Antiguidade Bíblica
Salmo 151 — Artigo Enciclopédico
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O dossiê integral1,5–3 h
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1. Lead e Ficha
O Salmo 151 (gr. Οὗτος ὁ ψαλμὸς ἰδιόγραφος εἰς Δαυΐδ καὶ ἔξωθεν τοῦ ἀριθμοῦ, “este salmo é composição pessoal de Davi, fora do número”) é o salmo “fora do número”: o último do Saltério grego da Septuaginta (LXX), ausente do Texto Massorético hebraico de 150 salmos [V — greekdoc.com; en.wiki]. É um poema curto sobre Davi e Golias: narra em primeira pessoa a eleição do menor dos irmãos, a unção pelo profeta e o combate singular contra o filisteu que o amaldiçoou pelos seus ídolos [V — texto grego, vv. 1–7].
A sua história textual é o fascínio: durante séculos acreditou-se, com Henry Barclay Swete (1914), que “não há evidência de que o Salmo 151 tenha existido em hebraico” [W — Swete, p. 253]. Qumran desmentiu a tese: em 1956, a caverna 11 devolveu o 11QPs(a) (11Q5), o Grande Rolo dos Salmos, com o salmo em hebraico e em forma mais longa e diferente — dois poemas (151A e 151B) que a LXX confluíra num único texto de sete versículos [V — en.wiki, Psalm 151; dssenglishbible.com].
As igrejas ortodoxas (oriental e orientais: copta, armênia, siríaca) o recebem como canônico, dentro do Saltério grego litúrgico; protestantes e a maioria do judaísmo o têm por apócrifo; a Católica não o canonizou, embora ele tenha circulado em manuscritos latinos e na liturgia medieval [V — en.wiki; pt.wiki]. Este dossiê cumpre o anúncio do verbete dos Salmos (§1 e §4.10), que remeteu o seu tratamento ao hub do Lote 6 (ortodoxos) [V — salmos.mdx].
| Campo | Dado | Marcador |
|---|---|---|
| Título grego | “Este salmo é composição pessoal de Davi, e fora do número; quando lutou em combate singular com Golias” | [V] greekdoc.com |
| Posição | após o Salmo 150, fechando o Saltério da LXX (antes das Odes nos saltérios gregos) | [V] |
| Versículos | 7 na LXX; dois poemas hebraicos (151A e 151B) em 11Q5 | [V] |
| Idioma | hebraico (Qumran), grego (LXX), siríaco (Peshitta) | [V] |
| Atestação | LXX (Sinaiticus, Alexandrinus); 11QPs(a); manuscritos da Peshitta; Vetus Latina/Vulgata manuscrita | [V] |
| Cânon | ortodoxo (litúrgico); fora do cânon hebraico, católico romano e protestante | [V] |
| Datação da composição | helenística, séc. III–I a.C. | [W] Charlesworth & Sanders |
| Datação do manuscrito 11Q5 | paleografia herodiana tardia, 30–50 d.C. | [V] |
| Frase-chave | “Pequeno era eu entre os meus irmãos” (v. 1) | [V] texto grego |
2. Contexto e Autoria
A descoberta de Qumran. O 11QPs(a) (sigla 11Q5) foi um dos seis rolos de salmos achados por beduínos em fevereiro de 1956 na caverna 11; comprado pelo Museu Arqueológico da Palestina e aberto em novembro de 1961, teve a sua editio princeps pela mão de James A. Sanders em 1965 (The Psalms Scroll of Qumrân Cave 11 [11QPsa], DJD IV, Oxford: Clarendon), depois do estudo do salmo em ZAW 75 (1963) e da tradução popular The Dead Sea Psalms Scroll (Cornell, 1967) [V — three-things.ca; [V-OL] OL18176336W]. De couro amarelo-escuro e cerca de 4,25 m, o rolo preserva restos de 34 colunas com ~50 composições: cerca de 39 salmos bíblicos dos Livros IV–V em ordem divergente, intercalados com peças não canônicas — Apostrophe to Zion (col. 22), Hino ao Criador (col. 26), Súplica por Libertação (col. 19), Cadeia sobre o Sl 118 (col. 16), Sir 51,13–30, as Últimas Palavras de Davi (2Sm 23,1–7) e as Composições de Davi (col. 27) [V — three-things.ca; dssenglishbible.com].
O 11Q5 mudou a discussão: o salmo não é composição grega tardia, mas poesia hebraica do Segundo Templo que a tradução grega comprimiu — e a prova material de que o Saltério, no séc. I, era corpus vivo e em parte fluido, tese central de Sanders retomada por Gerald H. Wilson e Peter W. Flint [V — three-things.ca; W — Flint, 1997].
O título e a relação com 1 Samuel 16–17. O título grego situa o poema “quando lutou em combate singular com Golias” [V — greekdoc.com]. A narrativa de 1Sm 16–17 é o pano de fundo pressuposto — e o salmo a reescreve em louvor, sem coincidir em todos os detalhes (comparação completa em §4.2). Partilha com Samuel: Davi caçula e pastor (1Sm 16,11), ungido (16,13), irmãos belos e altos preteridos (16,6–10), o combate singular (17,4–11), Golias que amaldiçoa pelos deuses (17,43) e a espada do próprio Golias para decapitá-lo (17,51) [W — texto bíblico]. Omite ou altera: Saul (que domina 1Sm 16–17), o vale de Elá, a funda e a pedra — e a cena da unção: no salmo os irmãos saem ao encontro do profeta, em Samuel a cena se passa na casa de Jessé [V — texto hebraico 151a, trad. Williams]. O salmo é, portanto, memória poética da vocação, não resumo da crônica [W — análise do dossiê].
Autoria. Nenhuma fonte antiga atribui o salmo a outra mão; a crítica o tem por composição anônima helenística (séc. III–I a.C.), posterior a Davi, que se cobre da autoridade do rei-salmista — prática documentada para todo o bloco dos “salmos davídicos” extra-canônicos, editados por James H. Charlesworth e James A. Sanders como “More Psalms of David (Third Century B.C.–First Century A.D.)” (The Old Testament Pseudepigrapha vol. 2, Doubleday, 1985, pp. 609–624) [V — ISBN 0-385-18813-7]. O ambiente é o judaísmo do Segundo Templo em que Davi se tornara o arquétipo do músico inspirado — tradição explícita em 2Sm 23,1 (“o doce salmista de Israel”) e ampliada nos rolos de Qumran, onde o 11Q5 “davidiciza” todo o Saltério (§4.3) [W].
