Antiguidade Bíblica
3 Macabeus — Artigo Enciclopédico
Comece por aqui
Por onde estudar esta página
Você não precisa ler tudo. Escolha um degrau — cada um é um estado final satisfatório, não um fragmento de curso. A ordem abaixo não é a ordem das seções: o texto vem antes do comentário, de propósito.
- 01
Ler o texto15–30 min
A passagem inteira, em duas traduções de tradições diferentes, sem comentário. Comparar as duas é o exercício que mais rende: mostra onde o original é ambíguo.
- 02
- 03
- 04
- 05
- 06
O dossiê integral1,5–3 h
Tudo, na ordem, mais bibliografia com selo de acesso e as lacunas assumidas.
Outras portas de entrada
- Quero só a resposta. Pare no degrau 0 — ele é completo em si.
- Quero conferir se é verdade. Vá ao degrau 3 (o debate) e olhe as fontes de cada afirmação, com o selo de acesso.
- Quero ler o texto com calma. Degrau 1, com o glossário ao lado.
- Vim da fé e quero entender. Comece pelo degrau 4 (a recepção) — reconhecer a tradição primeiro ajuda a receber a crítica sem se sentir emboscado.
- Vim do ceticismo. Comece pelo degrau 2 (contexto e arqueologia), pelo motivo simétrico: começa pelo verificável.
Como saber se você entendeu
Ao fim de cada degrau, tente responder às três. Se as três não saem, o degrau seguinte vai confundir — volte um.
- Compreensão. Consigo dizer o que o texto diz, com minhas palavras?
- Análise. Consigo dizer qual problema este texto levanta, e por quê?
- Debate. Consigo dizer quem discorda de quem, e sobre o quê?
1. Lead e Ficha
O Terceiro Livro dos Macabeus (gr. Μακκαβαίων Γ, Makkabaiōn Gamma; lat. Machabaeorum III) tem 7 capítulos [V] e carrega no título o erro mais instrutivo da literatura bíblica: o livro não narra os Macabeus. Não há Judas, nem revolta hasmoneia, nem selêucidas: a ação é ptolomaica, transcorre no Egito sob Ptolomeu IV Filopator (222–204 a.C.) [V], décadas antes do levante macabeu — o nome é rótulo grego tardio da Septuaginta, provavelmente pela afinidade com 2 Macabeus e para distinguir o livro dos demais do grupo [W].
A intriga: após vencer Antíoco III em Ráfia (217 a.C.), Filopator tenta entrar no santuário do Templo (cap. 1); detido por um castigo divino, decreta em Alexandria o registro censitário dos judeus — a laographia —, com escravidão e marca a ferro da folha de hera de Dioniso (2,28–29); reunidos no hipódromo (4,11), veem quinhentos elefantes embriagados preparados contra si (5,1–2); três tentativas fracassam (5,11–51); após a oração de Eleazar, dois anjos fazem os elefantes voltarem-se contra o exército (6,16–21); o rei se arrepende e os judeus instituem uma festa de libertação (6,36), retornando após executar os apóstatas (7,14–15) [V].
O livro é classificado como lenda festiva (festival legend) ou novela histórica da diáspora com função de etiologia: explica a origem de uma festa de libertação dos judeus do Egito, análoga ao Purim de Ester e ao “dia de Nicanor” (2 Mac 15,36) — as três, festas de salvação com função de identidade [W]. A historicidade é debatida (§4.8); o estilo é o grego helenístico “patético”, e a teologia, a da proteção divina direta [V].
| Campo | Dado | Marcador |
|---|---|---|
| Nome grego | Makkabaiōn Gamma (Μακκαβαίων Γ) | [V] texto |
| Capítulos | 7 | [V] |
| Idioma original | grego koiné, estilo helenístico culto e “patético” | [V] |
| Gênero | lenda festiva / novela histórica de diáspora | [W] |
| Ambientação | Egito ptolomaico; reinado de Ptolomeu IV Filopator (222–204 a.C.) | [V] |
| Autoria | anônima; judeu alexandrino culto | [V] |
| Datação | c. 100 a.C.–70 d.C. (três correntes; ver §2) | [V] |
| Posição canônica | anagignoskomena da tradição ortodoxa; fora dos cânones hebraico, católico de Trento e protestante | [V] |
| Tradições que o recebem | ortodoxa grega e eslava; ortodoxas orientais (armênia, siríaca); Igreja Assíria do Oriente | [V] |
2. Contexto e Autoria
O erro do nome e o gênero. O título engana porque a história é egípcia: o adversário é um rei lágida, não um selêucida, e o conflito é o de uma comunidade diaspórica contra o Estado ptolomaico [W]. O gênero mais aceito é a lenda festiva — relato aetiológico da origem de uma festa —, e a comparação com Ester é inevitável: em ambos, um decreto real de extermínio dos judeus da diáspora, a frustração do plano e a instituição de uma festa de libertação (Purim em Est 9,20–28; a festa de 3 Mac 6,36) [W]. A Hacham (2007) se deve o estudo de referência da intertextualidade entre os dois [ACAD — DOI 10.2307/27638467]. As três festas de “libertação” do período — Purim, o dia de Nicanor (2 Mac 15,36) e a de 3 Macabeus — cumprem a mesma função: converter um livramento narrado em calendário comunitário de identidade [W].
Autor, língua e estilo. O autor é anônimo, quase certamente um judeu de Alexandria que escreve em grego nativo, com vocabulário raro e poético e fluência nos protocolos da corte ptolomaica [V] (Hadas, 1953, p.22; Johnson, 2004, pp.146–148 e 169). Conhece a literatura hebraica — possivelmente em tradução — e é influenciado pela historiografia “patética” que apela à emoção, a mesma de 2 Macabeus [V] (Tcherikover, 1961). O estilo é retórico: discursos, cartas reais, cenas de massa, lamentos e hinos — recursos do romance helenístico [W].
Datação — três correntes. O leque máximo aceito é c. 100 a.C.–70 d.C.: o limite inferior vem da referência à Oração de Azarias (3 Mac 6,6, das adições gregas a Daniel); o superior, do pressuposto de que o Templo ainda está sob proteção divina (destruído em 70 d.C.) [V] (Johnson, 2004, pp.129–141). Dentro disso, três posições: (i) ptolomaico tardio (100–30 a.C.), com Bickerman, Anderson e Johnson — a laographia caberia num censo ptolomaico e o tom endossa o status quo helenístico; (ii) início do período romano (c. 25–15 a.C.), com Hadas, Tcherikover e Orian — laographia é palavra rara antes dos romanos, e o censo do Egito romano de 24 a.C. estaria na mira; (iii) c. 40 d.C., com Ewald, Willrich e Collins — polêmica contra Calígula, ecoando os distúrbios de Alexandria de 38 d.C. e a tentativa de instalar a imagem imperial no Templo; contra isso, o Ptolomeu do livro não se autodeifica, e os motins de 38 vieram da plebe [V] (Hadas, 1953, pp.18–21; Johnson, 2004, pp.129–141; Orian, 2017, pp.45–54). O dossiê registra o desacordo: a datação é o ponto mais instável da pesquisa [W].
