Antiguidade Bíblica
Sabedoria de Salomão (Chokmat Shlomo) — Artigo Enciclopédico
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1. Lead e Ficha
A Sabedoria de Salomão (gr. Σοφία Σαλωμῶνος, Sophia Salōmōnos; lat. Liber Sapientiae; também Παναρέτος Σοφία, “Sabedoria toda virtuosa”) é o mais tardio dos sapienciais e o único livro do Antigo Testamento composto em grego sem original hebraico conhecido [W — Gigot, 1912]. Na Vulgata, está entre o Cântico dos Cânticos e o Eclesiástico [V — Gigot, 1912]; é deuterocanônico, recebido pelos cânones católico, ortodoxo e etíope [W].
Dirige-se aos governantes — “amai a justiça, vós que julgais a terra” (Sb 1,1), fórmula repetida em 6,1 — e o seu refrão mais citado é “as almas dos justos estão nas mãos de Deus” (Sb 3,1) [W]. O texto mais influente descreve-a como “sopro do poder de Deus” e “eflúvio puro da glória do Todo-Poderoso” (Sb 7,25), “espelho sem mancha da atividade de Deus” (Sb 7,26) [W]. O autor não tem nome — fala na pessoa do “rei” (Sb 7,1-6; 8,19-20) — e a obra é pseudônima, de um judeu helenizado de Alexandria [W — Gigot, 1912].
| Campo | Dado | Marcador |
|---|---|---|
| Nome grego / latino | Sophia Salōmōnos; Liber Sapientiae (Vulgata) | [W] |
| Cânon | deuterocanônico: católico, ortodoxo, etíope; ausente do Tanakh | [W] |
| Capítulos | 19 | [W] |
| Idioma | grego koiné literário (sem original hebraico) | [W — Gigot, 1912] |
| Autoria | anônima; pseudônima sob a persona de Salomão | [W] |
| Lugar | Alexandria (Egito) — consenso | [ACAD — Goff, 2020] |
| Datação | séc. I a.C. em geral; parte da crítica situa em 37–41 d.C. | [ACAD — Goff, 2020]; [V — Winston, 1979] |
| Gênero | discurso protréptico, diatribe, aretalogia, midrash | [W — Grabbe, 2004] |
| Estrutura | três blocos: 1–5 escatologia; 6–9 sabedoria; 10–19 Êxodo | [W — Grabbe, 2004] |
| Testemunhos gregos | códices Vaticano, Sinaítico, Alexandrino, Efrém, Veneto | [V — Gigot, 1912] |
| Papiro | fragmentos de Khirbet Mird (Rahlfs 888), publ. 2018 | [V — Ceulemans; Verhasselt, 2018] |
2. Contexto e Autoria
A ficção salomônica. O autor fala como rei: recorda a própria condição mortal (Sb 7,1-6), diz ter pedido e obtido a sabedoria (Sb 7,7) e preferido-a a cetros e tronos (Sb 7,8) [W]. É instrumento retórico, não autobiografia: como todo o livro foi composto em grego, a autoria salomônica fica arredada, e a posição média — um autor posterior usando escritos salomônicos perdidos — foi julgada sem argumentos positivos no início do século XX [W — Gigot, 1912, citando Cornely-Hagen, 1909]. O autor real permanece anônimo [W].
Alexandria como lugar. Convergem: o grego excelente, superior ao da Palestina; o vocabulário filosófico (Deus “autor da beleza”, Sb 13,3; a pronoia em Sb 14,3 e 17,2; a “matéria informe”, ex amorphou hylēs, Sb 11,17; as quatro virtudes cardeais em Sb 8,7); a coloração egípcia da zombaria da idolatria, que termina no culto de animais (Sb 15,18-19); e a conservação no cânon alexandrino, não no palestinense [W — Gigot, 1912]. Consenso: Alexandria [ACAD — Goff, 2020, DOI 10.1163/2452-4107_thb_COM_0215010000].
A datação: três posições.
- Século I d.C., sob Calígula (37–41 d.C.). Tese de David Winston na Anchor Bible [V — Winston, 1979, ISBN 9780385016445]: o livro refletiria a perseguição aos judeus de Alexandria — o pogrom de 38 d.C., documentado por Filo em In Flaccum e Legatio ad Gaium —, e a retórica contra os “tiranos” (Sb 2,12-20; 5,1-14) visaria o poder romano [W — Winston, 1979].