O contexto litúrgico. As peças não canônicas (louvor a Sião, hino ao Criador) e a prosa das Composições apontam para uso cultual e teologia próprios — a hipótese sectária (calendário solar, aversão ao Templo) é defendida por Ulrich Dahmen (2004) e discutida por Tyler F. Williams [V — three-things.ca; W — Dahmen, 2004, Brill]. É nesse rolo que o Salmo 151 nos chegou em hebraico.
3. Estrutura (7 versículos na LXX; texto ampliado em 11Q5)
A forma grega (LXX): 7 versículos. O Salmo 151 grego tem duas metades desiguais, com o título a antecedê-las [V — greekdoc.com]:
- vv. 1–5 — a eleição: “Pequeno era eu entre os meus irmãos e o mais novo na casa de meu pai; eu apascentava as ovelhas de meu pai” (v. 1); “as minhas mãos fizeram um instrumento e os meus dedos afinam o saltério” (v. 2); “e quem o anunciará ao meu Senhor? O próprio Senhor, Ele ouve” (v. 3); “Ele enviou o seu mensageiro e tirou-me das ovelhas de meu pai e ungiu-me com o óleo da sua unção” (v. 4); “os meus irmãos eram belos e altos, e o Senhor não se agradou deles” (v. 5).
- vv. 6–7 — o combate: “saí ao encontro do estrangeiro, e ele amaldiçoou-me pelos seus ídolos” (v. 6); “mas eu, puxando a espada que estava junto dele, decapitei-o e tirei o opróbrio dos filhos de Israel” (v. 7).
A forma hebraica (11Q5): dois poemas. No rolo de Qumran o material aparece dividido em duas composições [V — en.wiki, Psalm 151, tabela do texto hebraico (trad. Tyler F. Williams); dssenglishbible.com]:
- 151A, com o título “Aleluia de Davi, filho de Jessé” (הללויה לדויד בן ישי), tem 12 linhas poéticas no arranjo de Williams: a pequenez entre os irmãos; Davi feito pastor do rebanho e governante dos cabritos; as mãos que fizeram o instrumento e os dedos a lira; o motivo da criação como testemunha — “as montanhas não dão testemunho dele, nem os montes declaram; as árvores guardaram as minhas palavras e o rebanho as minhas obras”; “quem pode contar as obras do Senhor? Tudo Deus viu, tudo ouviu, e atendeu”; o envio do profeta Samuel para ungir Davi; os irmãos belos e altos não escolhidos; o ungido com óleo santo, feito líder do seu povo e governante sobre os filhos da sua aliança.
- 151B, fragmentário: “no início do poder de Davi, depois que o profeta de Deus o ungiu; então vi um filisteu proferindo desafios das fileiras dos inimigos…” — a parte que o grego aproveitou nos vv. 6–7.
A correspondência. O grego casou 151A (vv. 1–5) com 151B (vv. 6–7), suprimindo a criação testemunha, o nome de Samuel e a fórmula “governante sobre os filhos da sua aliança” [V — en.wiki]. Sanders descreveu o texto grego como “desidratado”, “truncado” e “absurdo” em lugares — “amálgama truncada dos dois salmos hebraicos” (Sanders, The Dead Sea Psalms Scroll, pp. 94–100, apud en.wiki) [V].
O lugar no rolo. No 11Q5, o Salmo 151 fecha o rolo: na sequência final vêm as Últimas Palavras de Davi (2Sm 23,1–7), as Composições de Davi (col. 27), os Salmos 140 e 134 e, na última coluna (col. 28), 151A + 151B, seguidos de coluna em branco [V — three-things.ca, “Contents and Structure”]. O rolo termina onde a vida de Davi começa, logo após o catálogo das suas 4.050 composições — a moldura davídica (§4.3, §11).
4. Conteúdos-chave com Debate
4.1 As duas formas e a questão da anterioridade
O debate central é qual forma é a mais antiga: a hebraica de Qumran ou a grega da LXX? [V — en.wiki]. A posição dominante, de Sanders (1963; 1965; 1967), é a anterioridade hebraica: o grego seria conflação abreviada dos dois poemas, feita pelo tradutor ou pelo seu Vorlage; onde o grego “não faz sentido”, o hebraico esclarece [V — en.wiki; Sanders apud en.wiki]. A ela se opõe a hipótese, associada a Patrick W. Skehan (“The Apocryphal Psalm 151”, CBQ 25, 1963) e a William H. Brownlee (“The 11Q Counterpart to Ps 151,1–5”, RevQ 4, 1963), de um Vorlage hebraico curto independente, não a confluência do texto de Qumran [W — en.wiki refs]. Jean Carmignac (RevQ 4, 1963; 5, 1965) estudou a forma poética; John Strugnell (HTR 59, 1966, pp. 257–281) fixou a crítica textual do grupo; A. Dupont-Sommer (Semitica 14, 1964) defendeu origem essênia, hoje minoritária [V — en.wiki refs; [ACAD] DOI 10.1017/S0017816000009767]. A datação apoia a anterioridade: o hebraico é helenístico (séc. III–I a.C.), e o Saltério grego foi traduzido no séc. II a.C. — data defendida por Tyler F. Williams (“Towards the Date for the Old Greek Psalter”, JSOTSup 332, 2001, pp. 248–276) [V — three-things.ca]. Em aberto fica o mecanismo exato; a anterioridade do hebraico como tradição é o consenso [V].
4.2 O título e a narrativa de Samuel — as diferenças, com honestidade
O título grego diz que o salmo foi escrito “quando Davi lutou em combate singular com Golias” — e a comparação com 1Sm 16–17 é instrutiva justamente nas diferenças [V — greekdoc.com; W — texto bíblico]:
- Saul está ausente do salmo, embora domine 1Sm 16–17; o salmo não o nomeia uma vez.
- No salmo, os irmãos saem ao encontro do profeta; em 1Sm 16 eles estão na casa de Jessé, e Davi é trazido do pastoreio; em 1Sm 17,13–15, os três mais velhos seguem Saul para a guerra, e Davi vai e volta para apascentar as ovelhas [W — texto bíblico].
- O salmo não menciona a funda e a pedra; comprime o combate ao encontro, à maldição e à decapitação com a espada do próprio gigante.
- As convergências são reais: a unção (16,13), a maldição pelos deuses (17,43), a espada e a cabeça cortada (17,51), o “tirar o opróbrio de Israel” (17,26) [W — texto bíblico].
- Leitura honesta: o salmo não é um resumo fiel da crônica nem a “fonte” de Samuel; é uma reescritura em louvor, do gênero das biografias piedosas do Segundo Templo, que usa a narrativa como matéria de hino. Quem o ler como documento paralelo a 1Sm 16–17 deve registrar as divergências — elas não são erros, são programa literário: a eleição, não a batalha, é o tema [W — análise do dossiê].