O pano de fundo: o Egito ptolomaico e os judeus de Alexandria. A comunidade judaica de Alexandria era numerosa e antiga, com presença militar e administrativa documentada nos papiros: o arquivo de Zenão (séc. III a.C.) registra judeus como funcionários e soldados [W]. Sobre a organização comunitária, o termo politeuma não aparece em 3 Macabeus — o texto usa politeia (“cidadania”, 3,21) e paroikia (6,36) [V] —, e a existência de um politeuma judaico em Alexandria é debatida (Gruen, 2002, é cético) [W]. O que os papiros provam é que politeumata judaicos existiam no Egito ptolomaico: o dossier de Heracleópolis (P.Polit.Iud., 144/3–133/2 a.C.) documenta um politeuma judaico com arcontes e tribunais próprios [V] (Cowey e Maresch, 2001). As inscrições de proseuchai dedicadas em favor dos reis ptolomaicos (Horbury e Noy, 1992) casam com 3 Mac 7,20, onde os judeus fundam uma proseuchē e gravam uma estela [V]. A abertura toca ainda num dado histórico verossímil: em Ráfia lutaram judeus pelo lado ptolomaico, e o texto faz de Dositheu, filho de Drímilo — judeu que apostatara — o homem que salva Filopator de um atentado (1,2–3), detalhe sem paralelo e possivelmente histórico [V] (Hadas, 1953, pp.1–4).
Ptolomeu IV e o culto de Dioniso. O rei do livro é o Filopator histórico: devoto de Dioniso, de quem a dinastia lágida reivindicava descendência, e casado com a irmã Arsínoe III [W]. O decreto de 3 Mac 2,28–30 condensa essa moldura: quem aceitasse a iniciação nos mistérios receberia a cidadania alexandrina; quem recusasse, o registro, a escravidão e a marca da folha de hera — o emblema dionisíaco — no corpo [V] (texto de Rahlfs). Tcherikover (1961) reconstruiu um possível núcleo histórico: Filopator, ao integrar egípcios ao exército, teria tentado uni-los por um culto centrado em Dioniso, oferecendo cidadania aos judeus que se iniciassem; a maioria recusou (2,31–33) e alguns judeus do interior podem ter sido executados — sem nada parecido com o massacre no hipódromo. A hipótese é especulativa, e o próprio Tcherikover nota que os cultos de mistério restringiam a iniciação [V] (Tcherikover, 1961).
O texto grego e os manuscritos. 3 Macabeus sobreviveu pela Septuaginta, e a tradição manuscrita é peculiar: o Códice Alexandrino (séc. V) é o único uncial que contém os quatro livros dos Macabeus; o Sinaítico traz só 1 e 4; o Vaticano, nenhum; o Venetus (sécs. VIII–IX) concorda amplamente com o Alexandrino [V] (Hadas, 1953, pp.26–27). Há recensão luciânica — a versão siríaca da Peshitta é luciânica, livre e com expansões — e uma paráfrase armênia dos sécs. IV–VI [V]. A edição crítica de referência é a de Robert Hanhart na Septuaginta de Göttingen (1960; 2.ª ed., 1980) [V].
3. Estrutura (7 capítulos)
A arquitetura é de dois movimentos espelhados — humilhação e exaltação —, com duas cartas reais emoldurando o centro:
- Cap. 1 — Ráfia e o santuário: a vitória de 217 a.C. (1,1–7); a visita a Jerusalém e a tentativa de entrar no santuário, rechaçada pelo povo e pelos sacerdotes (1,8–29) [V].
- Cap. 2 — Oração, castigo e decretos: a oração do sumo sacerdote Simão (2,1–20); o rei é atingido por Deus e paralisado (2,21–24); em Alexandria, a estela com o decreto: laographia, escravidão, hera de Dioniso (2,25–33) [V].
- Cap. 3 — A carta do rei: os boatos contra os judeus (3,1–10); a carta de Filopator ordenando a prisão de todos, com mulheres e crianças, em ferros (3,11–29) [V].
- Cap. 4 — A deportação: a comoção do êxodo forçado (4,1–9); a chegada a Schedia e o enclausuramento no hipódromo (4,10–14); o censo que dura 40 dias e não se completa — faltam papel e tinta para tantos nomes (4,15–21) [V].
- Cap. 5 — As três frustrações: Hermon, guardião dos elefantes, droga quinhentos animais com incenso e vinho puro (5,1–2); o rei dorme além da hora (5,10–13); depois esquece o plano (5,27–28); e, intimado à terceira ordem, jura destruir os judeus e a Judeia (5,42–43) — a terceira tentativa começa (5,45–51) [V].
- Cap. 6 — Oração, anjos e festa: a prece do sacerdote Eleazar (6,1–15); os dois anjos visíveis a todos menos aos judeus; os elefantes se voltam contra o exército (6,16–21); a ira do rei se converte em piedade (6,22–29); a libertação e a festa de sete dias — “não por causa de bebida e gula, mas pela libertação que lhes veio de Deus” (6,30–41) [V].
- Cap. 7 — Carta, apóstatas e regresso: a carta de proteção de Filopator (7,1–9); a licença para punir os apóstatas, com mais de trezentos mortos (7,10–15); o regresso em festa, a estela e a proseuchē em Ptolemaida “portadora de rosas” (7,16–23) [V].
O encadeamento é temático e retórico, não cronológico: as três frustrações demonstram gradualmente a providência (4,21), e as duas cartas reais (3,12–29; 7,1–9) funcionam como moldura documental fictícia — recurso típico da novela [W]. O ritmo alterna cenas de massa e de corte, com a oração como eixo de virada [W].
4. Conteúdos-chave com Debate
4.1 O prólogo de Ráfia (1,1–7) — a “história” que abre a lenda
A abertura reapresenta a batalha de Ráfia (217 a.C.), na qual Filopator derrotou Antíoco III usando, pela primeira vez, tropas nativas egípcias em massa — fato que o Decreto de Ráfia (estela de Mênfis, novembro de 217 a.C.) registra e que Políbio descreve em detalhe (Histórias 5,79–87) [W]. O relato de 3 Macabeus é tido como aproximadamente exato, embora inferior a Políbio, e possivelmente derivado de uma história perdida escrita do ponto de vista ptolomaico — a de Ptolemeu de Megalópolis, governador de Chipre [V] (Tcherikover, 1961). O detalhe de Dositheu, o judeu apóstata que salva o rei (1,3), sustenta a leitura de que havia judeus nas fileiras ptolomaicas [W].
