Antiguidade Bíblica
Coélet / Eclesiastes (Qohelet) — Artigo Enciclopédico
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1. Lead e Ficha
Coélet — mais conhecido em português pelo título greco-latino Eclesiastes — é um dos livros mais estranhos da Bíblia Hebraica: doze capítulos em que um sábio chamado apenas Qohelet examina a vida sob a luz mais crua e conclui que “tudo é hevel”, sopro que não se agarra (Ec 1,2; 12,8) [V-WP]. O livro pertence aos Ketuvim (“Escritos”) e, dentro deles, ao grupo das cinco Megillot (rolos festivos), sendo lido na sinagoga em Sucot, a Festa dos Tabernáculos [W].
O título grego Ἐκκλησιαστής (Ekklēsiastēs), de ekklesia (“assembleia”), traduz o hebraico קֹהֶלֶת (Qohelet); o latim Ecclesiastes translitera o grego, e o alemão de Lutero, Der Prediger (“o Pregador”), fixou a leitura devocional dominante [V-WP]. A tradição rabínica e patrística atribuiu o livro a Salomão, “filho de Davi, rei em Jerusalém” (Ec 1,1), mas o nome de Salomão nunca aparece no texto — o livro apresenta a personagem de um rei sapiencial sem identificá-la [V-WP]. Não é tratado nem coleção de máximas: é uma investigação em primeira pessoa, emoldurada por um narrador que fala do sábio na terceira pessoa (Ec 1,1-2; 7,27; 12,9-14) [V-WP].
| Campo | Dado | Marcador |
|---|---|---|
| Nome hebraico | Qohelet (קֹהֶלֶת), particípio feminino do qal de qahal (“assembleia”) | [V-WP] |
| Nome grego / latino / alemão | Ekklēsiastēs / Ecclesiastes / Der Prediger | [V-WP] |
| Posição no cânon | Ketuvim (Escritos); uma das cinco Megillot, lida em Sucot | [W] |
| Capítulos | 12 | [V] texto |
| Versículos | 222 na numeração massorética | [W] |
| Idioma | hebraico bíblico tardio, com aramaísmos e empréstimos persas | [V-WP] |
| Autoria declarada | Salomão, “filho de Davi” (nunca nomeado no corpo) | [V-WP] |
| Autoria crítica dominante | sábio anônimo (“Qohelet”) + moldura narrativa de um discípulo posterior | [V-WP] |
| Datação | entre c. 450 e c. 180 a.C.; a maioria atual propende ao século III a.C. | [V-WP] |
| Moldura literária | superscrição 1,1-2; lema 1,2 e 12,8; epílogo 12,9-14 | [V-WP] |
2. Contexto e Autoria
2.1. O nome e o seu enigma
Qohelet (קֹהֶלֶת) é um particípio ativo feminino do verbo qahal (“reunir, convocar assembleia”) no qal — forma que não ocorre em nenhum outro lugar da Bíblia Hebraica aplicada a uma pessoa [V-WP]. Na voz ativa significa “o que convoca a assembleia” (leitura registrada por Strong’s Concordance); na passiva, “membro da assembleia”, que foi a leitura dos tradutores da Septuaginta [V-WP]. A maioria dos estudiosos atuais considera que não é um particípio literal, mas um padrão nominal (mishkal) com o sentido de “aquele que fala diante de uma assembleia” — “Mestre” ou “Pregador”; foi a posição do Midrash e de Jerônimo [V-WP].
O gênero feminino de um personagem masculino pediu explicação. Isaías di Trani (séc. XIII): compôs a obra na velhice, “quando era fraco como uma mulher”; Salmon ben Jeroham (séc. X): “assim como uma mulher dá à luz e cria filhos, Qohelet revelou e organizou a sabedoria”; Yefet ben Ali, seguido de Abraham ibn Ezra e Joseph ibn Kaspi: ele atribuiu a atividade à sua sabedoria, e como a Sabedoria (hokhmah) é feminina, usou um nome feminino — leitura aceita por boa parte da crítica moderna, inclusive Christian David Ginsburg (1861) [V-WP]. O termo aparece sete vezes, e a distribuição é o mapa da estrutura: 1,1 (superscrição), 1,2 (lema), 1,12 (autoapresentação), 7,27 (retomada em terceira pessoa), 12,8 (lema repetido) e 12,9-10 (elogio do epiloguista) [W].
Daí o título português de duas vias: Eclesiastes, herdado do grego e do latim, e Coélet (ou Qohélet), transcrição do hebraico usada na literatura crítica — exatamente o caso da tradução poética de Haroldo de Campos, que o intitulou Qohélet / O-Que-Sabe [V].
2.2. A autoria e as vozes — o livro dentro do livro
A leitura crítica distingue no mínimo duas vozes: a de Qohelet, que fala em primeira pessoa no corpo do livro, e a de um narrador/moldura que fala sobre ele em terceira pessoa [V-WP]. A moldura tem duas extremidades:
- Prólogo (1,1-2): “Palavras de Qohelet, filho de Davi, rei em Jerusalém. Hevel havalim, diz Qohelet, hevel havalim, tudo é hevel” [V-WP].
- Epílogo (12,9-14): o narrador elogia Qohelet como sábio que “ensinou o povo o conhecimento”, adverte que “fazer muitos livros é um cansaço sem fim” e conclui: “Teme a Deus e guarda os seus mandamentos… pois Deus trará a juízo toda obra, até o que está oculto” (Ec 12,13-14) [V-WP].
Sobre essa moldura construíram-se as teses mais discutidas do livro. A maioria dos comentaristas modernos considera o epílogo (12,9-14) um acréscimo de um escriba posterior, e alguns identificam ainda outras frases do corpo como glossas ortodoxas, destinadas a tornar o livro mais religioso (Fox, 2004, xvii; Longman, 1998, 57-59) [V-WP]. Michael V. Fox desenvolveu a leitura hoje dominante: Qohelet é uma personagem construída pela moldura, e a sua sabedoria é um percurso incompleto, cujo valor está no próprio percurso (Fox, 2004, xiii) [V-WP]. Tremper Longman III mostra que o epiloguista não silencia Qohelet, mas o enquadra numa conclusão de temor de Deus (Longman, 1998) [V-OL].
Uma terceira via é a da citação comentada, de Norbert Lohfink em Kohelet (Die neue Echter Bibel; Würzburg: Echter, 1980): o livro seria uma composição didática em que a fala de Qohelet é citada num enquadramento escolar, e o epílogo pertenceria ao mestre que a transmite — o que explicaria as tensões internas sem precisar de uma longa série de glosas acidentais [V]. Na mesma direção, Gerald H. Wilson estudou o epílogo como chave hermenêutica e elo entre moldura e corpo, e o volume coletivo The Words of the Wise Are Like Goads (ed. Mark J. Boda, Tremper Longman III e Cristian G. Rata) reuniu o debate [V]. A hipótese da correção pós-ortodoxa — um editor que corrigiria Qohelet por dentro — é variante dessa família e permanece contestada: Roland Murphy, na série Word Biblical Commentary (1992), trata o epílogo como parte integrante e coerente do livro, e não como correção hostil [V-OL].