4.3 As “Composições de Davi” (11Q5, col. 27) — o companheiro imediato no rolo
Na coluna 27 do 11Q5, imediatamente antes da tríade final (Sl 140, 134, 151) que encerra o rolo, está uma prosa que lista as obras do rei — peça única, sem paralelo fora de Qumran [V — three-things.ca, “David’s Compositions”; dssenglishbible.com]:
“E Davi, filho de Jessé, era sábio, e luz como a luz do sol, e letrado… E o Senhor lhe deu um espírito discernente e iluminado. E escreveu 3.600 salmos; e canções para cantar diante do altar sobre o holocausto perpétuo, todos os dias do ano, 364; e para a oferta dos sábados, 52 canções; e para as luas novas e todas as assembleias solenes e o Dia da Expiação, 30 canções. E todas as canções que ele disse foram 446, e canções para musicar sobre os enfermos, 4. E o total foi 4.050. Todas estas ele compôs por profecia que lhe foi dada da parte do Altíssimo.”
(Conferido: 364+52+30 = 446; 3.600+446+4 = 4.050.) [V — three-things.ca]
A função é discutida: Williams nota que a prosa serve polemicamente — “se Davi compôs mais de 4.000 salmos por profecia, quem tem o direito de limitá-los a 150?” — e que o calendário solar pressuposto é o da comunidade [V — three-things.ca]. Flint lê a dupla ênfase do rolo: o calendário e o papel de Davi [V — Flint, 1997, resumo em three-things.ca]. Companheiro imediato do 151 no bloco final, a prosa atesta o rei como salmista total; o 151 mostra o momento em que esse salmista foi escolhido — juventude e catálogo fecham o manuscrito num retrato único [V — three-things.ca].
4.4 O Saltério siríaco: os salmos 151–155 (e a questão “Ezequias?”)
O Saltério da Peshitta siríaca transmite, além do 151, os salmos 152–155 — os “Cinco Salmos Apócrifos de Davi” ou “Cinco Salmos Siríacos”, identificados por Giuseppe Simone Assemani (1759) e publicados por William Wright (PSBA 9, 1887, pp. 257–266) [V — en.wiki, Psalms 152–155; [DIGITAL] tertullian.org]. O que a literatura verifica:
- 152 e 153 existem só em siríaco: o primeiro é “falado por Davi quando contendia com o leão e o lobo que levaram uma ovelha do seu rebanho”; o segundo, a ação de graças pela libertação — provável composição hebraica helenística (Charlesworth) [V — en.wiki].
- 154 e 155 existem em hebraico no 11Q5 (a 154 também em 4Q448), prova de composição pré-cristã e de tradução do hebraico para o siríaco [V — en.wiki; dssenglishbible.com]. Matthias Henze (THBO, Brill, 2020) confirma: “Syr-Pss 154 e 155 foram traduzidas do hebraico” [V — [ACAD] DOI 10.1163/2452-4107_thb_COM_0212010000].
- Apócrifos ou “de Ezequias”? As duas designações circulam. “Apócrifos” é a classificação corrente (não estão no TM nem na LXX); “de Ezequias” é o título siríaco do 154 tal como Wright o traduziu — “A Oração de Ezequias quando os inimigos o cercaram” — embora o hebraico de Qumran não traga título; o 155 é oração penitencial anônima, comparada ao Sl 22 e 51 e à Oração de Manassés (Gurtner, 2020) [V — en.wiki]. Daniel Gurtner (Baker, 2020, pp. 335–340) sugere ressonâncias sectárias no 154 (“os muitos”, “a comunidade”) [V — ISBN 9781493427147]. A resposta honesta: “salmos de Ezequias” aplica-se por tradição siríaca ao 154, não ao grupo; “apócrifos” é a designação acadêmica do conjunto 151–155 [V].
4.5 A canonicidade: por que a LXX recebeu o salmo e o cânon hebraico não
A resposta histórica honesta não apela a uma “decisão conciliar” — nenhuma é documentada para o Salmo 151 [W]. O que os dados permitem dizer:
- Composição tardia. O salmo é helenístico (séc. III–I a.C.), posterior ao processo que deu ao Saltério hebraico a sua forma de 150 — contagem-padrão que o próprio título grego pressupõe ao declarar o salmo “fora do número” [V — greekdoc.com; W — análise].
- Dois saltérios. A LXX traduziu (séc. II a.C.) um Saltério que em ramos da tradição incluía o 151 e o transmitiu: o salmo está “atestado de forma mais ou menos uniforme na tradição grega (primária)” (Henze, THBO) e figura nos grandes códices — Sinaiticus e Alexandrinus [V — [ACAD] Henze, DOI 10.1163/2452-4107_thb_COM_0212010000; W — códices]. O cânon hebraico fechou a Bíblia em 24 livros (cf. 4 Esdras 14 e a lista de Josefo, Contra Ápio 1,8) e o Saltério em 150 — sem o 151 [W].
- Receção cristã dividida. As igrejas ortodoxas herdaram o Saltério grego litúrgico com o 151 (e as Odes); o Ocidente latino o conheceu em manuscritos (Vetus Latina; Vulgata manuscrita) sem o canonizar; Trento (1546) não o listou; os protestantes seguiram o hebraico de 150 [V — en.wiki; pt.wiki; W — Trento]. A exclusão é resultado de um processo, não de um veto: ninguém precisou “tirar” o salmo — ele nunca entrou na Bíblia hebraica, e as tradições cristãs o receberam conforme herdaram o saltério grego ou o hebraico [W — síntese do dossiê].


5. Temas
- A eleição do menor: o caçula pastor, o último entre os irmãos, é o escolhido — o motivo de Dt 7,7 aplicado ao rei [W].
- O pastor-músico: as mãos que apascentam são as que fazem o instrumento; a vocação musical prepara a realeza (vv. 1–2; 151A) [V — texto].
- A unção: o envio do mensageiro/profeta, a tirada “de trás do rebanho” e o óleo santo (v. 4; 151A) [V — texto].
- O opróbrio removido: a vitória não é glória pessoal, mas a retirada da vergonha de Israel (v. 7) [V — texto].
- O combate singular como juízo: o duelo de campeões decide a guerra; a maldição pelos ídolos é respondida pela espada do próprio gigante [V — texto; W — bíblico].
- A criação como testemunha: em 151A, montes, colinas, árvores e rebanho “guardam as palavras” do eleito [V — texto hebraico].
- “Fora do número”: a identidade liminar do salmo — canônico na liturgia grega, apócrifo no hebraico — é tema de teologia do cânon [W].