4.2 O santuário violável e o rei punido (1,8–2,24)
O episódio central do cap. 1 — Filopator decidido a entrar no santuário — é construído sobre o modelo literário de Heliodoro em 2 Macabeus 3,24–34 (o intruso no Templo detido por potências celestes), e não sobre um evento documentado [V] (Tcherikover, 1961; Hadas, 1953, pp.11–12). A arqueologia confirma que Filopator visitou cidades da Celessíria após Ráfia oferecendo sacrifícios nos templos locais, mas não há evidência de controvérsia nem de que a visita tenha ido a Jerusalém [V] (Tcherikover, 1961). A resposta divina — a paralisia súbita (2,21–24) — segue o esquema da hybris punida: o rei “abala como um junco ao vento” (2,22) [V]. O episódio é tratado como ficção literária com colorido histórico, não como memória [W].
4.3 A laographia, a escravidão e a hera de Dioniso (2,25–33) — o anacronismo-chave
O decreto (2,28–30) reduz os judeus a “laographia” (registro censitário com imposto per capita), à condição de escravos e à marca corporal da folha de hera, oferecendo aos iniciados nos mistérios de Dioniso a isopoliteia (cidadania igual à dos alexandrinos) [V]. O nó histórico: laographia é termo raro antes do período romano — no Egito romano designava o imposto per capita introduzido com o censo de 24/23 a.C. —, o que Tcherikover e Hadas usaram para datar o livro no início do período romano e lê-lo como crítica velada aos censos romanos [V] (Hadas, 1953, pp.18–21; Tcherikover, 1961). Johnson (2004) rebate que um censo ptolomaico também ameaçaria o status dos judeus [V]. O texto, em todo caso, torna a degradação de status — e não a morte imediata — a primeira arma do rei: registrar, marcar, escravizar [W].
4.4 O decreto real e o censo impossível (3,11–4,21)
A carta de Filopator (3,12–29) é uma peça de retórica de corte: o rei acusa os judeus de ingratidão — ofereceu-lhes cidadania e participação nos ritos (3,21) e eles recusaram — e ordena a prisão de todos, com esposas e filhos, em ferros (3,25), prometendo recompensa a delatores (3,28) [V]. A deportação (4,1–9) usa o pathos da historiografia trágica: velhos arrastados, noivas com cinzas nos cabelos [V]. A cena do hipódromo de Schedia (4,11) é um dos pontos em que a topografia é vaga e anacrônica: Schedia ficava no ramo canópico do Nilo, e o hipódromo de Alexandria é outra coisa; o lugar não é identificável com segurança [W] (Johnson, 2004). O clímax é o censo que não acaba: após 40 dias, os escribas declaram impossível registrar tantos judeus — “o papel e as penas se esgotaram” (4,17–20) —, o que o narrador atribui à “providência invencível” (4,21); Hadas (1953, pp.16–17) aponta o detalhe como claramente ficcional [V].
4.5 Os elefantes e as três frustrações (5,1–51)
O cap. 5 é a peça de virtuosismo do livro: Hermon, guardião dos elefantes, droga quinhentos animais com incenso e vinho puro (5,1–2); na manhã marcada, Deus envia ao rei um sono profundo (5,10–13); na segunda tentativa, o rei esquece o plano (5,27–28); na terceira, jura por juramento irrevogável esmagar os judeus e marchar contra a Judeia (5,42–43) [V]. A técnica é a repetição com variação do romance helenístico; o motivo dos elefantes excitados por vinho tem paralelo em 1 Macabeus 6,34 (“suco de uva e amoras”) [W]; e o rei é comparado a Fálaris (5,20; 5,42), retórica da crueldade exemplar [V].
4.6 Os dois anjos e a conversão do rei (6,1–29)
O ponto de virada é a oração de Eleazar (6,1–15), sacerdote idoso “famoso entre os sacerdotes do país”, que recita os livramentos passados — Faraó, Senaqueribe, a fornalha, Daniel, Jonas — e pede: “que as nações não digam: nem o deus deles os salvou” (6,10–11) [V]. A resposta é a epifania: Deus abre as portas do céu e dois anjos gloriosos descem, “visíveis a todos, menos aos judeus” (6,18), e fazem os elefantes voltarem-se contra o exército (6,19–21) [V]. O detalhe da invisibilidade dos anjos para os próprios judeus é carregado de teologia: o autor reluta em dar aos anjos mediação própria — é Deus quem age [V] (Hadas, 1953, pp.25–26; Dyer, 2021, pp.187–199). O rei, então, troca a ira pela piedade (6,22) e ordena soltá-los (6,27–29) [V].
4.7 A festa e a morte dos apóstatas (6,30–7,23)
Libertados, os judeus celebram sete dias de festa no próprio hipódromo, e o narrador fixa a etiologia: “instituíram para toda a sua comunidade e para os seus descendentes observar os referidos dias como festa de alegria, não por causa de bebida e gula, mas pela libertação que lhes veio de Deus” (6,36) [V]. O calendário é preciso: registro de 25 de Pacon a 4 de Epeif (40 dias); livramento em 5–7 de Epeif (6,38–40) [V]. O epílogo é o ponto mais incômodo: com a licença do rei (7,12), os judeus executam os apóstatas — mais de trezentos homens morrem no mesmo dia, “e guardaram o dia como festa alegre” (7,14–15) [V]. O episódio ecoa Ester 9 (onde também morrem trezentos), com diferença decisiva: em Ester os mortos são inimigos gentios; aqui, judeus que cederam à pressão, mortos depois de a crise passar — a Hacham (2007) analisa a dívida literária e a inversão [ACAD — DOI 10.2307/27638467]. O regresso inclui a proseuchē e a estela no lugar da festa (7,20) e a restituição dos bens (7,22) [V].
4.8 Historicidade: núcleo histórico ou ficção?
O espectro das posições vai da condenação à defesa de um núcleo. Schürer (1891) o chamou de “quase inteiramente fictício” [W]; Hadas (1953) e a maioria atual o classificam como novela histórica, no gênero de Judite e dos romances gregos, com personagens reais e eventos fictícios [V] (Hadas, 1953, pp.16–17). Contra a historicidade: nenhuma fonte antiga — nem Políbio, nem Josefo, nem Daniel 11 — conhece perseguição sob Filopator, e o massacre no hipódromo, os nomes que esgotam o papel e a “licença para matar apóstatas” são inverossímeis [V] (Hadas, 1953, pp.16–19). A favor de um núcleo: Josefo (Contra Apião 2,51–55) narra que Ptolomeu VIII Fiscão (146–117 a.C.) matou judeus de Alexandria — apoiadores de Cleópatra II — por meio de elefantes embriagados; se Josefo não bebeu da mesma lenda, 3 Macabeus teria transferido para Filopator uma perseguição real do séc. II a.C. [V] (Hadas, 1953, pp.10–11; Johnson, 2004, pp.182–190). Büchler (1899) propôs o Fayum como palco real; Willrich, um episódio sob Ptolomeu X (88 a.C.), tese rejeitada [W]. Johnson (2004) formula a posição equilibrada da “ficção histórica”: a moldura (protocolo de corte, chancelaria, topografia aproximada) é fiel ao período em que o autor escreve; o enredo é invenção com função identitária [V].

