulgata apesar das dúvidas sobre o cânon; fonte da colocação entre os profetas e da agregação da Carta como cap. 6 [V — Barton; Muddiman, 2007].
- Agostinho de Hipona (354–430) — A Cidade de Deus 18,33: discute Bar 3,36–38 e prefere atribuí-lo a Jeremias [V — newadvent.org].
- Tomás de Aquino (1225–1274) — Suma Teológica III, q. 4, a. 4 e III, q. 40, a. 1: Bar 3,37–38 como referência à assunção da natureza humana pelo Filho [V — newadvent.org].
- Nicolau de Lira (c. 1270–1349) — Postilla litteralis aos Profetas [W].
- Cornélio a Lapide (1567–1637) — Commentaria in Baruch [W].
- Pierre-Maurice Bogaert (beneditino) — Revue Bénédictine 115 (2005), o estudo decisivo sobre a circulação de Baruque nos manuscritos latinos [V — DOI 10.1484/J.RB.5.100598].
- Nilo Luza (PAULUS, Brasil) — panoramas populares em português [V — paulus.com.br].
Católica oriental e grega patrística
- Atenágoras de Atenas (c. 177) — Legatio pro Christianis 9: o primeiro uso patrístico verificado [W].
- Clemente de Alexandria (m. 217) — cita Bar 3,16–19 [W].
- Hilário de Poitiers (m. 368) — cita Bar 3,36–38 sob o nome de Jeremias [V — newadvent.org].
- A distinção alexandrina (alegórica) e antioquena (literal) explica por que a leitura de Bar 3,37–38 oscila entre a Sabedoria manifesta e a Encarnação [W].
Ortodoxa
- Atanásio de Alexandria (Epístola 39, 367) — lista “Jeremias com Baruque, Lamentações e a Epístola” entre os canônicos [V — newadvent.org].
- Cirilo de Jerusalém (Catequese 4,35) e Epifânio de Salamina (Panarion 8:6:1–3) — o mesmo [V — newadvent.org].
- Sínodo de Laodiceia (c. 364), Cânone 59/60 — lista “Jeremias, e Baruque, as Lamentações e a Epístola” como canônicos [V — newadvent.org].
- Orthodox Study Bible (NT 1993; completa 2008) — notas patrísticas [W].
- A liturgia bizantina lê Baruque como extensão de Jeremias, anunciado pelo nome do profeta, nas paroemias do Natal [W].
Protestante histórica
- Martinho Lutero — coloca Baruque entre os Apócrifos do Antigo Testamento na Bíblia alemã (1534) [W].
- Trinta e Nove Artigos (Igreja da Inglaterra), Artigo VI — enumera Baruque entre os livros que a Igreja “lê para exemplo de vida e instrução de costumes”, mas não para estabelecer doutrina [W].
- Keil e Delitzsch e os comentários clássicos alemães não produzem comentário corrente a Baruque na série — lacuna característica das séries protestantes, que excluem os deuterocanônicos [W].
- Martin Hengel, Judaism and Hellenism (SCM, 1974) — o contexto helenístico em que o livro se situa, referência obrigatória para a datação [W].
Evangélica
- David A. deSilva, Introducing the Apocrypha (Grand Rapids: Baker Academic, 2002; 2.ª ed. 2018) — a introdução evangélica de referência aos deuterocanônicos [W].
- David G. Burke, The Poetry of Baruch (SBLSCS 10; Scholars Press, 1982) — análise métrica e poética do bloco sapiencial [W].
- Sean A. Adams, Baruch and the Epistle of Jeremiah (Brill, 2014) — comentário crítico recente, hoje a referência técnica em inglês [V — brill.com].
- Observação de assimetria: o mercado de comentários evangélicos raramente cobre Baruque; a lacuna é de oferta editorial, não de mérito [W].
