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Antiguidade Bíblica

Oração de Manassés — Artigo Enciclopédico

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  1. 01

    Ler o texto15–30 min

    A passagem inteira, em duas traduções de tradições diferentes, sem comentário. Comparar as duas é o exercício que mais rende: mostra onde o original é ambíguo.

  2. 02

    O contexto20–40 min

    O mundo em que o texto surgiu: geografia, arqueologia, paralelos do Antigo Oriente Próximo.

    §2 §9

  3. 03

    O debate30–60 min

    As posições em disputa, com quem as sustenta, onde publicou e qual é a réplica.

    §4 §10

  4. 04

    A recepção30–60 min

    O que se fez do texto: Padres, medievo, tradições confessionais.

    §6 §11

  5. 05

    As quatro camadas40–90 min

    Comparação com a mitologia, as perguntas filosóficas, os debates teológicos e o que a ciência diz — e onde não tem competência.

    §9 §10 §11 §12

  6. 06

    O dossiê integral1,5–3 h

    Tudo, na ordem, mais bibliografia com selo de acesso e as lacunas assumidas.

Outras portas de entrada
  • Quero só a resposta. Pare no degrau 0 — ele é completo em si.
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  • Quero ler o texto com calma. Degrau 1, com o glossário ao lado.
  • Vim da fé e quero entender. Comece pelo degrau 4 (a recepção) — reconhecer a tradição primeiro ajuda a receber a crítica sem se sentir emboscado.
  • Vim do ceticismo. Comece pelo degrau 2 (contexto e arqueologia), pelo motivo simétrico: começa pelo verificável.
Como saber se você entendeu

Ao fim de cada degrau, tente responder às três. Se as três não saem, o degrau seguinte vai confundir — volte um.

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  2. Análise. Consigo dizer qual problema este texto levanta, e por quê?
  3. Debate. Consigo dizer quem discorda de quem, e sobre o quê?

1. Lead e Ficha

A Oração de Manassés (gr. Προσευχὴ Μανασσῆ, Proseuchē Manassē; lat. Oratio Manassae) é um dos menores escritos de toda a literatura bíblica: 15 versículos, um único capítulo [V — SOTS Wiki; W — NRSV]. É uma oração penitencial posta na boca de Manassés, rei de Judá (c. 697–642 a.C.) — o rei que, segundo 2 Cr 33,11–13, foi levado cativo para a Babilônia pelos assírios, arrependeu-se ali e foi restaurado ao trono [W]. Não existe em hebraico bíblico: sobrevive em grego — nas Constituições Apostólicas (séc. IV) e na Didascalia siríaca (séc. III), seu testemunho mais antigo — e como hino das Odes, apêndice do Saltério grego [V — SOTS; V — Newman, 2007].

É o caso mais limpo de pseudepigrafia penitencial do Antigo Testamento: 2 Cr 33,18–19 menciona uma oração de Manassés registrada nos “anais dos reis de Israel”, mas nenhum dos dois livros chegou até nós; a Oração que conhecemos é o que um autor anônimo imaginou que o rei tivesse dito [V — Harrington, 1999, p. 166]. A maioria dos estudiosos a data no séc. II–I a.C., em grego, antes de 70 d.C.; há posições que a recuam ao séc. I d.C. [V — Charlesworth, 1985; W — Dunn, 2003, p. 859]. O seu lugar é o limite exato do cânon: ausente do hebraico e dos deuterocanônicos de Trento, recebida como deuterocanônica na tradição ortodoxa (porque o Saltério grego a traz entre as Odes), impressa no apêndice da Vulgata clementina e, no mundo protestante, classificada entre os apócrifos [V — SOTS; W — Brown, 1968, p. 541].

CampoDadoMarcador
Nome gregoΠροσευχὴ Μανασσῆ (Proseuchē Manassē)[V] taxonomia
Versículos15 (versificação corrente NRSV/KJV)[V] texto
Idiomagrego (koiné com coloração de Septuaginta)[V] Harrington, 1999
Autoriaanônima; atribuição pseudepigráfica a Manassés[V] Harrington, 1999
Dataçãoséc. II–I a.C. (maioria); até séc. I d.C. pré-70[V] Charlesworth, 1985
Testemunho mais antigoDidascalia siríaca, séc. III d.C.[V] Newman, 2007
Testemunho grego antigoConstituições Apostólicas II,22 (séc. IV); Codex Alexandrinus (séc. V)[V] Gutman e van Peursen, 2012
Cânonfora do hebraico; deuterocanônica ortodoxa (Odes); apêndice da Vulgata; apócrifa protestante[V] SOTS; W — Brown, 1968

2. Contexto e Autoria

O rei que o texto pressupõe. Manassés reinou em Judá por meio século, no séc. VII a.C. (c. 697–642, com corregência com Ezequias no início) [W]. A Bíblia hebraica dá dele o pior retrato possível: 2 Rs 21 o descreve reconstruindo os lugares altos, erguendo altares a Baal, fazendo o filho “passar pelo fogo”, consultando adivinhos, pondo a imagem de Aserá no Templo e enchendo Jerusalém de sangue inocente (2 Rs 21,1–16) [W]. O texto deuteronomista o converte no causador do exílio: “por causa de tudo o que Manassés fez”, a catástrofe de 587 a.C. torna-se inevitável (2 Rs 21,10–16; 23,26–27; 24,3–4; cf. Jr 15,4) [W].

A contranarrativa do Cronista. 2 Cr 33,1–20 conta a mesma história com outro desfecho: os comandantes assírios capturam Manassés, prendem-no em grilhões e o levam à Babilônia; “na sua angústia, ele suplicou a Javé e humilhou-se profundamente” (2 Cr 33,11–13); Deus ouviu, restaurou-o a Jerusalém e Manassés desfez os ídolos e reparou o altar [W]. É a teologia do Cronista: o pecador que se volta é perdoado, e o perdão tem consequências visíveis — trono e culto restaurados [W]. Os versículos 18–19 acrescentam que a oração do rei estava registrada nos anais — o gancho de que a Oração se alimenta [V — SOTS; W].

O que a Oração é. Como resume Daniel J. Harrington, ela “representa o que um autor anônimo imaginou que Manassés deveria ter dito”: uma confissão e uma súplica, “muito provavelmente composta em grego, refletindo a língua e o estilo da Septuaginta” [V — Harrington, 1999, pp. 166–167]. A datação é o ponto de divergência: Charlesworth a situa entre o séc. II a.C. e o séc. I d.C., antes de 70 d.C. [V — Charlesworth, 1985]; Harrington, na “virada da era”, pelas frases tiradas da LXX [V — Harrington, 1999, p. 167]; Brown, no séc. I–II d.C. — para ele, composta “em grego por um judeu”, e traduzida de imediato para o siríaco, donde o testemunho da Didascalia [W — Brown, 1968, p. 541]. O limite duro é o séc. III d.C., data do testemunho mais antigo [V — SOTS].