5. Temas
- Libertação coletiva e festa. O livro inteiro converge para a etiologia: a festa de 6,36 é o desfecho que dá sentido ao relato — a salvação se torna calendário, e o calendário, identidade [V].
- Humilhação e exaltação. O esquema é duplo: o rei soberbo é humilhado (2,21–24; 6,18–21) e o povo humilhado é exaltado (6,30–36); a teologia do “abaixa os soberbos e levanta os abatidos” (2,4–7) atravessa o livro [V].
- A oração como arma da diáspora. Simão, o povo e Eleazar rezam, e cada oração é respondida: a prece é o instrumento narrativo da providência [V] (Dyer, 2021).
- Identidade diaspórica entre dois senhores. Os judeus declaram lealdade inabalável à dinastia (3,3) e, ao mesmo tempo, recusam a cidadania comprada com a apostasia (2,31–33; 3,21–23): a separação alimentar (3,4–5) é o marcador da diferença [V].
- A marca e a fronteira do corpo. A hera de Dioniso (2,29) opõe duas inscrições no corpo: a do império e a da aliança [W].
- A epifania e a providência invisível. Os anjos visíveis a todos menos aos judeus (6,18) e a “providência invencível” (4,21) mostram um Deus que age sem mediação para os seus [V].
- Apostasia e pureza. A execução dos trezentos (7,14–15) apresenta a pureza comunitária como exigência interna, e não apenas externa — tema que a recepção moderna lê com desconforto (§11) [V].

6. Recepção
Na Antiguidade. A recepção é mínima: nenhum autor judaico antigo — nem os que escreveram em grego — cita 3 Macabeus, e no cristianismo primitivo a referência é raríssima; Teodoreto de Ciro é a exceção, resumindo o livro [V] (Dyer, 2021, pp.187–199; Anderson, 1985). A sobrevivência deve-se à Septuaginta: preservado pelos cristãos, o texto não entrou na Vulgata de Jerônimo, e essa ausência é a chave da história ocidental — sem Vulgata, o livro ficou fora das listas latinas e, finalmente, do decreto de Trento (1546), que arrolou o cânon católico sem os Macabeus III–IV [V]. Há indício de que o Pseudo-Atanásio o conhecia sob o título de “Ptolemaica” [W] (Dorival, 2007).
Cânon e concílios. No Oriente, os Cânones Apostólicos (cânon 85) contam os “três livros dos Macabeus” entre os livros lidos, e o Concílio in Trullo (692) ratificou a lista no Oriente calcedônio — rejeitada pelo papa Sérgio I no Ocidente [V] (Cânones Apostólicos, cânon 85; Dyer, 2021). Daí o estatuto de anagignoskomena (“livros a serem lidos”) na tradição ortodoxa, recebido também pelas igrejas ortodoxas orientais (armênia, siríaca) e pela Igreja Assíria do Oriente [V]. Na tradição eslava, a Bíblia de Ostrog (1581) o incluiu pela primeira vez em eslavo, e a Bíblia sinodal russa o mantém [V].
Na Reforma e depois. No Ocidente protestante, os 39 Artigos (1571) citam “o terceiro e o quarto livros dos Macabeus” como leitura “para exemplo de vida e instrução de costumes”, sem autoridade doutrinal [V]; a Bíblia de Becke (1549) o incluiu, e as de Lutero e a King James o omitiram [W]. A erudição moderna o recolheu no Apocrypha and Pseudepigrapha de R. H. Charles (1913) e no Old Testament Pseudepigrapha de Charlesworth (1985) [W]. O culto e a arte ocidentais praticamente o ignoram: as raras imagens são as gravuras holandesas de c. 1700 (Rijksmuseum) que retratam a paralisia de Filopator e os anjos afugentando os elefantes [V]. Onde a recepção ocidental não existe — liturgia, arte sacra, devoção —, o dossiê declara a lacuna em vez de preenchê-la [—].

7. Traduções PT e Comentários PT
Tradução PT dedicada: não localizada. Não encontrei, nesta sessão, tradução portuguesa autônoma de 3 Macabeus — nem em livro, nem em edição acadêmica [—]. As Bíblias católicas brasileiras correntes (Jerusalém, Peregrino, Ave-Maria, Pastoral) o excluem por força de Trento, e as protestantes também [W].
A via grega — a Bíblia de Frederico Lourenço. A tradução da Bíblia Grega (Septuaginta) por Frederico Lourenço (Quetzal, desde 2016) prevê os Macabeus no volume V, tomo 2 — Livros Históricos [Paralipómenos, Esdras, Ester, Judite, Tobite, Macabeus], que no catálogo da editora segue marcado como “por publicar” mesmo depois de o volume VI (a Torá) ter saído em novembro de 2025, fechando a série [V] (Quetzal, catálogo e notícias 2019–2025; Sete Margens, 16/11/2025). Ou seja: até o fechamento deste dossiê, 3 Macabeus ainda não saiu em português pela via da Septuaginta [—] — para um livro cuja língua original é o grego, a lacuna editorial mais aguda para o leitor lusófono.
Comentários PT: nenhum localizado [—]. O aparato de referência é todo em inglês e alemão: Hadas (1953, com texto grego e tradução), Anderson (1985), Croy (2006, comentário na série da Brill) e a monografia de Johnson (2004) [V] — nenhum com tradução PT [—].
8. Audiovisual e Games
| Título | Realidade | Validação PT | Marcador |
|---|---|---|---|
| Filme ou série sobre 3 Macabeus | nenhum localizado: o livro nunca foi dramatizado no cinema ou na TV | — | [—] |
| Jogos digitais ou de tabuleiro | nenhum com 3 Macabeus como tema: o nicho macabeu é ocupado por 1–2 Macabeus e por Hanucá | — | [—] |
| Documentários sobre o Egito ptolomaico | canais de divulgação (Ráfia, elefantes de guerra, Alexandria) usam Políbio e a arqueologia, não o livro | legendas PT irregulares | [W] |
| Gravuras históricas | as estampas holandesas de c. 1700 (Rijksmuseum) com Filopator e os anjos são a única “adaptação visual” do livro | — | [V] |
O padrão é total: 3 Macabeus não tem recepção audiovisual ou lúdica — quando o tema “Macabeus” aparece no cinema e nos games, trata-se sempre de 1–2 Macabeus ou de Hanucá; a história de Filopator, dos elefantes e da festa alexandrina não atraiu nenhum estúdio [—]. A lacuna é coerente com a recepção geral do livro (§6) — e fica declarada, não contornada.