Balanço de esferas (contagem declarada)
| Esfera | Nomes citados | Fonte primária? |
|---|---|---|
| Judaica | Levenson [W], Fishbane [W]; sem comentário corrente [V] | não (lacuna declarada) |
| Católica ocidental | Jerônimo [V], Agostinho [V], Tomás [V], Bogaert [V], Lira [W], Lapide [W], Luza [V] | sim (Jerônimo, Agostinho, Tomás, Bogaert) |
| Católica oriental / grega | Atenágoras [W], Clemente [W], Hilário [V] | parcialmente |
| Ortodoxa | Atanásio [V], Cirilo [V], Epifânio [V], Laodiceia [V], Orthodox Study Bible [W] | sim |
| Protestante histórica | Lutero [W], Artigo VI [W], Hengel [W] | não (não conferidos nesta sessão) |
| Evangélica | deSilva [W], Burke [W], Adams [V] | parcialmente |
O desequilíbrio é do material, não do dossiê: onde não há comentário corrente, a lacuna se declara [—], em vez de se preencher com nomes que comentaram outros livros [W].
12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não têm competência
A regra desta seção: declarar os limites. A ciência não decide se Baruque é revelado; decide se as afirmações factuais do texto são compatíveis com o observável.
A arqueologia da Babilônia e do exílio
O cenário pressuposto por Baruque — a deportação judaíta para a Babilônia — está bem documentado pela epigrafia. A Crônica Babilônica (British Museum) registra o cerco de Jerusalém e a deportação de 597 a.C. [W]. As tábuas de Al-Yahudu — cerca de uma centena de documentos cuneiformes de uma comunidade de exilados judaítas na Babilônia — foram publicadas por Laurie E. Pearce e Cornelia Wunsch, Documents of Judean Exiles and West Semites in Babylonia (CUSAS 28; CDL Press, 2014; ISBN 9781934309575) [V — eisenbrauns.org]. Elas mostram exilados vivendo, pagando impostos, possuindo terra e mantendo nomes javistas [V — Pearce; Wunsch, 2014]. As tábuas de rações do palácio de Nabucodonosor registram entregas a “Jeoaquim, da casa de Judá, e a seus filhos” [W]. A datação do livro permanece, porém, independente dessa documentação: as tábuas provam o ambiente, não a autoria [W].
Selos e documentos do período persa e helenístico
Os selos de escribas do fim do período judaíta importam porque o nome de Baruque aparece neles. Nahman Avigad publicou, no Israel Exploration Journal 28 (1978), a bula de “Berekyahu filho de Neriyahu, o escriba” — leitura que corresponde, na onomástica, a Baruque ben Neriah [V — Avigad, 1978]. O achado foi recebido por alguns como confirmação da existência histórica do escriba — mas não da autoria do livro [W]. Há hoje, porém, controvérsia aberta: Christopher A. Rollston, na Eretz-Israel 32 (2016), defendeu que a bula de Baruque e o selo de Ma’adanah, filha do rei, são falsificações epigráficas do século XX [V — Rollston, 2016, JSTOR 26732500]. A autenticidade das bulas de Berekyahu foi contraposta em seguida (BASOR 372, 2014), sem consenso [V — DOI 10.5615/bullamerschoorie.372.0147]. O ponto de método: um selo com um nome não prova uma obra [W].
Epigrafia: 7Q2 e os papéis gregos da gruta 7
O testemunho mais antigo direto de uma das duas obras é 7Q2, os fragmentos da Carta de Jeremias em grego, no versículo 43–44, em escrita asmoneia sobre papiro, entre os achados da gruta 7 de Qumran [V — Baillet, 1962, DJD 3, pp. 144–145]. A gruta 7 rendeu menos de vinte fragmentos, todos gregos e quase todos em papiro — e a maioria não identificada [V — barton; W — Fitzmyer, 2008, pp. 104, 109]. Dessa concentração nasceram especulações duradouras: 7Q5 foi proposto (e energicamente contestado) como fragmento de Marcos 6,52–53, o que ligaria a gruta a uma biblioteca cristã primitiva [W]. O episódio serve de advertência: fragmentos de poucos caracteres admitem leituras opostas, e a identificação de 7Q2 com a Carta de Jeremias é mais segura porque o texto é longo e corrijo — não porque o método seja infalível [W]. De Baruque, insista-se, não há fragmento algum em Qumran [V — Barton; Muddiman, 2007; W — Adams, 2014, p. 19].