6. Recepção
Liturgia bizantina (verificado). O Salmo 151 integra o Saltério litúrgico ortodoxo — o saltério grego de 151 salmos, seguido das Odes (os nove cânticos bíblicos: Êx 15,1–19; Dt 32,1–43; 1Sm 2,1–10; Hab 3,2–19; Is 26,9–20; Jn 2,3–10; Dn 3,26–56; Dn 3,57–88; Lc 1,46–55; 1,68–79; 2,29–32) [W — estrutura do Saltério grego; V — Quetzal, sinopse do vol. IV t. 2]. No ofício, a posição é modesta: não entra no ciclo semanal dos kathismata nem tem leitura fixa em serviço algum; a exceção verificada é o verso 4 (“Ele enviou o seu mensageiro…”), cantado entre os versículos do Polyeleos nas Matinas de 8 de novembro, Sínaxis dos Arcanjos [V — en.wiki, citando The Holy Psalter, Saint Ignatius Orthodox Press, 2022]. Nas igrejas orientais: na copta, abre a Vigília do Sábado Brilhante, lido como profecia messiânica da derrota de Satanás por Cristo; na armênia, integra a Matinas junto dos cânticos [V — en.wiki].
O Ocidente latino também o conheceu. Embora não canônico, o salmo entrou em manuscritos da Vetus Latina e da Vulgata; em cerca de metade dos saltérios anglo-saxões aparece após o Salmo 150, entre os cânticos, marcado “fora do número” (Brandon W. Hawk, “Psalm 151 in Anglo-Saxon England”, RES 66, 2015, pp. 805–821) [W — Hawk, 2015]; e sobreviveu na liturgia romana como responsório de Matinas “Deus omnium exauditor est” (CAO 6430) na série dos Reis, emparelhado com 1Sm 17,37 — no uso de Sarum, o primeiro domingo após a Trindade chamava-se “Deus omnium” [V — en.wiki; CANTUS ID 006430]. Caso raro de apócrifo na liturgia latina.
Arte. Davi e Golias é dos motivos mais pintados do Ocidente, e a iconografia fixou o momento do 151 — a cabeça do gigante e a espada:
- Caravaggio, David com a cabeça de Golias (1605–1610), Galleria Borghese — a tradição vê a própria face do pintor na cabeça do gigante [V — collezionegalleriaborghese.it, página oficial].
- Donatello, Davi, bronze (c. 1440), Bargello, Florença — primeiro nu em pé desde a Antiguidade, com a cabeça de Golias aos pés [W — registo enciclopédico].
- Gian Lorenzo Bernini, Davi (1623–1624), Galleria Borghese — o instante do arremesso, não o triunfo [W — registo enciclopédico].
- Na arte bizantina, as miniaturas dos saltérios ilustram Davi músico e Davi-Golias; não arrolo miniatura sem inventário conferido [—].
Cultura. O imperador Haile Selassie recitou o salmo integral na abertura do primeiro discurso ao Conselho de Estado (Marcus, 1996, p. 96) [V — en.wiki ref]. Na pesquisa atual, o 151 é peça central da tese da “vida de Davi” como moldura do rolo: Sanders propôs que o 11Q5 organiza o material davídico (juventude eleita, catálogo das composições, últimas palavras) como biografia do rei-salmista, refinada por Wilson (CBQ 59, 1997, pp. 448–464) e por Flint (1997) [V — three-things.ca; W — Wilson, 1997]. O salmo “fora do número” tornou-se a chave de leitura de um saltério inteiro.

7. Traduções PT e Comentários PT
O que existe em português (verificado):
- Frederico Lourenço (trad.), Bíblia Grega — Septuaginta, vol. IV, tomo 2 (Lisboa: Quetzal, 2019, 528 pp., ISBN 9789897225741): publica o Saltério grego completo — que na LXX termina no Salmo 151 — seguido dos Salmos de Salomão, das Odes e dos Provérbios, com as “originalidades” do saltério grego nas notas à tradução [V — quetzaleditores.pt]. É a única tradução impressa PT verificada do Salmo 151 nesta sessão.
- Wikipédia em português, artigo “Salmo 151”: traz o texto grego e tradução portuguesa integral dos 7 versículos (e do texto hebraico de 151A/151B), acessível e gratuita [V — pt.wikipedia.org/wiki/Salmo_151].
- Saltérios ortodoxos em PT: circulam no ambiente litúrgico ortodoxo lusófono materiais que seguem o saltério grego (e incluem o 151), mas não localizei volume impresso de editora com ISBN verificado — lacuna declarada [—].
O que não existe (verificado por ausência): as Bíblias correntes em português — Almeida (ARC/ARA/ACF), Bíblia de Jerusalém, TEB, Bíblia Pastoral/CNBB, NVI — seguem o cânon hebraico de 150 salmos e não incluem o 151 [W]; as traduções ecumênicas que o trazem em inglês (RSV, NRSV, ESV, Orthodox Study Bible) não têm impresso em português localizado [—]; nenhum comentário dedicado ao salmo em PT foi localizado — o comentário-âncora PT aos Salmos, Luís I. J. Stadelmann, Os Salmos da Bíblia (Paulinas; Loyola, 2015, ISBN 9788515042067), cobre o saltério hebraico de 150 [W — registro já conferido no dossiê dos Salmos].
Comentários-âncora em EN (sem tradução PT localizada [—]): Sanders (DJD IV, 1965; Cornell, 1967); Charlesworth & Sanders (1985); Flint (Brill, 1997); Abegg, Flint & Ulrich, The Dead Sea Scrolls Bible (1999), que traduz o 151 (pp. 585–586) [V — en.wiki refs].

8. Audiovisual e Games
| Título | Realidade | Validação PT | Marcador |
|---|---|---|---|
| Péter Eötvös, Psalm 151 — In Memoriam Frank Zappa (1993), para percussão | composição erudita sobre o título do salmo | circulação lusófona de gravação não confirmada | [V] en.wiki |
| Jacob’s Trouble, faixa “Psalm 151” (LP Door into Summer, 1989) | canção de rock cristão com o título | sem versão PT localizada | [V] en.wiki |
| Touched by an Angel, S5E9 “Psalm 151” (1998) | episódio com a canção “Testify to Love” | dublagem PT da série existente, sem título próprio do episódio verificado | [V] en.wiki / [—] PT |
| Ezra Furman, “Psalm 151” (Transangelic Exodus, 2018) | canção autoral com o título (a autora ignorava o salmo) | sem versão PT | [V] en.wiki |
| DJ Khaled feat. Jay-Z, “God Did” (2022) | “Psalm 151” como metáfora de obra nova e sagrada | difusão lusófona; letra em inglês | [V] en.wiki |
| Documentários sobre os Manuscritos do Mar Morto | cobrem o 11Q5 | legendas PT em títulos genéricos | [W] |
| Videojogos com o Salmo 151 | nenhum título centrado no salmo localizado | — | [—] |
O uso de “Psalm 151” na cultura pop é quase sempre metafórico — a ideia de um “salmo extra”, novo e sagrado [V — en.wiki, “Other references”].