A língua original. A maioria trabalha com original grego [V — Harrington, 1999; W — Brown, 1968]; uma minoria defende original semítico — Gutman e van Peursen concluem que “as duas versões siríacas remontam, no fim, a um original hebraico” [V — Gutman e van Peursen, 2012]. Não há manuscrito hebraico antigo da Oração grega: há (a) uma oração hebraica de Manassés em Qumran (4Q381), publicada por Eileen Schuller e considerada independente [V — Gutman e van Peursen, 2012; W — Schuller, 1986]; e (b) uma versão hebraica medieval, da genizá do Cairo, estudada por Reimund Leicht [V — Leicht, 1996].

Os dois contextos antigos. A Oração circulou, desde o séc. III, dentro de um manual de igreja: a Didascalia Apostolorum (séc. III, norte da Síria, original grego perdido, conservada em siríaco) cita-a por extenso no capítulo 7, na seção sobre penitência, como exemplo do poder de perdoar confiado aos bispos [V — Newman, 2007]. Judith Newman lê a inclusão em chave de polêmica: a Didascalia combate cristãos que observavam a “segunda lei” judaica, e a conversão do idólatra Manassés funciona como garantia de acolhimento para quem abandonava as práticas judaicas [V — Newman, 2007]. O material reaparece, ampliado e com moldura narrativa, nas Constituições Apostólicas (Antioquia, fim do séc. IV), livro II, capítulo 22, entre os exemplos de arrependimento — Davi, os ninivitas, Ezequias e “seu filho Manassés” [V — AC II,22; V — Funk, 1905, pp. 84–88].


3. Estrutura (15 versículos)

O texto é um único capítulo, em 15 versículos na versificação corrente (NRSV; KJV dos apócrifos) [V — SOTS; W]. A estrutura é a do salmo de lamento com virada penitencial, em cinco movimentos:

  • Invocação e louvor do Criador (vv. 1–5). “Ó Senhor Todo-Poderoso, Deus de nossos pais, de Abraão, Isaac e Jacó” (v. 1); o Deus que “fizeste os céus e a terra”, “acorrentaste o mar com a palavra do teu mandamento” e “selaste o abismo” (vv. 2–3) [V — texto; DIGITAL — pt.wikisource]. A criação em imagens de ordenação do caos (cf. Jó 38,8–11; Sl 104,9) [W].
  • A misericórdia e o arrependimento instituído (vv. 6–8). O eixo teológico: “a tua promessa misericordiosa é imensurável” (v. 6); “prometeste o perdão aos que pecaram contra ti e destinaste o arrependimento aos pecadores, para que possam ser salvos” (v. 7); e o contraste célebre: “tu, ó Senhor, Deus dos justos, não destinaste o arrependimento aos justos — Abraão, Isaac e Jacó, que não pecaram contra ti —, mas destinaste o arrependimento a mim, o pecador” (v. 8) [V — texto; DIGITAL — pt.wikisource].
  • A confissão do pecador cativo (vv. 9–10). “Pequei mais do que o número das areias do mar” (v. 9); “estou preso por muitas cadeias de ferro, não posso erguer a cabeça” (v. 10) [V — texto; DIGITAL — pt.wikisource].
  • A petição de perdão (vv. 11–13). A imagem mais famosa: “agora dobro o joelho do meu coração” (v. 11); “eu pequei, ó Senhor, eu pequei, e reconheço as minhas iniquidades” (v. 12); “perdoa-me, ó Senhor, perdoa-me… porque tu, ó Senhor, és o Deus dos que se arrependem” (v. 13) [V — texto; DIGITAL — pt.wikisource].
  • Voto de louvor e doxologia (vv. 14–15). “Indigno como sou, me salvarás segundo a tua grande misericórdia” (v. 14); “todos os poderes dos céus te louvam, e tua é a glória para sempre. Amém” (v. 15) [V — texto; DIGITAL — pt.wikisource].

Dois traços formais merecem nota. Primeiro, a assimetria calculada: ao “Deus dos justos” (v. 8) responde o “Deus dos que se arrependem” (v. 13) [W — deSilva, 2002, p. 299]. Segundo, a tradição textual dupla: a forma das Constituições Apostólicas é mais breve — omite o contraste do v. 8 e emoldura a oração com o milagre da chama —, enquanto a forma do Saltério grego (as Odes) é a completa [V — AC II,22; V — Rahlfs, 1935]. A versificação em 15 versículos é das edições modernas; as divisões gregas variam ligeiramente [—].


4. Conteúdos-chave com Debate

4.1 Dois retratos de um rei (2 Rs 21 contra 2 Cr 33)

O livro pressupõe o contraste entre os dois Manassés bíblicos. 2 Rs 21,10–16 faz do reinado de Manassés a sentença de morte de Judá: o juízo é anunciado “por causa de tudo o que Manassés fez” [W]. 2 Cr 33,10–13 inverte o desfecho: a angústia do cativeiro produz a humilhação e a súplica, e Deus “se deixou aplacar” [W]. A leitura dominante vê em Crônicas a teologia da retribuição imediata e em Reis a deuteronomista do juízo acumulado [W]. A Oração é o terceiro retrato: não narra, reza; converte a história do rei num ato litúrgico de penitência [V — Newman, 2007].

4.2 A teologia da graça (vv. 7–8): o Deus dos justos e o Deus dos que se arrependem

O ponto central de toda a recepção está nos versículos 7–8, e é preciso citá-lo com cuidado. Na numeração corrente: “tu, ó Senhor, segundo a tua grande bondade, prometeste o perdão aos que pecaram contra ti e, na multidão das tuas misericórdias, destinaste o arrependimento aos pecadores, para que possam ser salvos” (v. 7); “tu, ó Senhor, Deus dos justos, não destinaste o arrependimento aos justos — Abraão, Isaac e Jacó, que não pecaram contra ti —, mas destinaste o arrependimento a mim, o pecador” (v. 8) [V — texto; DIGITAL — pt.wikisource]. A ideia não é que os justos dispensem a graça, mas que a misericórdia se define no caso extremo: um rei que adorou ídolos, sacrificou o filho e encheu Jerusalém de sangue é salvo porque pede perdão. (A fórmula devocional “salvar quem não pecou não é grande coisa” não corresponde literalmente ao grego — o contraste real é o do v. 8; §13.) David deSilva sublinha a originalidade: chamar a Deus de “Deus dos que se arrependem” (v. 13) é “uma forma original de descrever Deus, um contraponto ao ‘Deus dos justos’ (v. 8)” [V — deSilva, 2002, p. 299].