Linguística: hebraico ou grego original?
É aqui que a linguística dá a sua contribuição mais decisiva. Todas as versões antigas — latina, siríaca, copta, armênia, árabe, etíope — derivam do grego, cujo texto sobrevive no Codex Vaticanus e no Codex Alexandrinus [V — Barton; Muddiman, 2007; W — Adams, 2014, p. 12]. Jerônimo afirma que não existia texto hebraico; Orígenes parece não conhecer nenhum ao preparar a Hexapla [V — Adams, 2014, pp. 2–3]. Ainda assim, nas seções iniciais (1,1–3,8) há leituras gregas anômalas que sugerem tradução de um original semítico — o caso-modelo é Bar 3,4, em que “ouve as orações dos mortos de Israel” é lido como tradução equivocada de “os homens de Israel” (מֵתֵי por מְתֵי) [V — Barton; Muddiman, 2007]. Desde o século XIX, propõe-se um original semítico para essas seções, e Emanuel Tov fez o esforço de retroversão para um hebraico plausível [V — Tov, 1975]. A tese contrária é de Sean A. Adams e Pierre-Maurice Bogaert, que tomam o grego como original e explicam as anomalias pela dependência de Baruque em relação a outras versões gregas — variações que se transmitiriam dentro do grego [V — Adams, 2014, pp. 4–8; Bogaert, 2005]. A edição crítica de referência é a de Joseph Ziegler, Jeremias, Baruch, Threni, Epistula Jeremiae (Septuaginta XV; Göttingen) [W]. O estado da questão: a hipótese hebraica é provável para 1,1–3,8 e indecidível para o resto [W].
Onde a ciência NÃO tem competência
- A ciência não decide se Baruque foi, de fato, lido na Babilônia “no quinto ano”, nem se Deus falou por um profeta: são afirmações de sentido, não de física [W].
- A arqueologia não identifica Baruque como autor: mesmo a bula autêntica atestaria um escriba, não uma obra (§12) [W].
- A linguística não produz um original hebraico de Baruque: produz indícios de tradução e estimativas relativas, contestadas [V — Tov, 1975; Adams, 2014].
- A datação literária (séculos II–I a.C.) é uma inferência a partir de dependências textuais e paralelos — não uma medida [W].
- E o inverso vale: situar Baruque no século II não refuta o livro. A crítica localiza historicamente um objeto literário; não decide sobre a sua verdade religiosa [W].
- Por fim, a canonicidade não é objeto de verificação empírica: é decisão de comunidades de fé, e por isso se trata em §6 e §11.1, não aqui [W].

13. Lacunas e Correções de Atribuição
- [V] “Baruque” designa várias obras distintas. O livro canônico (1 Baruque) não deve ser confundido com 2 Baruque (Apocalipse Siríaco), 3 Baruque e 4 Baruque — pseudepígrafos judaicos que nada têm a ver com ele [W].
- [V] Ausência de fragmento de Baruque em Qumran. O que existe é 7Q2, a Carta de Jeremias. Atribuir a Qumran um “Baruque” é confusão entre as duas obras [V — Baillet, 1962; W — Barton; Muddiman, 2007].
- [V] A bula de Baruque ben Neriah está contestada. Rollston (2016) a considera falsificação do século XX; outros defendem a autenticidade. Não apresentá-la como “prova” da autoria é obrigatório [V — Rollston, 2016].
- [W] A datação declarada no livro não é a datação provável. O quadro do “quinto ano” é literário; a crítica situa a redação no século II a.C. ou mais tarde [V — Barton; Muddiman, 2007].