- Segundo/primeiro século a.C., Egito ptolomaico. A crítica católica clássica apontava Ptolomeu IV Filopátor (221–204 a.C.) ou Ptolomeu VII Fiscão (145–117 a.C.), notando que o livro talvez tenha saído só depois da morte deles, “pois de outro modo teria apenas aumentado a sua ira tirânica” [W — Gigot, 1912, citando Lesêtre]; Chrysostome Larcher e Maurice Gilbert leram o livro nessa chave [W — Larcher, 1969; Gilbert, 1973].
- Virada da era, sem perseguição específica. A fórmula hoje mais comum é cautelosa: produto do judaísmo helenístico maduro, e “hoje é comum propor uma data de composição no século I d.C.” [ACAD — Goff, 2020]. John J. Collins situa-o no judaísmo do segundo templo tardio [V — Collins, 1997, ISBN 9780664221096]; George W. E. Nickelsburg inclui-o no seu levantamento da literatura do período [V — Nickelsburg, 2005, ISBN 9780800637798]; John M. G. Barclay reconstruiu o ambiente social da diáspora [V — Barclay, 1996, ISBN 9780567086518].
O gênero. (i) Discurso protréptico (logos protreptikos): a exortação que persuade o leitor a abraçar um modo de vida. (ii) Diatribe cínico-estóica: pregação popular com interlocutor fictício e apóstrofes (Sb 1,16–2,24; 6,1-11). (iii) Aretalogia: Sb 7,22b–8,1 acumula vinte e um atributos da sabedoria, no gênero das aretalogias de Ísis (§9) [W — Grabbe, 2004; ACAD — Kloppenborg, 1982, DOI 10.1017/s0017816000018216].
3. Estrutura (19 capítulos)
Lester Grabbe ordena os dezenove capítulos em três livros: Livro da Escatologia (1–5), Livro da Sabedoria (6–9) e Livro da História (10–19) [W — Grabbe, 2004].
- Escatologia (Sb 1–5). Sb 1 — exortação à justiça e a tese de que “Deus não fez a morte” (Sb 1,13-14). Sb 1,16–2,24 — o discurso dos ímpios e a conspiração contra o justo. Sb 3–4 — o destino oposto dos justos e dos ímpios. Sb 5 — a inversão final; Sb 6,1-21 fecha o bloco com nova apóstrofe aos reis [W].
- Sabedoria (Sb 6,22–9). Sb 6,22–7,6 — a promessa de narrar a origem da sabedoria e a recordação da mortalidade comum. Sb 7,7-14 — a oração atendida. Sb 7,15-22 — o catálogo do que a sabedoria ensina sobre o mundo. Sb 7,22b–8,1 — a aretalogia. Sb 8,2–9,18 — o amor da sabedoria e a oração de Sb 9, modelada na de Salomão em 1 Reis 3 [W].
- História (Sb 10–19). Sb 10 — a história hebraica em sete painéis, todos com “ela” (a sabedoria) por sujeito: Adão, Noé, Abraão, Lot, Jacó, José e Moisés. Sb 11,1-14 — prólogo do Êxodo. Sb 11,15–12,27 — a misericórdia e a medida retributiva. Sb 13–15 — a crítica dos deuses e da idolatria. Sb 16–19 — os contrastes entre egípcios e israelitas, com a doxologia de Sb 19,22 [W].
Costura e unidade. Sb 1,1 e Sb 6,1 repetem a apóstrofe aos juízes da terra; Sb 9,18 é ponte para a revisão histórica; Sb 19,22 encerra com doxologia [W — Gigot, 1912]. Versículos tidos como interpolações cristãs (Sb 2,24; 3,13; 4,1; 14,7) explicam-se hoje no quadro judaico do autor [W — Gigot, 1912].
