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Antiguidade Bíblica

Sabedoria de Salomão (Chokmat Shlomo) — Artigo Enciclopédico

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Você não precisa ler tudo. Escolha um degrau — cada um é um estado final satisfatório, não um fragmento de curso. A ordem abaixo não é a ordem das seções: o texto vem antes do comentário, de propósito.

  1. 01

    Ler o texto15–30 min

    A passagem inteira, em duas traduções de tradições diferentes, sem comentário. Comparar as duas é o exercício que mais rende: mostra onde o original é ambíguo.

  2. 02

    O contexto20–40 min

    O mundo em que o texto surgiu: geografia, arqueologia, paralelos do Antigo Oriente Próximo.

    §2 §9

  3. 03

    O debate30–60 min

    As posições em disputa, com quem as sustenta, onde publicou e qual é a réplica.

    §4 §10

  4. 04

    A recepção30–60 min

    O que se fez do texto: Padres, medievo, tradições confessionais.

    §6 §11

  5. 05

    As quatro camadas40–90 min

    Comparação com a mitologia, as perguntas filosóficas, os debates teológicos e o que a ciência diz — e onde não tem competência.

    §9 §10 §11 §12

  6. 06

    O dossiê integral1,5–3 h

    Tudo, na ordem, mais bibliografia com selo de acesso e as lacunas assumidas.

Outras portas de entrada
  • Quero só a resposta. Pare no degrau 0 — ele é completo em si.
  • Quero conferir se é verdade. Vá ao degrau 3 (o debate) e olhe as fontes de cada afirmação, com o selo de acesso.
  • Quero ler o texto com calma. Degrau 1, com o glossário ao lado.
  • Vim da fé e quero entender. Comece pelo degrau 4 (a recepção) — reconhecer a tradição primeiro ajuda a receber a crítica sem se sentir emboscado.
  • Vim do ceticismo. Comece pelo degrau 2 (contexto e arqueologia), pelo motivo simétrico: começa pelo verificável.
Como saber se você entendeu

Ao fim de cada degrau, tente responder às três. Se as três não saem, o degrau seguinte vai confundir — volte um.

  1. Compreensão. Consigo dizer o que o texto diz, com minhas palavras?
  2. Análise. Consigo dizer qual problema este texto levanta, e por quê?
  3. Debate. Consigo dizer quem discorda de quem, e sobre o quê?

1. Lead e Ficha

A Sabedoria de Salomão (gr. Σοφία Σαλωμῶνος, Sophia Salōmōnos; lat. Liber Sapientiae; também Παναρέτος Σοφία, “Sabedoria toda virtuosa”) é o mais tardio dos sapienciais e o único livro do Antigo Testamento composto em grego sem original hebraico conhecido [W — Gigot, 1912]. Na Vulgata, está entre o Cântico dos Cânticos e o Eclesiástico [V — Gigot, 1912]; é deuterocanônico, recebido pelos cânones católico, ortodoxo e etíope [W].

Dirige-se aos governantes — “amai a justiça, vós que julgais a terra” (Sb 1,1), fórmula repetida em 6,1 — e o seu refrão mais citado é “as almas dos justos estão nas mãos de Deus” (Sb 3,1) [W]. O texto mais influente descreve-a como “sopro do poder de Deus” e “eflúvio puro da glória do Todo-Poderoso” (Sb 7,25), “espelho sem mancha da atividade de Deus” (Sb 7,26) [W]. O autor não tem nome — fala na pessoa do “rei” (Sb 7,1-6; 8,19-20) — e a obra é pseudônima, de um judeu helenizado de Alexandria [W — Gigot, 1912].

CampoDadoMarcador
Nome grego / latinoSophia Salōmōnos; Liber Sapientiae (Vulgata)[W]
Cânondeuterocanônico: católico, ortodoxo, etíope; ausente do Tanakh[W]
Capítulos19[W]
Idiomagrego koiné literário (sem original hebraico)[W — Gigot, 1912]
Autoriaanônima; pseudônima sob a persona de Salomão[W]
LugarAlexandria (Egito) — consenso[ACAD — Goff, 2020]
Dataçãoséc. I a.C. em geral; parte da crítica situa em 37–41 d.C.[ACAD — Goff, 2020]; [V — Winston, 1979]
Gênerodiscurso protréptico, diatribe, aretalogia, midrash[W — Grabbe, 2004]
Estruturatrês blocos: 1–5 escatologia; 6–9 sabedoria; 10–19 Êxodo[W — Grabbe, 2004]
Testemunhos gregoscódices Vaticano, Sinaítico, Alexandrino, Efrém, Veneto[V — Gigot, 1912]
Papirofragmentos de Khirbet Mird (Rahlfs 888), publ. 2018[V — Ceulemans; Verhasselt, 2018]

2. Contexto e Autoria

A ficção salomônica. O autor fala como rei: recorda a própria condição mortal (Sb 7,1-6), diz ter pedido e obtido a sabedoria (Sb 7,7) e preferido-a a cetros e tronos (Sb 7,8) [W]. É instrumento retórico, não autobiografia: como todo o livro foi composto em grego, a autoria salomônica fica arredada, e a posição média — um autor posterior usando escritos salomônicos perdidos — foi julgada sem argumentos positivos no início do século XX [W — Gigot, 1912, citando Cornely-Hagen, 1909]. O autor real permanece anônimo [W].

Alexandria como lugar. Convergem: o grego excelente, superior ao da Palestina; o vocabulário filosófico (Deus “autor da beleza”, Sb 13,3; a pronoia em Sb 14,3 e 17,2; a “matéria informe”, ex amorphou hylēs, Sb 11,17; as quatro virtudes cardeais em Sb 8,7); a coloração egípcia da zombaria da idolatria, que termina no culto de animais (Sb 15,18-19); e a conservação no cânon alexandrino, não no palestinense [W — Gigot, 1912]. Consenso: Alexandria [ACAD — Goff, 2020, DOI 10.1163/2452-4107_thb_COM_0215010000].

A datação: três posições.

  1. Século I d.C., sob Calígula (37–41 d.C.). Tese de David Winston na Anchor Bible [V — Winston, 1979, ISBN 9780385016445]: o livro refletiria a perseguição aos judeus de Alexandria — o pogrom de 38 d.C., documentado por Filo em In Flaccum e Legatio ad Gaium —, e a retórica contra os “tiranos” (Sb 2,12-20; 5,1-14) visaria o poder romano [W — Winston, 1979].
  2. Segundo/primeiro século a.C., Egito ptolomaico. A crítica católica clássica apontava Ptolomeu IV Filopátor (221–204 a.C.) ou Ptolomeu VII Fiscão (145–117 a.C.), notando que o livro talvez tenha saído só depois da morte deles, “pois de outro modo teria apenas aumentado a sua ira tirânica” [W — Gigot, 1912, citando Lesêtre]; Chrysostome Larcher e Maurice Gilbert leram o livro nessa chave [W — Larcher, 1969; Gilbert, 1973].
  3. Virada da era, sem perseguição específica. A fórmula hoje mais comum é cautelosa: produto do judaísmo helenístico maduro, e “hoje é comum propor uma data de composição no século I d.C.” [ACAD — Goff, 2020]. John J. Collins situa-o no judaísmo do segundo templo tardio [V — Collins, 1997, ISBN 9780664221096]; George W. E. Nickelsburg inclui-o no seu levantamento da literatura do período [V — Nickelsburg, 2005, ISBN 9780800637798]; John M. G. Barclay reconstruiu o ambiente social da diáspora [V — Barclay, 1996, ISBN 9780567086518].