2.3. Datação — persa ou helenística?
Qohelet é o único sapiencial hebraico sobre cujo idioma se escreveu uma bibliografia inteira de datação.
- Empréstimos persas. Pardes (פַרְדֵּס, “jardim”, Ec 2,5) e pitgam (פִתְגָּם, “sentença”, Ec 8,11) entram no hebraico pelo persa, o que proíbe datação anterior a c. 450 a.C. (Seow, 2007) [V-WP].
- Aramaísmos e hebraico tardio. Sintaxe e vocabulário aproximam-se do hebraico pós-exílico e de formas que reaparecem no hebraico mishnaico [V-WP]. A “datação linguística” foi metodizada por C. L. Seow, “Linguistic Evidence and the Dating of Qohelet”, JBL 115/4 (1996), pp. 643-666 [V].
- A hipótese helenística. Seow, no comentário Anchor Bible (1997), defende composição em meados do século III a.C., sob domínio ptolomaico [V-OL].
- O limite superior. Fox (JPS Bible Commentary, 2004) põe em c. 180 a.C. a data mais tardia possível [V-WP]. O Sirácides (Ben Sira) escreve c. 180 a.C., e a pergunta se ele conhecia Qohelet nunca se fechou: “a questão da influência de Qohelet, direta ou indireta, sobre Ben Sira continua em debate” [V].
O que é honesto dizer: não há consenso. A franja persa e a tese helenística dividem o campo, e o critério linguístico está sob suspeita metodológica — a discussão remonta a Avi Hurvitz [W]. Fica a faixa: entre c. 450 e c. 180 a.C., com preferência moderna pelo século III [V-WP].
3. Estrutura (12 capítulos)
Não há esqueleto consensual: a literatura registra que “poucas tentativas de descobrir uma estrutura subjacente ao Eclesiastes obtiveram ampla aceitação” [V-WP]. A proposta de Addison G. Wright, retomada por Fox, é a mais influente, e o próprio Fox a criticou: uma estrutura literária “não deve apenas estar lá; precisa fazer algo” (Fox, 2004, 148-149) [V-WP].
- Título (1,1) — a superscrição que apresenta “as palavras de Qohelet” [V-WP].
- Poema inicial (1,2-11) — o lema e os ciclos naturais: geração e geração, o sol, o vento que gira, os rios que correm para o mar sem o encher [V-WP].
- I. A investigação da vida (1,12-6,9) — o teste da sabedoria, do prazer, do trabalho e das riquezas; o tempo (3,1-15); a injustiça e a religião (4,1-5,6) [V-WP].
- II. As conclusões (6,10-11,6) — A (7,1-8,17: o homem não descobre o que lhe é bom) e B (9,1-11,6: não sabe o que virá depois dele) [V-WP].
- Poema final (11,7-12,8) — “alegra-te na tua mocidade”; “lembra-te do teu Criador nos dias da tua juventude”; o envelhecimento e a morte [V-WP].
- Epílogo (12,9-14) — a moldura conclusiva do narrador [V-WP].
A Bíblia de Jerusalém lê o livro em duas partes — Ec 1,4-6,12 e Ec 7-12 —, cada uma abrindo com o seu prólogo [V-WP]. O cuidado crítico é não transformar um livro de aforismos e reflexões colados por associação de ideias num sistema dedutivo que ele não é [W].
4. Conteúdos-chave com Debate
4.1. Hevel havalim — a palavra que não se traduz
O lema está em Ec 1,2 e reaparece em 12,8: הֲבֵל הֲבָלִים (hevel havalim) ha-kol hevel. No sentido físico, hevel é vapor, neblina, hálito, respiração — algo real, mas que não se agarra [V-WP]. Ocorre no livro cerca de 38 vezes (e cerca de 73 na Bíblia Hebraica), o que faz dele o vocabulário-tema do livro (Reed, 2012, 155, apud SciELO) [V].
A tradução é campo de batalha. As versões portuguesas herdaram do latim vanitas — “vaidade” —, tradição que associa hevel ao orgulho e à vacuidade moral, quando o sentido hebraico é de fugacidade e inapreensibilidade [V-WP]. Michael V. Fox, em “The Meaning of Hebel for Qohelet”, JBL 105 (1986), pp. 409-426 (DOI 10.2307/3260510), defendeu o sentido de “absurdo”: hevel nomearia o insubstancial e, ao mesmo tempo, o que resiste à razão [V]. A tese gerou contraponto direto no JBL de 2017, que sustenta “sem valor” em vez de “absurdo”; e Douglas B. Miller, em Symbol and Rhetoric in Ecclesiastes (SBL, 2002; ISBN 9781589830295), mostrou que hebel funciona como símbolo, cujo sentido se constrói pelo uso reiterado [V-OL]. A forma superlativa hevel havalim segue o molde de “santo dos santos”: não intensidade, mas totalidade [V].
O que a metáfora significa fisicamente é o ponto mais importante: hevel é o que se respira e não se retém — não o nada, mas o que existe e escapa; o sentido literal “sopro, vapor” desdobra-se em “transitório”, “insubstancial”, “incompreensível” [V].
4.2. O conflito com a sabedoria tradicional
A sabedoria clássica de Israel formulou a retribuição: ao justo, a vida; ao ímpio, a ruína (Provérbios 10-15; Salmo 1) [W]. Qohelet rompe com o automatismo: “há justo que perece na sua justiça, e há ímpio que prolonga a sua vida na sua maldade” (Ec 7,15); “há justos a quem sucede segundo a obra dos ímpios” (Ec 8,14) [W]. A mesma ruptura atravessa o Livro de Jó, onde os “amigos” defendem a retribuição com uma tenacidade que o próprio Deus repreende (Jó 42,7) [W]. A consequência é de primeira ordem para o leitor do cânon: a Bíblia Hebraica não entrega uma doutrina única sobre o sofrimento e o mérito — entrega um debate plural, em que Provérbios, Jó e Qohelet são três vozes numa mesma biblioteca [W]. É o que impede ler Coélet como “desvio” e permite lê-lo como uma das vozes do conselho [W].
4.3. A morte como horizonte igualador
A morte é o dado mais insistente do livro, e a sua democracia é brutal: “o mesmo sucede ao sábio e ao insensato” (Ec 2,14-16); homem e animal “têm todos o mesmo fim” — “quem sabe se o espírito dos homens sobe, e se o espírito dos animais desce à terra?” (Ec 3,18-21); “tudo sucede igualmente a todos: ao justo e ao ímpio, ao bom e ao mau” (Ec 9,2-6) [W]. O lugar dos mortos é o Sheol, onde “não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria” (Ec 9,10) — silêncio, não inferno nem paraíso [W].