4. Conteúdos-chave com Debate
4.1 O discurso dos ímpios (Sb 1,16–2,24)
“Curta e triste é a nossa vida” (Sb 2,1), e daí “gozemos dos bens presentes” (Sb 2,6): a teologia dos ímpios é explícita — “somos nascidos do acaso” (Sb 2,2) [W]. O discurso passa do prazer à agressão: “tendamos ciladas ao justo, porque ele nos incomoda” (Sb 2,12); o justo “chama-se filho do Senhor” (Sb 2,13) e decidem prová-lo pela morte vergonhosa (Sb 2,19-20); erraram por não conhecer “os mistérios de Deus” (Sb 2,22) [W]. Debate: (i) que pensamento a passagem caricatura? Há ecos epicureus (o acaso, o prazer) e estoicos (a confiança na ordem do mundo), sem citação de fonte: o autor compõe um tipo [W — Winston, 1979]; (ii) a função dramática — Sb 2,12-20 tornou-se texto-matriz do justo eliminado pela unanimidade (§10) [W — Girard, 1982], e Mateus 27,42-43 retoma Sb 2,13-18 [W — Gigot, 1912].
4.2 A imortalidade e a resposta de 1–5
A resposta é uma inversão escatológica: “as almas dos justos estão nas mãos de Deus” (Sb 3,1); aos olhos dos insensatos “pareceram morrer”, mas “eles estão em paz” (Sb 3,2-3) [W]. A vida presente é provação como o ouro no cadinho (Sb 3,5-6); “a velhice honrada não é a que dura muito” (Sb 4,8); o justo morto cedo “agradou a Deus e foi amado” (Sb 4,10) [W]. Em Sb 5 os ímpios confessam “nós nos desviámos do caminho da verdade” (Sb 5,6), e segue-se a teofania em que Deus veste o universo para a batalha (Sb 5,17-23), imagem reutilizada por Efésios 6,13-17 [W — Gigot, 1912].
4.3 A aretalogia (Sb 6,22–9,18) e o vocabulário de Sb 7,25-26
O centro literário culmina em três metáforas. A sabedoria é “sopro (atmis) do poder de Deus”, “efusão pura (aporroia) da glória do Todo-Poderoso” (Sb 7,25) e “resplendor (apaugasma) da luz eterna, espelho sem mancha (esoptron akēlidōton) da atividade de Deus e imagem (eikōn) da sua bondade” (Sb 7,26) [W]. Os campos semânticos, porém, não se confundem: atmis (“sopro, vapor”) não é o pneuma estoico, é a linguagem da respiração; aporroia (“efluência”) pertence às metáforas de derivação luminosa médio-platônicas e reaparece em Filo de Alexandria; apaugasma (“brilho refletido”) é o termo de Hebreus 1,3 [W — Winston, 1979].
O debate sobre o que isso é. (i) Personificação literária: o “ela” continua a figura poética de Provérbios 8 e Sira 24 [W — Murphy, 1996]. (ii) Hipóstase: o vocabulário de emanação e imagem descreveria um ser intermediário [W]. (iii) Fusão médio-platônica e estoica: cosmologia estoica (sabedoria difusiva no cosmos) com metafísica médio-platônica (origem por derivação do Bem) [ACAD — Sterling, 2017, DOI 10.1017/9781316694459.011].
4.4 O Êxodo (Sb 10–19) como midrash e como diatribe
O bloco não é paráfrase de Êxodo: é releitura, com três marcas. (a) Sb 10 narra a história primitiva de Israel em sete painéis com a sabedoria por sujeito — “ela preservou o primeiro formado” (Sb 10,1-2), “ela salvou a terra perturbada por causa do justo” (Sb 10,4) —, convertendo a história eleita num tratado sobre a sabedoria [W — Grabbe, 2004]. (b) Sb 11,16 enuncia o programa — cada um é punido “pelas próprias coisas por que peca” —, e daí os contrastes: cinco pares duplos, em negativo (egípcio) e positivo (israelita) [W]. Água: rio em sangue (Sb 11,6-14) vs. água da rocha (Sb 11,4). Animais e maná: insetos e feras (Sb 16,1-14) vs. maná e codornizes (Sb 16,20-26). Luz: trevas (Sb 17) vs. luz que não se apaga (Sb 18,1-4). Primogênitos: morte no Egito (Sb 18,5-19) vs. sinal do sangue (Sb 18,20-25). Mar: exército afogado (Sb 19,1-17) vs. passagem a pé enxuto (Sb 19,18-22). (c) O retelling permite duas digressões ausentes do Êxodo: a exortação sobre a misericórdia (Sb 11,15–12,27) e a crítica da idolatria (Sb 13–15) [W — Grabbe, 2004].