4.3 A confissão sem nomear o ídolo

A confissão (vv. 9–10) não enumera os pecados de Manassés — não menciona Baal, Moloque nem o sangue inocente —, mas diz: “fiz o mal diante de ti, erigindo abominações e multiplicando ofensas” (v. 10) [V — texto; DIGITAL — pt.wikisource]. O vocabulário é o da idolatria como abominação (βδελύγματα), o mesmo de 2 Cr 33,2–7 [W]. O efeito é intencional: quanto mais genérica a confissão, mais qualquer leitor pode fazê-la sua — é uma oração feita para ser reutilizada, e foi o que a Igreja antiga fez (§6) [V — Newman, 2007].

4.4 O debate da datação

As posições: (a) séc. II–I a.C., a tese majoritária, associada a Charlesworth [V — Charlesworth, 1985; V — Dunn, 2003, p. 859]; (b) virada da era, pela linguagem que ecoa a LXX [V — Harrington, 1999, p. 167]; (c) séc. I–II d.C., defendida por Brown [W — Brown, 1968, p. 541]. Charlesworth argumenta a favor de data anterior a 70 d.C. — um texto penitencial pós-70 dificilmente omitiria a destruição do Templo; Brown aponta a liberdade com que o autor maneja as fórmulas da LXX [V — Charlesworth, 1985; W — Brown, 1968]. Nenhuma data é demonstrável: o único limite duro é o séc. III d.C., data do testemunho mais antigo [V — SOTS].

4.5 O debate da língua e das versões

Original grego (maioria) contra original hebraico (minoria: Gutman e van Peursen) [V — Harrington, 1999; V — Gutman e van Peursen, 2012]. O dado novo da crítica textual é que o siríaco conheceu duas versões — a da Didascalia e a do Saltério siríaco —, o que obriga a reconstruir o grego com duas pontes [V — Gutman e van Peursen, 2012]. A tradição latina é ramificada: a forma da Vulgata e as dos saltérios moçárabes, mais breves e mais penitenciais [W — “The Latin Prayer of Manasseh”, academia.edu]. O livro sobrevive ainda em eslavo antigo, etíope (dentro de 2 Crônicas), armênio e árabe [W — en.wiki; V — THBO, Brill].

4.6 O debate canônico

Trento (1546) não incluiu a Oração entre os deuterocanônicos; a Vulgata sixto-clementina (1592/1598) imprimiu-a em apêndice, ao lado de 3 e 4 Esdras [W — CE, 1913; W — en.wiki]. No Oriente, o Saltério grego a traz entre as Odes, e é por essa via litúrgica que a tradição ortodoxa a trata como deuterocanônica [V — ISBE; W — en.wiki]. A Bíblia etíope a coloca junto a 2 Crônicas [W — pt.wikisource; W — en.wiki]. No protestantismo, Lutero a incluiu na sua Bíblia alemã (que chegou a 74 livros), e ela está na Bíblia de Mateus (1537), na de Genebra (1599) e nos apócrifos da King James (1611) [W — en.wiki]. A atribuição da aceitação ortodoxa ao Sínodo de Jerusalém de 1672 não foi confirmada em fonte primária nesta sessão [—].


Manassés acorrentado
Manassés acorrentado · 2Cr 33,11-13 (cf. Oração de Manassés)Gravura de Bernard Picart (1733), de uma série de ilustrações bíblicas, com o cativeiro do rei Manassés levado a Babilônia pelos chefes do exército assírio (2Cr 33,11). Segundo o relato, é na prisão que ele se humilha, ora e é restaurado no trono — e é essa oração que o texto grego da Oração de Manassés lhe põe na boca. A imagem abre o dossiê com a cena que o livro supõe.Bernard Picart · 1733 · gravura (1733) · Ilustrações bíblicas de Bernard Picart (1733)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

5. Temas

  • O arrependimento como milagre. O texto inteiro é uma teologia do retorno: o pecador que se humilha é perdoado, e o perdão usa o vocabulário da ressurreição (v. 14) [V — texto]. A tradição ortodoxa o formulou de modo lapidar: “o grande milagre é o arrependimento” (Sophrony de Essex) [V — Fr. John, 2015].
  • Misericórdia e justiça. O par “Deus dos justos” (v. 8) e “Deus dos que se arrependem” (v. 13) é o eixo: a misericórdia não anula a justiça, mas define-se diante do caso extremo [V — deSilva, 2002, p. 299].
  • Pecado, idolatria e abominação. A confissão genérica (“erigi abominações”, v. 10) carrega o vocabulário deuteronomista da idolatria como poluição do Templo [W].
  • Criação e soberania. O louvor inicial (vv. 1–5) enraíza a misericórdia na criação: o mesmo Deus que acorrentou o mar pode desatar as cadeias do cativo (vv. 3 e 10) [V — texto].
  • Confissão e restauração. Diferente do Sl 51, cujo fim é a pureza interior, aqui o perdão tem consequência pública: o rei volta ao trono e restaura o culto — a teologia do Cronista em forma de oração [W — 2 Cr 33,13–16].
  • A oração como modelo reutilizável. Confissão de um rei específico, funciona como forma vazia que qualquer penitente preenche — por isso os manuais de igreja a citaram (§6) [V — Newman, 2007].

6. Recepção

Tradição siríaca — o primeiro leitor. O testemunho mais antigo do texto é a Didascalia Apostolorum (séc. III, norte da Síria; original grego perdido, conservado em siríaco), que cita a Oração por extenso no capítulo 7, na instrução sobre o poder dos bispos de perdoar pecados [V — Newman, 2007]. Segue-se um relato parafrástico que funde Reis, Crônicas, targuns e fontes gregas [V — Newman, 2007]. O siríaco desenvolveu depois duas versões da Oração, editadas por Gutman e van Peursen (Gorgias Press, 2012) [V — Gutman e van Peursen, 2012]; a Peshitta publicou o texto na seção IV, fascículo 6 (Brill, 2017) [V — SOTS].

Tradição copta e árabe. A história textual da Brill (Textual History of the Bible) registra a Oração em manuscritos tardios, vários hoje no Patriarcado Copta Ortodoxo, na transmissão árabe [V — THBO, Brill]. Não verifiquei uma edição específica em língua copta; a atestação direta fica como lacuna [—].

Tradição grega e ortodoxa — o livro das Odes. No mundo grego, a Oração entrou no apêndice de Odes (ᾨδαί) que fecha o Saltério em manuscritos como o Codex Alexandrinus (séc. V) — uma coleção de catorze hinos, na qual a Oração ocupa o oitavo lugar [V — ISBE; V — “The Latin Prayer of Manasseh”, academia.edu]. Cuidado com a numeração: na edição de Rahlfs, a Oração é a Ode 12 [V — NETS, introdução aos Salmos]; e no cânon bizantino de nove odes das Matinas ela não figura — a “Ode 8” bizantina é o Cântico dos Três Jovens (Dn 3,57–88) [W — liturgia bizantina; W — sanctushieronymus, 2018].