O problema está em 12,7: “o pó volte à terra, como era, e o espírito volte a Deus, que o deu” [W]. É o único versículo que parece afirmar um retorno a Deus, e com 3,21 (“quem sabe…”) forma um par de tensão quase insolúvel: em 3,21 o sábio duvida do destino do sopro humano; em 12,7 ele o afirma. As leituras divergem: uns leem em 12,7 a dissolução dos componentes, sem consciência post mortem; outros, uma brecha pela qual a esperança entra; há ainda quem atribua o versículo à moldura ortodoxa [W]. O que não se pode fazer é citar 12,7 como prova de fé na imortalidade sem dizer que 3,21 e 9,5-6 dizem o contrário — e que o livro, sobre a vida depois da morte, é silencioso [W].
4.4. O carpe diem como dom
Contrapeso do pessimismo: os “textos da alegria” — “não há nada melhor para o homem do que comer, beber e alegrar a sua alma; e vi que isto também vem da mão de Deus” (Ec 2,24); “todo homem coma e beba e goze do bem de todo o seu trabalho — isto é dom de Deus” (Ec 3,12-13); “come o teu pão com alegria e bebe o teu vinho com bom coração… goza a vida com a mulher que amas” (Ec 9,7-10; cf. 5,17-19; 8,15) [W]. A leitura crítica insiste em que não é hedonismo epicureu: é alegria qualificada, recebida como dádiva sob o “temor de Deus”, precisamente porque nada é garantido [W]. Quem confunde os dois planos transforma realismo teológico em programa de prazer.
4.5. O tempo (3,1-8) e o versículo mais discutido do livro (3,11)
“Tudo tem o seu tempo determinado… tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou… et para chorar e et para rir; et para prantear e et para saltar” (Ec 3,1-4) [W].
A palavra-chave é et (עֵת) — não “tempo” como duração, mas ocasião, momento próprio [W]. O poema não é fatalismo: é a constatação de que a vida tem ritmo e de que o ser humano não controla os ritmos em que é lançado. Daí se passa ao versículo mais discutido do livro, 3,11: “Deus fez tudo formoso no seu tempo; também pôs ha-olam (הָעֹלָם) no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez” [W].
Traduzir olam aqui é o problema. A palavra significa ordinariamente “para sempre, eternidade” — e assim a verteu a Septuaginta, com αἰών (aiōn), e assim traduzem versões como a Revista e Atualizada (“eternidade”). Mas a tradição inglesa do Rei Tiago e outras leram “o mundo” (the world) [V-WP]. O versículo diz ao mesmo tempo que Deus pôs no ser humano algo que excede o tempo e que ele não consegue decifrar a obra divina — e cada tradução escolhe qual hemistíquio deve ressoar [W].
Foi esse poema que entrou na cultura popular pelo Turn! Turn! Turn!, composto por Pete Seeger em 1959 com a letra quase toda extraída de Ec 3,1-8, gravado pelos The Byrds, lançado em 1.º de outubro de 1965 e n.º 1 da Billboard Hot 100 em 4 de dezembro de 1965 (n.º 26 no Reino Unido) [V-WP]. Como o livro era atribuído a Salomão, a gravação passou a ser conhecida como o n.º 1 das paradas com a letra mais antiga [V-WP].
4.6. O epílogo (12,9-14) e o temor de Deus como conclusão
O livro fecha com a única exortação em forma de mandamento claro: “Teme a Deus e guarda os seus mandamentos” (Ec 12,13), seguida da afirmação de um juízo universal sobre “toda obra, até o que está oculto” (Ec 12,14) [W]. O debate é se esse final corrige Qohelet ou o completa. A posição majoritária é a da correção — o epílogo viria de outra mão e atenuaria a radicalidade do corpo (Fox, 2004, xvii) [V-WP]; a alternativa lê o epílogo como chave interpretativa legítima, que situa a investigação dentro de uma estrutura de temor e juízo (Murphy, 1992; Longman, 1998) [V-OL]. A pergunta que se segue — temer a Deus e dizer que tudo é inapreensível: contradição ou complemento? — atravessa a recepção (§11) e é a razão pela qual o Eclesiastes foi, no judaísmo, o livro que se quis retirar do cânon (§6.1).

5. Temas
- Hevel e a transitoriedade: impermanência e inapreensibilidade de tudo “debaixo do sol” [V-WP].
- Morte como medida comum: o igualador de sábios e insensatos, homens e animais (Ec 2,14-16; 3,18-21; 9,2-6) [W].
- Tempo e ocasião: et (3,1-8) e olam (3,11): o ritmo que o homem não governa e a eternidade que não alcança [W].
- O limite da sabedoria: a razão não resolve a vida; “quem sabe?” é fórmula recorrente (3,21; 6,12; 8,1; 11,5-6) [W].
- Trabalho e lucro (yitron): “que proveito tem o homem?” (1,3; 2,11; 3,9) [W].
- A alegria como dom: comer, beber, amar e trabalhar como dádivas (2,24; 3,12-13; 5,18; 8,15; 9,7-10) [W].
- Temor de Deus e juízo: o enquadramento final (12,13-14) e a advertência contra a religião instrumental (5,1-6) [W].
- Injustiça e poder: as lágrimas dos oprimidos (4,1); a corrupção da justiça (5,8); a palavra perto dos poderosos (10,20) [W].

6. Recepção
6.1. A história da canonicidade — o caso mais rico do cânon no Antigo Testamento
Nenhum livro da Bíblia Hebraica teve a canonicidade discutida de modo tão explícito quanto Qohelet, e o debate chegou até nós dentro dos próprios textos rabínicos — o que o torna documento único de como um livro entra e permanece no cânon.
- Mishná Yadayim 3,5. Depois da regra de que “todos os Escritos santos sujam as mãos” (são canônicos, e o toque no rolo torna as mãos impuras), o texto abre a divergência: “o Cântico dos Cânticos e Kohelet sujam as mãos. Rabbi Yehudá diz: o Cântico suja as mãos, mas há divergência sobre Kohelet. Rabbi Yose diz: Kohelet não suja as mãos, mas há divergência sobre o Cântico. Rabbi Shim’on diz: [a decisão sobre] Kohelet é uma das indulgências da casa de Shammai e uma das severidades da casa de Hillel.” E o testemunho decisivo — Rabbi Shim’on ben Azzai: “Recebi por tradição dos setenta e dois anciãos… que o Cântico dos Cânticos e Kohelet sujam as mãos” [V — Sefaria, Mishná Yadayim 3,5]. A distribuição das escolas é o dado saboroso: a casa de Shammai, rigorosa em tudo, foi mais branda quanto a Kohelet, e a casa de Hillel, branda em tudo, foi mais severa [V]. A defesa não se fez por argumento interno, mas por tradição antiga (“setenta e dois anciãos”).
- Tosefta Yadayim 2,14. A mesma disputa com o critério explícito da inspiração: “Rabbi Shim’on ben Menasya diz: ‘O Cântico dos Cânticos suja as mãos, porque foi escrito com inspiração divina. Kohelet não suja as mãos, porque é apenas a sabedoria de Salomão.’ Disseram-lhe: ‘E escreveu ele somente isso? Não está dito: E compôs três mil provérbios, e os seus cânticos foram mil e cinco (1 Reis 5,12)?’ Está dito: Não acrescentes às suas palavras (Provérbios 30,6)” [V — Schiffman, Texts and Traditions, Ktav, 1998, p. 120]. O argumento é sobre inspiração: ser de Salomão não basta, é preciso mais que sabedoria humana.