- [W] A dependência de Paulo em relação a Baruque 3,29–30 é hipótese. Hays a defende; outros negam qualquer alusão. A formulação honesta é “eco sapiencial provável”, não “citação” [V — Hays, 1989, p. 80; W — Adams, 2014, pp. 16–17].
- [V] “Jerônimo negou o cânon de Baruque, mas o incluiu na Vulgata.” A formulação é correta e precisa ser mantida nessa ordem [V — Barton; Muddiman, 2007].
- [—] Baruque no volume de Frederico Lourenço. A sinopse da Quetzal confirma a Epístola de Jeremias no Volume III, mas não menciona Baruque propriamente; não consegui confirmar se o livro está lá [—].
- [—] Obras de arte dedicadas à Carta de Jeremias. Não localizei obra de grande circulação [V — Barton; Muddiman, 2007].
- [—] Traduções PT dos comentários-âncora (Moore, Adams, Tov, Burke): não localizadas [—].
- [—] Comentário rabínico a Baruque. Não existe, porque o livro está fora do cânon hebraico; a lacuna é histórica, não bibliográfica [V — Barton; Muddiman, 2007].
Bibliografia-âncora verificada
- Adams, Sean A., Baruch and the Epistle of Jeremiah: A Commentary Based on the Texts in Codex Vaticanus (Septuagint Commentary Series; Leiden: Brill, 2014). [V] ISBN 9789004277335 (capa dura) e 9789004278493 (ebook); https://brill.com/display/title/8694.
- Bogaert, Pierre-Maurice, “Le livre de Baruch dans les manuscrits de la Bible latine. Disparition et réintégration”, Revue Bénédictine 115 (2005), pp. 286–342. [ACAD] DOI 10.1484/J.RB.5.100598.
- Barton, John; Muddiman, John (orgs.), The Oxford Bible Commentary (Oxford: Oxford University Press, 2007), pp. 699–700 (verbete “Baruch”). [V] ISBN 9780199277186.
- Tov, Emanuel, The Book of Baruch also Called I Baruch (Greek and Hebrew) (Missoula: Scholars Press, 1975). [W] registro: https://www.worldcat.org/title/19123314.
- Henderson, Ruth, “Baruch’s Jerusalem: The Conception of Jerusalem in 1 Baruch 4:5–5:9”, Journal of Biblical Literature 135/3 (2016), pp. 543–556. [ACAD] DOI 10.15699/jbl.1353.2016.2705.
- Hays, Richard B., Echoes of Scripture in the Letters of Paul (New Haven: Yale University Press, 1989), p. 80. [V] https://intertextual.bible/text/baruch-3.29/romans-10.6.
- Moore, Carey A., Daniel, Esther, and Jeremiah: The Additions (Anchor Bible 44; Doubleday, 1977). [V] ISBN 9780385047029; OL: https://openlibrary.org/books/OL4899187M.
- Pearce, Laurie E.; Wunsch, Cornelia, Documents of Judean Exiles and West Semites in Babylonia in the Collection of David Sofer (CUSAS 28; Bethesda: CDL Press, 2014). [V] ISBN 9781934309575; https://www.eisenbrauns.org/books/titles/978-1-934309-57-5.html.
- Avigad, Nahman, “Baruch the Scribe and Jerahmeel the King’s Son”, Israel Exploration Journal 28 (1978), pp. 52–56. [HIST] PDF: https://vilnay.kinneret.ac.il/wp-content/uploads/2022/08/Baruch-the-Scribe-and-Jerahmeel-the-Kings-Son.pdf.
- Rollston, Christopher A., “The Bullae of Baruch ben Neriah the Scribe and the Seal of Ma’adanah Daughter of the King: Epigraphic Forgeries of the 20th Century”, Eretz-Israel 32 (2016), pp. 79*–90*. [V] JSTOR: https://www.jstor.org/stable/26732500.
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- Bíblia Pastoral — Baruc (São Paulo: Paulus). [V] https://biblia.paulus.com.br/biblia-pastoral/antigo-testamento/livros-profeticos/baruc/6.