O gênero. (i) Discurso protréptico (logos protreptikos): a exortação que persuade o leitor a abraçar um modo de vida. (ii) Diatribe cínico-estóica: pregação popular com interlocutor fictício e apóstrofes (Sb 1,16–2,24; 6,1-11). (iii) Aretalogia: Sb 7,22b–8,1 acumula vinte e um atributos da sabedoria, no gênero das aretalogias de Ísis (§9) [W — Grabbe, 2004; ACAD — Kloppenborg, 1982, DOI 10.1017/s0017816000018216].

3. Estrutura (19 capítulos)

Lester Grabbe ordena os dezenove capítulos em três livros: Livro da Escatologia (1–5), Livro da Sabedoria (6–9) e Livro da História (10–19) [W — Grabbe, 2004].

  • Escatologia (Sb 1–5). Sb 1 — exortação à justiça e a tese de que “Deus não fez a morte” (Sb 1,13-14). Sb 1,16–2,24 — o discurso dos ímpios e a conspiração contra o justo. Sb 3–4 — o destino oposto dos justos e dos ímpios. Sb 5 — a inversão final; Sb 6,1-21 fecha o bloco com nova apóstrofe aos reis [W].
  • Sabedoria (Sb 6,22–9). Sb 6,22–7,6 — a promessa de narrar a origem da sabedoria e a recordação da mortalidade comum. Sb 7,7-14 — a oração atendida. Sb 7,15-22 — o catálogo do que a sabedoria ensina sobre o mundo. Sb 7,22b–8,1 — a aretalogia. Sb 8,2–9,18 — o amor da sabedoria e a oração de Sb 9, modelada na de Salomão em 1 Reis 3 [W].
  • História (Sb 10–19). Sb 10 — a história hebraica em sete painéis, todos com “ela” (a sabedoria) por sujeito: Adão, Noé, Abraão, Lot, Jacó, José e Moisés. Sb 11,1-14 — prólogo do Êxodo. Sb 11,15–12,27 — a misericórdia e a medida retributiva. Sb 13–15 — a crítica dos deuses e da idolatria. Sb 16–19 — os contrastes entre egípcios e israelitas, com a doxologia de Sb 19,22 [W].

Costura e unidade. Sb 1,1 e Sb 6,1 repetem a apóstrofe aos juízes da terra; Sb 9,18 é ponte para a revisão histórica; Sb 19,22 encerra com doxologia [W — Gigot, 1912]. Versículos tidos como interpolações cristãs (Sb 2,24; 3,13; 4,1; 14,7) explicam-se hoje no quadro judaico do autor [W — Gigot, 1912].

4. Conteúdos-chave com Debate

4.1 O discurso dos ímpios (Sb 1,16–2,24)

“Curta e triste é a nossa vida” (Sb 2,1), e daí “gozemos dos bens presentes” (Sb 2,6): a teologia dos ímpios é explícita — “somos nascidos do acaso” (Sb 2,2) [W]. O discurso passa do prazer à agressão: “tendamos ciladas ao justo, porque ele nos incomoda” (Sb 2,12); o justo “chama-se filho do Senhor” (Sb 2,13) e decidem prová-lo pela morte vergonhosa (Sb 2,19-20); erraram por não conhecer “os mistérios de Deus” (Sb 2,22) [W]. Debate: (i) que pensamento a passagem caricatura? Há ecos epicureus (o acaso, o prazer) e estoicos (a confiança na ordem do mundo), sem citação de fonte: o autor compõe um tipo [W — Winston, 1979]; (ii) a função dramática — Sb 2,12-20 tornou-se texto-matriz do justo eliminado pela unanimidade (§10) [W — Girard, 1982], e Mateus 27,42-43 retoma Sb 2,13-18 [W — Gigot, 1912].

4.2 A imortalidade e a resposta de 1–5

A resposta é uma inversão escatológica: “as almas dos justos estão nas mãos de Deus” (Sb 3,1); aos olhos dos insensatos “pareceram morrer”, mas “eles estão em paz” (Sb 3,2-3) [W]. A vida presente é provação como o ouro no cadinho (Sb 3,5-6); “a velhice honrada não é a que dura muito” (Sb 4,8); o justo morto cedo “agradou a Deus e foi amado” (Sb 4,10) [W]. Em Sb 5 os ímpios confessam “nós nos desviámos do caminho da verdade” (Sb 5,6), e segue-se a teofania em que Deus veste o universo para a batalha (Sb 5,17-23), imagem reutilizada por Efésios 6,13-17 [W — Gigot, 1912].

4.3 A aretalogia (Sb 6,22–9,18) e o vocabulário de Sb 7,25-26

O centro literário culmina em três metáforas. A sabedoria é “sopro (atmis) do poder de Deus”, “efusão pura (aporroia) da glória do Todo-Poderoso” (Sb 7,25) e “resplendor (apaugasma) da luz eterna, espelho sem mancha (esoptron akēlidōton) da atividade de Deus e imagem (eikōn) da sua bondade” (Sb 7,26) [W]. Os campos semânticos, porém, não se confundem: atmis (“sopro, vapor”) não é o pneuma estoico, é a linguagem da respiração; aporroia (“efluência”) pertence às metáforas de derivação luminosa médio-platônicas e reaparece em Filo de Alexandria; apaugasma (“brilho refletido”) é o termo de Hebreus 1,3 [W — Winston, 1979].

O debate sobre o que isso é. (i) Personificação literária: o “ela” continua a figura poética de Provérbios 8 e Sira 24 [W — Murphy, 1996]. (ii) Hipóstase: o vocabulário de emanação e imagem descreveria um ser intermediário [W]. (iii) Fusão médio-platônica e estoica: cosmologia estoica (sabedoria difusiva no cosmos) com metafísica médio-platônica (origem por derivação do Bem) [ACAD — Sterling, 2017, DOI 10.1017/9781316694459.011].