A liturgia da Quaresma. Na Igreja Ortodoxa e nas igrejas católicas bizantinas, a Oração é cantada na Grande Complina (Apódeipnon) — o ofício noturno das segundas, terças, quartas e quintas-feiras da Grande Quaresma — e soa no período do Grande Cânone de Santo André [V — GOARCH; V — Fr. John, 2015]. O arcipreste Sophrony de Essex (1896–1993) repetia que “o grande milagre é o arrependimento”: “uma ressurreição antes da ressurreição” [V — Fr. John, 2015; W — Sophrony].

Tradição latina e católica romana. A Vulgata colocou a Oração ao fim de 2 Crônicas; a edição clementina (1592) imprimiu-a no apêndice com 3 e 4 Esdras, sem status canônico [W — CE, 1913; W — en.wiki]. A liturgia romana nunca a abandonou: o responsório do Ofício das Leituras do 14.º domingo do Tempo Comum a combina com o Sl 51, e o breviário tridentino a cita nos responsórios dos Reis [W — en.wiki]. A Enciclopédia Católica (1913) a descreve como “uma bela oração penitencial” [DIGITAL — CE, 1913].

Tradição anglicana. À pergunta “a Oração está no Livro de Oração Comum?”: no BCP de 1662 não está; entrou na tradição anglicana pelos apócrifos da King James (1611) [W — en.wiki]. O Book of Common Prayer de 1979 (Igreja Episcopal dos EUA) a incorporou à Oração da Manhã (Rito II) como Cântico 14, “A Song of Penitence” (Kyrie Pantokrator), feito de Pr Man 1–2, 4, 6–7, 11–15 [V — BCP 1979, Rito II; V — MDPI, 2026]. No Common Worship: Daily Prayer da Igreja da Inglaterra, ela é o Cântico 52 [W — en.wiki].

Tradição protestante. Lutero incluiu a Oração na sua Bíblia alemã; ela está na Bíblia de Mateus (1537), na de Genebra (1599) e nos apócrifos da KJV [W — en.wiki]. R. H. Charles a editou no volume 1 dos Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament (1913), com tradução de H. E. Ryle (pp. 612–624) [V — Ryle, 1913; W — Metzger, 1977].

Tradição judaica. A Oração não entrou no cânon, mas o debate sobre o próprio Manassés é intenso: a Mishná (m. Sanhedrin 10,2) o lista entre os reis sem parte no mundo vindouro; o Talmude Babilônico (b. Sanhedrin 102b–103a) registra a disputa — o rabino Yohanan cita 2 Cr 33,13 para defender que Manassés recuperou a sua parte, e a objeção responde que o arrependimento lhe devolveu o reino, não o mundo vindouro [V — b. Sanhedrin 102b, Sefaria].

Arte e teatro. Manassés, o cativo que reza, entrou na iconografia: Karel van Mander desenhou “Manassés, pecador arrependido do Antigo Testamento” — o rei acorrentado no cárcere —, obra no Getty (Los Angeles) [V — Getty]. Maarten de Vos pintou King Manasseh in Exile (1603, atribuição conforme registro enciclopédico; não conferida em catálogo de museu) [W — WikiArt]. No teatro, Manassés aparece nas peças escolares jesuítas dos sécs. XVII–XVIII: um manuscrito dramático setecentista contém uma peça Manasses ao lado de Sedecias [W — JSTOR, j.ctt1w8h225.18]. A lenda da morte de Isaías por suas mãos — na Ascensão de Isaías e em b. Yebamot 49b — alimentou a literatura sobre o rei [V — Newman, 2007, n. 9–10; W — Knibb, 1985].

Teologia contemporânea do arrependimento. A Oração voltou ao centro nas teologias recentes do perdão: Miroslav Volf, em Exclusion and Embrace (1996), trata o arrependimento como condição da reconciliação sem vingança [W]; Walter Kasper, em Misericórdia (2012/2014), relê a misericórdia como atributo central de Deus, com a Oração como elo litúrgico vivo da tradição penitencial [W — Kasper, 2014].


Manassés como pecador arrependido
Manassés como pecador arrependido · 2Cr 33,12-13Gravura do Rijksmuseum (inv. RP-P-1877-A-345), da série 'Oito pecadores arrependidos do Antigo e do Novo Testamento', impressa entre 1595 e 1596. Manassés é o modelo do arrependimento tardio na tradição cristã, e a série o coloca ao lado de Davi e do filho pródigo. É a leitura da Oração de Manassés já fixada na devoção do fim do século XVI.Rijksmuseum · between 1595 and 1596 · gravura (série Oito pecadores arrependidos, 1595-1596) · Rijksmuseum, Amsterdã (inv. RP-P-1877-A-345)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: CC0

7. Traduções PT e Comentários PT

O que existe em português — e o que não existe. A Oração não está nas Bíblias católicas brasileiras de uso corrente — Jerusalém, Ave-Maria, TEB, Pastoral — porque essas edições seguem o cânon de Trento, que a excluiu [W — cânon católico]. Não localizei Bíblia ortodoxa completa em português que a inclua; a via ortodoxa em PT é litúrgica (folhetos da Grande Complina) [—]. As edições históricas da Bíblia de Almeida com apêndice de apócrifos incluíam os apócrifos, mas não confirmei o rol exato de livros desses apêndices [—].

Tradução acadêmica PT-BR verificada. Nirio de Jesus Moraes, “A Oração de Manassés: estudo histórico-teológico, tradução e comentários”, Revista Encontros Teológicos 36, n. 3 (2021) — artigo de acesso aberto com DOI 10.46525/ret.v36i3.1674 — traduz a Oração do grego de Alfred Rahlfs (1935), com princípios de Eugene Nida, e comenta o texto [ACAD — Moraes, 2021].

Tradução PT-PT da Septuaginta. Frederico Lourenço incluiu a Oração no Volume IV, Tomo 2, da Bíblia Grega (Quetzal, 2019, 528 pp., ISBN 9789897225741), que reúne Salmos, Salmos de Salomão, Odes e Provérbios — o livro das Odes é “uma marca singular da Bíblia Grega que nem todos os manuscritos dos Septuaginta preservaram”, segundo a editora [V — Quetzal; V — ORCID, Lourenço]. É a única tradução em livro, em português, da Oração a partir do grego [V].

Tradução em domínio público. O Wikisource em português publica a “Oração de Manassés” em tradução de domínio público (linhagem da KJV dos apócrifos), livre para leitura online [DIGITAL — pt.wikisource].

Comentários-âncora em inglês (sem tradução PT localizada). Charlesworth, “Prayer of Manasseh (Second Century B.C.–First Century A.D.)”, em The Old Testament Pseudepigrapha 2 (Doubleday, 1985; Hendrickson, 2010), pp. 625–637 [V — ISBN 9781598564907, OL]; Ryle, “The Prayer of Manasses”, em Charles (org.), APOT 1 (1913), pp. 612–624 [DIGITAL]; deSilva, Introducing the Apocrypha (2002), capítulo dedicado, pp. 293–300 [V — ISBN 080102319X, OL]; Harrington, Invitation to the Apocrypha (1999), pp. 165–171 [V — ISBN 0802846335, OL]; Dancy, The Shorter Books of the Apocrypha (Cambridge UP, 1972) [V — ISBN 9780521097291, OL]; Dunn (org.), Eerdmans Commentary on the Bible (2003), p. 859 [V — ISBN 9780802837110, OL]. Traduções PT destes: não localizadas [—].