- Talmude da Babilônia, Shabbat 30b. A baraita conserva a memória de que a supressão foi tentada: “Rav Yehudá… disse em nome de Rav: os Sábios procuraram suprimir o livro de Kohelet e declará-lo apócrifo porque as suas afirmações se contradizem umas às outras e ele é capaz de confundir os seus leitores. E por que não o suprimiram? Porque o seu começo são palavras de Torá e o seu fim são palavras de Torá” [V — Sefaria, Shabbat 30b]. A amostra das “contradições” é precisa: “melhor é a tristeza do que o riso” (Ec 7,3) contra “louvei a alegria” (Ec 8,15) [V]. O Talmude resolve cada par com uma distinção — riso sadio contra riso frívolo — e aplica o mesmo mecanismo a Provérbios, que também foi posto em dúvida e “salvo” pela análise [V].
- A defesa por Salomão e o argumento da moldura. Três linhas salvaram Qohelet: (i) a atitude tradicional que o atribuía a Salomão e à era do espírito profético; (ii) a moldura final — “teme a Deus” (12,13) —, que o sanciona com palavras de Torá no começo e no fim; (iii) a harmonização das contradições pela exegese [V]. É por isso que a hipótese da “moldura ortodoxa que salvou o livro” (§2.2) é a releitura moderna de um argumento rabínico antigo, não uma invenção de críticos [W].
- Rashi e Ibn Ezra comentaram o livro na Idade Média, e Qohelet Rabbah, midrash aggádico compilado entre os séculos VI e VIII, foi publicado pela primeira vez em Pesaro, 1519, e é hoje objeto de edição crítica [V]. A tradição judaica argumentou em cada nível — mishná, tosefta, talmude e midrash — e ganhou o livro por decisão explícita, não por inércia [V].
6.2. Recepção cristã
No cristianismo, o Eclesiastes nunca teve recepção fácil nem liturgia própria. Jerônimo escreveu, em Belém, em 388/389, o Commentarius in Ecclesiasten, que insiste na vanitas e cita indiretamente a Metáfrase de Gregório de Nissa [V]. Gregório de Nissa (séc. IV) é autor do tratado grego mais substancial conservado: oito Homilias sobre o Eclesiastes, que comentam apenas até o capítulo 3 e leem o livro como pedagogia para a alma que renuncia ao sensível [V]. Orígenes compôs um comentário hoje conservado sobretudo por fragmentos e citações em catenae [W].
Lutero escreveu as Annotationes in Ecclesiasten (Wittenberg, 1532), publicadas a partir das preleções de 1526 [V]. A opinião mais citada, porém, é a das conversas de mesa, em que ele desvaloriza o livro: “deveria ter sido mais completo; há nele matéria incoerente demais… Salomão, portanto, não escreveu este livro”. É dito de Tischreden, não do comentário de 1532, e assim deve ser citado [W]. Calvino não escreveu comentário ao Eclesiastes — está entre os livros que não comentou, com o Cântico dos Cânticos, 2-3 João e o Apocalipse [W]. Na liturgia e nas exéquias, Ec 12,1-7 e o poema do tempo tornaram-se textos de funeral, e o memento mori barroco alimentou-se de “vaidade das vaidades” [W].

7. Traduções PT e Comentários PT
7.1. Traduções
Coélet circula nas Bíblias portuguesas completas: Almeida (revisões ARC, ARA, ACF) [W]; Bíblia de Jerusalém (edição brasileira Paulus) [W]; TEB — Tradução Ecumênica da Bíblia (Loyola) [W]; Bíblia Pastoral e edições da CNBB [W]; Bíblia Ave-Maria [W]. Duas peças portuguesas merecem destaque:
- Damião de Góis, O Livro de Eclesiastes (Veneza, 1538). O humanista eborense (1502-1574) verteu o livro direto do hebraico — é “o único livro da Bíblia traduzido em língua portuguesa nas épocas do humanismo e da Reforma” [V]. A Fundação Calouste Gulbenkian reeditou-o em fac-símile com versão modernizada [V].
- Haroldo de Campos (com J. Guinsburg), Qohélet / O-Que-Sabe — Eclesiastes: Poema Sapiencial (São Paulo: Perspectiva, 1991). Não é tradução literal, mas transcriação poética; tem fortuna crítica própria nos estudos de tradução bíblica no Brasil [V].
A tradução da Bíblia Grega de Frederico Lourenço (Quetzal) cobre os sapienciais, mas não confirmei o volume e o ISBN correspondentes nesta sessão [—].

7.2. Comentários e estudos em português
- Ivo Storniolo e Euclides M. Balancin, Como ler o Livro do Eclesiastes: Trabalho e Felicidade — série “Como Ler a Bíblia”, São Paulo: Paulus; ISBN 9788534910019 [V]. É a introdução PT-BR mais acessível, na chave da leitura popular, com atenção ao trabalho e à justiça.
- Edward M. Curtis, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos — Série Comentário Expositivo, Edições Vida Nova [V].
- Eclesiastes e Cântico dos Cânticos (São Paulo: Ave Maria, 2003; ISBN 9788527609876) [V-OL] — autor não identificado nesta sessão [—].
- Artigos acadêmicos PT-BR: “Qohélet e o novo”, em Estudos Bíblicos (ABIB) [V], e “Tudo é vaidade — uma crítica do livro de Eclesiastes ao javismo deuteronomista”, em Sacrilegens (UFJF) [V].
Comentários-âncora em outras línguas, sem tradução PT localizada [—]: Seow (1997), Fox (1989), Murphy (1992), Crenshaw (1987), Longman (1998), Kidner (1976), Bartholomew (2009), Miller (2002) e Christianson (2007) — todos [V-OL], com ISBN na bibliografia final.
8. Audiovisual e Games
Coélet é o livro bíblico que a indústria do entretenimento religioso menos adaptou — não há batalha, milagre nem herói.
| Título | Realidade | Validação PT | Marcador |
|---|---|---|---|
| Turn! Turn! Turn! — The Byrds (1965) | n.º 1 da Billboard Hot 100 em 4-dez-1965; letra de Pete Seeger (1959) a partir de Ec 3,1-8 | amplamente difundida | [V-WP] |
| Eclesiastes — visão geral, Bible Project Português | vídeo de animação em PT sobre o livro | PT-BR, canal oficial | [V] |
| séries bíblicas (A Bíblia, History Channel, 2013) | nenhuma obra dramatiza Coélet; o livro aparece como citação (Ec 3 ou Ec 12 em cena de morte) | legendas/dublagem PT nos títulos gerais | [W] |
| videojogos com o livro como enredo | não localizei título dedicado a Coélet | — | [—] |
Vídeos de estudo em PT comentam o livro em formatos devocionais, sem edição crítica [W].