4.4 O Êxodo (Sb 10–19) como midrash e como diatribe

O bloco não é paráfrase de Êxodo: é releitura, com três marcas. (a) Sb 10 narra a história primitiva de Israel em sete painéis com a sabedoria por sujeito — “ela preservou o primeiro formado” (Sb 10,1-2), “ela salvou a terra perturbada por causa do justo” (Sb 10,4) —, convertendo a história eleita num tratado sobre a sabedoria [W — Grabbe, 2004]. (b) Sb 11,16 enuncia o programa — cada um é punido “pelas próprias coisas por que peca” —, e daí os contrastes: cinco pares duplos, em negativo (egípcio) e positivo (israelita) [W]. Água: rio em sangue (Sb 11,6-14) vs. água da rocha (Sb 11,4). Animais e maná: insetos e feras (Sb 16,1-14) vs. maná e codornizes (Sb 16,20-26). Luz: trevas (Sb 17) vs. luz que não se apaga (Sb 18,1-4). Primogênitos: morte no Egito (Sb 18,5-19) vs. sinal do sangue (Sb 18,20-25). Mar: exército afogado (Sb 19,1-17) vs. passagem a pé enxuto (Sb 19,18-22). (c) O retelling permite duas digressões ausentes do Êxodo: a exortação sobre a misericórdia (Sb 11,15–12,27) e a crítica da idolatria (Sb 13–15) [W — Grabbe, 2004].

O debate. A categoria de midrash é hoje quase universal para Sb 10–19, mas não é neutra: quem a usa afirma que o autor reescreve com liberdade interpretativa, e estudos recentes tratam o bloco como recepção dos motivos do Êxodo [ACAD — Gilbert, 2021, DOI 10.1163/9789004471122_006; Jacobson, 2010, DOI 10.1353/sho.0.0437]. O efeito teológico é medível: a história nacional deixa de ser privilégio e passa a ilustrar uma providência que castiga e perdoa a todos [W — Winston, 1979].

4.5 A natural teologia e o argumento do desenho (Sb 13,1-9)

Sb 13 distingue os que “não souberam conhecer Deus” — os que, contemplando o fogo, o vento, os astros e a água, “os tomaram por deuses” (Sb 13,1-2) — dos que adoram ídolos. O argumento decisivo vem no v. 5: “pois da grandeza e da beleza das criaturas se percebe, por analogia, o artífice delas” [W]. A censura é escalonada: os primeiros são “menos culpáveis” (Sb 13,6-7); os que transferem para ídolos o que é do Criador “não merecem perdão” (Sb 13,8-9) [W].

O debate moderno, com nomes. A passagem é o lugar bíblico de referência do argumento do desenho, cuja crítica tem um marco em David Hume, Dialogues concerning Natural Religion (1779): a inferência de um artífice único a partir da analogia cosmos-máquina é frágil. A forma clássica do argumento tem o nome de William Paley, Natural Theology (1802), com o relógio no campo [HIST]; o mapa contemporâneo está em Neil A. Manson [ACAD — Manson, 2013, DOI 10.1093/oxfordhb/9780199556939.013.0019]. Sb 13,5, porém, descreve uma percepção proporcionada, não uma inferência — leitura de conhecimento por participação; o Novo Testamento retoma a tese com sinal invertido (Romanos 1,18-23) [W].

4.6 A “palavra onipotente” no silêncio (Sb 18,14-16) e a liturgia do Natal

Enquanto um silêncio profundo envolvia todas as coisas e a noite percorria a metade do seu curso, a tua palavra onipotente, vinda do céu, do trono real, saltou como um guerreiro implacável” (Sb 18,14-16) [W]. No contexto, a “palavra” executa a décima praga; na recepção cristã tornou-se texto do Natal — o introito “Dum medium silentium tenerent omnia”, da Missa do Domingo dentro da Oitava do Natal no Missal Romano [V — Missal Romano; estudo “Wisdom 18:14f.: An Early Christmas Text”, JSTOR 1581947]. A inversão é total: onde o texto fala de juízo, a liturgia lê encarnação [W].

4.7 O “pão dos anjos” e o maná (Sb 16,20)

Sb 16,20-21 descreve o maná como alimento preparado no céu, que “se transformava em tudo o que se desejasse” [W]. A tradição latina designou-o “alimento dos anjos”, cruzando a fórmula com a do Salmo 77(78),25 — “panem angelorum manducavit homo” —, que alimentou a liturgia eucarística: a antifona “Panem angelorum” de Corpus Christi e, por essa via, o Sacris solemniis de Tomás de Aquino, de que deriva o Panis angelicus [W]. Duas precisões honestas: a frase latina pertence ao Salmo, não à Sabedoria; o que a Sabedoria fornece é o alimento que se adapta a quem o recebe [W].

4.8 Sb 2,23-24 — a morte e o diabo

Deus criou o homem para a incorruptibilidade (aphtharsia) e o fez à imagem da sua própria natureza; mas pela inveja do diabo a morte entrou no mundo” (phthonōi de diabolou thanatos eisēlthen eis ton kosmon) [W]. Corrige o fatalismo — Sb 1,13-14 já afirmara que “Deus não fez a morte” — e introduz um agente: diabolos (“caluniador, adversário”) passa a designar uma figura pessoal. Tornou-se matriz da angelologia e da demonologia posteriores, com eco próximo em Romanos 5,12, cujo sujeito é Adão [W]. A exegese discute quem é o invejoso (a serpente de Gênesis 3, um anjo caído no sentido de 1 Enoque, ou o acusador de Jó) e se phthonos traduz um hebraísmo ou uma categoria moral grega [W — Winston, 1979]. O autor faz teodiceia, não demonologia [W].

Salomão pede a sabedoria
Salomão pede a sabedoria · Sb 7,7-14; 8,19-20 (cf. 1Rs 3,5-14)A cena é a oração de Salomão pela sabedoria, que a Sabedoria de Salomão reescreve em primeira pessoa: 'orei, e a prudência me foi dada' (Sb 7,7), e 'sendo eu um menino bem dotado, coube-me uma boa alma' (Sb 8,19-20). O dossiê compara esta oração com 1Rs 3, e é aí que a questão da antropologia grega — a alma que precede o corpo — entra no debate.anônimo · gravura · Netherlands Institute for Art History (RKD, id. digital 2792)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

5. Temas

  • Justiça e retribuição. O livro abre e fecha falando a governantes; não trata da imortalidade em geral, mas da dos justos (Sb 1,1; 5,15-16) [W].
  • Imortalidade e incorruptibilidade. aphtharsia é o termo técnico (Sb 2,23; 6,18-19); aparece como dom e relação, não como propriedade natural da alma [W — Wright, 2003].
  • Sabedoria como pessoa e como dom. Acessível a quem a deseja (Sb 6,12-21), obtida por oração (Sb 7,7), figurada como luz (Sb 7,22b-8,1) [W].
  • Providência (pronoia). O conceito grego ganha rosto bíblico e é aplicado à história (Sb 14,3; 17,2) [W].
  • Idolatria e suas causas. A ignorância que confunde criatura e Criador (Sb 13); o interesse do artesão (Sb 14,15-21); a dissolução moral dela decorrente (Sb 14,22-31) [W].
  • Criação e matéria. Sb 11,17 fala de “matéria informe”, expressão platônica que a exegese clássica leu como remissão a Gênesis 1,2 [ACAD — Winston, 1971, DOI 10.1086/462650].