Manassés, Amom e Josias, reis de Judá
Manassés, Amom e Josias, reis de Judá · 2Rs 21,1-18; 2Cr 33,1-20Gravura do Rijksmuseum (inv. RP-P-1904-3499), da série 'Theatrum biblicum' impressa em 1585 segundo desenho de Maarten van Heemskerck. As três cenas mostram a sequência dos reis de Judá — Manassés, o filho Amom e o neto Josias —, e é no reinado de Manassés que os livros de Reis situam a pior idolatria de Judá (2Rs 21,1-18). A oração que leva o seu nome pertence, portanto, à figura mais condenada dos reis de Judá, convertida no cativeiro.Rijksmuseum · 1585 · gravura (série Theatrum biblicum, 1585) · Rijksmuseum, Amsterdã (inv. RP-P-1904-3499); segundo desenho de Maarten van HeemskerckFonte: Wikimedia Commons · Licença: CC0

8. Audiovisual e Games

TítuloRealidadeValidação PTMarcador
Grande Complina (gravações litúrgicas ortodoxas, YouTube)o ofício quaresmal que inclui a Oraçãohá canais ortodoxos em PT; não conferi gravação específica[—]
“A Oração de Manassés” (leituras devocionais em vídeo/áudio, YouTube)leituras da oração em canais religiososexistem vídeos em PT; curadoria informal[W]
Audiobooks da Bíblia com apócrifos (linhagem KJV)incluem a Oração em inglêsversão PT em audiobook não localizada[—]
Filmes dedicados à Oraçãonenhum localizado[—]
Videojogos com enredo da Oraçãonenhum título dedicado localizado[—]

O material em PT é devocional e litúrgico, sem produção audiovisual dedicada ao texto [W].


9. Mitologia e Literatura Comparada

As orações penitenciais do Antigo Oriente Próximo

A Oração é membro tardio de um gênero panoriental: a oração penitencial do indivíduo. Na Mesopotâmia, o gênero é documentado pelos šuilla (“orações de mão erguida”), estudadas por Werner Mayer (Untersuchungen zur Formensprache der babylonischen “Gebetsbeschwörungen”, Roma, 1976), e pelos encantamentos DINGIR.ŠÀ.DIB.BA (“a ira do meu deus”), publicados por W. G. Lambert (JNES 33, 1974) [W]. O penitente mesopotâmico, porém, geralmente não sabe do que é culpado: pede ao deus pessoal que revele a falta e a desfaça [W — Lambert, 1974]. A Oração inverte o esquema: o pecado é nomeado pela tradição (a idolatria de 2 Cr 33), e a súplica é de perdão declarado [W].

Os paralelos bíblicos: Dn 9, Ne 9, Esd 9 e os salmos penitenciais

Dentro da Escritura, a Oração pertence à família das confissões: Dn 9,4–19 (a confissão de Daniel, com o mesmo vocabulário de misericórdia e perdão); Ne 9,6–37 (a confissão da assembleia pós-exílica); Esd 9,6–15 (a súplica de Esdras) [W]. No Saltério, ela entra no grupo dos sete salmos penitenciais — Sl 6, 32, 38, 51, 102, 130, 143 —, repertório fixado pela tradição cristã (Cassiodoro) [W]. O gênero é o lamento individual descrito por Hermann Gunkel em Einleitung in die Psalmen (1933): invocação, queixa, confissão, súplica, voto [W — Gunkel, 1933]. Raymond Brown apontou os paralelos próximos com a Oração de Azarias (Dn 3,24–45 LXX): “a piedade é a do judaísmo tardio” [W — Brown, 1968, p. 541]. A tradição registra ainda ecos da Oração em José e Asenete 12,5.12 e em 2 Baruque 64,8 [V — SOTS].

O par Sl 51 / Oração de Manassés

As duas grandes orações penitenciais do AT formam um par deliberado: o Sl 51 é davídico — o salmo do rei que pecou contra o próximo (Bate-Seba, Urias) e contra Deus — e a Oração é manassética — a do rei que pecou contra Deus pelos ídolos e contra o povo pelo sangue inocente [W]. O Sl 51 pede “coração puro” e sabe que “o sacrifício a Deus é o espírito contrito”; a Oração pede perdão com o corpo todo — “dobro o joelho do meu coração” (v. 11) — e espera a restauração pública do trono [V — texto]. A recepção cristã juntou as duas no mesmo ofício: o responsório romano do 14.º domingo do Tempo Comum combina a Oração com o Sl 51 [W — en.wiki].

Manassés e Acab: os dois grandes pecadores

A tradição rabínica emparelha Manassés e Acab como os reis cuja perversidade não tem atenuante (b. Sanhedrin 102b: “assim como Acab não tem parte no mundo vindouro, também Manassés”) [V — b. Sanhedrin, Sefaria]. A lenda de que Manassés matou o profeta Isaías (serrado, segundo a Ascensão de Isaías e b. Yebamot 49b) torna a sua conversão ainda mais escandalosa [V — Newman, 2007, n. 9–10; W — Knibb, 1985].

O motivo do pecador que retorna

Manassés como o “filho pródigo” do AT — o rei que desce ao fundo e é recebido de volta — tem paralelo direto na parábola de Lc 15, e a piedade ortodoxa o leu assim (“o filho pródigo de um pai que orava”) [V — Fr. John, 2015]. No mundo helenístico-judaico, o esquema “o poderoso humilhado e restaurado pela súplica” é o de José e Asenete e, na Mesopotâmia, do Ludlul bel nemeqi (“louvarei o senhor da sabedoria”), em que o cortesão caluniado é restaurado por Marduk [W — Lambert, 1960; V — SOTS]. A diferença permanece: no Ludlul a restauração é de um inocente; na Oração, de um culpado confessado [W].


Relevo de Assaradão e de sua mãe Naqi'a
Relevo de Assaradão e de sua mãe Naqi'a · 2Cr 33,11 (contexto assírio)Relevo em bronze originalmente dourado, de cerca de 681-669 a.C., no Museu do Louvre (AO 20185), com o rei assírio Assaradão e sua mãe Naqi'a-Zakutu no templo de Marduk, comemorando a restauração da Babilônia. Assaradão é o rei a quem a cronologia costuma associar a deportação de Manassés (2Cr 33,11), e o relevo documenta a prática imperial de impor vassalos e de deslocar reis submetidos — o contexto em que o cativeiro de Manassés se compreende.Unknown artist Unknown artist · 7th century BC · relevo em bronze (681-669 a.C.) · Musée du Louvre, Paris (AO 20185); fotografia de Jastrow (2006)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta

O arrependimento é virtude? Espinosa contra a Oração

Baruch Espinosa, na Ética (1677), parte III, proposição 54, sustenta o contrário do texto: “o arrependimento não é uma virtude, isto é, não nasce da razão; quem se arrepende é duplamente miserável” [DIGITAL — Espinosa, 1677]. Se o arrependimento é impotência (Espinosa) ou porta de salvação (Pr Man 7–8, 13), não se decide por demonstração — é uma disputa sobre o que a pessoa humana é [W].

