Antiguidade Bíblica
Oração de Manassés — Artigo Enciclopédico
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1. Lead e Ficha
A Oração de Manassés (gr. Προσευχὴ Μανασσῆ, Proseuchē Manassē; lat. Oratio Manassae) é um dos menores escritos de toda a literatura bíblica: 15 versículos, um único capítulo [V — SOTS Wiki; W — NRSV]. É uma oração penitencial posta na boca de Manassés, rei de Judá (c. 697–642 a.C.) — o rei que, segundo 2 Cr 33,11–13, foi levado cativo para a Babilônia pelos assírios, arrependeu-se ali e foi restaurado ao trono [W]. Não existe em hebraico bíblico: sobrevive em grego — nas Constituições Apostólicas (séc. IV) e na Didascalia siríaca (séc. III), seu testemunho mais antigo — e como hino das Odes, apêndice do Saltério grego [V — SOTS; V — Newman, 2007].
É o caso mais limpo de pseudepigrafia penitencial do Antigo Testamento: 2 Cr 33,18–19 menciona uma oração de Manassés registrada nos “anais dos reis de Israel”, mas nenhum dos dois livros chegou até nós; a Oração que conhecemos é o que um autor anônimo imaginou que o rei tivesse dito [V — Harrington, 1999, p. 166]. A maioria dos estudiosos a data no séc. II–I a.C., em grego, antes de 70 d.C.; há posições que a recuam ao séc. I d.C. [V — Charlesworth, 1985; W — Dunn, 2003, p. 859]. O seu lugar é o limite exato do cânon: ausente do hebraico e dos deuterocanônicos de Trento, recebida como deuterocanônica na tradição ortodoxa (porque o Saltério grego a traz entre as Odes), impressa no apêndice da Vulgata clementina e, no mundo protestante, classificada entre os apócrifos [V — SOTS; W — Brown, 1968, p. 541].
| Campo | Dado | Marcador |
|---|---|---|
| Nome grego | Προσευχὴ Μανασσῆ (Proseuchē Manassē) | [V] taxonomia |
| Versículos | 15 (versificação corrente NRSV/KJV) | [V] texto |
| Idioma | grego (koiné com coloração de Septuaginta) | [V] Harrington, 1999 |
| Autoria | anônima; atribuição pseudepigráfica a Manassés | [V] Harrington, 1999 |
| Datação | séc. II–I a.C. (maioria); até séc. I d.C. pré-70 | [V] Charlesworth, 1985 |
| Testemunho mais antigo | Didascalia siríaca, séc. III d.C. | [V] Newman, 2007 |
| Testemunho grego antigo | Constituições Apostólicas II,22 (séc. IV); Codex Alexandrinus (séc. V) | [V] Gutman e van Peursen, 2012 |
| Cânon | fora do hebraico; deuterocanônica ortodoxa (Odes); apêndice da Vulgata; apócrifa protestante | [V] SOTS; W — Brown, 1968 |
2. Contexto e Autoria
O rei que o texto pressupõe. Manassés reinou em Judá por meio século, no séc. VII a.C. (c. 697–642, com corregência com Ezequias no início) [W]. A Bíblia hebraica dá dele o pior retrato possível: 2 Rs 21 o descreve reconstruindo os lugares altos, erguendo altares a Baal, fazendo o filho “passar pelo fogo”, consultando adivinhos, pondo a imagem de Aserá no Templo e enchendo Jerusalém de sangue inocente (2 Rs 21,1–16) [W]. O texto deuteronomista o converte no causador do exílio: “por causa de tudo o que Manassés fez”, a catástrofe de 587 a.C. torna-se inevitável (2 Rs 21,10–16; 23,26–27; 24,3–4; cf. Jr 15,4) [W].
A contranarrativa do Cronista. 2 Cr 33,1–20 conta a mesma história com outro desfecho: os comandantes assírios capturam Manassés, prendem-no em grilhões e o levam à Babilônia; “na sua angústia, ele suplicou a Javé e humilhou-se profundamente” (2 Cr 33,11–13); Deus ouviu, restaurou-o a Jerusalém e Manassés desfez os ídolos e reparou o altar [W]. É a teologia do Cronista: o pecador que se volta é perdoado, e o perdão tem consequências visíveis — trono e culto restaurados [W]. Os versículos 18–19 acrescentam que a oração do rei estava registrada nos anais — o gancho de que a Oração se alimenta [V — SOTS; W].
O que a Oração é. Como resume Daniel J. Harrington, ela “representa o que um autor anônimo imaginou que Manassés deveria ter dito”: uma confissão e uma súplica, “muito provavelmente composta em grego, refletindo a língua e o estilo da Septuaginta” [V — Harrington, 1999, pp. 166–167]. A datação é o ponto de divergência: Charlesworth a situa entre o séc. II a.C. e o séc. I d.C., antes de 70 d.C. [V — Charlesworth, 1985]; Harrington, na “virada da era”, pelas frases tiradas da LXX [V — Harrington, 1999, p. 167]; Brown, no séc. I–II d.C. — para ele, composta “em grego por um judeu”, e traduzida de imediato para o siríaco, donde o testemunho da Didascalia [W — Brown, 1968, p. 541]. O limite duro é o séc. III d.C., data do testemunho mais antigo [V — SOTS].
A língua original. A maioria trabalha com original grego [V — Harrington, 1999; W — Brown, 1968]; uma minoria defende original semítico — Gutman e van Peursen concluem que “as duas versões siríacas remontam, no fim, a um original hebraico” [V — Gutman e van Peursen, 2012]. Não há manuscrito hebraico antigo da Oração grega: há (a) uma oração hebraica de Manassés em Qumran (4Q381), publicada por Eileen Schuller e considerada independente [V — Gutman e van Peursen, 2012; W — Schuller, 1986]; e (b) uma versão hebraica medieval, da genizá do Cairo, estudada por Reimund Leicht [V — Leicht, 1996].
Os dois contextos antigos. A Oração circulou, desde o séc. III, dentro de um manual de igreja: a Didascalia Apostolorum (séc. III, norte da Síria, original grego perdido, conservada em siríaco) cita-a por extenso no capítulo 7, na seção sobre penitência, como exemplo do poder de perdoar confiado aos bispos [V — Newman, 2007]. Judith Newman lê a inclusão em chave de polêmica: a Didascalia combate cristãos que observavam a “segunda lei” judaica, e a conversão do idólatra Manassés funciona como garantia de acolhimento para quem abandonava as práticas judaicas [V — Newman, 2007]. O material reaparece, ampliado e com moldura narrativa, nas Constituições Apostólicas (Antioquia, fim do séc. IV), livro II, capítulo 22, entre os exemplos de arrependimento — Davi, os ninivitas, Ezequias e “seu filho Manassés” [V — AC II,22; V — Funk, 1905, pp. 84–88].