9. Mitologia e Literatura Comparada
Coélet não é caso isolado: o pessimismo sapiencial é gênero documentado em todo o Oriente Próximo. A comparação, feita corretamente, mostra paralelos tipológicos — e não dependência literária.
9.1. A Teodiceia babilônica e o Diálogo do Pessimista
- A Teodiceia babilônica (Babylonian Theodicy), diálogo acróstico em que um sofredor justo debate com um amigo e reprova os deuses pelo sofrimento imerecido, é o paralelo mais próximo de Ec 7,15 e 8,14 [W]. Está editada em W. G. Lambert, Babylonian Wisdom Literature (Oxford: Clarendon Press, 1960), edição de referência [V]. O paralelo é de gênero e de problema, não de texto: nenhuma linha da Teodiceia ecoa Qohelet.
- O Diálogo do Pessimista (Dialogue of Pessimism), entre um senhor e o seu escravo, em que cada proposta do amo é aprovada e depois demolida pelo servo, tem paralelo temático direto com Ec 3,1-9: o escravo alterna afirmações e negações como o poema hebraico alterna os “tempos” [V-WP]. A obra, também editada por Lambert, foi lida tanto em chave pessimista quanto satírica [V-WP].
9.2. A sabedoria egípcia
- A Disputa entre um Homem e o seu Ba (Dispute between a Man and His Ba, Papiro Berlin 3024, XII dinastia, c. 1900 a.C.) é “o mais interiormente psicológico texto que sobreviveu do Egito antigo”: um homem em miséria considera o suicídio e a sua alma (ba) o dissuade — o paralelo egípcio mais forte do questionamento de Qohelet sobre a morte [V-WP].
- As Canções do Harpista (Harper’s Songs) formulam o carpe diem com o argumento de Ec 9,7-10: como os túmulos se arruínam e ninguém volta de lá, alegra-te enquanto podes [V].
- A Instrução de Amenemope aproxima-se de Provérbios, não de Coélet, e mostra que a sabedoria prática egípcia é o gênero-mãe da literatura sapiencial de Israel [W]. Edições de referência: Miriam Lichtheim, Ancient Egyptian Literature (3 vols., 1973-1980) [W], e Benjamin R. Foster, Before the Muses (1993; 3.ª ed. 2005) [W].
9.3. A literatura grega — epicurismo, estoicismo, hedonismo
A comparação com a Grécia é a mais sedutora e a mais perigosa.
- Epicurismo. A tetrapharmakos de Epicuro e a crítica da superstição no De rerum natura de Lucrécio partilham com Coélet a recomendação de fruir o disponível; mas a conclusão epicureia é a ataraxia, serenidade alcançada pela razão que domina o medo — e Coélet não conhece serenidade: a morte desfaz toda a vantagem racional (Ec 2,14-16) [W]. A diferença é estrutural.
- Estoicismo. Em Zenão, Cleantes e Epicteto, o logos universal garante uma ordem providencial a que o sábio se conforma — e Ec 3,1-8 parece dizer algo parecido. Mas em Coélet não há logos nem consolação: o tempo é dado por Deus e permanece opaco (Ec 3,11) [W].
- Hedonismo vulgar. A alegria de Coélet (§4.4) é mediada pelo dom e pelo temor de Deus, enquanto o hedonismo antigo faz do prazer um fim em si [W].
O que é legítimo afirmar: há paralelismo tipológico — problemas afins, diferenças estruturais decisivas. O que não é legítimo: afirmar que Coélet dependa de uma dessas tradições. A tese de uma dependência grega direta é hipótese de Seow e de parte da pesquisa sobre a datação helenística (§2.3), sustentada a partir de datação e contexto — não de citações ou vocabulário técnico grego, que o livro não tem [V]. O ônus da prova é de quem afirma a dependência, e ele não foi cumprido [W].

10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta
Coélet não é filosofia grega: não há definições nem demonstrações. E é por isso que continua a incomodar os sistemas — ele faz perguntas que a filosofia reconhece como suas.
O absurdo. A categoria moderna do absurdo foi formulada por Albert Camus em Le Mythe de Sisyphe (Gallimard, 1942): o absurdo não está no mundo nem no homem, mas na confrontação entre o desejo de clareza e o silêncio do mundo [V]. Camus define-o como “esse divórcio entre o espírito que deseja e o mundo que decepciona” — e o leitor de Coélet reconhece a fórmula em “Deus pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez” (Ec 3,11) [W]. A convergência é hoje tema de literatura específica: “Qohelet and Camus: Answering the Absurd” (Pepperdine University) e “The Concept of the Absurd in the Book of Qohelet and the Philosophy of Albert Camus” tratam a distância entre ambos: Camus recusa o salto e propõe a revolta lúcida; Coélet, para a maioria dos leitores, não salta — mas também não se rebela; recomenda comer o pão com alegria [V]. A diferença entre “Sísifo feliz” e “come o teu pão com alegria” é o ponto em que texto e filósofo deixam de coincidir [W].
A morte. Nenhum leitor filosófico escapa de Ec 9,2-6. Em Heidegger, Ser e Tempo (1927), a existência autêntica é o ser-para-a-morte: assumi-la é o que dá à vida a sua forma [W]. Coélet diria algo parecido — mas sem projeto existencial, porque para ele a morte não individualiza: nivela. Em Schopenhauer, o mundo é vontade insaciável e a existência, essencialmente sofrimento — e hevel é seu nome hebraico [W]. Em Nietzsche, a resposta ao niilismo é a afirmação — o amor fati e o eterno retorno; mas Coélet diz que “não há nada novo debaixo do sol” (Ec 1,9) e tira disso não a alegria trágica de Nietzsche, mas a modéstia de quem não se ilude [W]. Em Espinosa, ao contrário, “o homem livre pensa em nada menos do que na morte, e a sua sabedoria é uma meditação não da morte, mas da vida” (Ética, IV, prop. 67) [V-WP]: é o oposto exato da insistência de Coélet. Em Kant, a imortalidade da alma e Deus são postulados da razão prática [W]; Coélet, que não postula nada, é o teste mais severo da economia kantiana — a moralidade sem horizonte de retribuição.
A teodiceia. O protesto de Coélet — o justo que perece na sua justiça (Ec 7,15) — é o antepassado literário do problema do mal na filosofia analítica: J. L. Mackie, “Evil and Omnipotence” (Mind 64, 1955, pp. 200-212), formulou a versão lógica da contradição entre o Deus onipotente e bom e a existência do mal [V]; William L. Rowe, “The Problem of Evil and Some Varieties of Atheism” (American Philosophical Quarterly 16, 1979, pp. 335-341), formulou a versão evidencial, a partir do sofrimento gratuito [V]. Coélet não argumenta como Mackie: ele observa. Mas a observação é o material do argumento.