6. Recepção

No Novo Testamento. As correspondências foram inventariadas no início do século XX: Mateus 27,42-43 com Sb 2,13-18; Romanos 11,34 com Sb 9,13; Efésios 6,13-17 com Sb 5,18-19; Hebreus 1,3 com Sb 7,26 [W — Gigot, 1912]. Nenhuma é citação formal; são intertextualidade [W]. Sb 7,25-26 deu às gerações nicenas o vocabulário da relação entre o Pai e o Filho, e a leitura católica clássica fez do livro uma preparação providencial da revelação cristã [W — Gigot, 1912].

Nos Padres. Clemente de Alexandria a usa em contexto protréptico; Orígenes a cita nas discussões sobre o mundo e as criaturas racionais; Atanásio entra com ela na controvérsia ariana, servindo o apaugasma de apoio à consubstancialidade; Ambrósio usa os textos sobre o espírito nas obras pneumatológicas [W]. Jerônimo, no prefácio aos livros de Salomão (Praef. in libros Salomonis), consignou que a língua original é o grego; na Vulgata, porém, o texto da Sabedoria não é tradução nova sua — é a Vetus Latina revista [W — Gigot, 1912].

A questão deuterocanônica. No Oriente, Atanásio, na 39.ª Carta Festal (367), alinhou a Sabedoria entre os livros que os Padres mandaram ler aos catecúmenos, mas não entre os canônicos; Cirilo de Jerusalém e o cânone atribuído a Laodiceia (c. 363) seguem linha parecida [W]. No Ocidente, Hipona (393) e Cartago (397) a incluem nas listas canônicas, e Inocêncio I, na carta a Exupério (405), repete a inclusão [W]. O ponto decisivo é o Concílio de Trento, quarta sessão (1546) [W]; a tradição ortodoxa mantém-na entre os anagignoskomena, e a etíope a recebe no seu cânon largo [W].

O juízo de Lutero — fonte conferida. No prefácio à Sabedoria da Biblia de 1545, Lutero abre: “este livro esteve longo tempo em discussão, se devia ou não ser contado entre os livros da Sagrada Escritura do Antigo Testamento”. Diz que “os antigos Padres o separaram firmemente da Sagrada Escritura” e o tiveram por escrito “sob a pessoa do rei Salomão” — e formula a sua conjectura: “eles sustentam que Philo deva ser o mestre deste livro”, ligando a obra à perseguição dos judeus alexandrinos sob Calígula [V — Luther, 1545; [W] quanto à conjectura, que a crítica moderna não sustenta]. Conclui: “há muita coisa boa nele e vale a pena lê-lo”, notando que “dificilmente se fizeram tantos cânticos da igreja a partir de um só livro da Escritura” [V — Luther, 1545]. Lutero rebaixa-o de canônico a útil e recomenda a leitura.

A leitura judaica e a recepção brasileira. O livro não está no Tanakh e não tem comentário rabínico contínuo [—]: não há rashi nem midrash clássico sobre a Sabedoria — caso único entre os sapienciais, um livro judaico de Alexandria conservado pela Igreja e ausente da sinagoga [W]. A Igreja católica no Brasil dedicou-lhe o Mês da Bíblia de 2018, com o tema “Para que nele nossos povos tenham vida” e o lema “A sabedoria é um espírito amigo do ser humano” (Sb 1,6a) [V — CNBB, 2018; CRB Nacional].

A Sabedoria no teto da Biblioteca Marciana
A Sabedoria no teto da Biblioteca Marciana · Sb 7,25-26A figura da Sabedoria pintada por Ticiano no teto da Biblioteca Nacional Marciana, em Veneza, no quadro do programa decorativo do século XVI. A imagem documenta a recepção da Sabedoria personificada como virtude pública e sapiencial — a mesma personificação de Sb 7,25-26, cujo vocabulário ('sopro do poder de Deus', 'resplendor da luz eterna') forneceu às gerações nicenas a linguagem da relação entre o Pai e o Filho.Didier Descouens · Taken on 12 May 2023 · Biblioteca Nacional Marciana, Veneza (pintura de Ticiano); fotografia de Didier Descouens (domínio público)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain
O Espírito da Sabedoria
O Espírito da Sabedoria · Sb 7,7-14 (cf. 1Rs 3,16-28)Primeira prancha da série sobre o Espírito da Sabedoria, publicada por Adriaen Collaert a partir de composição de Jan van der Straet (c. 1595): Salomão julga as duas mães e manda dividir a criança (1Rs 3,16-28). A obra mostra a recepção do tema da sabedoria régia na gravura flamenga — o mesmo Salomão que o livro da Sabedoria põe a falar na primeira pessoa e cuja sabedoria Sb 7-9 descreve como dom.After: Jan van der Straet Published by: Adriaen Collaert · circa 1595 · gravura · British Museum, Londres (1937,0915.309)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

7. Traduções PT e Comentários PT

Traduções brasileiras que incluem a Sabedoria (as protestantes correntes a omitem):

  • Bíblia de Jerusalém (Paulus/Paulinas, edição brasileira da Bible de Jérusalem) [V-OL — ISBN 9788534913218].
  • Bíblia do Peregrino (trad. Luis Alonso Schökel e equipe; Paulus) [V-OL — ISBN 9788534920056].
  • TEB — Tradução Ecumênica da Bíblia (da TOB francesa; Loyola, 2010) [V — ISBN 9788515030163].
  • Bíblia Ave-Maria (Paulus), Bíblia Pastoral e as edições CNBB — todas a incluem [W].
  • Almeida — presente em edições que declaram incluir os deuterocanônicos [W].

Edição PT-PT da Septuaginta. Frederico Lourenço (Universidade de Coimbra) traduz a Bíblia Grega pelo Quetzal Editores; a Sabedoria entra no Volume IV — Os Livros Sapienciais, tomo 1, ISBN 9789897224614 (Quetzal, 2018) [W — ISBN segundo o registo ORCID do tradutor; não reconferido em catálogo da editora].

Salomão e a rainha de Sabá
Salomão e a rainha de Sabá · Sb 7-9 (cf. 1Rs 10,1-13)Iluminura de 1452 com a rainha de Sabá diante de Salomão (1Rs 10,1-13), a visita em que a rainha vem 'provar com enigmas' a sabedoria do rei. A cena não está no livro da Sabedoria, mas é a matriz narrativa da fama sapiencial de Salomão que o livro pressupõe quando põe na boca dele o discurso sobre a sabedoria (§4.3).Miscellaneous Items in High Demand, PPOC, Library of Congress · 1452 · iluminura · Library of Congress, Washington (divisão de Gravuras e Fotografias, LCCN 2002723391)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

Comentário PT verificado (obra dedicada).

  • Ivo Storniolo, Como ler o livro da Sabedoria: a sabedoria de Israel e o senso da justiça, São Paulo: Paulus, coleção “Como ler a Bíblia”ISBN 9788534900522 [V-OL — registro de 2003; as bibliografias brasileiras citam a edição de 1993]. Storniolo assina outros volumes da mesma série, entre eles o de Daniel [V].

Subsídios PT brasileiros. CNBB, Mês da Bíblia 2018: A sabedoria é um espírito amigo do ser humano [V — CRB Nacional]; revista Vida Pastoral (Paulus), número temático [V].