9. Mitologia e Literatura Comparada
O duelo de campeões: Davi-Golias e o combate singular homérico
O Salmo 151 pressupõe o combate singular (“saio ao encontro do filisteu”, v. 6): o duelo de campeões que substitui a batalha campal — o motivo da Ilíada (canto 3), onde Menelau e Páris duelam para decidir a guerra de Troia [W — Homero, Ilíada 3,15–120]. A comparação ensina por contraste: em Homero, os deuses puxam a luta dos dois lados e o duelo fracassa; em Israel, o duelo é teológico — Golias amaldiçoa “pelos seus deuses” e a vitória “tira o opróbrio de Israel” (vv. 6–7) [V — texto; W — análise]. Poligenia, não dependência: o motivo do campeão é pan-mediterrâneo; a teologia é israelita [W].
As “Composições de Davi” e os catálogos mesopotâmicos de textos e autores
A prosa de 11Q5 col. 27 (§4.3) tem paralelo funcional nos catálogos mesopotâmicos que atribuem corpora a sábios antigos — o gênero estudado por W. G. Lambert em “A Catalogue of Texts and Authors” (JCS 16, 1962, pp. 59–77), que documenta a prática de ancorar a autoridade literária em figuras do passado [W — Lambert, 1962]. A diferença é a direção teológica: o catálogo mesopotâmico liga textos a eruditos e deuses da escrita; as Composições ligam todas as canções do culto a Davi, “compostas por profecia… da parte do Altíssimo” [V — three-things.ca]. É a mesma lógica de autoridade do bloco davídico extra-canônico: o rei-salmista como garantia [W].
O rei-salmista: a poesia real do ANE e a tradição davídica
Davi como rei que compõe e canta tem raízes antigas: os hinos e orações reais acádios (o rei cultuante e mediador) e o “doce salmista de Israel” (2Sm 23,1) [W]. O traço específico do 151 é a autobiografia do eleito: o rei canta a própria eleição — gênero raro fora de Israel, onde a poesia real celebra vitórias, não vocações [W — análise]. Isaac Rabinowitz chegou a propor influência órfica no 151A (ZAW 76, 1964, pp. 193–200) — tese rejeitada: o motivo das árvores e montes que “guardam as palavras” aproximou o poema da fala da natureza dos hinos órficos, sem dependência sustentável [W — en.wiki ref; análise].
Os salmos apócrifos do Saltério de Qumran como gênero
O 151 não está só: o 11Q5 intercala Apostrophe to Zion (a Sião como amada, no estilo de Is 54, 60 e 62), o Hino ao Criador e a Súplica por Libertação — poesia de louvor e súplica no mesmo registro dos salmos canônicos, que o rolo trata como material de saltério [V — en.wiki, Great Psalms Scroll; dssenglishbible.com]. O gênero é o do saltério ampliado do Segundo Templo: composições novas entram no corpus enquanto ele é vivo — e o 151 é o único desses poemas que “vazou” para a tradição grega e sobreviveu fora de Qumran [V — en.wiki].
A eleição do menor no antigo Israel
O padrão “o último escolhido” é bíblico antes do 151: Gideão, da família mais fraca (Jz 6,15); Saul, do menor dos clãs (1Sm 9,21); e a fórmula deuteronômica “não porque éreis mais numerosos” (Dt 7,7) [W]. O 151 radicaliza: não é só o clã, é o indivíduo — “pequeno era eu entre os meus irmãos” (v. 1) — e a eleição é explícita e cantada [V — texto]. A literatura sapiencial do ANE conhece a inversão (o humilde exaltado), mas ali a restauração vem após a queda; aqui a eleição vem antes de qualquer mérito público [W].

10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta
Espinosa e a autoria dos Salmos
O Salmo 151 é o caso-limite do programa de Baruch Espinosa no Tractatus Theologico-Politicus (1670): os salmos teriam sido recolhidos muito depois de Davi, e os títulos não garantem autoria — a leitura deve ir ao texto e ao contexto, não à fama do nome [W — Espinosa, TTP, caps. 9–10]. O 151 comprova o método: título davídico, composição helenística, descoberta em Qumran. A pergunta que o texto força: o que autoriza uma atribuição de autoria? — e a resposta espinosana (nada além do testemunho crítico) é hoje a da academia [W].
Kant e a eleição como problema moral
Immanuel Kant, em A religião nos limites da simples razão (1793), subordina toda escolha divina à moral universal: um “favor” (Gunst) que contrarie a justiça é indigno de Deus [W]. O salmo põe o problema cru: “os meus irmãos eram belos e altos, e o Senhor não se agradou deles” (v. 5) — a não-eleição é declarada, não justificada. Para Kant, ela só se salva como eleição de um caráter (a disposição moral do pastor); para o salmo, é mistério que se louva, não que se explica — o desacordo é o ponto [W — análise].
Mackie e Rowe: a não-eleição e o problema do mal
J. L. Mackie (“Evil and Omnipotence”, Mind 64, 1955) formulou o problema lógico do mal; William L. Rowe (“The Problem of Evil and Some Varieties of Atheism”, APQ 16, 1979), a versão evidencial [W]. O 151 não trata de sofrimento gratuito, mas levanta a pergunta gêmea: a parcialidade de Deus. Se Deus escolhe o pequeno, por que não os irmãos? Se a vitória de Davi é boa para Israel, é derrota para o filisteu — e a maldição de Golias pelos ídolos (v. 6) é a voz do perdedor que o salmo nem responde. O texto não resolve a objeção; ele a canta por cima, porque a sua pergunta não é “é justo?” mas “quem é como o Senhor?” [W — análise].
Girard: o gigante, o rival e o sacrifício
René Girard (A violência e o sagrado, 1972) descreve a violência como rivalidade mimética canalizada pelo sacrifício [W]. O duelo singular é a ritualização que evita a guerra total: dois campeões, um rival, um vencedor. No 151, o mecanismo aparece com a assinatura israelita: o rival amaldiçoa pelos ídolos — a violência é deslocada para o plano teológico — e a vitória “remove o opróbrio” da comunidade (v. 7), reordenando o grupo em torno do ungido [V — texto; W — análise girardiana]. O pequeno que vence o gigante é, na leitura de Girard, o bode expiatório invertido: não a vítima da comunidade, mas o instrumento pelo qual ela se purifica [W].