3. Estrutura (15 versículos)
O texto é um único capítulo, em 15 versículos na versificação corrente (NRSV; KJV dos apócrifos) [V — SOTS; W]. A estrutura é a do salmo de lamento com virada penitencial, em cinco movimentos:
- Invocação e louvor do Criador (vv. 1–5). “Ó Senhor Todo-Poderoso, Deus de nossos pais, de Abraão, Isaac e Jacó” (v. 1); o Deus que “fizeste os céus e a terra”, “acorrentaste o mar com a palavra do teu mandamento” e “selaste o abismo” (vv. 2–3) [V — texto; DIGITAL — pt.wikisource]. A criação em imagens de ordenação do caos (cf. Jó 38,8–11; Sl 104,9) [W].
- A misericórdia e o arrependimento instituído (vv. 6–8). O eixo teológico: “a tua promessa misericordiosa é imensurável” (v. 6); “prometeste o perdão aos que pecaram contra ti e destinaste o arrependimento aos pecadores, para que possam ser salvos” (v. 7); e o contraste célebre: “tu, ó Senhor, Deus dos justos, não destinaste o arrependimento aos justos — Abraão, Isaac e Jacó, que não pecaram contra ti —, mas destinaste o arrependimento a mim, o pecador” (v. 8) [V — texto; DIGITAL — pt.wikisource].
- A confissão do pecador cativo (vv. 9–10). “Pequei mais do que o número das areias do mar” (v. 9); “estou preso por muitas cadeias de ferro, não posso erguer a cabeça” (v. 10) [V — texto; DIGITAL — pt.wikisource].
- A petição de perdão (vv. 11–13). A imagem mais famosa: “agora dobro o joelho do meu coração” (v. 11); “eu pequei, ó Senhor, eu pequei, e reconheço as minhas iniquidades” (v. 12); “perdoa-me, ó Senhor, perdoa-me… porque tu, ó Senhor, és o Deus dos que se arrependem” (v. 13) [V — texto; DIGITAL — pt.wikisource].
- Voto de louvor e doxologia (vv. 14–15). “Indigno como sou, me salvarás segundo a tua grande misericórdia” (v. 14); “todos os poderes dos céus te louvam, e tua é a glória para sempre. Amém” (v. 15) [V — texto; DIGITAL — pt.wikisource].
Dois traços formais merecem nota. Primeiro, a assimetria calculada: ao “Deus dos justos” (v. 8) responde o “Deus dos que se arrependem” (v. 13) [W — deSilva, 2002, p. 299]. Segundo, a tradição textual dupla: a forma das Constituições Apostólicas é mais breve — omite o contraste do v. 8 e emoldura a oração com o milagre da chama —, enquanto a forma do Saltério grego (as Odes) é a completa [V — AC II,22; V — Rahlfs, 1935]. A versificação em 15 versículos é das edições modernas; as divisões gregas variam ligeiramente [—].
4. Conteúdos-chave com Debate
4.1 Dois retratos de um rei (2 Rs 21 contra 2 Cr 33)
O livro pressupõe o contraste entre os dois Manassés bíblicos. 2 Rs 21,10–16 faz do reinado de Manassés a sentença de morte de Judá: o juízo é anunciado “por causa de tudo o que Manassés fez” [W]. 2 Cr 33,10–13 inverte o desfecho: a angústia do cativeiro produz a humilhação e a súplica, e Deus “se deixou aplacar” [W]. A leitura dominante vê em Crônicas a teologia da retribuição imediata e em Reis a deuteronomista do juízo acumulado [W]. A Oração é o terceiro retrato: não narra, reza; converte a história do rei num ato litúrgico de penitência [V — Newman, 2007].
4.2 A teologia da graça (vv. 7–8): o Deus dos justos e o Deus dos que se arrependem
O ponto central de toda a recepção está nos versículos 7–8, e é preciso citá-lo com cuidado. Na numeração corrente: “tu, ó Senhor, segundo a tua grande bondade, prometeste o perdão aos que pecaram contra ti e, na multidão das tuas misericórdias, destinaste o arrependimento aos pecadores, para que possam ser salvos” (v. 7); “tu, ó Senhor, Deus dos justos, não destinaste o arrependimento aos justos — Abraão, Isaac e Jacó, que não pecaram contra ti —, mas destinaste o arrependimento a mim, o pecador” (v. 8) [V — texto; DIGITAL — pt.wikisource]. A ideia não é que os justos dispensem a graça, mas que a misericórdia se define no caso extremo: um rei que adorou ídolos, sacrificou o filho e encheu Jerusalém de sangue é salvo porque pede perdão. (A fórmula devocional “salvar quem não pecou não é grande coisa” não corresponde literalmente ao grego — o contraste real é o do v. 8; §13.) David deSilva sublinha a originalidade: chamar a Deus de “Deus dos que se arrependem” (v. 13) é “uma forma original de descrever Deus, um contraponto ao ‘Deus dos justos’ (v. 8)” [V — deSilva, 2002, p. 299].
4.3 A confissão sem nomear o ídolo
A confissão (vv. 9–10) não enumera os pecados de Manassés — não menciona Baal, Moloque nem o sangue inocente —, mas diz: “fiz o mal diante de ti, erigindo abominações e multiplicando ofensas” (v. 10) [V — texto; DIGITAL — pt.wikisource]. O vocabulário é o da idolatria como abominação (βδελύγματα), o mesmo de 2 Cr 33,2–7 [W]. O efeito é intencional: quanto mais genérica a confissão, mais qualquer leitor pode fazê-la sua — é uma oração feita para ser reutilizada, e foi o que a Igreja antiga fez (§6) [V — Newman, 2007].
4.4 O debate da datação
As posições: (a) séc. II–I a.C., a tese majoritária, associada a Charlesworth [V — Charlesworth, 1985; V — Dunn, 2003, p. 859]; (b) virada da era, pela linguagem que ecoa a LXX [V — Harrington, 1999, p. 167]; (c) séc. I–II d.C., defendida por Brown [W — Brown, 1968, p. 541]. Charlesworth argumenta a favor de data anterior a 70 d.C. — um texto penitencial pós-70 dificilmente omitiria a destruição do Templo; Brown aponta a liberdade com que o autor maneja as fórmulas da LXX [V — Charlesworth, 1985; W — Brown, 1968]. Nenhuma data é demonstrável: o único limite duro é o séc. III d.C., data do testemunho mais antigo [V — SOTS].