O mal radical e a mudança de disposição: Kant

Immanuel Kant, em A religião nos limites da simples razão (1793), enfrenta o mesmo problema em chave moral: o “mal radical” não se remove por remorso pontual, mas por uma revolução da disposição (Gesinnung) [W — Kant, 1793]. A Oração descreve esse momento com precisão clínica — a confissão (vv. 9–12) precede a petição de um novo começo (vv. 13–15) —, mas Kant recusaria o vocabulário: o perdão não se pede a Deus, constrói-se na reforma do caráter [W].

Misericórdia e o problema do mal: Mackie e Rowe

O Deus da Oração é “de grande compaixão, longânimo e muito misericordioso” (v. 7) [V — texto]. Os filósofos analíticos perguntaram se esse Deus é consistente com o mal: John L. Mackie, em “Evil and Omnipotence” (Mind 64, 1955), formulou o problema lógico; William L. Rowe, em “The Problem of Evil and Some Varieties of Atheism” (APQ 16, 1979), converteu-o em argumento evidencial [W]. A Oração não é uma teodiceia: não explica por que o mal existe; afirma apenas que o perdão está à altura de qualquer mal confessado — resposta de outra ordem, não uma demonstração [W].

O bode expiatório: Girard

René Girard, em Le bouc émissaire (1982), descreveu o mecanismo pelo qual uma comunidade em crise se unifica contra um acusado — a vítima que carrega a culpa coletiva [W]. A narrativa deuteronomista faz exatamente isso com Manassés: ele é o bode expiatório de Judá — “por causa de tudo o que Manassés fez”, Jerusalém cairá (2 Rs 21,11–16; 24,3–4; Jr 15,4) [W]. A Oração subverte o mecanismo pelo avesso: o acusado aceita a acusação (“eu pequei, ó Senhor, eu pequei”, v. 12), e em vez de ser expulso, é reintegrado — a confissão desarma o linchamento [V — texto; W — Girard, 1982].

Abominação e classificação: Mary Douglas

Mary Douglas, em Purity and Danger (1966), mostrou que as “abominações” bíblicas são antes de tudo violações de classificação: o impuro é o que atravessa fronteiras estabelecidas [W]. Manassés é o transgressor máximo das fronteiras sagradas: põe a imagem no Templo (2 Cr 33,7) — o sagrado invadido pelo profano — e o livro o faz confessar “erigi abominações” (v. 10) [V — texto]. Na leitura de Douglas, a confissão restaura a ordem simbólica: nomear a poluição é o primeiro passo para re-classificar o mundo [W — Douglas, 1966].

O perdão que desfaz o tempo: Levinas

Emmanuel Levinas, em “Repentance and Forgiveness: The Undoing of Time” (International Journal for Philosophy of Religion 28, 1990), definiu o arrependimento como a experiência de que o tempo pode ser desfeito — o ato permanece, mas deixa de pesar sobre o futuro do culpado [W — Levinas, 1990]. Na ética levinasiana do rosto, o perdão não é um direito do ofensor, mas uma responsabilidade do outro, que acolhe o arrependido antes de qualquer merecimento — estrutura exata da Oração: Manassés não invoca mérito, mas a misericórdia (v. 14) [V — texto; W — Levinas, 1990].


11. Teologia — os debates

O arrependimento como dom e o problema do perdão barato

O texto afirma que Deus “destinou o arrependimento aos pecadores” (v. 7) — o arrependimento é instituído pela misericórdia, antes de ser praticado pelo homem [V — texto]. Quanto há de graça e quanto de esforço nesse destino? A tradição ortodoxa lê aí a sinergia — Deus oferece, o homem acolhe [W — Fr. John, 2015]; a protestante clássica sublinha que até o acolhimento é dom — e a Oração, rezada por um rei idólatra, torna-se o exemplo do pecador justificado sem mérito [W].

A objeção mais antiga é simétrica: se Deus perdoa um rei que matou profetas e sacrificou o próprio filho, o que resta da ameaça do castigo? A tradição deuteronomista respondia com o juízo (2 Rs 21); a Oração responde com o perdão que não anula a memória — Manassés é perdoado, mas o exílio acontece (2 Rs 23,26–27; 24,3–4) [W]. O debate sobre o “perdão barato” (a crítica de Dietrich Bonhoeffer à billige Gnade) encontra no livro a tensão exata: a graça é gratuita, mas a confissão custa tudo — “dobrar o joelho do coração” (v. 11) é a condição, não o preço [W — Bonhoeffer, 1937].

Penitência e autoridade: a Igreja antiga e a restauração

A recepção mais influente do livro foi eclesial: a Didascalia (séc. III) e as Constituições Apostólicas (séc. IV) citam a Oração dentro da disciplina penitencial — o poder dos bispos de receber de volta o pecador arrependido [V — Newman, 2007]. Newman mostra que a escolha tinha função precisa na Síria do séc. III: garantir que o idólatra arrependido — o observante da “segunda lei” que voltava — fosse acolhido sem humilhação [V — Newman, 2007]. A Oração funcionou como texto de direito penitencial antes de ser hino de saltério [V].

O desfecho do livro — o perdoado volta ao trono e restaura o culto (2 Cr 33,13–16; v. 14) — articula a teologia do Cronista: o perdão não é só interior, tem consequências sociais e cultuais [W]. A teologia contemporânea retomou o motivo: Miroslav Volf (Exclusion and Embrace, 1996) trata o arrependimento como condição da reconciliação que não repete a violência; Walter Kasper (Misericórdia, 2012/2014) relê o “Deus dos que se arrependem” como o coração do Evangelho [W].

11.1. Comentaristas por esfera confessional

Esta subseção organiza os comentários e leituras da Oração por tradição de leitura. A regra de rotulagem é a do método desta camada: a perspectiva se declara, não se atribui — o rótulo situa a leitura, nunca refuta o que o autor demonstra. Convenções: [V] conferido nesta sessão; [W] conhecido, não reconferido; [—] lacuna.

Judaica

  • A Oração está fora do cânon judaico; a discussão rabínica concentra-se no rei: b. Sanhedrin 102b–103a (a disputa sobre a parte de Manassés no mundo vindouro) [V — Sefaria]. Rashi comenta 2 Cr 33 [W]. O quadro do t’shuvá como poder de desfazer o passado é o de Maimônides, Hilchot Teshuvá [W]. A versão hebraica medieval (Leicht, 1996) documenta a circulação do texto [V — Leicht, 1996].