Mary Douglas: o salmo “fora do número” e a classificação
Mary Douglas, em Pureza e Perigo (1966), definiu a sujeira como “matéria fora do lugar” e mostrou como os sistemas de classificação gerem o anômalo [W]. O Salmo 151 é um anômalo canônico: declarado “fora do número” (ἔξωθεν τοῦ ἀριθμοῦ), habita a fronteira entre canônico e apócrifo — e cada tradição o trata como o seu sistema exige (a ortodoxa o canta; a hebraica o exclui; a latina o arquiva entre os cânticos). A eleição que o salmo narra é também uma reclassificação: o pastor — categoria baixa e ambígua, à margem das classes do exército — é elevado a líder do povo e governante “sobre os filhos da sua aliança” (151A) [V — texto; W — Douglas]. Douglas não escreveu sobre o 151 [—]; a aplicação é do método, não tese da autora.
11. Teologia — os debates
O Saltério fluido de Qumran: a tese de Sanders contra as alternativas
O 11Q5 abriu o maior debate teológico-textual do Saltério desde Gunkel [V — three-things.ca]: Sanders sustentou que o rolo é saltério canônico de pleno direito, testemunha do caráter “fluido e aberto” do último terço do Saltério (com Sl 1–89 já fixado); contra ele, Moshe H. Goshen-Gottstein e Patrick W. Skehan defenderam uma coleção litúrgica secundária, rearranjada de um saltério de 150 estabilizado (Skehan, “A Liturgical Complex in 11QPsa”, CBQ 34, 1973) [V — three-things.ca; W — Skehan, 1973]. Wilson refinou Sanders em cinco segmentos orientados à esperança do messias davídico; Flint propôs um saltério de 52 salmos alinhado ao calendário solar; Dahmen e Williams defendem um saltério alternativo sectário [V — three-things.ca]. A teologia em jogo: quando e como a Escritura se fixa — e se a fixação em 150 é “canonização” ou perda.
A “vida de Davi” como moldura teológica do rolo
A leitura de Sanders — o rolo emoldura a biografia de Davi: catálogo das composições, últimas palavras (2Sm 23), juventude eleita do 151 — faz do 151 a peça de abertura dessa vida: o rei não começa no trono, começa no pastoreio e na unção [V — three-things.ca; W — Sanders, 1967]. Teologicamente, isso “davidiciza” o Saltério inteiro: toda a oração do rolo é “de Davi”, e a esperança messiânica da comunidade ganha o retrato do eleito desde a juventude [V — en.wiki, Great Psalms Scroll; three-things.ca].
A leitura messiânica e a tipologia Davi–Cristo
Atanásio de Alexandria, na Epístola a Marcelino, cita o salmo como “especialmente o salmo de Davi”, recomendado para quando “fracos como sois, sois escolhidos para alguma posição de autoridade entre os irmãos” [V — citação via en.wiki; tradução em atahanasius.com, arquivado]. A leitura cristã é tipológica: Davi, tipo de Cristo (o ungido rejeitado pelos irmãos); Golias, tipo de Satanás — explícita na tradição copta, que lê a vitória do Sábado Brilhante como a derrota de Satanás por Cristo [V — en.wiki]. O debate é o de sempre: tipologia retrospectiva (confessional) ou releitura posterior (histórica) — o dossiê declara a distância, não a resolve [W].
O “fora do número” e a teologia do cânon
O título grego é um dado teológico: alguém, na Antiguidade, achou importante dizer que este salmo “está fora do número” — os 150 são a medida. A teologia ortodoxa lê o saltério cantado (o 151 está no saltério litúrgico, ainda que fora do kathisma); a protestante histórica, o saltério impresso (150); a católica herda o saltério latino sem o 151, mas com o responsório “Deus omnium” nas Matinas dos Reis [V — en.wiki; W — síntese]. O debate: o cânon se define pelo uso litúrgico ou pela lista? — e o 151 é o caso que impede respostas fáceis [W].
11.1. Comentaristas por esfera confessional
Esta subseção organiza os comentários e leituras do Salmo 151 (e do seu rolo) por tradição de leitura, não por cronologia. A regra de rotulagem é a do método desta camada — a perspectiva declara-se, não se atribui —, e o rótulo é metadado, não argumento. Convenções: [V] conferido nesta sessão; [W] conhecido, não reconferido; [—] lacuna.
Judaica
- O salmo está ausente do cânon hebraico e da liturgia judaica; a fixação rabínica do Saltério em 150 e a atribuição davídica por “dez anciãos” (b. Bava Batra 14b) pressupõem o número que o título grego declara [W — b. Bava Batra 14b].
- Shemaryahu Talmon estudou os salmos extra-canônicos de Qumran e defendeu leitura cultual/litúrgica do 11Q5 [W].
- Emanuel Tov trabalhou a crítica textual e a ortografia “qumrânica” do rolo [W — citado em three-things.ca].
Católica
- Patrick W. Skehan (CUA): “The Apocryphal Psalm 151” (CBQ 25, 1963) e a leitura do 11Q5 como complexo litúrgico [W].
- Joseph A. Fitzmyer tratou dos rolos e do AT grego no quadro da pesquisa católica [W].
- A Vulgata manuscrita e a liturgia latina conheceram o salmo (responsório “Deus omnium exauditor est”, CAO 6430) sem o canonizar; Trento não o listou [V — en.wiki; W — Trento].
Ortodoxa
- O Saltério grego litúrgico (151 salmos + Odes) é a forma canônica recebida; o uso verificado: fora do kathisma; v. 4 no Polyeleos de 8 de novembro [V — en.wiki].
- Orthodox Study Bible (2008) inclui o salmo com notas patrísticas [W].
- The Holy Psalter (Saint Ignatius Orthodox Press, 2022) — saltério litúrgico moderno com o 151 [V — en.wiki ref].
- A leitura copta (Sábado Brilhante) e armênia (Matinas) prolongam o uso litúrgico oriental [V — en.wiki].
Protestante histórica
- Martinho Lutero e João Calvino (Commentarii in Psalmos, 1557) comentaram os 150 do saltério hebraico; o 151 ficou fora da tradição reformada [W].
- O Ocidente medieval, porém, transmitiu o salmo nos saltérios latinos e anglo-saxões “fora do número” (Hawk, 2015) e na liturgia das Horas [W — Hawk, 2015; V — en.wiki].
- Henry Barclay Swete (1914) formulou a visão pré-Qumran que a descoberta derrubou [W].
Evangélica
- Peter Flint (Trinity Western): The Dead Sea Psalms Scrolls and the Book of Psalms (STDJ 17, Brill, 1997) — a monografia de referência sobre o 11Q5 [V-OL OL2901569W].
- Abegg, Flint & Ulrich, The Dead Sea Scrolls Bible (1999), traduz o 151 para o público evangélico (pp. 585–586) [V — ISBN 0-06-060064-0].