4.5 O debate da língua e das versões
Original grego (maioria) contra original hebraico (minoria: Gutman e van Peursen) [V — Harrington, 1999; V — Gutman e van Peursen, 2012]. O dado novo da crítica textual é que o siríaco conheceu duas versões — a da Didascalia e a do Saltério siríaco —, o que obriga a reconstruir o grego com duas pontes [V — Gutman e van Peursen, 2012]. A tradição latina é ramificada: a forma da Vulgata e as dos saltérios moçárabes, mais breves e mais penitenciais [W — “The Latin Prayer of Manasseh”, academia.edu]. O livro sobrevive ainda em eslavo antigo, etíope (dentro de 2 Crônicas), armênio e árabe [W — en.wiki; V — THBO, Brill].
4.6 O debate canônico
Trento (1546) não incluiu a Oração entre os deuterocanônicos; a Vulgata sixto-clementina (1592/1598) imprimiu-a em apêndice, ao lado de 3 e 4 Esdras [W — CE, 1913; W — en.wiki]. No Oriente, o Saltério grego a traz entre as Odes, e é por essa via litúrgica que a tradição ortodoxa a trata como deuterocanônica [V — ISBE; W — en.wiki]. A Bíblia etíope a coloca junto a 2 Crônicas [W — pt.wikisource; W — en.wiki]. No protestantismo, Lutero a incluiu na sua Bíblia alemã (que chegou a 74 livros), e ela está na Bíblia de Mateus (1537), na de Genebra (1599) e nos apócrifos da King James (1611) [W — en.wiki]. A atribuição da aceitação ortodoxa ao Sínodo de Jerusalém de 1672 não foi confirmada em fonte primária nesta sessão [—].

5. Temas
- O arrependimento como milagre. O texto inteiro é uma teologia do retorno: o pecador que se humilha é perdoado, e o perdão usa o vocabulário da ressurreição (v. 14) [V — texto]. A tradição ortodoxa o formulou de modo lapidar: “o grande milagre é o arrependimento” (Sophrony de Essex) [V — Fr. John, 2015].
- Misericórdia e justiça. O par “Deus dos justos” (v. 8) e “Deus dos que se arrependem” (v. 13) é o eixo: a misericórdia não anula a justiça, mas define-se diante do caso extremo [V — deSilva, 2002, p. 299].
- Pecado, idolatria e abominação. A confissão genérica (“erigi abominações”, v. 10) carrega o vocabulário deuteronomista da idolatria como poluição do Templo [W].
- Criação e soberania. O louvor inicial (vv. 1–5) enraíza a misericórdia na criação: o mesmo Deus que acorrentou o mar pode desatar as cadeias do cativo (vv. 3 e 10) [V — texto].
- Confissão e restauração. Diferente do Sl 51, cujo fim é a pureza interior, aqui o perdão tem consequência pública: o rei volta ao trono e restaura o culto — a teologia do Cronista em forma de oração [W — 2 Cr 33,13–16].
- A oração como modelo reutilizável. Confissão de um rei específico, funciona como forma vazia que qualquer penitente preenche — por isso os manuais de igreja a citaram (§6) [V — Newman, 2007].
6. Recepção
Tradição siríaca — o primeiro leitor. O testemunho mais antigo do texto é a Didascalia Apostolorum (séc. III, norte da Síria; original grego perdido, conservado em siríaco), que cita a Oração por extenso no capítulo 7, na instrução sobre o poder dos bispos de perdoar pecados [V — Newman, 2007]. Segue-se um relato parafrástico que funde Reis, Crônicas, targuns e fontes gregas [V — Newman, 2007]. O siríaco desenvolveu depois duas versões da Oração, editadas por Gutman e van Peursen (Gorgias Press, 2012) [V — Gutman e van Peursen, 2012]; a Peshitta publicou o texto na seção IV, fascículo 6 (Brill, 2017) [V — SOTS].
Tradição copta e árabe. A história textual da Brill (Textual History of the Bible) registra a Oração em manuscritos tardios, vários hoje no Patriarcado Copta Ortodoxo, na transmissão árabe [V — THBO, Brill]. Não verifiquei uma edição específica em língua copta; a atestação direta fica como lacuna [—].
Tradição grega e ortodoxa — o livro das Odes. No mundo grego, a Oração entrou no apêndice de Odes (ᾨδαί) que fecha o Saltério em manuscritos como o Codex Alexandrinus (séc. V) — uma coleção de catorze hinos, na qual a Oração ocupa o oitavo lugar [V — ISBE; V — “The Latin Prayer of Manasseh”, academia.edu]. Cuidado com a numeração: na edição de Rahlfs, a Oração é a Ode 12 [V — NETS, introdução aos Salmos]; e no cânon bizantino de nove odes das Matinas ela não figura — a “Ode 8” bizantina é o Cântico dos Três Jovens (Dn 3,57–88) [W — liturgia bizantina; W — sanctushieronymus, 2018].
A liturgia da Quaresma. Na Igreja Ortodoxa e nas igrejas católicas bizantinas, a Oração é cantada na Grande Complina (Apódeipnon) — o ofício noturno das segundas, terças, quartas e quintas-feiras da Grande Quaresma — e soa no período do Grande Cânone de Santo André [V — GOARCH; V — Fr. John, 2015]. O arcipreste Sophrony de Essex (1896–1993) repetia que “o grande milagre é o arrependimento”: “uma ressurreição antes da ressurreição” [V — Fr. John, 2015; W — Sophrony].
Tradição latina e católica romana. A Vulgata colocou a Oração ao fim de 2 Crônicas; a edição clementina (1592) imprimiu-a no apêndice com 3 e 4 Esdras, sem status canônico [W — CE, 1913; W — en.wiki]. A liturgia romana nunca a abandonou: o responsório do Ofício das Leituras do 14.º domingo do Tempo Comum a combina com o Sl 51, e o breviário tridentino a cita nos responsórios dos Reis [W — en.wiki]. A Enciclopédia Católica (1913) a descreve como “uma bela oração penitencial” [DIGITAL — CE, 1913].
Tradição anglicana. À pergunta “a Oração está no Livro de Oração Comum?”: no BCP de 1662 não está; entrou na tradição anglicana pelos apócrifos da King James (1611) [W — en.wiki]. O Book of Common Prayer de 1979 (Igreja Episcopal dos EUA) a incorporou à Oração da Manhã (Rito II) como Cântico 14, “A Song of Penitence” (Kyrie Pantokrator), feito de Pr Man 1–2, 4, 6–7, 11–15 [V — BCP 1979, Rito II; V — MDPI, 2026]. No Common Worship: Daily Prayer da Igreja da Inglaterra, ela é o Cântico 52 [W — en.wiki].
Tradição protestante. Lutero incluiu a Oração na sua Bíblia alemã; ela está na Bíblia de Mateus (1537), na de Genebra (1599) e nos apócrifos da KJV [W — en.wiki]. R. H. Charles a editou no volume 1 dos Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament (1913), com tradução de H. E. Ryle (pp. 612–624) [V — Ryle, 1913; W — Metzger, 1977].