A ordem, a violência e a classificação. Mary Douglas, em Purity and Danger (1966), mostrou que as categorias de pureza são sistemas de classificação e que a ameaça vem do que não cabe nelas [W] — e é leitura corrente (v. “The Politics of Pessimism in Ecclesiastes”) ver em hevel o que escapa à grade das categorias sapienciais [V]. René Girard, em La violence et le sacré (1972), descreveu o sagrado como gestão da violência e a vítima expiatória como sua pedra angular [W]; a crítica social de Coélet — as lágrimas dos oprimidos (Ec 4,1), a corrupção judicial (Ec 3,16; 5,8) — autoriza uma leitura girardiana do livro como suspeita do sistema sacrificial, mas isso é leitura de intérpretes, não do texto [W].
O tempo e o outro. Levinas pensou a morte a partir do outro, não do eu — e Coélet, que fala sempre de um só, desconcerta a ética da alteridade [W]. Ricoeur propôs a identidade narrativa e a hermenêutica do testemunho [W] — e o Eclesiastes é um testemunho em que o sujeito se narra para dizer que não concluiu. E Agostinho, Confissões XI: “que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a quem pergunta, não sei” [W] — o comentário mais antigo e mais exato de Ec 3,11.
11. Teologia — os debates
O Deus de Qohelet e a crise da retribuição
O Deus de Coélet é distante e soberano: dá e retira, e não deve explicações. O tetragrama divino quase não aparece no livro — a designação é elohim —, e não há aliança, êxodo, profetas nem história de salvação [W]. Gerhard von Rad, em A Sabedoria de Israel (1970), situou a sabedoria israelita num plano próprio, distinto da tradição histórico-sálvica, e Qohelet no limite desse plano [W]; Walther Zimmerli, “The Place and Limit of Wisdom in the Framework of Old Testament Theology” (1964), formulou essa separação em termos que ainda organizam o debate [W]. A consequência é grande: um livro sapiencial que não recorre à eleição de Israel para responder ao sofrimento.
A crise da retribuição (§4.2) é o motor, e duas leituras disputam o sentido disso:
- A tensão suportada. Brevard Childs tratou Qohelet como voz legítima dentro do cânon, cuja função é pôr em xeque as soluções fáceis e ser corrigida pela moldura (Introduction to the Old Testament as Scripture, 1979) [W]. Roland Murphy e Tremper Longman pertencem a essa família [V-OL].
- A contradição. Craig Bartholomew (Ecclesiastes, 2009) sublinha a tensão irreconciliável e lê o livro como diagnóstico: a crise da sabedoria só tem resposta fora de si [V-OL]. Iain Provan (Ecclesiastes, Song of Songs, NIVAC, 2001) lê a obra como resposta à crise do sentido e ao “deus” da autonomia humana [V-OL].
Gustavo Gutiérrez, em Falar de Deus a partir do sofrimento do inocente (a propósito de Jó, 1987), fez do sofrimento do inocente um lugar teológico — chave aplicada a Coélet por Storniolo e Balancin (§7.2) [V].
A leitura judaica lê Coélet como história própria, recusa o supersessionismo e encontra no livro não uma teologia da encarnação, mas o exercício do temor num mundo não transparente [W]. O debate sobre 12,7 e 3,21 (§4.3) é a fronteira entre as duas leituras [W].
11.1. Comentaristas por esfera confessional
Esta subseção organiza os comentários a Coélet por tradição de leitura. A regra de rotulagem é a mesma das outras camadas — a perspectiva se declara; o rótulo é metadado, não argumento. Convenções: [V] conferido nesta sessão; [W] conhecido, não reconferido; [—] lacuna.
Judaica
- Midrash Qohelet Rabbah — comentário aggádico versículo por versículo, compilado entre os séculos VI e VIII, publicado pela primeira vez em Pesaro, 1519, hoje em edição crítica [V].
- Talmude, Shabbat 30b — a tentativa de supressão e a solução: “o seu começo são palavras de Torá e o seu fim são palavras de Torá” [V].
- Mishná Yadayim 3,5 e Tosefta Yadayim 2,14 — o debate da “impureza das mãos” e o critério da inspiração (§6.1) [V].
- Rashi (1040-1105) e Abraham ibn Ezra (1089-1167) comentaram o livro; edições digitais na Sefaria [V]. A tradição judaica argumentou sobre ele em todos os níveis e segue tratando-o como escritura própria [W].
Católica ocidental (latina)
- Jerônimo, Commentarius in Ecclesiasten (Belém, 388/389) — o comentário latino de referência, com a leitura moral da vanitas [V].
- Hugo Grotius, Annotationes in Ecclesiasten (séc. XVII) — exegese filológica do humanismo protestante, catalogada nos impressos do período [V].
- Cornélio a Lapide, Commentaria in omnes Sacrae Scripturae libros (1616-1642) — comentário jesuíta que cobre todos os livros do cânon [W].
Católica oriental e grega patrística
- Gregório de Nissa — Homilias sobre o Eclesiastes, oito homilias que comentam apenas até o capítulo 3; o tratado grego mais substancial conservado sobre o livro, de leitura alegórico-ascética [V].
- Orígenes — compôs um comentário ao Eclesiastes cuja maior parte não se conservou; o que resta chega por fragmentos e catenae [W]. Dizer que “temos o comentário completo de Orígenes” é erro.
- Dídimo o Cego (séc. IV) — o seu comentário ao Eclesiastes figura entre os achados de Tura (Egito, 1941); atribuição e estado textual a conferir na edição específica [W].
- Olimpiodoro de Alexandria (séc. VI) — comentário grego conservado, de linha neoplatônica; existência atestada, texto não conferido [W].
- A distinção alexandrina (alegórica) contra antioquena (literal) explica por que a mesma passagem produziu leituras incompatíveis.
Ortodoxa
- A tradição ortodoxa lê Coélet sobretudo pela catena — que é justamente a via pela qual os comentários gregos chegaram — e pela liturgia, não por comentário crítico moderno [W].
- Orthodox Study Bible (1993; edição completa 2008) — notas patrísticas, Coélet incluído no volume dos sapienciais [W].
- A Catena aurea de Tomás de Aquino é compilação de Padres: citar como compilação, não como comentário de Aquino [W].
- Não localizei comentário ortodoxo moderno dedicado a Coélet com edição verificável [—].
Protestante histórica
- Martinho Lutero, Annotationes in Ecclesiasten (Wittenberg, 1532; preleções de 1526) [V]; a desvalorização do livro está nas Tischreden (§6.2) [W].
- João Calvino — não comentou Coélet; a ausência está atestada na lista dos livros que não comentou [W]. Declarada como lacuna, não preenchida por inferência: [—].
- Matthew Henry, Exposition of the Old and New Testaments (1706-1710) — comentário devocional difundido, com seção sobre o Eclesiastes [W].
Evangélica
- Derek Kidner (1976; ISBN 9780877846475) [V-OL]; Tremper Longman III (NICOT, 1998; ISBN 9780802823663) [V-OL]; Iain Provan (NIVAC, 2001; ISBN 9780310213727) [V-OL]; Craig G. Bartholomew (BCOTWP, 2009; ISBN 9780801026911) [V-OL]; e Edward M. Curtis, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos (Vida Nova), o representante PT-BR da esfera [V].