9. Mitologia e Literatura Comparada
Ester e o decreto de extermínio
O paralelo mais próximo de 3 Macabeus é o livro de Ester: um rei aconselhado a aniquilar os judeus da diáspora (Est 3,12–14), a reversão da catástrofe e a instituição de uma festa (Purim, Est 9,20–28). A dependência literária é discutida, e Hacham (2007) mostrou que 3 Macabeus reescreve motivos de Ester invertendo-os: em Ester a rainha salva o povo por dentro da corte; em 3 Macabeus não há intermediário humano — só Deus [ACAD — DOI 10.2307/27638467]. O número trezentos mortos (Est 9,15–16; 3 Mac 7,15) é o elo mais visível, com a inversão moral de §4.7 [V].
As três festas de libertação
Purim, o dia de Nicanor (2 Mac 15,36) e a festa de 3 Mac 6,36 formam um tríptico de “dias de salvação”: relatos que fixam um livramento no calendário e dão à comunidade um tempo próprio de alegria [W]. A lenda festiva não precisa ser história para ser eficaz; precisa explicar a festa e formar a identidade [W].
A corte ptolomaica e a literatura egípcia
O livro dialoga com a literatura de corte do Egito helenístico: a Carta de Aristeas — a lenda da tradução da Torá na corte de Ptolomeu II Filadelfo — prova que o gênero “lenda judaica na corte lágida” circulava em Alexandria [W]; o Romance dos Tobiadas (Josefo, Antiguidades 12,154–236) mostra judeus como cortesãos e cobradores de impostos [W]; Artapano reescrevia Moisés como herói egípcio [W]. Do lado egípcio, o Sonho de Nectanebo e o Oráculo do Oleiro — profecias sobre o último faraó e a queda do domínio grego — são o pano de fundo de uma literatura de reis humilhados por deuses [W]. A novela de José e Asenete é o outro romance judaico-helenístico com conversão e festa [W].
Os romances gregos e a historiografia “patética”
A estrutura — perseguição, separação, perigo iminente, salvação divina, banquete final — é a do romance grego de Caríton e Xenofonte de Éfeso; a crítica antiga chamava de “patética” a historiografia que apelava à emoção, censurada por Políbio em Duris de Samos e Filarco [W]. Tcherikover (1961) situa o autor nessa escola [V]; o livro usa, como o romance, cartas forjadas, reconhecimentos e cenas de massa [W].
O milagre dos elefantes na literatura antiga
O elefante de guerra é um topos helenístico: Políbio descreve os paquidermes de Ráfia (5,79–87), e 1 Macabeus 1,17 e 6,34–37 mostram elefantes selêucidas excitados com vinho e amoras [W]. A versão de 3 Macabeus — animais embriagados que se voltam contra o próprio exército — pertence ao repertório do milagre militar: a mesma virada aparece na tradição de Josefo sobre Fiscão (Contra Apião 2,51–55) e ecoa o padrão bíblico do exército inimigo destruído pela própria violência (Êx 14; Jz 7) [W]. Os dois anjos (6,18) retomam a epifania protetora de 2 Macabeus 3,24–34 (Heliodoro), as figuras da fornalha de Daniel 3,25 e o anjo que fecha a boca dos leões em Daniel 6,22 — e o “deus ex machina” da tragédia grega oferece o equivalente formal pagão [W].

10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta
Escritura como literatura de identidade: Espinosa
Espinosa, no Tratado Teológico-Político (1670), sustentou que a Escritura ensina obediência e piedade, não filosofia, e que seus relatos devem ser lidos segundo os critérios da história literária [W]. 3 Macabeus é um caso perfeito da tese: lê-lo como documento factual é errar o gênero; lê-lo como teologia prática de uma comunidade — o que Deus fez por nós, logo, festa — é lê-lo como o autor pretendia [W]. A pergunta espinosista permanece: um relato que não é história pode ainda ensinar verdade?
Dignidade e marca: Kant
O decreto de 2,28–29 degrada os judeus a escravos e marca-lhes o corpo — uma afronta àquilo que Kant chamou de dignidade (Würde), o valor incondicional que não tem preço (Metafísica dos Costumes, 1797) [W]. Os judeus do livro recusam trocar a dignidade pela cidadania (2,31–33): preferem ser marcados como escravos a comprar o status com a apostasia — ou, no desfecho, matam os que o compraram (7,14–15) [V]. A pergunta kantiana que o texto levanta: a dignidade é algo que se preserva na recusa ou algo que a comunidade impõe aos seus, mesmo à custa de vidas?
O problema do mal e a teodiceia da comunidade: Mackie e Rowe
J. L. Mackie, em “Evil and Omnipotence” (1955), formulou o problema lógico do mal; William Rowe, em “The Problem of Evil and Some Varieties of Atheism” (1979), o problema evidencial — o sofrimento aparentemente gratuito [W]. 3 Macabeus responde no nível coletivo: não há recompensa individual pós-morte (diferente de 2 Macabeus), mas a salvação da comunidade inteira na história — o hipódromo esvaziado, os elefantes desviados [V]. A objeção moderna: a resposta vale dentro do relato, que termina bem; o livro não explica por que outras comunidades não foram salvas, e a “providência invisível” (4,21) que age só no fim é o tipo de intervenção que Rowe considera evidencialmente improvável [W].
O bode expiatório que falha: Girard
René Girard (A Violência e o Sagrado, 1972; O Bode Expiatório, 1982) descreveu o mecanismo pelo qual uma comunidade em crise descarrega a violência sobre uma vítima unânime [W]. O rei humilhado no Templo (2,21–24) precisa de um inimigo comum — e os judeus, com sua diferença alimentar (3,4–5), são o alvo perfeito (3,7) [V]. Mas o mecanismo falha no livro: a vítima não é sacrificada e o perseguidor se converte — reversão mágico-divina, não ética [W].
O corpo como símbolo do corpo social: Mary Douglas
Mary Douglas (Pureza e Perigo, 1966; Símbolos Naturais, 1970) ensinou a ler o corpo como imagem do corpo social e as regras alimentares como fronteiras do grupo [W]. 3 Macabeus é um laboratório disso: a marca da hera (2,29) inscreve a soberania do império no corpo; a recusa da marca preserva a fronteira da comunidade; a separação alimentar (3,4–5) é o que torna os judeus “odiosos” — e o que os mantém judeus [V]. A pergunta que fica: quando a identidade é corporal (marca, alimento), o que a distingue de uma simples biologia?