Tradição judaica. A Oração não entrou no cânon, mas o debate sobre o próprio Manassés é intenso: a Mishná (m. Sanhedrin 10,2) o lista entre os reis sem parte no mundo vindouro; o Talmude Babilônico (b. Sanhedrin 102b–103a) registra a disputa — o rabino Yohanan cita 2 Cr 33,13 para defender que Manassés recuperou a sua parte, e a objeção responde que o arrependimento lhe devolveu o reino, não o mundo vindouro [V — b. Sanhedrin 102b, Sefaria].
Arte e teatro. Manassés, o cativo que reza, entrou na iconografia: Karel van Mander desenhou “Manassés, pecador arrependido do Antigo Testamento” — o rei acorrentado no cárcere —, obra no Getty (Los Angeles) [V — Getty]. Maarten de Vos pintou King Manasseh in Exile (1603, atribuição conforme registro enciclopédico; não conferida em catálogo de museu) [W — WikiArt]. No teatro, Manassés aparece nas peças escolares jesuítas dos sécs. XVII–XVIII: um manuscrito dramático setecentista contém uma peça Manasses ao lado de Sedecias [W — JSTOR, j.ctt1w8h225.18]. A lenda da morte de Isaías por suas mãos — na Ascensão de Isaías e em b. Yebamot 49b — alimentou a literatura sobre o rei [V — Newman, 2007, n. 9–10; W — Knibb, 1985].
Teologia contemporânea do arrependimento. A Oração voltou ao centro nas teologias recentes do perdão: Miroslav Volf, em Exclusion and Embrace (1996), trata o arrependimento como condição da reconciliação sem vingança [W]; Walter Kasper, em Misericórdia (2012/2014), relê a misericórdia como atributo central de Deus, com a Oração como elo litúrgico vivo da tradição penitencial [W — Kasper, 2014].

7. Traduções PT e Comentários PT
O que existe em português — e o que não existe. A Oração não está nas Bíblias católicas brasileiras de uso corrente — Jerusalém, Ave-Maria, TEB, Pastoral — porque essas edições seguem o cânon de Trento, que a excluiu [W — cânon católico]. Não localizei Bíblia ortodoxa completa em português que a inclua; a via ortodoxa em PT é litúrgica (folhetos da Grande Complina) [—]. As edições históricas da Bíblia de Almeida com apêndice de apócrifos incluíam os apócrifos, mas não confirmei o rol exato de livros desses apêndices [—].
Tradução acadêmica PT-BR verificada. Nirio de Jesus Moraes, “A Oração de Manassés: estudo histórico-teológico, tradução e comentários”, Revista Encontros Teológicos 36, n. 3 (2021) — artigo de acesso aberto com DOI 10.46525/ret.v36i3.1674 — traduz a Oração do grego de Alfred Rahlfs (1935), com princípios de Eugene Nida, e comenta o texto [ACAD — Moraes, 2021].
Tradução PT-PT da Septuaginta. Frederico Lourenço incluiu a Oração no Volume IV, Tomo 2, da Bíblia Grega (Quetzal, 2019, 528 pp., ISBN 9789897225741), que reúne Salmos, Salmos de Salomão, Odes e Provérbios — o livro das Odes é “uma marca singular da Bíblia Grega que nem todos os manuscritos dos Septuaginta preservaram”, segundo a editora [V — Quetzal; V — ORCID, Lourenço]. É a única tradução em livro, em português, da Oração a partir do grego [V].
Tradução em domínio público. O Wikisource em português publica a “Oração de Manassés” em tradução de domínio público (linhagem da KJV dos apócrifos), livre para leitura online [DIGITAL — pt.wikisource].
Comentários-âncora em inglês (sem tradução PT localizada). Charlesworth, “Prayer of Manasseh (Second Century B.C.–First Century A.D.)”, em The Old Testament Pseudepigrapha 2 (Doubleday, 1985; Hendrickson, 2010), pp. 625–637 [V — ISBN 9781598564907, OL]; Ryle, “The Prayer of Manasses”, em Charles (org.), APOT 1 (1913), pp. 612–624 [DIGITAL]; deSilva, Introducing the Apocrypha (2002), capítulo dedicado, pp. 293–300 [V — ISBN 080102319X, OL]; Harrington, Invitation to the Apocrypha (1999), pp. 165–171 [V — ISBN 0802846335, OL]; Dancy, The Shorter Books of the Apocrypha (Cambridge UP, 1972) [V — ISBN 9780521097291, OL]; Dunn (org.), Eerdmans Commentary on the Bible (2003), p. 859 [V — ISBN 9780802837110, OL]. Traduções PT destes: não localizadas [—].

8. Audiovisual e Games
| Título | Realidade | Validação PT | Marcador |
|---|---|---|---|
| Grande Complina (gravações litúrgicas ortodoxas, YouTube) | o ofício quaresmal que inclui a Oração | há canais ortodoxos em PT; não conferi gravação específica | [—] |
| “A Oração de Manassés” (leituras devocionais em vídeo/áudio, YouTube) | leituras da oração em canais religiosos | existem vídeos em PT; curadoria informal | [W] |
| Audiobooks da Bíblia com apócrifos (linhagem KJV) | incluem a Oração em inglês | versão PT em audiobook não localizada | [—] |
| Filmes dedicados à Oração | nenhum localizado | — | [—] |
| Videojogos com enredo da Oração | nenhum título dedicado localizado | — | [—] |
O material em PT é devocional e litúrgico, sem produção audiovisual dedicada ao texto [W].
9. Mitologia e Literatura Comparada
As orações penitenciais do Antigo Oriente Próximo
A Oração é membro tardio de um gênero panoriental: a oração penitencial do indivíduo. Na Mesopotâmia, o gênero é documentado pelos šuilla (“orações de mão erguida”), estudadas por Werner Mayer (Untersuchungen zur Formensprache der babylonischen “Gebetsbeschwörungen”, Roma, 1976), e pelos encantamentos DINGIR.ŠÀ.DIB.BA (“a ira do meu deus”), publicados por W. G. Lambert (JNES 33, 1974) [W]. O penitente mesopotâmico, porém, geralmente não sabe do que é culpado: pede ao deus pessoal que revele a falta e a desfaça [W — Lambert, 1974]. A Oração inverte o esquema: o pecado é nomeado pela tradição (a idolatria de 2 Cr 33), e a súplica é de perdão declarado [W].