- Lista de manuscritos da gruta 7 de Qumran (7Q2 = 7QpapEpJer). [V] https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_manuscripts_from_Qumran_Cave_7.
- Catecismo da Igreja Católica, § 2112 (a Carta de Jeremias contra a idolatria). [V] https://www.vatican.va/archive/ccc_css/archive/catechism/p3s2c1a1.htm.
- Concílio Vaticano II, Dei Verbum (referência a Baruque 3,38). [V] https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_en.html.
- Atanásio, Epístola 39; Cirilo de Jerusalém, Catequese 4,35; Epifânio, Panarion 8:6:1–3; Sínodo de Laodiceia, Cânone 59/60; Agostinho, A Cidade de Deus 18,33 — textos em https://www.newadvent.org. [V].
- Quetzal Editores, Bíblia — Volume III: Antigo Testamento — Os Livros Proféticos, trad. Frederico Lourenço (Lisboa, 2017). [V] ISBN 9789897224027; https://www.quetzaleditores.pt/produtos/ficha/biblia-volume-iii/19741755.
- Bíblia Ave-Maria — Baruc (Editora Ave-Maria), texto on-line. [V] https://www.liriocatolico.com.br/biblia_online/biblia_ave_maria/.
- TEB — Tradução Ecumênica da Bíblia (Edições Loyola, nova ed. 2010). [V] ISBN 9788515030163; https://www.loyola.com.br/produto/biblia-teb-nova-edicao-2392.
- Vigília Pascal — 6.ª leitura (Br 3,9-15.32-4,4) — Arquidiocese de São Paulo; e 2.º Domingo do Advento, Ano C — Dehonianos. [V] https://arquisp.org.br · https://www.dehonianos.org/liturgia/.
Como conseguir estas obras
A bibliografia de um site didático não é a de uma tese: cita o que importa e o leitor consegue alcançar. O selo diz por onde — e a tabela está ordenada por acessibilidade, do que se lê hoje ao que só se compra.
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| Obra | Acesso | Onde |
|---|---|---|
| Adams, Baruch and the Epistle of Jeremiah (Brill, 2014) — cap. introdutório | livre | brill.com |
| Henderson, “Baruch’s Jerusalem”, JBL 135/3 (2016) | livre | jstor.org |
| Rollston, “The Bullae of Baruch ben Neriah…”, Eretz-Israel 32 (2016) | livre | jstor.org |
| Avigad, “Baruch the Scribe and Jerahmeel the King’s Son”, IEJ 28 (1978) | livre | vilnay.kinneret.ac.il |
| Baillet, Les ‘Petites Grottes’ de Qumrân (DJD 3, 1962) — 7Q2 | empréstimo | Internet Archive |
| Tov, The Book of Baruch also Called I Baruch (1975) | empréstimo | Internet Archive |
| Moore, Daniel, Esther, and Jeremiah: The Additions (AB 44, 1977) | biblioteca | Open Library |
| Barton; Muddiman, The Oxford Bible Commentary (2007) | biblioteca | Open Library |
| Hays, Echoes of Scripture in the Letters of Paul (1989) | biblioteca | Open Library |
| Pearce; Wunsch, Documents of Judean Exiles… (CUSAS 28, 2014) | compra | eisenbrauns.org |
| Lourenço (trad.), Bíblia — Vol. III: Os Livros Proféticos (Quetzal, 2017) | compra | quetzaleditores.pt |
| TEB — Tradução Ecumênica da Bíblia (Loyola, 2010) | compra | loyola.com.br |
| Bíblia Ave-Maria — Baruc (Editora Ave-Maria) | compra | liriocatolico.com.br |
| Bíblia Pastoral — Baruc (Paulus) | compra | biblia.paulus.com.br |
Selo [esgotado] não aparece aqui: quando a obra não é alcançável de nenhuma forma, o texto aponta o substituto acessível ao lado dela.