O debate. A categoria de midrash é hoje quase universal para Sb 10–19, mas não é neutra: quem a usa afirma que o autor reescreve com liberdade interpretativa, e estudos recentes tratam o bloco como recepção dos motivos do Êxodo [ACAD — Gilbert, 2021, DOI 10.1163/9789004471122_006; Jacobson, 2010, DOI 10.1353/sho.0.0437]. O efeito teológico é medível: a história nacional deixa de ser privilégio e passa a ilustrar uma providência que castiga e perdoa a todos [W — Winston, 1979].
4.5 A natural teologia e o argumento do desenho (Sb 13,1-9)
Sb 13 distingue os que “não souberam conhecer Deus” — os que, contemplando o fogo, o vento, os astros e a água, “os tomaram por deuses” (Sb 13,1-2) — dos que adoram ídolos. O argumento decisivo vem no v. 5: “pois da grandeza e da beleza das criaturas se percebe, por analogia, o artífice delas” [W]. A censura é escalonada: os primeiros são “menos culpáveis” (Sb 13,6-7); os que transferem para ídolos o que é do Criador “não merecem perdão” (Sb 13,8-9) [W].
O debate moderno, com nomes. A passagem é o lugar bíblico de referência do argumento do desenho, cuja crítica tem um marco em David Hume, Dialogues concerning Natural Religion (1779): a inferência de um artífice único a partir da analogia cosmos-máquina é frágil. A forma clássica do argumento tem o nome de William Paley, Natural Theology (1802), com o relógio no campo [HIST]; o mapa contemporâneo está em Neil A. Manson [ACAD — Manson, 2013, DOI 10.1093/oxfordhb/9780199556939.013.0019]. Sb 13,5, porém, descreve uma percepção proporcionada, não uma inferência — leitura de conhecimento por participação; o Novo Testamento retoma a tese com sinal invertido (Romanos 1,18-23) [W].
4.6 A “palavra onipotente” no silêncio (Sb 18,14-16) e a liturgia do Natal
“Enquanto um silêncio profundo envolvia todas as coisas e a noite percorria a metade do seu curso, a tua palavra onipotente, vinda do céu, do trono real, saltou como um guerreiro implacável” (Sb 18,14-16) [W]. No contexto, a “palavra” executa a décima praga; na recepção cristã tornou-se texto do Natal — o introito “Dum medium silentium tenerent omnia”, da Missa do Domingo dentro da Oitava do Natal no Missal Romano [V — Missal Romano; estudo “Wisdom 18:14f.: An Early Christmas Text”, JSTOR 1581947]. A inversão é total: onde o texto fala de juízo, a liturgia lê encarnação [W].
4.7 O “pão dos anjos” e o maná (Sb 16,20)
Sb 16,20-21 descreve o maná como alimento preparado no céu, que “se transformava em tudo o que se desejasse” [W]. A tradição latina designou-o “alimento dos anjos”, cruzando a fórmula com a do Salmo 77(78),25 — “panem angelorum manducavit homo” —, que alimentou a liturgia eucarística: a antifona “Panem angelorum” de Corpus Christi e, por essa via, o Sacris solemniis de Tomás de Aquino, de que deriva o Panis angelicus [W]. Duas precisões honestas: a frase latina pertence ao Salmo, não à Sabedoria; o que a Sabedoria fornece é o alimento que se adapta a quem o recebe [W].
4.8 Sb 2,23-24 — a morte e o diabo
“Deus criou o homem para a incorruptibilidade (aphtharsia) e o fez à imagem da sua própria natureza; mas pela inveja do diabo a morte entrou no mundo” (phthonōi de diabolou thanatos eisēlthen eis ton kosmon) [W]. Corrige o fatalismo — Sb 1,13-14 já afirmara que “Deus não fez a morte” — e introduz um agente: diabolos (“caluniador, adversário”) passa a designar uma figura pessoal. Tornou-se matriz da angelologia e da demonologia posteriores, com eco próximo em Romanos 5,12, cujo sujeito é Adão [W]. A exegese discute quem é o invejoso (a serpente de Gênesis 3, um anjo caído no sentido de 1 Enoque, ou o acusador de Jó) e se phthonos traduz um hebraísmo ou uma categoria moral grega [W — Winston, 1979]. O autor faz teodiceia, não demonologia [W].