Comentários-âncora em EN/FR. Winston [V — ISBN 9780385016445]; Grabbe [V — ISBN 9780567084446]; Kolarcik [V — ISBN 9788876531279]; Collins [V — ISBN 9780664221096]; Nickelsburg [V — ISBN 9780800637798]; Barclay [V — ISBN 9780567086518]; Glicksman [V — ISBN 9783110247657]; Gilbert [V-OL]. Traduções PT não localizadas [—].

8. Audiovisual e Games

Não há nenhum filme, série ou jogo que dramatize o livro — a razão é textual: não tem trama, tem argumento. Salomão é personagem televisivo habitual; o livro que leva o seu nome, não.

TítuloRealidadeValidação PTMarcador
Salomão e a Rainha de Sabá (Solomon and Sheba, 1959, King Vidor)épico sobre 1 Reis 10, sem material da Sabedoriadublagem PT não confirmada[W]
Salomão (Solomon, TNT, 1997, Roger Young)telefilme sobre a vida de Salomão (1 Reis)dublagem não confirmada[W]
O Reino de Salomão (The Kingdom of Solomon, 2010, Irã)produção iraniana sobre o reinadonão localizado em PT[W]
Reis (minissérie, RecordTV, desde 2022)adapta Samuel e Reis; nenhum episódio sobre a Sabedoriaprodução brasileira[W]
Obra audiovisual que dramatize a Sabedoria de Salomãonão localizada[—]
Videojogosnenhum título dedicado; listas de “jogos bíblicos” não cobrem o livro[—]

Onde a Sabedoria está em som. A recepção musical passa pela liturgia (§4.6-4.7): o introito gregoriano “Dum medium silentium” (Sb 18,14-15) [V — Missal Romano; JSTOR 1581947]; o motivo do “alimento dos anjos” (Sb 16,20) na antifona “Panem angelorum” [W]; e Herbert Howells, Requiem (1936), cujo movimento “The souls of the righteous” põe em música o texto de Sb 3 [W — recorte não conferido]. Canais brasileiros de estudo bíblico o tratam em formato devocional [W].

9. Mitologia e Literatura Comparada

O comparandum desta obra não está na Mesopotâmia nem em Canaã, está na Grécia: o autor escreve em grego, em Alexandria, e dialoga com o pensamento grego de igual para igual.

Platão e o Fedão — alma imortal e pré-existência

Sb 8,19-20 põe na boca do “rei”: “sendo eu um menino bem dotado, coube-me uma boa alma; ou melhor, sendo bom, vim a um corpo sem mancha” — a leitura mais espontânea do grego supõe a precedência da alma em relação ao corpo [W]. A comparação com o Fedão é antiga: o diálogo argumenta a imortalidade (70c-72e; 78b-84b; 105e) e admite a pré-existência (72e) [W]; e Sb 9,15 (“o corpo corruptível entorpece a alma”) é eco de Fedão 66b-67a [W].

O debate. (i) Dependência platônica: Sb 1–5 teria adaptado o Fedão — obra de referência, James M. Reese, Hellenistic Influence on the Book of Wisdom and Its Consequences [V-OL], e a discussão de Winston [V — Winston, 1979]. (ii) Transformação judaica: a “imortalidade” da Sabedoria não é indestrutibilidade de uma alma divina por natureza, mas dom ligado à justiça e à relação com Deus [W — Wright, 2003]; o tema se constrói por etapas, a partir de material sapiencial anterior [ACAD — Matusova, 2022, DOI 10.5040/9781350265059.ch-004]. Terceira via: escatologia judaica com antropologia grega [V — Collins, 1997].

O Timeu, o estoicismo e a ordem do mundo

O Timeu apresenta o mundo como obra de um demiurgo bom que quis que todas as coisas fossem boas (29e-30a), explicado pela ordem e pela beleza [W]; Sb 13,1-5 argumenta da ordem e da beleza das criaturas para o seu artífice, e chama Deus “autor da beleza” (Sb 13,3) [W]. A diferença de fundo: no Timeu, contemplar o cosmos leva à filosofia e à assimilação ao divino; na Sabedoria, ao reconhecimento de um Criador que é também Juiz [W].

Quanto ao estoicismo, Sb 1,7 diz que “o espírito do Senhor enche o mundo” e Sb 8,1 que a sabedoria “alcança com vigor de um extremo ao outro e tudo governa bem”; a cosmologia estoica concebe o pneuma como princípio que penetra e unifica o cosmos e o logos como a razão que o ordena — vocabulário muito próximo [W]. O pneuma estoico, porém, é material e imanente, e o espírito de Sb 1,4-7 é santo, pessoal e moralmente exigente [W]. A leitura de conjunto mais defendida sustenta uma fusão de platonismo médio e estoicismo [ACAD — Sterling, 2017, DOI 10.1017/9781316694459.011].

Filo de Alexandria — o paralelo judaico-helenístico mais próximo

Nenhum autor antigo se parece tanto com esta obra quanto Filo de Alexandria (c. 20 a.C. – c. 50 d.C.) [W]. Os contactos são de três ordens: (i) o Logos e as potências divinas como intermediários entre o Uno e o mundo, com vocabulário de derivação próximo de Sb 7,25-26 [ACAD — More, 2012, DOI 10.1163/9789004241732_022]; (ii) o mundo inteligível como modelo do sensível e a criação a partir de matéria informe [ACAD — Winston, 1971, DOI 10.1086/462650]; (iii) a exegese alegórica do Êxodo [W]. A direção da dependência não está resolvida — a Sabedoria é fonte de Filo, Filo é fonte da Sabedoria, ou ambos bebem do platonismo médio alexandrino, hipótese mais econômica [ACAD — Sterling, 2017; More, 2012]. O estudo da imortalidade em Filo ilumina, por contraste, a diferença da Sabedoria [ACAD — Yli-Karjanmaa, 2021, DOI 10.1017/9781108935777.008].

A personificação da sabedoria em Provérbios 8 e em Sira 24

Provérbios 8,22-31 apresenta a sabedoria presente na criação, “junto de Deus como um mestre-de-obras”; Sira 24 a faz falar em primeira pessoa, saída da boca do Altíssimo e posta a tabernacular em Jacó [W]. O que a Sabedoria acrescenta é o vocabulário de emanação e o registro aretológico, o discurso de louvor com que uma divindade enumera os seus feitos, e o paralelo de gênero mais próximo são as aretalogias de Ísis, inscrições em que a deusa fala em primeira pessoa (“eu sou…”) [ACAD — Kloppenborg, 1982, DOI 10.1017/s0017816000018216].

O que a comparação mostra e o que não mostra. A tese de que Sb 7,7-30 seja decalque das aretalogias de Ísis foi defendida e contestada com força: a forma é a mesma, mas o conteúdo é material judaico [ACAD — Kloppenborg, 1982]. As personificações voltam no judaísmo do segundo templo: 1 Enoque 42 (a sabedoria que desceu, não encontrou morada e voltou), Baruque 3,9-4,4 (o que Israel tem e as nações não têm) e 4 Esdras 5,9-10 (associada aos tempos messiânicos) [W]. É a este fio que o “ela” de Sb 10 se liga: prender-lhe a Sophia gnóstica é leitura marcada como anacrônica [ACAD — Peerbolte, 2005, DOI 10.1163/9789047407676_007].