Estigma, nojo e compaixão: Nussbaum
Martha Nussbaum (Hiding from Humanity, 2004) analisou o nojo e o estigma como armas políticas de degradação de grupos; em Upheavals of Thought (2001), como a compaixão depende de julgar o sofrimento alheio sério e não merecido [W]. O livro encena as duas coisas: a política do estigma (marca, registro, escravidão) e o rei que “troca a ira pela piedade” (6,22) [V]. A pergunta final: a compaixão do tirano, arrancada pelo medo dos anjos, é virtude ou prudência?
11. Teologia — os debates
A proteção divina e a epifania
3 Macabeus é teologia da intervenção direta: Deus ouve, responde e aparece. As três frustrações (5,11–51) são o comentário narrativo da providência — o sono, o esquecimento e a terceira virada mostram que nada escapa ao controle divino, nem a mente de um rei [V]. A epifania dos dois anjos invisíveis aos judeus (6,18) é o dado mais fino: o autor não quer anjos como mediadores autônomos — Deus age, e os anjos são quase um efeito de cena para os gentios [V] (Hadas, 1953, pp.25–26; Dyer, 2021). É teologia conservadora, que evita a angelologia especulativa e a imortalidade da alma grega de 2 Macabeus [W].
A oração de Simão (2,1–20) e a teologia da humilhação e da exaltação
A prece do sumo sacerdote é uma teodiceia em miniatura: Deus destruiu os gigantes, Sodoma, o Faraó (2,4–7); escolheu Jerusalém e o santuário (2,9); prometeu ouvir a oração no lugar santo (2,10); e agora, “por causa de nossos muitos e grandes pecados” (2,13), Israel está humilhado — mas a humilhação é o prelúdio da exaltação (2,19–20) [V]. O esquema é o da hybris punida: o rei “exaltado em insolência” é abalado como junco (2,21–22), e o povo abatido é levantado — a reversão de humilhação e exaltação (cf. 1 Sm 2,7–8; Lc 1,52) é a espinha dorsal do livro [W].
Sem ressurreição: a salvação é coletiva e neste mundo
Diferentemente de 2 Macabeus — que promete a ressurreição dos mártires (2 Mac 7,9.14) —, 3 Macabeus não menciona ressurreição nem retribuição futura: a salvação é a da comunidade, na história, agora [V] (Hadas, 1953; Dyer, 2021). Isso o aproxima de Ester e o afasta do desenvolvimento apocalíptico: o Deus de 3 Macabeus não adia a justiça — ele a executa na corte de Alexandria [W]. O debate: essa teologia “deste mundo” é mais primitiva ou apenas mais diaspórica — para quem não controla a terra, mas controla o calendário?
A violência e a salvação: honestidade diante de 7,14–15
O desfecho — a execução de mais de trezentos apóstatas com licença real (7,12–15) — é o teste ético do livro, e o dossiê o trata sem eufemismo: a violência é retributiva (os apóstatas “por causa do ventre” transgrediram, 7,11), pública (“morte vergonhosa”, 7,14) e festiva (“guardaram o dia como festa alegre”, 7,15) [V]. A leitura crítica aponta que o texto sanciona a violência comunitária contra os próprios judeus depois de a ameaça externa ter passado — inversão de Ester 9 [W] (Hacham, 2007). A leitura teológica interna é que a apostasia é traição à aliança (7,11); a moderna pergunta se a comunidade que mata os seus para se purificar não repete o mecanismo que denuncia no tirano. As duas ficam no ar — o texto não as resolve [W].
A festa como teologia
A etiologia de 6,36 define a festa negativamente — “não por causa de bebida e gula” — contra o symposion helenístico, e positivamente — “pela libertação que lhes veio de Deus” [V]. A celebração é ato teológico: alegria ordenada, pública e hereditária que transforma o livramento em instituição comunitária [V] — a mesma teologia do Purim e do dia de Nicanor: o culto da memória como esperança [W].
Cânon e autoridade
O estatuto canônico é ele mesmo um debate: recebido no Oriente (Cânones Apostólicos 85; Trullo, 692), ausente da Vulgata e de Trento, ignorado pelo cânon hebraico [V]. As igrejas ortodoxas o leem como anagignoskomenon — leitura edificante, com autoridade secundária [V]. A pergunta de fundo: o que significa “canônico” para um livro que ninguém citou na Antiguidade e que só a Septuaginta preservou? [W]
11.1. Comentaristas por esfera confessional
Esta subseção organiza a leitura por tradição, não por cronologia. A regra é a do método desta camada: a perspectiva se declara, não se atribui, e o rótulo é metadado, não argumento. Convenções: [V] conferido; [W] conhecido, não reconferido; [—] lacuna.
Judaica
- O judaísmo não recebeu o livro no cânon hebraico, e não há comentário rabínico clássico [W]. As leituras judaicas modernas são históricas e literárias: Tcherikover (1961) defendeu o núcleo histórico e a datação romana [V]; Hacham (2007), a intertextualidade com Ester e a identidade diaspórica [ACAD — DOI 10.2307/27638467]; Gruen (2002) lê o livro como ficção celebratória [V]; Büchler (1899) propôs o palco do Fayum [W]; a Encyclopaedia Judaica (2.ª ed., 2007) traz o verbete [V].
Católica ocidental
- Trento (1546) não arrolou o livro, e a Vulgata o omitiu: a esfera católica ocidental não tem comentário dedicado — lacuna estrutural, que se declara [—]. Collins (Between Athens and Jerusalem, 2000), embora não confessional, é a referência usada nas faculdades católicas para a literatura da diáspora [V]; as Bíblias católicas de estudo nem o listam [W].
Católica oriental e grega
- A tradição grega o recebe pela Septuaginta: os Cânones Apostólicos (85) contam os três livros dos Macabeus entre os livros lidos, ratificados em Trullo (692) [V]. Teodoreto o resumiu (rara exceção patrística) [W]; o Pseudo-Atanásio pode tê-lo chamado de “Ptolemaica” [W] (Dorival, 2007). A edição crítica do texto é a de Hanhart (1960/1980) [V]. Comentário patrístico corrido: não existe — a recepção grega é canônica e manuscrita, não exegética [—].
Ortodoxa
- A tradição eslava e russa o recebe: Bíblia de Ostrog (1581), primeiro texto eslavo com 3 Macabeus, e Bíblia sinodal russa [V]. Na prática litúrgica, não localizei uso corrente no lecionário ortodoxo — a presença é canônica, não litúrgica [—]; nenhum comentário crítico ortodoxo moderno dedicado foi localizado nesta sessão [—].