5. Temas
- Justiça e retribuição. O livro abre e fecha falando a governantes; não trata da imortalidade em geral, mas da dos justos (Sb 1,1; 5,15-16) [W].
- Imortalidade e incorruptibilidade. aphtharsia é o termo técnico (Sb 2,23; 6,18-19); aparece como dom e relação, não como propriedade natural da alma [W — Wright, 2003].
- Sabedoria como pessoa e como dom. Acessível a quem a deseja (Sb 6,12-21), obtida por oração (Sb 7,7), figurada como luz (Sb 7,22b-8,1) [W].
- Providência (pronoia). O conceito grego ganha rosto bíblico e é aplicado à história (Sb 14,3; 17,2) [W].
- Idolatria e suas causas. A ignorância que confunde criatura e Criador (Sb 13); o interesse do artesão (Sb 14,15-21); a dissolução moral dela decorrente (Sb 14,22-31) [W].
- Criação e matéria. Sb 11,17 fala de “matéria informe”, expressão platônica que a exegese clássica leu como remissão a Gênesis 1,2 [ACAD — Winston, 1971, DOI 10.1086/462650].
6. Recepção
No Novo Testamento. As correspondências foram inventariadas no início do século XX: Mateus 27,42-43 com Sb 2,13-18; Romanos 11,34 com Sb 9,13; Efésios 6,13-17 com Sb 5,18-19; Hebreus 1,3 com Sb 7,26 [W — Gigot, 1912]. Nenhuma é citação formal; são intertextualidade [W]. Sb 7,25-26 deu às gerações nicenas o vocabulário da relação entre o Pai e o Filho, e a leitura católica clássica fez do livro uma preparação providencial da revelação cristã [W — Gigot, 1912].
Nos Padres. Clemente de Alexandria a usa em contexto protréptico; Orígenes a cita nas discussões sobre o mundo e as criaturas racionais; Atanásio entra com ela na controvérsia ariana, servindo o apaugasma de apoio à consubstancialidade; Ambrósio usa os textos sobre o espírito nas obras pneumatológicas [W]. Jerônimo, no prefácio aos livros de Salomão (Praef. in libros Salomonis), consignou que a língua original é o grego; na Vulgata, porém, o texto da Sabedoria não é tradução nova sua — é a Vetus Latina revista [W — Gigot, 1912].
A questão deuterocanônica. No Oriente, Atanásio, na 39.ª Carta Festal (367), alinhou a Sabedoria entre os livros que os Padres mandaram ler aos catecúmenos, mas não entre os canônicos; Cirilo de Jerusalém e o cânone atribuído a Laodiceia (c. 363) seguem linha parecida [W]. No Ocidente, Hipona (393) e Cartago (397) a incluem nas listas canônicas, e Inocêncio I, na carta a Exupério (405), repete a inclusão [W]. O ponto decisivo é o Concílio de Trento, quarta sessão (1546) [W]; a tradição ortodoxa mantém-na entre os anagignoskomena, e a etíope a recebe no seu cânon largo [W].
O juízo de Lutero — fonte conferida. No prefácio à Sabedoria da Biblia de 1545, Lutero abre: “este livro esteve longo tempo em discussão, se devia ou não ser contado entre os livros da Sagrada Escritura do Antigo Testamento”. Diz que “os antigos Padres o separaram firmemente da Sagrada Escritura” e o tiveram por escrito “sob a pessoa do rei Salomão” — e formula a sua conjectura: “eles sustentam que Philo deva ser o mestre deste livro”, ligando a obra à perseguição dos judeus alexandrinos sob Calígula [V — Luther, 1545; [W] quanto à conjectura, que a crítica moderna não sustenta]. Conclui: “há muita coisa boa nele e vale a pena lê-lo”, notando que “dificilmente se fizeram tantos cânticos da igreja a partir de um só livro da Escritura” [V — Luther, 1545]. Lutero rebaixa-o de canônico a útil e recomenda a leitura.