- A apologética evangélica usa o 151 como exemplo de “cânon em formação” — leitura criticada por pressupor a fluidez que discute [W].
Não confessional
- James A. Sanders (DJD IV, 1965; Cornell, 1967) [V]; Tyler F. Williams (three-things.ca) [V]; Daniel Gurtner (2020) [V]; Matthias Henze (THBO, 2020, DOI 10.1163/2452-4107_thb_COM_0212010000) [ACAD]. Método histórico-crítico e textual; a perspectiva declara-se e não se usa o método como refutação de outra esfera [W].
Balanço de esferas (contagem declarada)
| Esfera | Nomes citados | Fonte primária? |
|---|---|---|
| Judaica | Talmon [W], Tov [W], b. Bava Batra 14b [W] | não nesta sessão |
| Católica | Skehan [W], Fitzmyer [W], Vulgata manuscrita [V], Trento [W] | parcial (liturgia latina) |
| Ortodoxa | Saltério grego [V], OSB [W], Holy Psalter [V], leituras copta/armênia [V] | sim (litúrgica) |
| Protestante histórica | Lutero [W], Calvino [W], Hawk [W], Swete [W] | não nesta sessão |
| Evangélica | Flint [V-OL], Abegg-Flint-Ulrich [V] | sim (Flint) |
| Não confessional | Sanders [V], Williams [V], Gurtner [V], Henze [ACAD·DOI] | sim (todos) |
O desequilíbrio visível — a esfera ortodoxa documentada sobretudo pela liturgia, a judaica pela ausência, a não confessional pela crítica textual — não é do dossiê: é do material, e fica dito [W]. Onde não houve conferência direta, a lacuna declara-se [—].
12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não têm competência
A regra desta seção: declarar os limites. A ciência não decide se o Salmo 151 é canônico nem se Davi o compôs; decide o que os dados materiais e textuais sustentam.
Paleografia e datação do 11Q5
O rolo foi datado paleograficamente como herodiano tardio, entre 30 e 50 d.C. [V — three-things.ca; dssenglishbible.com]. Os dados internos apoiam: hebraico bíblico com ortografia plena (traço qumrânico) e o tetragrama em paleo-hebraico — prática conservadora de rolos sectários [V — three-things.ca; W — Tov]. Não localizei radiocarbono específico do 11Q5; a datação corrente é paleográfica [—].
Os dados materiais do rolo
O 11Q5 é de couro animal amarelo-escuro (possivelmente bezerro), menos de 1 mm de espessura, 5 folhas cosidas totalizando cerca de 4,25 m; restam 34 colunas com ~50 composições; a parte superior está bem preservada, a inferior decomposta; descoberto em fevereiro de 1956, aberto em novembro de 1961, disponível na Biblioteca Digital Leon Levy [V — en.wiki, Great Psalms Scroll; three-things.ca]. Um rolo de 4 metros dedicado aos Livros IV–V mostra que o Saltério circulava como cópia de luxo no séc. I [W — análise].
A crítica textual: o grego, a LXX e o Vorlage
O Salmo 151 grego está “atestado de forma mais ou menos uniforme na tradição grega (primária)” (Henze, THBO) e figura nos grandes códices do séc. IV–V (Sinaiticus, Alexandrinus) [V — [ACAD] Henze; W — códices]. A edição de referência continua a ser a de Rahlfs (1931), no quadro da Göttingen Septuaginta, que prepara a nova edição crítica dos Salmos e Odes [V — septuaginta.uni-goettingen.de, já conferido no dossiê dos Salmos]. A pergunta crítica aberta: conflação de 151A+B (Sanders) ou Vorlage curto independente (Skehan)? — a filologia descreve as duas possibilidades sem decidir (§4.1) [V].
Arqueologia do contexto
A arqueologia documenta o pano de fundo: o vale de Elá e a cidade filisteia de Gate (Tell es-Safi), escavada desde 1996, com ocupação do Ferro I ligada à Pentápole [W — síntese corrente]. Nada liga o sítio ao salmo: nenhuma inscrição menciona Golias nem o duelo, e a arqueologia não confirma nem desmente o episódio — situa a possibilidade material (guerra de fronteira no Ferro I) sem tocar o texto [W].
Onde a ciência NÃO tem competência
- A ciência não decide se o Salmo 151 é canônico: a canonicidade é decisão de comunidades de fé, não resultado de análise [W].
- A ciência não prova nem refuta que Davi compôs o salmo: a atribuição é literária e teológica; a datação helenística diz quando o texto foi escrito, não quem o inspirou [W].
- A paleografia não data o “original”: data o manuscrito (30–50 d.C.); a composição hebraica é anterior por inferência (séc. III–I a.C.), não por medição [W].
- A arqueologia não identifica Golias nem confirma o combate singular: trabalha com contextos e populações, não com personagens nomeados [W].
- E nenhuma ciência responde à pergunta central — por que o menor foi o eleito —, matéria de teologia e filosofia da religião (§10, §11) [W].

13. Lacunas e Correções de Atribuição
- [—] Saltério ortodoxo impresso em PT com ISBN: não localizado; a tradução impressa verificada do Salmo 151 em português é a de Lourenço (Quetzal, 2019, ISBN 9789897225741).
- [—] Comentário dedicado ao Salmo 151 em português: não localizado; os comentários PT aos Salmos seguem o saltério hebraico de 150.
- [—] Radiocarbono do 11Q5: não localizei datação C14 publicada; a datação citada (30–50 d.C.) é paleográfica.
- [W] Títulos siríacos de 154–155: a designação “Oração de Ezequias” para o 154 vem da tradução de Wright (1887) citada por en.wiki; não reconferi a edição do PSBA original.
- [—] Arte bizantina: não arrolei miniatura de saltério com número de inventário verificado.
- [W] Citação da Epístola a Marcelino: a frase “especialmente o salmo de Davi” chega pela tradução inglesa (athanasius.com, arquivado 2021) e por en.wiki; não conferi edição crítica grega.
- [—] Traduções PT de Sanders (1965; 1967), Flint (1997), Charlesworth & Sanders (1985) e Abegg-Flint-Ulrich (1999): não localizadas.
- [W] Relação exata entre as formas hebraica e grega: conflação (Sanders) versus Vorlage curto independente (Skehan) permanece em debate; as duas hipóteses foram apresentadas com os seus defensores.
- [W] Correção de atribuição popular: o “Salmo 151” da cultura pop (Eötvös, Furman, Jay-Z) não é o salmo bíblico — é metáfora de obra nova [V — en.wiki, “Other references”].