Protestante histórica
- Os 39 Artigos (1571) citam “o terceiro e o quarto livros dos Macabeus” como leitura de edificação sem autoridade doutrinal [V]; a Bíblia de Becke (1549) o incluiu; Lutero e a King James o omitiram [W]. Na erudição protestante clássica, R. H. Charles (1913) o editou com tradução de C. W. Emmet no Apocrypha and Pseudepigrapha [W]; Schürer (1891) o condenou como ficção [W]. A esfera protestante histórica o trata como apócrifo útil: lido, não normativo [W].
Evangélica
- David A. deSilva dedicou capítulo a 3 Macabeus em Introducing the Apocrypha (2002; 2.ª ed., 2018) [V]; N. Clayton Croy produziu o comentário crítico de referência (Brill, 2006), exegese acadêmica de pesquisador de tradição evangélica [V]. O conjunto evangélico mantém o livro fora do cânon, mas estuda-o como fonte — a diferença com a esfera católica é de autoridade, não de leitura histórica [W].
Não confessional
- Hadas (1953), Johnson (2004), Collins (2000), Anderson (1985), Dyer (2021) [ACAD — DOI 10.1093/oxfordhb/9780190689643.013.11] e Orian (2017) formam o aparato crítico de referência, com método histórico-filológico declarado [V]. Johnson (2004) é a monografia central: “ficção histórica” com moldura de corte fiel e enredo inventado [V].
| Esfera | Nomes citados | Fonte primária? |
|---|---|---|
| Judaica | Tcherikover; Hacham; Gruen; Büchler; Enc. Judaica | sim (Tcherikover, Hacham, Gruen) |
| Católica ocidental | Trento; Collins; Vulgata | parcial (Collins) |
| Católica oriental / grega | Cânones Apostólicos; Trullo; Teodoreto; Hanhart | parcial (Hanhart) |
| Ortodoxa | Ostrog 1581; Bíblia sinodal russa | parcial |
| Protestante histórica | 39 Artigos; Becke; Charles/Emmet; Schürer | não |
| Evangélica | deSilva; Croy | sim (Croy, deSilva) |
| Não confessional | Hadas; Johnson; Collins; Anderson; Dyer; Orian | sim (Hadas, Johnson, Dyer) |
O desequilíbrio — Ocidente sem comentário porque sem cânon, Oriente com recepção canônica sem exegese — não é do dossiê: é do material, e fica dito. Onde não há comentário dedicado, a lacuna se declara [—] em vez de se preencher com nomes que não comentaram o livro [—].
12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não tem competência
A regra desta seção: declarar os limites. A ciência não decide se o livro é revelado; decide se uma afirmação factual do texto é compatível com o observável.
A arqueologia de Alexandria e o Egito ptolomaico
A Alexandria de Filopator é difícil de escavar: a cidade helenística jaz sob a cidade moderna, e o que se conhece vem em parte da arqueologia subaquática do porto oriental (a equipe de Franck Goddio localizou os bairros reais afundados) e de setores como o Serapeu [W]. Nada disso identifica o hipódromo do livro: a topografia (Schedia, o “hipódromo diante da cidade”, 4,11) é vaga e não localizável com segurança [W] (Johnson, 2004). A arqueologia confirma o mundo material do relato: elefantes de guerra, festas reais, estelas e casas de oração [W].
Papiros: judeus no Egito ptolomaico
Os papiros documentam a comunidade judaica que o livro pressupõe: o arquivo de Zenão (séc. III a.C.) registra judeus como funcionários e soldados ptolomaicos [W]; os papiros de Heracleópolis (P.Polit.Iud., 144/3–133/2 a.C.) provam a existência de um politeuma judaico com arcontes e tribunais — a organização institucional que o livro não nomeia, mas implica [V] (Cowey e Maresch, 2001); e as inscrições de proseuchai dedicadas em favor dos reis (JIGRE, 1992) casam com o desfecho do livro, que funda uma casa de oração e grava uma estela (7,20) [V]. A palavra laographia (2,28), porém, é termo do Egito romano — dado usado na datação (§2) [V].
Epigrafia: o Decreto de Ráfia e as estelas reais
A batalha de Ráfia (217 a.C.) é confirmada pela epigrafia: o Decreto de Ráfia, estela trilíngue (hieróglifos, demótico, grego) promulgada em Mênfis em novembro de 217 a.C., registra a vitória de Filopator e a assembleia de sacerdotes — e a mobilização de tropas nativas egípcias que Políbio (5,79–87) descreve [W]. A visita do rei às cidades da Celessíria com sacrifícios (1,6–7) é plausível: há indícios de que Filopator percorreu a região oferecendo oferendas aos templos locais [V] (Tcherikover, 1961). O que a epigrafia não fornece é qualquer estela sobre a perseguição aos judeus ou sobre a festa — silêncio que pesa contra a historicidade do núcleo [W].
Onde a ciência NÃO tem competência
- A arqueologia e a papirologia não podem confirmar ou negar os dois anjos e os elefantes desviados (6,18–21): é afirmação sobre o sobrenatural, fora do método empírico [W].
- A epigrafia não decide se Deus salvou os judeus do Egito: o que ela mostra é o mundo em que a afirmação foi escrita [W].
- A demografia não verifica o “número imenso” de judeus que esgotou o papel (4,17–20): as estimativas da população judaica de Alexandria variam e nenhuma confirma o detalhe narrativo [W].
- As ciências sociais não explicam por que a comunidade matou os próprios apóstatas (7,14–15): descrevem o mecanismo social da pureza, mas não emitem o juízo moral [W].
- E a ciência não responde à pergunta teológica central do livro — por que uma comunidade é salva e outra não: isso pertence à filosofia e à teologia (§10 e §11) [W].

13. Lacunas e Correções de Atribuição
- 3 Macabeus não é sobre os Macabeus. O erro mais comum de divulgação: o livro não menciona Judas Macabeu nem a revolta hasmoneia; é uma lenda ptolomaica sobre os judeus do Egito sob Ptolomeu IV Filopator. O nome é rótulo tardio da Septuaginta [V].
- Não está na Vulgata, e por isso ficou fora do Ocidente. A ausência na Vulgata de Jerônimo e no decreto de Trento (1546) é o fato que estrutura toda a recepção ocidental — não uma decisão dogmática explícita, mas um silêncio herdado [V].
- A confusão com Fiscão. A perseguição com elefantes que Josefo atribui a Ptolomeu VIII Fiscão (Contra Apião 2,51–55) é confundida com o episódio de 3 Macabeus; os estudiosos discutem se o livro transferiu para Filopator uma memória do séc. II a.C. — hipótese, não fato [V].
- Anacronismos declarados. A laographia (2,28) é vocabulário do Egito romano; a topografia de Schedia e do hipódromo (4,11) é vaga; a cronologia de Ráfia (217 a.C.) é o único ponto firme, e o livro não a contradiz, mas também não a data [V].