Os paralelos bíblicos: Dn 9, Ne 9, Esd 9 e os salmos penitenciais
Dentro da Escritura, a Oração pertence à família das confissões: Dn 9,4–19 (a confissão de Daniel, com o mesmo vocabulário de misericórdia e perdão); Ne 9,6–37 (a confissão da assembleia pós-exílica); Esd 9,6–15 (a súplica de Esdras) [W]. No Saltério, ela entra no grupo dos sete salmos penitenciais — Sl 6, 32, 38, 51, 102, 130, 143 —, repertório fixado pela tradição cristã (Cassiodoro) [W]. O gênero é o lamento individual descrito por Hermann Gunkel em Einleitung in die Psalmen (1933): invocação, queixa, confissão, súplica, voto [W — Gunkel, 1933]. Raymond Brown apontou os paralelos próximos com a Oração de Azarias (Dn 3,24–45 LXX): “a piedade é a do judaísmo tardio” [W — Brown, 1968, p. 541]. A tradição registra ainda ecos da Oração em José e Asenete 12,5.12 e em 2 Baruque 64,8 [V — SOTS].
O par Sl 51 / Oração de Manassés
As duas grandes orações penitenciais do AT formam um par deliberado: o Sl 51 é davídico — o salmo do rei que pecou contra o próximo (Bate-Seba, Urias) e contra Deus — e a Oração é manassética — a do rei que pecou contra Deus pelos ídolos e contra o povo pelo sangue inocente [W]. O Sl 51 pede “coração puro” e sabe que “o sacrifício a Deus é o espírito contrito”; a Oração pede perdão com o corpo todo — “dobro o joelho do meu coração” (v. 11) — e espera a restauração pública do trono [V — texto]. A recepção cristã juntou as duas no mesmo ofício: o responsório romano do 14.º domingo do Tempo Comum combina a Oração com o Sl 51 [W — en.wiki].
Manassés e Acab: os dois grandes pecadores
A tradição rabínica emparelha Manassés e Acab como os reis cuja perversidade não tem atenuante (b. Sanhedrin 102b: “assim como Acab não tem parte no mundo vindouro, também Manassés”) [V — b. Sanhedrin, Sefaria]. A lenda de que Manassés matou o profeta Isaías (serrado, segundo a Ascensão de Isaías e b. Yebamot 49b) torna a sua conversão ainda mais escandalosa [V — Newman, 2007, n. 9–10; W — Knibb, 1985].
O motivo do pecador que retorna
Manassés como o “filho pródigo” do AT — o rei que desce ao fundo e é recebido de volta — tem paralelo direto na parábola de Lc 15, e a piedade ortodoxa o leu assim (“o filho pródigo de um pai que orava”) [V — Fr. John, 2015]. No mundo helenístico-judaico, o esquema “o poderoso humilhado e restaurado pela súplica” é o de José e Asenete e, na Mesopotâmia, do Ludlul bel nemeqi (“louvarei o senhor da sabedoria”), em que o cortesão caluniado é restaurado por Marduk [W — Lambert, 1960; V — SOTS]. A diferença permanece: no Ludlul a restauração é de um inocente; na Oração, de um culpado confessado [W].

10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta
O arrependimento é virtude? Espinosa contra a Oração
Baruch Espinosa, na Ética (1677), parte III, proposição 54, sustenta o contrário do texto: “o arrependimento não é uma virtude, isto é, não nasce da razão; quem se arrepende é duplamente miserável” [DIGITAL — Espinosa, 1677]. Se o arrependimento é impotência (Espinosa) ou porta de salvação (Pr Man 7–8, 13), não se decide por demonstração — é uma disputa sobre o que a pessoa humana é [W].
O mal radical e a mudança de disposição: Kant
Immanuel Kant, em A religião nos limites da simples razão (1793), enfrenta o mesmo problema em chave moral: o “mal radical” não se remove por remorso pontual, mas por uma revolução da disposição (Gesinnung) [W — Kant, 1793]. A Oração descreve esse momento com precisão clínica — a confissão (vv. 9–12) precede a petição de um novo começo (vv. 13–15) —, mas Kant recusaria o vocabulário: o perdão não se pede a Deus, constrói-se na reforma do caráter [W].
Misericórdia e o problema do mal: Mackie e Rowe
O Deus da Oração é “de grande compaixão, longânimo e muito misericordioso” (v. 7) [V — texto]. Os filósofos analíticos perguntaram se esse Deus é consistente com o mal: John L. Mackie, em “Evil and Omnipotence” (Mind 64, 1955), formulou o problema lógico; William L. Rowe, em “The Problem of Evil and Some Varieties of Atheism” (APQ 16, 1979), converteu-o em argumento evidencial [W]. A Oração não é uma teodiceia: não explica por que o mal existe; afirma apenas que o perdão está à altura de qualquer mal confessado — resposta de outra ordem, não uma demonstração [W].
O bode expiatório: Girard
René Girard, em Le bouc émissaire (1982), descreveu o mecanismo pelo qual uma comunidade em crise se unifica contra um acusado — a vítima que carrega a culpa coletiva [W]. A narrativa deuteronomista faz exatamente isso com Manassés: ele é o bode expiatório de Judá — “por causa de tudo o que Manassés fez”, Jerusalém cairá (2 Rs 21,11–16; 24,3–4; Jr 15,4) [W]. A Oração subverte o mecanismo pelo avesso: o acusado aceita a acusação (“eu pequei, ó Senhor, eu pequei”, v. 12), e em vez de ser expulso, é reintegrado — a confissão desarma o linchamento [V — texto; W — Girard, 1982].
Abominação e classificação: Mary Douglas
Mary Douglas, em Purity and Danger (1966), mostrou que as “abominações” bíblicas são antes de tudo violações de classificação: o impuro é o que atravessa fronteiras estabelecidas [W]. Manassés é o transgressor máximo das fronteiras sagradas: põe a imagem no Templo (2 Cr 33,7) — o sagrado invadido pelo profano — e o livro o faz confessar “erigi abominações” (v. 10) [V — texto]. Na leitura de Douglas, a confissão restaura a ordem simbólica: nomear a poluição é o primeiro passo para re-classificar o mundo [W — Douglas, 1966].
O perdão que desfaz o tempo: Levinas
Emmanuel Levinas, em “Repentance and Forgiveness: The Undoing of Time” (International Journal for Philosophy of Religion 28, 1990), definiu o arrependimento como a experiência de que o tempo pode ser desfeito — o ato permanece, mas deixa de pesar sobre o futuro do culpado [W — Levinas, 1990]. Na ética levinasiana do rosto, o perdão não é um direito do ofensor, mas uma responsabilidade do outro, que acolhe o arrependido antes de qualquer merecimento — estrutura exata da Oração: Manassés não invoca mérito, mas a misericórdia (v. 14) [V — texto; W — Levinas, 1990].