Busto de Platão nos Museus Capitolinos
Busto de Platão nos Museus Capitolinos · contexto comparado (Sb 1-5; 9,15)Busto romano de Platão (Museus Capitolinos, MC 571). Ele entra no dossiê como referência visual do comparando da §9: a Sabedoria de Salomão escreve em grego, em Alexandria, e dialoga com o pensamento grego — a imortalidade da alma e a pré-existência de Sb 8,19-20 são discutidas em paralelo com o Fedão, e a distinção entre o dom da imortalidade ligado à justiça e a alma imortal por natureza é o ponto exato do debate.Daderot · 2019-04-15 08:29:26 · busto de mármore (escultura) · Musei Capitolini, Roma (MC 571); fotografia de Daderot (domínio público)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta

A imortalidade: destino natural ou dom?

A pergunta que Sb 3,1-9 e Sb 8,19-20 deixam aberta é se a imortalidade é propriedade da alma ou relação com Deus. A resposta platônica é a primeira; a da Sabedoria, na leitura mais defensável, a segunda — o justo está nas mãos de Deus, e é essa pertença que o salva [W — Wright, 2003]. Immanuel Kant deu-lhe uma terceira formulação: a existência de Deus e a imortalidade da alma como postulados da razão prática, exigidos para que a busca do bem supremo não seja absurda [HIST]. Martha Nussbaum, na Fragility of Goodness, reconstruiu a linha grega oposta — a vida boa vulnerável à fortuna — e a terapia grega para essa vulnerabilidade [W]. Lida em contraste, a Sabedoria opera terapia inversa: não domestica a fortuna, mas promete o desfecho que a justifica [W].

A teodiceia: o problema do mal e a resposta da Sabedoria

O discurso dos ímpios (Sb 2) é o problema do mal na primeira pessoa. John Leslie Mackie formulou a versão lógica [ACAD — Mackie, 1955, DOI 10.1093/mind/lxiv.254.200], e William L. Rowe a evidencial, a partir do mal gratuito [W]. A Sabedoria não apresenta defesa lógica: apresenta escatologia — o mal presente é absorvido por um desfecho em que os justos permanecem (Sb 5,15-16) e os ímpios reconhecem o engano (Sb 5,6) [W]. É teodiceia narrativa, não uma “solução” do problema [W].

Vítima, comunidade e classificação: Girard e Mary Douglas

Sb 2,12-20 descreve uma comunidade que se reúne para eliminar um homem cuja vida a incomoda; o justo é acusado, testado e condenado por todos. René Girard descreveu esse processo como o mecanismo do bode expiatório: a crise interna resolve-se pela convergência da violência de todos sobre um só [W]. A leitura girardiana da Sabedoria é de tipo, não de fonte: Girard fornece a descrição antropológica de um padrão que o texto narra [W] — e a recepção confirma o padrão, pois Mateus 27,42-43 põe na boca dos que passavam junto da cruz exatamente a zombaria de Sb 2,13-18 [W — Gigot, 1912].

Os capítulos 13-15 acusam o idólatra de classificatoriamente errado: troca criatura por Criador, e a vida subsequente desmorona em confusão de categorias (Sb 14,22-31) [W]. Mary Douglas demonstrou que as categorias de pureza e abominação em Israel funcionam como sistema de classificação — “a sujeira é a matéria fora do lugar” —, quadro em que a acusação ganha inteligibilidade [W — Douglas, 1966]. A ferramenta permite tratar Sb 13–15 como argumento simbólico sobre a ordem do mundo, não só polêmica anticulta, que é o que faz a obra de referência de Maurice Gilbert [V-OL — Gilbert, 1973].

A inferência a partir do mundo: Espinosa, Hume, Paley

Baruch de Espinosa deu à crítica da finalidade a sua forma radical no Apêndice à Parte I da Ética (1677): a crença de que a natureza age em vista de fins é projeção do desejo humano [HIST]. Sb 13,5 faz o movimento oposto — da ordem do mundo para o seu artífice [W — Manson, 2013]. Aristóteles fornece o outro polo: o motor imóvel é causa final sem ser artífice de um plano, e as quatro virtudes cardeais de Sb 8,7 pertencem à tradição ética grega que o autor pressupõe [W — Gigot, 1912, que atribui o catálogo à escola aristotélica]. Na esteira de Mackie e de Rowe, fica a pergunta se uma ordem bela basta para um Deus justo ou se o argumento exige a retribuição [W].

11. Teologia — os debates

Imortalidade da alma ou ressurreição dos corpos?

Sb 3,1-9 fala de “almas” nas mãos de Deus e de justos “em paz”; não fala de ressurreição de corpos [W]. A pergunta é se a Sabedoria substitui a esperança judaica da ressurreição por uma escatologia grega. N. T. Wright sustenta que Sb 1–5 é uma forma de imortalidade distinta tanto da ressurreição farisaica quanto do dualismo platônico integral, com a vida além da morte ligada à comunhão com Deus, não à natureza da alma [W — Wright, 2003]. A pesquisa recente confirma elaboração progressiva, dependente de material judaico anterior [ACAD — Matusova, 2022, DOI 10.5040/9781350265059.ch-004]; a leitura católica clássica faz dela preparação do Novo Testamento [W — Gigot, 1912].

A criação: do nada ou de matéria informe?

Sb 11,17 diz que Deus fez o mundo “de uma matéria informe” (ex amorphou hylēs) [W]. A defesa clássica lê a expressão como descrição do caos de Gênesis 1,2, sem afirmar a eternidade da matéria [W — Gigot, 1912]. A discussão moderna mostrou que a ideia de criação absoluta se articulou depois, e que a fórmula pertence ao vocabulário platônico da ordenação do informe [ACAD — Winston, 1971, DOI 10.1086/462650].

O Espírito, o Logos e o diabo

A patrística grega encontrou em Sb 7,25-26 o vocabulário da geração do Filho — emanação sem divisão, resplendor que não separa a fonte da luz — e em Sb 1,5-7 e 9,17 um lugar pneumatológico [W]. O debate moderno é de anacronismo: os Padres leem uma teologia que os textos comportam, ou o que os concílios definiram? A resposta equilibrada distingue vocabulário (da Sabedoria) de doutrina (da controvérsia nicena) [W — Gigot, 1912]. Para o diabo de Sb 2,23-24 (§4.8), três leituras: anjo caído cuja inveja explica a morte; figura retórica do mal moral, com o texto a continuar teodiceia; midrash de Gênesis 3 [W — Winston, 1979]. Comum a todas: a morte não é criação divina nem necessidade natural, é mal datável [W].