Católica ocidental (latina)

  • Raymond E. Brown, “The Apocrypha”, no Jerome Biblical Commentary (1968), vol. 1, p. 541 — o resumo clássico: original grego, séc. I–II d.C. [W — Brown, 1968].
  • Daniel J. Harrington, Invitation to the Apocrypha (Eerdmans, 1999), pp. 165–171 — introdução católica de referência [V — Harrington, 1999].
  • Enciclopédia Católica (1913), verbete “Manasses” — o registro do texto como apócrifo penitencial do apêndice da Vulgata [DIGITAL — CE, 1913].

Católica oriental e grega patrística

  • Constituições Apostólicas II,22 (séc. IV) — o texto grego patrístico que cita a Oração por extenso [V — AC II,22; V — Funk, 1905].
  • Didascalia Apostolorum (séc. III) — o testemunho mais antigo, estudado por Judith H. Newman (JCSSS 7, 2007) [V — Newman, 2007].
  • Não há comentário patrístico contínuo: os Padres a citam nos manuais de disciplina, não em comentários [—].

Ortodoxa

  • A recepção ortodoxa é litúrgica: a Oração cantada na Grande Complina da Quaresma [V — GOARCH; V — Fr. John, 2015] e lida no período do Grande Cânone de Santo André [V — Fr. John, 2015].
  • Sophrony de Essex (1896–1993) — “o grande milagre é o arrependimento” [V — Fr. John, 2015; W — Sophrony].
  • Comentário devocional: Fr. John, “The Prayer of Manassas: Bowing the Knee of the Heart” (2015) [V — ocanwa.org]. Não localizei comentário crítico moderno ortodoxo dedicado [—].

Protestante histórica

  • H. E. Ryle, “The Prayer of Manasses”, em R. H. Charles (org.), APOT 1 (1913), pp. 612–624 — a edição protestante de referência [DIGITAL — Ryle, 1913].
  • J. C. Dancy, The Shorter Books of the Apocrypha (Cambridge UP, 1972) [V — Dancy, 1972]; James King West, Introduction to the Old Testament (1971), pp. 470–471 — o “escritor de habilidade incomum e piedade” [W — West, 1971]; Bruce Metzger, edições RSV/NRSV com apócrifos [W — Metzger, 1977].

Evangélica

  • David A. deSilva, Introducing the Apocrypha (Baker Academic, 2002), pp. 293–300 — capítulo dedicado, com o “Deus dos que se arrependem” (v. 13) como originalidade teológica [V — deSilva, 2002, p. 299].
  • George Lyons (Northwest Nazarene University) — notas de estudo em acesso aberto [V — nnu.edu]. Não há comentário evangélico dedicado em português [—].

Balanço de esferas (contagem declarada)

EsferaNomes citados
Judaicab. Sanhedrin 102b [V], Rashi [W], Maimônides [W], Leicht [V]
Católica ocidentalBrown [W], Harrington [V], CE 1913 [DIGITAL]
Católica oriental / gregaConstituições Apostólicas [V], Didascalia [V], Newman [V]
OrtodoxaGOARCH [V], Fr. John [V], Sophrony [W]
Protestante históricaRyle [DIGITAL], Charles [DIGITAL], Dancy [V], West [W], Metzger [W]
EvangélicadeSilva [V], Lyons [V]

O desequilíbrio — o Oriente sem comentários contínuos, o Ocidente com séries — não é do dossiê: é do material, e por isso fica dito. Onde não há comentário dedicado, a lacuna se declara [—] em vez de se preencher com nomes de outras obras.


12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não têm competência

A regra desta seção: declarar os limites. A ciência não decide se a Oração é inspirada; decide o que os manuscritos contêm, quando foram escritos e o que o texto grego significa.

Os manuscritos e as versões

O quadro testemunhal: (a) a Didascalia siríaca (séc. III d.C.), que cita a Oração no capítulo 7 — o testemunho mais antigo, em tradução siríaca de um original grego perdido [V — Newman, 2007]; (b) as Constituições Apostólicas (Antioquia, fim do séc. IV), livro II, capítulo 22, na edição de Funk (Didascalia et Constitutiones Apostolorum, Paderborn, 1905, pp. 84–88) [V — Funk, 1905]; (c) o Codex Alexandrinus (séc. V), o mais antigo manuscrito grego, com a Oração entre as catorze Odes que seguem os Salmos — como oitava [V — ISBE; V — academia.edu]; (d) o Codex Turicensis (Saltério de Zurique, séc. VII) [V — ISBE]; (e) a edição de Rahlfs (1935), que numera a Oração como Ode 12 [V — NETS; V — Rahlfs, 1935]; (f) as versões latina (apêndice da Vulgata; saltérios moçárabes com forma abreviada), eslava antiga, etíope (dentro de 2 Crônicas), armênia e árabe (manuscritos tardios, vários no Patriarcado Copta Ortodoxo) [V — THBO, Brill; W — academia.edu; W — en.wiki]. O siríaco conheceu duas versões, editadas por Gutman e van Peursen (2012) [V].

A estrutura dos saltérios gregos e o lugar da Oração

Os saltérios gregos circularam em duas formas: a simples e a ampliada, com o apêndice das Odes — a “pequena hinologia” da Igreja antiga [V — NETS]. A coleção não é fixa: manuscritos trazem catorze hinos (Codex Alexandrinus e edição de Rahlfs, com numerações diferentes), e o uso bizantino consolidou um cânon de nove odes para as Matinas — do qual a Oração está ausente (as odes 7–8 bizantinas são as duas peças de Dn 3) [V — NETS; W — liturgia bizantina]. A Oração vive, portanto, na fronteira: hino de saltério em parte da tradição grega, fora do cânon de nove odes na prática bizantina [V].

A linguística

O grego da Oração é koiné com forte coloração de Septuaginta: o autor constrói frases com fórmulas dos Salmos e do Pentateuco gregos (Harrington fala em “língua e estilo da Septuaginta”) [V — Harrington, 1999; W — Brown, 1968]. A questão do original semítico permanece aberta: Gutman e van Peursen argumentam que as duas versões siríacas remontam a um original hebraico, mas nenhum manuscrito hebraico antigo da Oração grega existe — o hebraico de Qumran (4Q381) é uma oração independente, e o hebraico medieval da genizá é versão tardia [V — Gutman e van Peursen, 2012; V — Leicht, 1996]. A datação linguística dá apenas estimativas relativas (“virada da era”), nunca datas absolutas [V — Harrington, 1999].

O rei e o registro assírio

Há um dado extrabíblico verificável: as inscrições de Assurbanípal (o cilindro Rassam, c. 667 a.C.) listam “Manassés, rei de Judá” entre os vassalos que forneceram tropas para a campanha do Egito — o que corrobora a subordinação política de Judá à Assíria que 2 Cr 33,11 pressupõe [W — anais assírios]. A ida específica a Babilônia, a prisão e a libertação de 2 Cr 33 não constam dos anais: são parte da narrativa bíblica, nem confirmadas nem desmentidas pelo registro epigráfico [W].