11. Teologia — os debates
O arrependimento como dom e o problema do perdão barato
O texto afirma que Deus “destinou o arrependimento aos pecadores” (v. 7) — o arrependimento é instituído pela misericórdia, antes de ser praticado pelo homem [V — texto]. Quanto há de graça e quanto de esforço nesse destino? A tradição ortodoxa lê aí a sinergia — Deus oferece, o homem acolhe [W — Fr. John, 2015]; a protestante clássica sublinha que até o acolhimento é dom — e a Oração, rezada por um rei idólatra, torna-se o exemplo do pecador justificado sem mérito [W].
A objeção mais antiga é simétrica: se Deus perdoa um rei que matou profetas e sacrificou o próprio filho, o que resta da ameaça do castigo? A tradição deuteronomista respondia com o juízo (2 Rs 21); a Oração responde com o perdão que não anula a memória — Manassés é perdoado, mas o exílio acontece (2 Rs 23,26–27; 24,3–4) [W]. O debate sobre o “perdão barato” (a crítica de Dietrich Bonhoeffer à billige Gnade) encontra no livro a tensão exata: a graça é gratuita, mas a confissão custa tudo — “dobrar o joelho do coração” (v. 11) é a condição, não o preço [W — Bonhoeffer, 1937].
Penitência e autoridade: a Igreja antiga e a restauração
A recepção mais influente do livro foi eclesial: a Didascalia (séc. III) e as Constituições Apostólicas (séc. IV) citam a Oração dentro da disciplina penitencial — o poder dos bispos de receber de volta o pecador arrependido [V — Newman, 2007]. Newman mostra que a escolha tinha função precisa na Síria do séc. III: garantir que o idólatra arrependido — o observante da “segunda lei” que voltava — fosse acolhido sem humilhação [V — Newman, 2007]. A Oração funcionou como texto de direito penitencial antes de ser hino de saltério [V].
O desfecho do livro — o perdoado volta ao trono e restaura o culto (2 Cr 33,13–16; v. 14) — articula a teologia do Cronista: o perdão não é só interior, tem consequências sociais e cultuais [W]. A teologia contemporânea retomou o motivo: Miroslav Volf (Exclusion and Embrace, 1996) trata o arrependimento como condição da reconciliação que não repete a violência; Walter Kasper (Misericórdia, 2012/2014) relê o “Deus dos que se arrependem” como o coração do Evangelho [W].
11.1. Comentaristas por esfera confessional
Esta subseção organiza os comentários e leituras da Oração por tradição de leitura. A regra de rotulagem é a do método desta camada: a perspectiva se declara, não se atribui — o rótulo situa a leitura, nunca refuta o que o autor demonstra. Convenções: [V] conferido nesta sessão; [W] conhecido, não reconferido; [—] lacuna.
Judaica
- A Oração está fora do cânon judaico; a discussão rabínica concentra-se no rei: b. Sanhedrin 102b–103a (a disputa sobre a parte de Manassés no mundo vindouro) [V — Sefaria]. Rashi comenta 2 Cr 33 [W]. O quadro do t’shuvá como poder de desfazer o passado é o de Maimônides, Hilchot Teshuvá [W]. A versão hebraica medieval (Leicht, 1996) documenta a circulação do texto [V — Leicht, 1996].
Católica ocidental (latina)
- Raymond E. Brown, “The Apocrypha”, no Jerome Biblical Commentary (1968), vol. 1, p. 541 — o resumo clássico: original grego, séc. I–II d.C. [W — Brown, 1968].
- Daniel J. Harrington, Invitation to the Apocrypha (Eerdmans, 1999), pp. 165–171 — introdução católica de referência [V — Harrington, 1999].
- Enciclopédia Católica (1913), verbete “Manasses” — o registro do texto como apócrifo penitencial do apêndice da Vulgata [DIGITAL — CE, 1913].
Católica oriental e grega patrística
- Constituições Apostólicas II,22 (séc. IV) — o texto grego patrístico que cita a Oração por extenso [V — AC II,22; V — Funk, 1905].
- Didascalia Apostolorum (séc. III) — o testemunho mais antigo, estudado por Judith H. Newman (JCSSS 7, 2007) [V — Newman, 2007].
- Não há comentário patrístico contínuo: os Padres a citam nos manuais de disciplina, não em comentários [—].
Ortodoxa
- A recepção ortodoxa é litúrgica: a Oração cantada na Grande Complina da Quaresma [V — GOARCH; V — Fr. John, 2015] e lida no período do Grande Cânone de Santo André [V — Fr. John, 2015].
- Sophrony de Essex (1896–1993) — “o grande milagre é o arrependimento” [V — Fr. John, 2015; W — Sophrony].
- Comentário devocional: Fr. John, “The Prayer of Manassas: Bowing the Knee of the Heart” (2015) [V — ocanwa.org]. Não localizei comentário crítico moderno ortodoxo dedicado [—].
Protestante histórica
- H. E. Ryle, “The Prayer of Manasses”, em R. H. Charles (org.), APOT 1 (1913), pp. 612–624 — a edição protestante de referência [DIGITAL — Ryle, 1913].
- J. C. Dancy, The Shorter Books of the Apocrypha (Cambridge UP, 1972) [V — Dancy, 1972]; James King West, Introduction to the Old Testament (1971), pp. 470–471 — o “escritor de habilidade incomum e piedade” [W — West, 1971]; Bruce Metzger, edições RSV/NRSV com apócrifos [W — Metzger, 1977].
Evangélica
- David A. deSilva, Introducing the Apocrypha (Baker Academic, 2002), pp. 293–300 — capítulo dedicado, com o “Deus dos que se arrependem” (v. 13) como originalidade teológica [V — deSilva, 2002, p. 299].
- George Lyons (Northwest Nazarene University) — notas de estudo em acesso aberto [V — nnu.edu]. Não há comentário evangélico dedicado em português [—].
Balanço de esferas (contagem declarada)
| Esfera | Nomes citados |
|---|---|
| Judaica | b. Sanhedrin 102b [V], Rashi [W], Maimônides [W], Leicht [V] |
| Católica ocidental | Brown [W], Harrington [V], CE 1913 [DIGITAL] |
| Católica oriental / grega | Constituições Apostólicas [V], Didascalia [V], Newman [V] |
| Ortodoxa | GOARCH [V], Fr. John [V], Sophrony [W] |
| Protestante histórica | Ryle [DIGITAL], Charles [DIGITAL], Dancy [V], West [W], Metzger [W] |
| Evangélica | deSilva [V], Lyons [V] |
O desequilíbrio — o Oriente sem comentários contínuos, o Ocidente com séries — não é do dossiê: é do material, e por isso fica dito. Onde não há comentário dedicado, a lacuna se declara [—] em vez de se preencher com nomes de outras obras.
12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não têm competência
A regra desta seção: declarar os limites. A ciência não decide se a Oração é inspirada; decide o que os manuscritos contêm, quando foram escritos e o que o texto grego significa.