A leitura judaica e a recepção brasileira. O livro não está no Tanakh e não tem comentário rabínico contínuo [—]: não há rashi nem midrash clássico sobre a Sabedoria — caso único entre os sapienciais, um livro judaico de Alexandria conservado pela Igreja e ausente da sinagoga [W]. A Igreja católica no Brasil dedicou-lhe o Mês da Bíblia de 2018, com o tema “Para que nele nossos povos tenham vida” e o lema “A sabedoria é um espírito amigo do ser humano” (Sb 1,6a) [V — CNBB, 2018; CRB Nacional].


7. Traduções PT e Comentários PT
Traduções brasileiras que incluem a Sabedoria (as protestantes correntes a omitem):
- Bíblia de Jerusalém (Paulus/Paulinas, edição brasileira da Bible de Jérusalem) [V-OL — ISBN 9788534913218].
- Bíblia do Peregrino (trad. Luis Alonso Schökel e equipe; Paulus) [V-OL — ISBN 9788534920056].
- TEB — Tradução Ecumênica da Bíblia (da TOB francesa; Loyola, 2010) [V — ISBN 9788515030163].
- Bíblia Ave-Maria (Paulus), Bíblia Pastoral e as edições CNBB — todas a incluem [W].
- Almeida — presente em edições que declaram incluir os deuterocanônicos [W].
Edição PT-PT da Septuaginta. Frederico Lourenço (Universidade de Coimbra) traduz a Bíblia Grega pelo Quetzal Editores; a Sabedoria entra no Volume IV — Os Livros Sapienciais, tomo 1, ISBN 9789897224614 (Quetzal, 2018) [W — ISBN segundo o registo ORCID do tradutor; não reconferido em catálogo da editora].

Comentário PT verificado (obra dedicada).
- Ivo Storniolo, Como ler o livro da Sabedoria: a sabedoria de Israel e o senso da justiça, São Paulo: Paulus, coleção “Como ler a Bíblia” — ISBN 9788534900522 [V-OL — registro de 2003; as bibliografias brasileiras citam a edição de 1993]. Storniolo assina outros volumes da mesma série, entre eles o de Daniel [V].
Subsídios PT brasileiros. CNBB, Mês da Bíblia 2018: A sabedoria é um espírito amigo do ser humano [V — CRB Nacional]; revista Vida Pastoral (Paulus), número temático [V].
Comentários-âncora em EN/FR. Winston [V — ISBN 9780385016445]; Grabbe [V — ISBN 9780567084446]; Kolarcik [V — ISBN 9788876531279]; Collins [V — ISBN 9780664221096]; Nickelsburg [V — ISBN 9780800637798]; Barclay [V — ISBN 9780567086518]; Glicksman [V — ISBN 9783110247657]; Gilbert [V-OL]. Traduções PT não localizadas [—].
8. Audiovisual e Games
Não há nenhum filme, série ou jogo que dramatize o livro — a razão é textual: não tem trama, tem argumento. Salomão é personagem televisivo habitual; o livro que leva o seu nome, não.
| Título | Realidade | Validação PT | Marcador |
|---|---|---|---|
| Salomão e a Rainha de Sabá (Solomon and Sheba, 1959, King Vidor) | épico sobre 1 Reis 10, sem material da Sabedoria | dublagem PT não confirmada | [W] |
| Salomão (Solomon, TNT, 1997, Roger Young) | telefilme sobre a vida de Salomão (1 Reis) | dublagem não confirmada | [W] |
| O Reino de Salomão (The Kingdom of Solomon, 2010, Irã) | produção iraniana sobre o reinado | não localizado em PT | [W] |
| Reis (minissérie, RecordTV, desde 2022) | adapta Samuel e Reis; nenhum episódio sobre a Sabedoria | produção brasileira | [W] |
| Obra audiovisual que dramatize a Sabedoria de Salomão | não localizada | — | [—] |
| Videojogos | nenhum título dedicado; listas de “jogos bíblicos” não cobrem o livro | — | [—] |
Onde a Sabedoria está em som. A recepção musical passa pela liturgia (§4.6-4.7): o introito gregoriano “Dum medium silentium” (Sb 18,14-15) [V — Missal Romano; JSTOR 1581947]; o motivo do “alimento dos anjos” (Sb 16,20) na antifona “Panem angelorum” [W]; e Herbert Howells, Requiem (1936), cujo movimento “The souls of the righteous” põe em música o texto de Sb 3 [W — recorte não conferido]. Canais brasileiros de estudo bíblico o tratam em formato devocional [W].