A questão deuterocanônica, a autoridade e a teologia natural

Sb 6,18-19 faz da observância da lei a garantia da incorruptibilidade — articulação entre torá e imortalidade que mostra que o autor não é um platônico com nome hebraico [W]. Se o conhecimento de Deus pelas criaturas é possível (Sb 13,5; Romanos 1,20), a teologia natural tem base bíblica. Karl Barth veria em Sb 13 a tentação permanente da religião; a posição católica reafirma o texto como fundamento da demonstrabilidade de Deus pela razão (Vaticano I, Dei Filius; Dei Verbum, 1965) [W; ACAD — Manson, 2013, DOI 10.1093/oxfordhb/9780199556939.013.0019].

11.1. Comentaristas por esfera confessional

Organizada por tradição de leitura, não por cronologia. Regra desta camada — a perspectiva se declara, não se atribui, e o rótulo é metadado, não argumento.

Católica ocidental (latina)

  • Cornélio a Lapide, Commentaria in librum Sapientiae (1616–1642) [W].
  • F. Gigot, “Book of Wisdom”, Catholic Encyclopedia (1912) [DIGITAL].
  • Chrysostome Larcher, Études sur le Livre de la Sagesse (Gabalda, 1969) [V-OL].
  • Maurice Gilbert, La critique des dieux (AnBib 53; PIB, 1973) [V-OL].
  • Michael Kolarcik, The Ambiguity of Death in the Book of Wisdom 1–6 (AnBib 127; PIB, 1991) [V — ISBN 9788876531279].

Católica oriental e grega patrística

  • Clemente de Alexandria — uso protréptico abundante [W]. Atanásio — o apaugasma de Sb 7,26 no arsenal antia-riano [W].
  • Orígenes — cita a Sabedoria em De principiis; comentário contínuo não se conservou [—].
  • Cirilo de Jerusalém e a lista atribuída a Laodiceia (c. 363) — exclusão do cânon estrito, com leitura catequética [W].
  • Comentário contínuo antioqueno: não existe; a distinção alexandrina (alegórica) contra antioquena (literal) explica leituras incompatíveis [—].

Ortodoxa

  • A Sabedoria é lida como anagignoskomenon, com presença litúrgica e uso patrístico por catena [W].
  • Atanásio, 39.ª Carta Festal (367) — a distinção clássica entre canônico e “lido” [W].
  • Alexander Lopukhin, Толковая Библия (1904–1913) — o comentário russo de referência inclui os deuterocanônicos; não reconferi a página [—].
  • Orthodox Study Bible (NT 1993; completa 2008) — notas patrísticas [W].

Protestante histórica

  • Martinho Lutero, “Vorrede auff die Weisheit Salomonis”, Biblia de 1545 — livro “longo tempo em discussão”, conjectura a favor de Filo, leitura recomendada [V].
  • João Calvinonão comentou os deuterocanônicos [—].
  • R. H. Charles (org.), The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament (Clarendon, 1913) [HIST]; W. O. E. Oesterley, The Wisdom of Solomon (SPCK, 1917) [HIST]; W. J. Deane, The Book of Wisdom (Oxford, 1881) [HIST]. Anteriores, citados por Gigot: Grimm (1860), Gutberlet (1874), Bissell (1880), Farrar (1888), Siegfried (1890), Cornely-Zorell (1910) [W — Gigot, 1912].
  • Assimetria declarada: esta esfera domina o mercado anglófono por fato de mercado, não de mérito, e séculos de exclusão deixam o comentário protestante mais pobre que o católico neste livro [W].

Evangélica

  • Peter Enns, Exodus Retold: Ancient Exegesis of the Departure from Egypt in Wis 10:15-21 and 19:1-9 (HSM 57; Scholars Press, 1997) [W — não localizado em OL nesta sessão].
  • Andrew T. Glicksman, Wisdom of Solomon 10 (De Gruyter, 2011) [V — ISBN 9783110247657; [ACAD] para o capítulo de método, DOI 10.1515/9783110247657.64].
  • Lester L. Grabbe, Wisdom of Solomon (T&T Clark Study Guides) [V — ISBN 9780567084446].
  • N. T. Wright, The Resurrection of the Son of God (2003) [W]. Observação: a esfera evangélica entrou tarde aqui, e as obras disponíveis são de método histórico-crítico adotado por autores confessionais [W].

Judaica

  • Não há comentário rabínico contínuo à Sabedoria: fora do Tanakh, sem midrash clássico, e nenhum comentarista medieval (Rashi, Radak, Ibn Ezra) o comentou [—]. Lacuna do material, não do dossiê.
  • Joseph Reider, The Book of Wisdom (Jewish Apocryphal Literature; Harper, 1957) [W — não localizado em OL nesta sessão].
  • Lester L. Grabbe, John J. Collins e David Winston — leitura histórico-crítica da obra como literatura judaica de Alexandria [V — Collins, 1997; Grabbe, 2004; Winston, 1979].
  • A tradição judaica conservou-a fora do seu cânon; a sua sobrevivência deve-se à Septuaginta e à Igreja [W].

Ateia, agnóstica e leitura não confessional

  • John J. Collins, Jewish Wisdom in the Hellenistic Age (1997) [V — ISBN 9780664221096] — história da literatura e do pensamento.
  • David Winston, The Wisdom of Solomon (Anchor Bible 43) [V — ISBN 9780385016445] — comentário filológico e histórico; a datação sob Calígula é o eixo do debate (§2).
  • George W. E. Nickelsburg e John M. G. Barclay — reconstrução do judaísmo do segundo templo e da diáspora [V — Nickelsburg, 2005; Barclay, 1996].
  • Divulgação polêmica (Dawkins, Hitchens) não é crítica bíblica [—].

Balanço de esferas (contagem declarada)

EsferaFonte primária?
Católica ocidentalsim — Gigot [V], Larcher [V], Gilbert [V], Kolarcik [V]
Católica oriental / gregaparcial — Orígenes [—]; sem comentário antioqueno
Ortodoxaparcial — Lopukhin [—]
Protestante históricasim — Lutero [V]; Charles, Oesterley e Deane são [HIST]
Evangélicasim — Glicksman [V], Grabbe [V]
Judaicaparcial — lacuna do material
Não confessionalsim — Collins [V], Winston [V], Nickelsburg [V], Barclay [V]

O desequilíbrio — judaica sem comentário contínuo, evangélica entrando tarde, ortodoxa com material catenário — é do material, não do dossiê; onde não há comentário corrente, a lacuna se declara [—].

12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não têm competência

A regra desta seção: declarar os limites. A ciência não decide se a Sabedoria é revelada, mas se as afirmações factuais do texto são compatíveis com o observável.

Arqueologia de Alexandria — a cidade e as suas bibliotecas

Kom el-Dikka, no centro de Alexandria, é o sítio mais informativo sobre a cidade romana: as escavações do Centro de Arqueologia Mediterrânea da Universidade de Varsóvia (PCMA) expuseram o complexo termal imperial e reconstituíram a topografia de Alexandria romana [V — PCMA, UW]. No Portus Magnus, a investigação subaquática de Franck Goddio e da IEASM, desde 1992, trouxe à luz estruturas do bairro real ptolomaico [V — franckgoddio.org; IEASM]. Nada resta, porém, das coleções da Biblioteca de Alexandria nem há testemunho de uma biblioteca judaica alexandrina: o ambiente de escrita reconstrói-se por textos, não por estratos [W].