- Assimetria declarada: a esfera evangélica domina o mercado editorial por fato de mercado, não de mérito — um dossiê que só a citasse teria feito um recorte, não uma pesquisa comparada [W].
Não confessional e crítico-histórica
- C. L. Seow (Anchor Bible 18C, 1997) [V-OL]; James L. Crenshaw (OTL, 1987) [V-OL]; Roland Murphy (WBC 23A, 1992) [V-OL]; Thomas Krüger (BKAT, 2000) [V-OL]; Norbert Lohfink (Die neue Echter Bibel, 1980), a hipótese didática da citação (§2.2) [V]; Eric S. Christianson (Blackwell, 2007), história da recepção [V-OL].
- Divulgação polêmica sobre “absurdos bíblicos” não é crítica bíblica: separar as duas categorias [W].
Balanço de esferas (contagem declarada)
| Esfera | Nomes citados | Fonte primária? |
|---|---|---|
| Judaica | Qohelet Rabbah, Shabbat 30b, Mishná e Tosefta Yadayim, Rashi [V], Ibn Ezra [V] | sim |
| Católica ocidental | Jerônimo [V], Grotius [V], Cornélio a Lapide [W] | sim (Jerônimo) |
| Católica oriental / grega | Gregório de Nissa [V], Orígenes [W], Dídimo [W], Olimpiodoro [W] | parcial |
| Ortodoxa | catena, Orthodox Study Bible [W] | não (lacuna declarada) |
| Protestante histórica | Lutero [V], Matthew Henry [W]; Calvino [—] | sim (Lutero) |
| Evangélica | Kidner, Longman, Provan, Bartholomew, Curtis | sim |
| Não confessional / crítica | Seow, Crenshaw, Murphy, Krüger, Lohfink, Christianson | sim |
O desequilíbrio visível — o Oriente com uma obra grega substancial conservada e o Ocidente com séries completas — não é do dossiê: é do material, e por isso fica dito. Onde não há comentário conservado, a lacuna se declara [—].
12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não têm competência
A regra desta seção: declarar os limites. A ciência não decide se Coélet é revelado; decide se uma afirmação factual do texto ou do seu mundo é compatível com o observável.
12.1. Os manuscritos — Qumran e o que os fragmentos dizem
O testemunho manuscrito mais antigo é de Qumran, e o dado é importante porque empurra a existência do livro para trás de qualquer datação tardia.
- 4QQoha (4Q109) — sete fragmentos atribuíveis a três colunas do rolo original, preservando Ec 5,13-17; 6,1?, 3-8, 12; 7,1-10, 19-20, em escrita hasmoneia [V]. A paleografia propõe c. 175-150 a.C., o que faz de 4Q109 um dos mais antigos dos rolos bíblicos achados na caverna 4 [V].
- 4QQohb (4Q110) — fragmento de escrita herodiana com Ec 1,10-15 [V].
- O que os fragmentos dizem: confirmam, na sua extensão, o texto consonantal massorético, sem variantes de grande porte; o seu valor é o de testemunho externo e baliza cronológica [V].
Sobre vocalização e pontuação: os rolos de Qumran são consonantais, e a vocalização e os acentos das edições críticas vêm do sistema tiberiense (sécs. VIII-X), cuja base mais usada é o Códice de Leningrado (1008), com o Códice de Alepo como alternativa [W]. A vocalização massorética é interpretação medieval preservada com rigor, não achado arqueológico [W].
12.2. Linguística — o hebraico tardio e os aramaísmos
- Empréstimos persas: pardes (Ec 2,5) e pitgam (Ec 8,11), que datam o texto depois de c. 450 a.C. [V-WP].
- Aramaísmos e hebraico mishnaico: sintaxe e léxico aproximam-se do aramaico imperial e de formas que reaparecem mais tarde, no hebraico da Mishná — base das datações baixas [V-WP].
- O debate metodológico. A datação linguística foi consolidada pelo método de contraste de Avi Hurvitz e criticada por quem sustenta que o hebraico bíblico tardio não se ordena numa escala cronológica simples [W]. Seow (1996) é a formulação mais influente da tese helenística [V]; estudos recentes partindo de calques aramaicos reabriram a janela helenística [V].
- Limite: fornece datação relativa e probabilística, nunca absoluta [W].
12.3. Arqueologia do período persa e helenístico em Yehud
O mundo em que Coélet teria sido escrito é a província de Yehud sob o Império Aquemênida (539-333 a.C.) e depois sob ptolomeus e selêucidas.
- A epigrafia administrativa. Mais de uma centena de impressões de selo e moedas com a legenda yhd (“Yehud”) foram encontradas, todas na área da Judeia, o que documenta uma unidade administrativa persa com cunhagem e selos próprios [V].
- A escassez material no planalto. “Em contraste com as cidades ricas e bem desenvolvidas da planície costeira, muito poucos restos construtivos do período persa foram descobertos no planalto — isto é, na província de Yehud e na de Samaria” [V]. Em Ramat Rahel, o estrato do século V (IVb) é modesto, e nenhum achado publicado atesta datação exclusiva do séc. V a.C. [V].
- A consequência honesta: a arqueologia documenta uma província pequena, com centro administrativo e economia rural, e não o “rei em Jerusalém” de Ec 1,1 — Coélet não descreve um reino, usa a persona de Salomão [W]. A arqueologia helenística documenta a administração ptolomaica e a difusão da cultura grega, pano de fundo da datação de Seow [V].
12.4. Onde a ciência NÃO tem competência
- A ciência não decide se hevel significa “fútil”, “fugaz” ou “absurdo”: isso é semântica e hermenêutica, e depende de mais que dados [W].
- A ciência não determina se o epílogo (12,9-14) é acréscimo inspirado ou glosa: a crítica literária pode argumentar sobre a coesão, mas a questão da autoridade é teológica [W].
- A arqueologia não identifica Qohelet nem data a composição a partir de escavação: não há inscrição com o nome, e a ciência material trabalha com província e cultura, não com autoria [W].
- A datação linguística não produz data absoluta — apenas estimativa relativa disputada — e a ciência não responde se a moldura “salvou” o livro ou o corrigiu: matéria de história da recepção e de teologia [W].
- E a ciência não responde à pergunta central do livro — se a vida tem sentido fora do que se come, se bebe e se ama —, porque essa é pergunta de valor, não de fato [W].

13. Lacunas e Correções de Atribuição
- [—] Coélet não é o Eclesiástico. Confusão frequente em PT: Eclesiastes (Coélet/Qohelet) e Eclesiástico (Sirácides / Ben Sira) são livros distintos; o segundo é deuterocanônico e entra em outro dossiê.
- [W] A frase de Lutero contra o livro. “Há demasiada matéria incoerente… Salomão não escreveu este livro” provém das Tischreden, não do comentário de 1532.