Onde a ciência NÃO tem competência

  • A ciência não decide se Manassés “realmente” se arrependeu nem se a Oração foi “realmente” proferida por ele: a mudança interior de um rei morto há 2.700 anos não é verificável empiricamente, e a questão de saber se Deus ouviu e perdoou é de fé, não de paleografia — o texto é teologia do arrependimento, não crônica [W].
  • A crítica textual não produz a “oração original” — reconstrói um texto crítico a partir de testemunhos divergentes, e a reconstrução é hipótese, não fotografia [V — Gutman e van Peursen, 2012].
  • A datação não responde se o livro é “verdadeiro”: situar a composição no séc. II–I a.C. localiza um objeto literário; não prova nem refuta a sua verdade religiosa [V — Charlesworth, 1985].
  • E o inverso vale: a ciência não refuta o livro. Datar, comparar e editar não é desmentir — é dar ao texto a sua espessura histórica [W].

A Oração de Manassés na Vulgata Sixto-Clementina
A Oração de Manassés na Vulgata Sixto-Clementina · Oração de Manassés (texto integral)Página da Vulgata Sixto-Clementina (1592), com o texto da Oração de Manassés e o início de 1 Esdras, na edição digitalizada pela Universidade de Bolonha. O pequeno texto de quinze versículos sobreviveu em apêndice às Bíblias latinas, fora do cânon, e a página mostra a sua posição material nos impressos. É esse lugar marginal que explica, ao mesmo tempo, a sua circulação e a sua exclusão das listas canônicas.anônimo · 2006-11-30 12:54:39 · impresso tipográfico (1592) · Universidade de Bolonha (reprodução digital da Vulgata Sixto-Clementina, 1592)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain
A Oração de Manassés na Bíblia de Carlos XII
A Oração de Manassés na Bíblia de Carlos XII · Oração de Manassés (transmissão do texto)Página da Bíblia de Carlos XII (1709), edição sueca que reúne a Oração de Azarias, o Cântico dos Três Jovens e a Oração de Manassés. O impresso documenta a transmissão dos textos deuterocanônicos nas Bíblias luteranas oficiais, onde a Oração de Manassés permaneceu como apêndice ao fim do Antigo Testamento — a outra grande tradição de transmissão do texto, ao lado da Vulgata.anônimo · 1709 · impresso tipográfico (1709) · Exemplar fotografado em catálogo de leilão (Bíblia de Carlos XII, 1709)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

13. Lacunas e Correções de Atribuição

  1. [—] A fórmula “salvar quem não pecou não é grande coisa”: circula em paráfrases devocionais, mas não corresponde literalmente ao grego. O contraste real do texto (v. 8) é entre o arrependimento “destinado” aos justos (Abraão, Isaac, Jacó) e o destinado ao pecador; o “Deus dos que se arrependem” está no v. 13.
  2. [W] “Ode 8”: a Oração é a oitava das catorze Odes do Codex Alexandrinus e de saltérios gregos (ISBE); na edição de Rahlfs é a Ode 12 (NETS); não é a Ode 8 do cânon bizantino de nove odes — essa é o Cântico dos Três Jovens (Dn 3,57–88). Não repetir a confusão.
  3. [—] Bíblias católicas PT: não localizei edição brasileira (Jerusalém, Ave-Maria, TEB) que inclua a Oração; o apêndice da Vulgata não foi reproduzido nas edições PT correntes que consultei.
  4. [—] Bíblia ortodoxa completa em PT: não localizada; a via ortodoxa em português é litúrgica.
  5. [W] Sínodo de Jerusalém (1672): a atribuição, que circula em fontes lusófonas, da aceitação ortodoxa da Oração a esse sínodo não foi confirmada em fonte primária.
  6. [—] Atestação copta: não verificada em edição própria; confirmei apenas a presença em manuscritos tardios (vários no Patriarcado Copta Ortodoxo) na transmissão árabe (THBO, Brill).
  7. [W] Maarten de Vos, King Manasseh in Exile (1603): atribuição e data conforme registro enciclopédico (WikiArt); não conferidas em catálogo de museu.
  8. [W] Peça jesuíta Manasses: a referência a um manuscrito dramático setecentista com a peça ao lado de Sedecias vem de estudo de catálogo (JSTOR, j.ctt1w8h225.18); não consultei o manuscrito.
  9. [—] Responsório romano: o uso no Ofício das Leituras (14.º domingo do Tempo Comum) e no breviário tridentino segue o registro enciclopédico (en.wiki); não conferi breviário impresso.
  10. [W] Manassés nos anais de Assurbanípal: a presença no cilindro Rassam é leitura assiriológica corrente; não conferi o cilindro original.
  11. [—] Traduções PT dos comentários-âncora (Charlesworth, deSilva, Harrington, Dancy, Dunn): não localizadas.
  12. [—] Versificação: o padrão de 15 versículos é das edições modernas (NRSV/KJV); as divisões das edições gregas variam.

Bibliografia-âncora verificada

Como conseguir estas obras

A bibliografia de um site didático não é a de uma tese: cita o que importa e o leitor consegue alcançar. O selo diz por onde — e a tabela está ordenada por acessibilidade, do que se lê hoje ao que só se compra.

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ObraAcessoOnde
Moraes, “A Oração de Manassés…” (Revista Encontros Teológicos, 2021)livrefacasc.emnuvens.com.br
SOTS Wiki, “Prayer of Manasseh”livresots.ac.uk
Newman, “Three Contexts…” (JCSSS 7, 2007)livrecsss.nmc.utoronto.ca
Ryle, “The Prayer of Manasses” em Charles (1913)livreWikimedia Commons
Constituições Apostólicas II,22 — New Adventlivrenewadvent.org
Oração de Manassés (PT, Wikisource)livrept.wikisource.org
GOARCH, Grande Complinalivregoarch.org
b. Sanhedrin 102b (Sefaria)livresefaria.org
Gutman; van Peursen, The Two Syriac Versions (2012)empréstimodokumen.pub
deSilva, Introducing the Apocrypha (2002)empréstimoInternet Archive
Charlesworth, Old Testament Pseudepigrapha 2 (1985/2010)bibliotecaOpen Library
Harrington, Invitation to the Apocrypha (1999)bibliotecaOpen Library
Dancy, The Shorter Books of the Apocrypha (1972)bibliotecaOpen Library
Lourenço (trad.), Bíblia — Vol. IV, Tomo 2 (Quetzal, 2019)compraquetzaleditores.pt
Dunn; Rogerson, Eerdmans Commentary on the Bible (2003)compraEerdmans
Kasper, Misericórdia (Loyola, 2014)compraloyola.com.br

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