Os manuscritos e as versões
O quadro testemunhal: (a) a Didascalia siríaca (séc. III d.C.), que cita a Oração no capítulo 7 — o testemunho mais antigo, em tradução siríaca de um original grego perdido [V — Newman, 2007]; (b) as Constituições Apostólicas (Antioquia, fim do séc. IV), livro II, capítulo 22, na edição de Funk (Didascalia et Constitutiones Apostolorum, Paderborn, 1905, pp. 84–88) [V — Funk, 1905]; (c) o Codex Alexandrinus (séc. V), o mais antigo manuscrito grego, com a Oração entre as catorze Odes que seguem os Salmos — como oitava [V — ISBE; V — academia.edu]; (d) o Codex Turicensis (Saltério de Zurique, séc. VII) [V — ISBE]; (e) a edição de Rahlfs (1935), que numera a Oração como Ode 12 [V — NETS; V — Rahlfs, 1935]; (f) as versões latina (apêndice da Vulgata; saltérios moçárabes com forma abreviada), eslava antiga, etíope (dentro de 2 Crônicas), armênia e árabe (manuscritos tardios, vários no Patriarcado Copta Ortodoxo) [V — THBO, Brill; W — academia.edu; W — en.wiki]. O siríaco conheceu duas versões, editadas por Gutman e van Peursen (2012) [V].
A estrutura dos saltérios gregos e o lugar da Oração
Os saltérios gregos circularam em duas formas: a simples e a ampliada, com o apêndice das Odes — a “pequena hinologia” da Igreja antiga [V — NETS]. A coleção não é fixa: manuscritos trazem catorze hinos (Codex Alexandrinus e edição de Rahlfs, com numerações diferentes), e o uso bizantino consolidou um cânon de nove odes para as Matinas — do qual a Oração está ausente (as odes 7–8 bizantinas são as duas peças de Dn 3) [V — NETS; W — liturgia bizantina]. A Oração vive, portanto, na fronteira: hino de saltério em parte da tradição grega, fora do cânon de nove odes na prática bizantina [V].
A linguística
O grego da Oração é koiné com forte coloração de Septuaginta: o autor constrói frases com fórmulas dos Salmos e do Pentateuco gregos (Harrington fala em “língua e estilo da Septuaginta”) [V — Harrington, 1999; W — Brown, 1968]. A questão do original semítico permanece aberta: Gutman e van Peursen argumentam que as duas versões siríacas remontam a um original hebraico, mas nenhum manuscrito hebraico antigo da Oração grega existe — o hebraico de Qumran (4Q381) é uma oração independente, e o hebraico medieval da genizá é versão tardia [V — Gutman e van Peursen, 2012; V — Leicht, 1996]. A datação linguística dá apenas estimativas relativas (“virada da era”), nunca datas absolutas [V — Harrington, 1999].
O rei e o registro assírio
Há um dado extrabíblico verificável: as inscrições de Assurbanípal (o cilindro Rassam, c. 667 a.C.) listam “Manassés, rei de Judá” entre os vassalos que forneceram tropas para a campanha do Egito — o que corrobora a subordinação política de Judá à Assíria que 2 Cr 33,11 pressupõe [W — anais assírios]. A ida específica a Babilônia, a prisão e a libertação de 2 Cr 33 não constam dos anais: são parte da narrativa bíblica, nem confirmadas nem desmentidas pelo registro epigráfico [W].
Onde a ciência NÃO tem competência
- A ciência não decide se Manassés “realmente” se arrependeu nem se a Oração foi “realmente” proferida por ele: a mudança interior de um rei morto há 2.700 anos não é verificável empiricamente, e a questão de saber se Deus ouviu e perdoou é de fé, não de paleografia — o texto é teologia do arrependimento, não crônica [W].
- A crítica textual não produz a “oração original” — reconstrói um texto crítico a partir de testemunhos divergentes, e a reconstrução é hipótese, não fotografia [V — Gutman e van Peursen, 2012].
- A datação não responde se o livro é “verdadeiro”: situar a composição no séc. II–I a.C. localiza um objeto literário; não prova nem refuta a sua verdade religiosa [V — Charlesworth, 1985].
- E o inverso vale: a ciência não refuta o livro. Datar, comparar e editar não é desmentir — é dar ao texto a sua espessura histórica [W].


13. Lacunas e Correções de Atribuição
- [—] A fórmula “salvar quem não pecou não é grande coisa”: circula em paráfrases devocionais, mas não corresponde literalmente ao grego. O contraste real do texto (v. 8) é entre o arrependimento “destinado” aos justos (Abraão, Isaac, Jacó) e o destinado ao pecador; o “Deus dos que se arrependem” está no v. 13.
- [W] “Ode 8”: a Oração é a oitava das catorze Odes do Codex Alexandrinus e de saltérios gregos (ISBE); na edição de Rahlfs é a Ode 12 (NETS); não é a Ode 8 do cânon bizantino de nove odes — essa é o Cântico dos Três Jovens (Dn 3,57–88). Não repetir a confusão.
- [—] Bíblias católicas PT: não localizei edição brasileira (Jerusalém, Ave-Maria, TEB) que inclua a Oração; o apêndice da Vulgata não foi reproduzido nas edições PT correntes que consultei.
- [—] Bíblia ortodoxa completa em PT: não localizada; a via ortodoxa em português é litúrgica.
- [W] Sínodo de Jerusalém (1672): a atribuição, que circula em fontes lusófonas, da aceitação ortodoxa da Oração a esse sínodo não foi confirmada em fonte primária.
- [—] Atestação copta: não verificada em edição própria; confirmei apenas a presença em manuscritos tardios (vários no Patriarcado Copta Ortodoxo) na transmissão árabe (THBO, Brill).
- [W] Maarten de Vos, King Manasseh in Exile (1603): atribuição e data conforme registro enciclopédico (WikiArt); não conferidas em catálogo de museu.
- [W] Peça jesuíta Manasses: a referência a um manuscrito dramático setecentista com a peça ao lado de Sedecias vem de estudo de catálogo (JSTOR, j.ctt1w8h225.18); não consultei o manuscrito.
- [—] Responsório romano: o uso no Ofício das Leituras (14.º domingo do Tempo Comum) e no breviário tridentino segue o registro enciclopédico (en.wiki); não conferi breviário impresso.
- [W] Manassés nos anais de Assurbanípal: a presença no cilindro Rassam é leitura assiriológica corrente; não conferi o cilindro original.
- [—] Traduções PT dos comentários-âncora (Charlesworth, deSilva, Harrington, Dancy, Dunn): não localizadas.
- [—] Versificação: o padrão de 15 versículos é das edições modernas (NRSV/KJV); as divisões das edições gregas variam.