Bibliografia-âncora verificada
- Sanders, The Psalms Scroll of Qumrân Cave 11 (11QPsa), DJD IV (Oxford: Clarendon, 1965). [V-OL] OL5105304W: https://openlibrary.org/works/OL5105304W; texto do 11Q5: https://dssenglishbible.com/scroll11Q5.htm; resenha (Flint), JSTOR 1585719: https://www.jstor.org/stable/1585719.
- Sanders, The Dead Sea Psalms Scroll (Ithaca: Cornell University Press, 1967). [V-OL] OL18176336W: https://openlibrary.org/works/OL18176336W.
- Sanders, “Ps. 151 in 11QPss”, ZAW 75 (1963), pp. 73–86. [ACAD] DOI 10.1515/zatw.1963.75.1.73: https://doi.org/10.1515/zatw.1963.75.1.73.
- Strugnell, “Notes on the Text and Transmission of the Apocryphal Psalms 151, 154 (= Syr. II), 155 (= Syr. III)”, HTR 59 (1966), pp. 257–281. [ACAD] DOI 10.1017/S0017816000009767: https://doi.org/10.1017/S0017816000009767.
- Flint, The Dead Sea Psalms Scrolls and the Book of Psalms (STDJ 17; Leiden: Brill, 1997). [V-OL] OL2901569W: https://openlibrary.org/works/OL2901569W; Brill: https://brill.com/display/title/7089.
- Charlesworth & Sanders, “More Psalms of David (Third Century B.C.–First Century A.D.)”, em The Old Testament Pseudepigrapha vol. 2 (Garden City: Doubleday, 1985), pp. 609–624. [V] ISBN 0-385-18813-7.
- Abegg, Flint & Ulrich, The Dead Sea Scrolls Bible (New York: HarperCollins, 1999), pp. 585–586. [V] ISBN 0-06-060064-0.
- Henze, “12.1 Textual History of Psalms 151–155”, Textual History of the Bible Online (Leiden: Brill, 2020). [ACAD] DOI 10.1163/2452-4107_thb_COM_0212010000: https://doi.org/10.1163/2452-4107_thb_COM_0212010000.
- Williams, “Towards the Date for the Old Greek Psalter”, em The Old Greek Psalter: Studies in Honour of Albert Pietersma (JSOTSup 332; Sheffield: Sheffield Academic Press, 2001), pp. 248–276. [W].
- Wilson, “The Qumran Psalms Scroll (11QPs(a)) and the Canonical Psalter: Comparison of Editorial Shaping”, CBQ 59 (1997), pp. 448–464. [W].
- Skehan, “The Apocryphal Psalm 151”, CBQ 25 (1963), pp. 407–409. [W].
- Wright, “Some Apocryphal Psalms in Syriac”, PSBA 9 (1887), pp. 257–266. [DIGITAL] https://www.tertullian.org/fathers/wright_syriac_apocryphal_psalms.htm.
- Gurtner, Introducing the Pseudepigrapha of Second Temple Judaism (Grand Rapids: Baker, 2020), pp. 335–340. [V] ISBN 9781493427147.
- Lourenço (trad.), Bíblia Grega — Septuaginta, vol. IV, tomo 2 (Lisboa: Quetzal, 2019; 528 pp.). [V] ISBN 9789897225741: https://www.quetzaleditores.pt/produtos/ficha/biblia-vol-iv-tomo-2/22549225.
- Salmo 151 — texto grego e tradução (LXX). [V] https://greekdoc.com/DOCUMENTS/lxx-eng/ps151.html.
- Atanásio de Alexandria, Epístola a Marcelino e Salmo 151 (tradução inglesa). [V] https://web.archive.org/web/20210227125913/http://www.athanasius.com/psalms/psalms5.html.
- Psalm 151 (en.wiki). [V] https://en.wikipedia.org/wiki/Psalm_151.
- Psalms 152–155 (en.wiki). [V] https://en.wikipedia.org/wiki/Psalms_152%E2%80%93155.
- Great Psalms Scroll (en.wiki). [V] https://en.wikipedia.org/wiki/Great_Psalms_Scroll.
- Salmo 151 (pt.wiki). [V] https://pt.wikipedia.org/wiki/Salmo_151.
- Williams, “Qumran Psalms Scroll (11Q5/11QPs-a)” e “David’s Compositions (Col. 27)”, Three Things. [V] https://three-things.ca/11q5/.
- The Holy Psalter (Saint Ignatius Orthodox Press, 2022) — saltério litúrgico com o Salmo 151. [W] citado em en.wiki.
- Swete, An Introduction to the Old Testament in Greek (Cambridge: Cambridge University Press, 1914), pp. 252–253. [HIST].
- Hawk, “Psalm 151 in Anglo-Saxon England”, Review of English Studies 66 (2015), pp. 805–821. [W].
- Orthodox Study Bible (Nashville: Thomas Nelson, 2008) — inclui o Salmo 151. [W].
- Caravaggio, David com a cabeça de Golias (1605–1610), Galleria Borghese. [V] https://www.collezionegalleriaborghese.it/en/opere/david-with-the-head-of-goliath.
Como conseguir estas obras
A bibliografia de um site didático não é a de uma tese: cita o que importa e o leitor consegue alcançar. O selo diz por onde — e a tabela está ordenada por acessibilidade, do que se lê hoje ao que só se compra.
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| Obra | Acesso | Onde |
|---|---|---|
| Salmo 151 — texto grego LXX (greekdoc.com) | livre | greekdoc.com |
| Atanásio, Epístola a Marcelino e Salmo 151 (athanasius.com, arquivado) | livre | web.archive.org |
| Texto do 11Q5 (dssenglishbible.com) | livre | dssenglishbible.com |
| Williams, “Qumran Psalms Scroll” e “David’s Compositions” (Three Things) | livre | three-things.ca |
| Wright, “Some Apocryphal Psalms in Syriac” (PSBA 1887) | livre | tertullian.org |
| Salmo 151 — tradução PT (pt.wiki) | livre | pt.wikipedia.org |
| Sanders, DJD IV (1965) | empréstimo | Open Library |
| Sanders, The Dead Sea Psalms Scroll (1967) | empréstimo | Open Library |
| Flint, The Dead Sea Psalms Scrolls (1997) | empréstimo | Open Library |
| Sanders, “Ps. 151 in 11QPss” (ZAW 1963) | biblioteca | DOI |
| Strugnell, HTR 59 (1966) | biblioteca | DOI |
| Lourenço, Bíblia Grega IV/2 (Quetzal, 2019) | compra | quetzaleditores.pt |
| Gurtner, Introducing the Pseudepigrapha (Baker, 2020) | compra | Baker |
| Abegg, Flint & Ulrich, The Dead Sea Scrolls Bible (1999) | compra | HarperCollins |
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