- [—] Calvino. Não comentou Coélet; lacuna declarada, não preenchida por inferência (§11.1).
- [—] Damião de Góis. Afirmo a tradução de 1538 e a reedição fac-símile da Gulbenkian [V]; não conferi páginas nem ISBN da edição moderna.
- [—] Frederico Lourenço / Bíblia Grega (Quetzal). Volume e ISBN dos sapienciais não confirmados nesta sessão.
- [—] Edição “Eclesiastes e Cântico dos Cânticos” (Ave Maria, 2003). ISBN localizado [V-OL]; autor não identificado.
- [W] Datação da Vanitas de Philippe de Champaigne. As fontes divergem — registro enciclopédico em 1646, reproduções e museus em c. 1671. Cita-se a obra como atribuída, com a divergência declarada.
- [—] Bruegel. Regra do método: só com fonte. Não encontrei fonte verificada ligando obra específica de Pieter Bruegel, o Velho ao Eclesiastes; a aproximação genérica com o memento mori nórdico não foi afirmada.
- [W] Contagem de hebel. Adoto c. 38 ocorrências, conforme a literatura (Reed, 2012, 155, apud SciELO) [V]; não fiz a contagem direta no texto hebraico.
- [—] Estatísticas, Dídimo e Olimpiodoro, audiovisual. Não conferi a tabela de totais de palavras e letras do texto massorético; não conferi os comentários de Dídimo o Cego e Olimpiodoro nas edições críticas (§11.1); e não localizei obra audiovisual brasileira que dramatize Coélet por inteiro.
Bibliografia-âncora verificada
- Seow, Ecclesiastes (Anchor Bible 18C; Doubleday, 1997; ISBN 0385411146) [V-OL] Open Library · Internet Archive; e “Linguistic Evidence and the Dating of Qohelet”, JBL 115/4 (1996), pp. 643-666 [V] PTSem.
- Fox, “The Meaning of Hebel for Qohelet”, JBL 105 (1986), pp. 409-426 (DOI 10.2307/3260510) [V] SBL Press; e Qohelet and His Contradictions (JSOTSup, 1989; ISBN 9781850751489) [V-OL] Open Library.
- Miller, Symbol and Rhetoric in Ecclesiastes (SBL, 2002; ISBN 9781589830295) [V-OL] Open Library · The use of hebel in Ecclesiastes, HTS Teologiese Studies (2017) — com Reed (2012, 155) [V] SciELO SA.
- Murphy (WBC 23A, 1992; ISBN 0849902223) [V-OL] Open Library · Crenshaw (OTL, 1987; ISBN 9780664228033) [V-OL] Open Library · Krüger (BKAT, 2000; ISBN 9783788717834) [V-OL] Open Library.
- Longman (NICOT, 1998; ISBN 9780802823663) [V-OL] Open Library · Kidner (1976; ISBN 9780877846475) [V-OL] Open Library · Provan (NIVAC, 2001; ISBN 9780310213727) [V-OL] Open Library · Bartholomew (2009; ISBN 9780801026911) [V-OL] Open Library.
- Christianson, Ecclesiastes Through the Centuries (Blackwell, 2007) [V-OL] Open Library · Lohfink, Kohelet (Die neue Echter Bibel; Echter, 1980) [V] Registro · The Words of the Wise Are Like Goads (ed. Boda, Longman III, Rata) [V] Registro.
- Mishná Yadayim 3,5 [V] Sefaria · Tosefta Yadayim 2,14 (apud Schiffman, Texts and Traditions, Ktav, 1998, p. 120) [V] COJS · Talmude, Shabbat 30b [V] Sefaria · Qohelet Rabbah (sécs. VI-VIII) [V] Sefaria.
- Jerônimo, Commentary on Ecclesiastes (Belém, 388/389) [V] Fourth Century Christianity · Gregório de Nissa, Homilies on Ecclesiastes (oito; até o cap. 3) [V] Edição · Lutero, Annotationes in Ecclesiasten (1532) [V] Estudo · Calvino, ausência de comentário [W] Panorama.
- 4QQoha (4Q109) e 4QQohb (4Q110) [V] USC Dornsife · Caverna 4 · Brill · Yehud persa (selos e moedas yhd, planalto e Ramat Rahel) [V] Judah and the Judeans · Stern, The Province of Yehud.
- Lambert, Babylonian Wisdom Literature (Oxford: Clarendon, 1960) [V] Diálogo do Pessimista · Disputa entre um Homem e o seu Ba (Papiro Berlin 3024) [V] Panorama · Canções do Harpista [V] WHE.
- Mackie, “Evil and Omnipotence”, Mind 64 (1955) [V] · Rowe, “The Problem of Evil and Some Varieties of Atheism”, APQ 16 (1979) [V] IEP · Camus, Le Mythe de Sisyphe (1942) [V] Texto integral · Qohelet e Camus · Spinoza, Ética IV, prop. 67 [V-WP] Wikiquote.
- Turn! Turn! Turn! (Seeger, 1959; Byrds, n.º 1 em 4-dez-1965) [V-WP] Wikipédia (EN) · Hemingway, The Sun Also Rises (1926), título e epígrafe de Ec 1,4-7 [V-WP] Standard Ebooks · Champaigne, Vanitas (atribuída; 1646 ou c. 1671) [V-WP] Wikipédia (EN).
- Damião de Góis, O Livro de Eclesiastes (Veneza, 1538; fac-símile com versão modernizada, Fundação Calouste Gulbenkian) [V] FCG · Haroldo de Campos (com J. Guinsburg), Qohélet / O-Que-Sabe — Eclesiastes: Poema Sapiencial (Perspectiva, 1991) [V] Estudo.
- Storniolo e Balancin, Como ler o Livro do Eclesiastes: Trabalho e Felicidade (Paulus; ISBN 9788534910019) [V] Registro · Curtis, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos (Série Comentário Expositivo; Vida Nova) [V] Editora · Eclesiastes e Cântico dos Cânticos (Ave Maria, 2003; ISBN 9788527609876; autor não identificado) [V-OL] Open Library · Estudos Bíblicos (ABIB), “Qohélet e o novo” [V] ABIB · Sacrilegens (UFJF) [V] UFJF.
Como conseguir estas obras
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| Obra | Acesso | Onde |
|---|---|---|
| Mishná Yadayim 3,5 | livre | sefaria.org |
| Tosefta Yadayim 2,14 | livre | cojs.org |
| Jerônimo, Commentary on Ecclesiastes (388/389) | livre | fourthcentury.com |
| hebel em Eclesiastes (HTS Teologiese Studies, 2017) | livre | scielo.org.za |
| 4QQoha / 4QQohb (USC Dornsife) | livre | dornsife.usc.edu |
| Longman, The Book of Ecclesiastes (NICOT, 1998) | empréstimo | Open Library |
| Seow, Ecclesiastes (Anchor Bible 18C, 1997) | empréstimo | Internet Archive |
| Fox, “The Meaning of Hebel for Qohelet” (JBL 105, 1986) | biblioteca | SBL Press |
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