Papiros e o Egito ptolomaico e romano

A base documentária é papirácea: os papiros de Zenão (século III a.C.), o corpus de Oxirrinco (Grenfell e Hunt, desde 1896) e a documentação administrativa do delta [W]. Para o pogrom de Alexandria de 38 d.C. — base da datação alta — a fonte é Filo, In Flaccum e Legatio ad Gaium, de que David Winston deduz a data sob Calígula (37–41 d.C.) [V — Winston, 1979]. O dado não prova a datação: prova que havia um contexto que dá sentido ao texto [W].

Os manuscritos gregos: códices, papiros e o fragmento de Khirbet Mird

O texto conserva-se em cinco códices unciaisVaticano (século IV), Sinaítico, Alexandrino, Efrém e Veneto — e em dez cursivos (dois incompletos); a forma mais exata está no Vaticano e no Veneto [V — Gigot, 1912]. A edição crítica de referência é a de Joseph Ziegler, Sapientia Salomonis, na Septuaginta de Göttingen (XII,1; 1962; 2.ª ed. 1980) [V — catálogo da Septuaginta de Göttingen]. Acresce um papiro invulgar: os fragmentos de Khirbet Mird (P.Leuven PAM 21 = Rahlfs 888), com Sb 10,8b-d e 10,15b-17d, publicados por Ceulemans e Verhasselt (2018) [V — JSTOR 26603975; KU Leuven LIRIAS 1801732]. As versões antigas (Vetus Latina, siríaca, armênia) derivam do grego [W — Gigot, 1912]. Nenhum manuscrito da Sabedoria existe em hebraico, e o livro não aparece entre os manuscritos do Mar Morto, ao contrário de Ben Sira, atestado em Qumran e em Massada [W — não recontei inventários].

Linguística — o grego koiné literário do livro

O grego da Sabedoria é koiné literária de nível elevado, com vocabulário raro, compostos eruditos, isocolon e antítese, e sintaxe sem marcas de tradução do hebraico [W — Gigot, 1912]. O estudo da linguagem e do estilo sustenta obra composta, não traduzida, situada na tradição retórica grega [ACAD — Léonas, 2011, DOI 10.13109/9783666532610.99]. A ausência de um Vorlage hebraico explica a entrada no cânon alexandrino e não no palestinense [ACAD — Goff, 2020, DOI 10.1163/2452-4107_thb_COM_0215010000]. Onde o texto toca o observável — o catálogo de Sb 7,17-22 sobre os elementos, os astros e as raízes —, é no registro do argumento: a ordem e a beleza do cosmos como premissa (Sb 13,1-5), matéria da filosofia, não da cosmologia [ACAD — Manson, 2013, DOI 10.1093/oxfordhb/9780199556939.013.0019].

Onde a ciência NÃO tem competência

  • A ciência não tem competência para decidir se as almas dos justos estão nas mãos de Deus (Sb 3,1) nem se a morte entrou no mundo “por inveja do diabo” (Sb 2,24): são afirmações de sentido, não de física [W].
  • A arqueologia e a papirologia documentam o contexto, não a composição: nenhum achado alexandrino nomeia o autor, e ter havido um pogrom em 38 d.C. não prova que o livro seja de 38–41 d.C. (datação que Winston apresenta como hipótese) [W — Winston, 1979]. Manuscritos hebraicos não existem: isso confirma a língua original, mas não data a composição [W — Ceulemans; Verhasselt, 2018].
  • A linguística não data o texto com precisão, e a crítica textual não restitui o autógrafo, apenas a melhor forma recuperável [V — Gigot, 1912].
  • E o inverso: a ciência não refuta o livro — situá-lo em Alexandria no século I a.C. ou d.C. não decide nada sobre a sua verdade teológica, apenas localiza um objeto literário [W].
O teatro romano de Alexandria, em Kom el-Dikka
O teatro romano de Alexandria, em Kom el-Dikka · contexto histórico (Alexandria ptolomaica e romana)As ruínas do teatro romano de Kom el-Dikka, no centro de Alexandria — o sítio que mais informa sobre a cidade romana, escavado pelo Centro de Arqueologia Mediterrânea da Universidade de Varsóvia. É o quadro material em que o livro foi escrito, e o dossiê registra o limite do dado: nada resta das coleções da Biblioteca de Alexandria e não há testemunho de biblioteca judaica alexandrina; o ambiente reconstrói-se por textos, não por estratos.Keith · 2022-04-11 09:32:17 · sítio arqueológico (fotografia) · Kom el-Dikka, Alexandria, Egito; fotografia de Keith (domínio público)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

13. Lacunas e Correções de Atribuição

  1. [—] Nenhum comentário rabínico à Sabedoria existe — o livro não está no Tanakh; atribuí-lo a Rashi, Ibn Ezra ou ao midrash clássico é erro (§11.1).
  2. [—] Traduções PT de Winston, Grabbe, Kolarcik, Collins, Nickelsburg, Barclay, Glicksman, Gilbert e Enns: não localizadas.
  3. [W] A conjectura de Lutero de que Filo seria o autor é hipótese do próprio Lutero (1545), não tese da crítica moderna (§6).
  4. [W] ISBN e tomo da edição Quetzal-Lourenço: 9789897224614 (vol. IV, tomo 1) segundo o registo do tradutor; não reconferido em catálogo primário da editora.
  5. [W] Registos de Reider (1957) e de Enns (1997) não localizados em Open Library; dados de conhecimento de obra.
  6. [W] Gigot (1912) é fonte datada: a sua datação (Ptolomeu IV ou VII) precede Winston e é hoje minoritária.
  7. [W] Testemunhos gregos (“cinco unciais e dez cursivos”) segundo Gigot (1912); as edições modernas listam mais (Goff, 2020); não recontados item a item.
  8. [W] A ausência da Sabedoria em Qumran assenta no inventário conhecido; não reconferi folha a folha os números.
  9. [W] Sb 16,20 e a frase latina: “panem angelorum manducavit homo” pertence ao Salmo 77(78),25; atribuí-la diretamente à Sabedoria é imprecisão (§4.7).
  10. [W] Extensão do texto de Sb 3 no movimento de Howells (Requiem, 1936): a atribuição a Sb 3 é segura; o recorte não foi conferido.
  11. [—] Videojogos e produção audiovisual sobre a Sabedoria: nenhum título localizado (§8).
  12. [W] Atanásio, 39.ª Carta Festal (367), e as listas de Hipona (393), Cartago (397) e Inocêncio I (405): citados de memória de obra, sem conferência crítica.
  13. [—] Estatística lexical do grego da Sabedoria (hapax, compostos): não apresentada por falta de conferência da concordância.

Bibliografia-âncora verificada

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