Bibliografia-âncora verificada
- Moraes, Nirio de Jesus, “A Oração de Manassés: estudo histórico-teológico, tradução e comentários”, Revista Encontros Teológicos 36, n. 3 (2021). [ACAD] DOI 10.46525/ret.v36i3.1674: https://doi.org/10.46525/ret.v36i3.1674.
- Charlesworth, James H., “Prayer of Manasseh (Second Century B.C.–First Century A.D.)”, em The Old Testament Pseudepigrapha, vol. 2 (Doubleday, 1985; Hendrickson, 2010), pp. 625–637. [V] ISBN 9781598564907; OL: https://openlibrary.org/works/OL1803728W.
- Ryle, H. E., “The Prayer of Manasses”, em R. H. Charles (org.), Apocrypha and Pseudepigrapha of the OT, vol. 1 (Clarendon, 1913), pp. 612–624. [DIGITAL] https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/19/Apocrypha-and-Pseudepigrapha-Charles-A.pdf.
- Gutman, Ariel; van Peursen, Wido Th., The Two Syriac Versions of the Prayer of Manasseh (Gorgias Press, 2012). [V] ISBN 9781463216870; https://dokumen.pub/the-two-syriac-versions-of-the-prayer-of-manasseh-9781463216870.html.
- Newman, Judith H., “Three Contexts for Reading Manasseh’s Prayer in the Didascalia”, Journal of the Canadian Society for Syriac Studies 7 (2007). [V] https://csss.nmc.utoronto.ca/wp-content/uploads/2017/08/Digital_Newman_2007.pdf.
- Harrington, Daniel J., Invitation to the Apocrypha (Eerdmans, 1999). [V] ISBN 0802846335; OL: https://openlibrary.org/works/OL8380299W.
- deSilva, David A., Introducing the Apocrypha (Baker Academic, 2002). [V] ISBN 080102319X; OL: https://openlibrary.org/works/OL8380299W.
- Dancy, J. C., The Shorter Books of the Apocrypha (Cambridge UP, 1972). [V] ISBN 9780521097291; OL: https://openlibrary.org/works/OL8317723W.
- Dunn, James D. G.; Rogerson, J. W. (orgs.), Eerdmans Commentary on the Bible (Eerdmans, 2003), p. 859. [V] ISBN 9780802837110; OL: https://openlibrary.org/works/OL20946881W.
- Brown, Raymond E., “The Apocrypha”, no Jerome Biblical Commentary 1 (Prentice-Hall, 1968), p. 541. [W]
- West, James King, Introduction to the Old Testament (Macmillan, 1971), pp. 470–471. [W]
- Funk, Franz Xaver (ed.), Didascalia et Constitutiones Apostolorum (Paderborn, 1905), pp. 84–88. [HIST]
- Rahlfs, Alfred (ed.), Septuaginta (Stuttgart, 1935) — as Odes (a Oração como Ode 12). [HIST]
- Leicht, Reimund, “A Newly Discovered Hebrew Version of the Apocryphal ‘Prayer of Manasseh’”, Jewish Quarterly Review (1996). [V] JSTOR: https://www.jstor.org/stable/40753171.
- Levinas, Emmanuel, “Repentance and Forgiveness: The Undoing of Time”, International Journal for Philosophy of Religion 28 (1990). [W]
- Constituições Apostólicas, livro II, capítulo 22 — trad. inglesa em New Advent. [DIGITAL] https://www.newadvent.org/fathers/07152.htm.
- Enciclopédia Católica (1913), verbete “Manasses”. [DIGITAL] https://www.newadvent.org/cathen/09583c.htm.
- Oração de Manassés (tradução PT de domínio público), Wikisource. [DIGITAL] https://pt.wikisource.org/wiki/Ora%C3%A7%C3%A3o_de_Manass%C3%A9s.
- SOTS — Society for Old Testament Study, “Prayer of Manasseh” (verbete wiki). [V] https://www.sots.ac.uk/wiki/prayer-of-manasseh/.
- GOARCH, “Great Compline” (texto litúrgico). [V] https://www.goarch.org/-/order-of-the-after-dinner-prayer-office-of-the-great-compline.
- Fr. John (St. John Orthodox Church), “The Prayer of Manassas: Bowing the Knee of the Heart” (2015). [V] https://www.ocanwa.org/single-post/2015/03/02/the-prayer-of-manassas-bowing-the-knee-of-the-heart.
- Talmude Babilônico, Sanhedrin 102b (trad. Davidson). [V] Sefaria: https://www.sefaria.org/Sanhedrin.102b.
- ISBE, “Manasses, the Prayer of”. [V] https://www.internationalstandardbible.com/M/manasses-the-prayer-of.html.
- THBO — Textual History of the Bible (Brill), “11.1 Textual History of the Prayer of Manasseh”. [V] https://referenceworks.brill.com/display/entries/THBO/COM-0211010000.xml.
- Lourenço, Frederico (trad.), Bíblia — Volume IV, Tomo 2 (Salmos, Salmos de Salomão, Odes, Provérbios; Quetzal, 2019). [V] ISBN 9789897225741; https://www.quetzaleditores.pt/produtos/ficha/biblia-volume-iv-tomo-2/22549225.
- van Mander, Karel, Manasseh, Repentant Sinner from the Old Testament (Getty). [V] https://www.getty.edu/art/collection/object/109Q5J.
- Espinosa, Baruch, Ética (1677), parte III. [DIGITAL]
- Clássicos citados nas camadas de filosofia e teologia (marcadores conforme §10–11): Kant, A religião nos limites da simples razão (1793) [W]; Mackie, “Evil and Omnipotence”, Mind 64 (1955) [W]; Rowe, “The Problem of Evil…”, APQ 16 (1979) [W]; Girard, Le bouc émissaire (Grasset, 1982) [W]; Douglas, Purity and Danger (Routledge, 1966) [W]; Volf, Exclusion and Embrace (Abingdon, 1996) [W]; Kasper, Misericórdia (Loyola, 2014) [W]; Mayer, Untersuchungen… (1976) [W]; Lambert, “DINGIR.ŠÀ.DIB.BA Incantations”, JNES 33 (1974) [W]; Gunkel, Einleitung in die Psalmen (1933) [W]; Bonhoeffer, Nachfolge (1937) [W]; Metzger, edições RSV/NRSV com apócrifos (1977) [W]; Schuller, Non-Canonical Psalms from Qumran (1986) [W]; Knibb, “Martyrdom and Ascension of Isaiah”, em OTP 2 [W].
Como conseguir estas obras
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| Obra | Acesso | Onde |
|---|---|---|
| Moraes, “A Oração de Manassés…” (Revista Encontros Teológicos, 2021) | livre | facasc.emnuvens.com.br |
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Selo [esgotado] não aparece aqui: quando a obra não é alcançável de nenhuma forma, o texto aponta o substituto acessível ao lado dela.