- A festa real não é identificável. Nenhuma fonte antiga — grega, judaica ou egípcia — atesta a festa alexandrina que o livro institui; sua data (5–7 de Epeif, 6,38–39) não corresponde a nenhuma festa conhecida [—].
- [—] Tradução PT dedicada: não localizada nesta sessão; a Bíblia Grega de Lourenço (Quetzal) prevê os Macabeus no vol. V, tomo 2, ainda “por publicar” no catálogo da editora [V] [—].
- [—] Comentários PT: nenhum comentário exegético dedicado em português; nenhum comentário ortodoxo moderno dedicado localizado [—].
- [—] Uso litúrgico: não localizei leitura corrente de 3 Macabeus no lecionário ortodoxo — a presença é canônica (listas e Bíblias), não litúrgica [—].
- [—] Audiovisual e games: nenhuma adaptação, filme, série ou jogo dedicado localizado [—].
- [W] Atribuições a confirmar: o título “Ptolemaica” (Pseudo-Atanásio) e a presença na Bíblia de Becke (1549) provêm de fontes secundárias, não reconferidas folha a folha nesta sessão [W].

Bibliografia-âncora verificada
- Hadas, The Third and Fourth Books of Maccabees (Dropsie College/Harper & Brothers, 1953). [HIST] LCCN 53-5114; https://lccn.loc.gov/53-5114.
- Johnson, Historical Fictions and Hellenistic Jewish Identity: Third Maccabees in Its Cultural Context (University of California Press, 2004). [V] ISBN 9780520233072; JSTOR: https://www.jstor.org/stable/10.1525/j.ctt1ppghn.
- Croy, 3 Maccabees (Septuagint Commentary Series; Brill, 2006). [V] ISBN 9789004147751; https://brill.com/display/title/8645.
- Dyer, “3 Maccabees”, in Oegema (org.), The Oxford Handbook of the Apocrypha (OUP, 2021), pp. 187–199. [ACAD — DOI 10.1093/oxfordhb/9780190689643.013.11]; [V] o volume: ISBN 9780190689643.
- Hacham, “3 Maccabees and Esther: Parallels, Intertextuality, and Diaspora Identity”, Journal of Biblical Literature 126/4 (2007): 765–785. [ACAD — DOI 10.2307/27638467]; PDF livre na página do autor: https://pluto.huji.ac.il/~noahh/2.pdf.
- Tcherikover, “The Third Book of Maccabees as a Historical Source of Augustus’s Time”, in Fuks e Halpern (orgs.), Studies in History (Scripta Hierosolymitana 7; Magnes Press, 1961), pp. 1–26. [W].
- Anderson, “3 Maccabees (First Century B.C.): A New Translation and Introduction”, in Charlesworth (org.), The Old Testament Pseudepigrapha, vol. 2 (Doubleday, 1985), pp. 509–516. [W] ISBN 0-385-09630-5.
- Collins, Between Athens and Jerusalem: Jewish Identity in the Hellenistic Diaspora (2.ª ed.; Eerdmans, 2000). [V] ISBN 9780802843722.
- Gruen, Diaspora: Jews amidst Greeks and Romans (Harvard University Press, 2002). [W] ISBN 0674007506.
- Barclay, Jews in the Mediterranean Diaspora: From Alexander to Trajan (T&T Clark, 1996). [W] ISBN 9780567085007; empréstimo: https://archive.org/details/jewsinmediterran0000barc.
- Modrzejewski, The Jews of Egypt: From Rameses II to Emperor Hadrian (Princeton University Press, 1997). [V] ISBN 9780691015750.
- Orian, “The Date of III Maccabees: Additional Support for the Roman Period”, Scripta Classica Israelica 36 (2017): 45–54. [V] https://scriptaclassica.org/index.php/sci/article/view/2131.
- Cowey e Maresch (orgs.), Urkunden des Politeuma der Juden von Herakleopolis (144/3–133/2 v. Chr.) (P. Polit. Iud.) (Westdeutscher Verlag, 2001). [W] ISBN 9783531099480.
- Horbury e Noy (orgs.), Jewish Inscriptions of Graeco-Roman Egypt (Cambridge University Press, 1992). [V] ISBN 9780521418706.
- Hanhart (org.), Septuaginta: Vetus Testamentum Graece. Maccabaeorum liber III (2.ª ed.; Vandenhoeck & Ruprecht, 1980 [1960]). [W].
- deSilva, Introducing the Apocrypha: Message, Context, and Significance (2.ª ed.; Baker Academic, 2018). [V] ISBN 9780801097416.
- Büchler, Die Tobiaden und die Oniaden im II. Makkabäerbuche und in der verwandten jüdisch-hellenistischen Litteratur (1899). [HIST].
- Texto grego (ed. Rahlfs) em Wikisource: https://el.wikisource.org/wiki/Μακκαβαίων_Γ%27_(Rahlfs) [DIGITAL].
- NRSV (texto em linha): https://bible.oremus.org/?passage=3%20Maccabees%201:1-7:23&version=nrsvae [DIGITAL].
Como conseguir estas obras
A bibliografia de um site didático não é a de uma tese: cita o que importa e o leitor consegue alcançar. O selo diz por onde — e a tabela está ordenada por acessibilidade, do que se lê hoje ao que só se compra.
3 livre · 3 emprestimo · 3 biblioteca · 3 compra.
| Obra | Acesso | Onde |
|---|---|---|
| Hacham, “3 Maccabees and Esther” (JBL, 2007) | livre | PDF na página do autor |
| Orian, “The Date of III Maccabees” (SCI, 2017) | livre | scriptaclassica.org |
| Texto grego (Rahlfs) e NRSV em linha | livre | Wikisource · oremus |
| Barclay, Jews in the Mediterranean Diaspora (1996) | empréstimo | Internet Archive |
| Modrzejewski, The Jews of Egypt (1997) | empréstimo | Internet Archive (busca) |
| Collins, Between Athens and Jerusalem (2000) | empréstimo | Internet Archive (busca) |
| Hadas, The Third and Fourth Books of Maccabees (1953) | biblioteca | WorldCat |
| Johnson, Historical Fictions (2004) | biblioteca | JSTOR · WorldCat |
| Cowey e Maresch, P.Polit.Iud. (2001) | biblioteca | WorldCat |
| Croy, 3 Maccabees (Brill, 2006) | compra | brill.com |
| Dyer, “3 Maccabees”, Oxford Handbook of the Apocrypha (2021) | compra | doi.org |
| deSilva, Introducing the Apocrypha (2018) | compra | Baker Academic |
Selo [esgotado] não aparece aqui: quando a obra não é alcançável de nenhuma forma, o texto aponta o substituto acessível ao lado dela.