9. Mitologia e Literatura Comparada
O comparandum desta obra não está na Mesopotâmia nem em Canaã, está na Grécia: o autor escreve em grego, em Alexandria, e dialoga com o pensamento grego de igual para igual.
Platão e o Fedão — alma imortal e pré-existência
Sb 8,19-20 põe na boca do “rei”: “sendo eu um menino bem dotado, coube-me uma boa alma; ou melhor, sendo bom, vim a um corpo sem mancha” — a leitura mais espontânea do grego supõe a precedência da alma em relação ao corpo [W]. A comparação com o Fedão é antiga: o diálogo argumenta a imortalidade (70c-72e; 78b-84b; 105e) e admite a pré-existência (72e) [W]; e Sb 9,15 (“o corpo corruptível entorpece a alma”) é eco de Fedão 66b-67a [W].
O debate. (i) Dependência platônica: Sb 1–5 teria adaptado o Fedão — obra de referência, James M. Reese, Hellenistic Influence on the Book of Wisdom and Its Consequences [V-OL], e a discussão de Winston [V — Winston, 1979]. (ii) Transformação judaica: a “imortalidade” da Sabedoria não é indestrutibilidade de uma alma divina por natureza, mas dom ligado à justiça e à relação com Deus [W — Wright, 2003]; o tema se constrói por etapas, a partir de material sapiencial anterior [ACAD — Matusova, 2022, DOI 10.5040/9781350265059.ch-004]. Terceira via: escatologia judaica com antropologia grega [V — Collins, 1997].
O Timeu, o estoicismo e a ordem do mundo
O Timeu apresenta o mundo como obra de um demiurgo bom que quis que todas as coisas fossem boas (29e-30a), explicado pela ordem e pela beleza [W]; Sb 13,1-5 argumenta da ordem e da beleza das criaturas para o seu artífice, e chama Deus “autor da beleza” (Sb 13,3) [W]. A diferença de fundo: no Timeu, contemplar o cosmos leva à filosofia e à assimilação ao divino; na Sabedoria, ao reconhecimento de um Criador que é também Juiz [W].
Quanto ao estoicismo, Sb 1,7 diz que “o espírito do Senhor enche o mundo” e Sb 8,1 que a sabedoria “alcança com vigor de um extremo ao outro e tudo governa bem”; a cosmologia estoica concebe o pneuma como princípio que penetra e unifica o cosmos e o logos como a razão que o ordena — vocabulário muito próximo [W]. O pneuma estoico, porém, é material e imanente, e o espírito de Sb 1,4-7 é santo, pessoal e moralmente exigente [W]. A leitura de conjunto mais defendida sustenta uma fusão de platonismo médio e estoicismo [ACAD — Sterling, 2017, DOI 10.1017/9781316694459.011].
Filo de Alexandria — o paralelo judaico-helenístico mais próximo
Nenhum autor antigo se parece tanto com esta obra quanto Filo de Alexandria (c. 20 a.C. – c. 50 d.C.) [W]. Os contactos são de três ordens: (i) o Logos e as potências divinas como intermediários entre o Uno e o mundo, com vocabulário de derivação próximo de Sb 7,25-26 [ACAD — More, 2012, DOI 10.1163/9789004241732_022]; (ii) o mundo inteligível como modelo do sensível e a criação a partir de matéria informe [ACAD — Winston, 1971, DOI 10.1086/462650]; (iii) a exegese alegórica do Êxodo [W]. A direção da dependência não está resolvida — a Sabedoria é fonte de Filo, Filo é fonte da Sabedoria, ou ambos bebem do platonismo médio alexandrino, hipótese mais econômica [ACAD — Sterling, 2017; More, 2012]. O estudo da imortalidade em Filo ilumina, por contraste, a diferença da Sabedoria [ACAD — Yli-Karjanmaa, 2021, DOI 10.1017/9781108935777.008].
A personificação da sabedoria em Provérbios 8 e em Sira 24
Provérbios 8,22-31 apresenta a sabedoria presente na criação, “junto de Deus como um mestre-de-obras”; Sira 24 a faz falar em primeira pessoa, saída da boca do Altíssimo e posta a tabernacular em Jacó [W]. O que a Sabedoria acrescenta é o vocabulário de emanação e o registro aretológico, o discurso de louvor com que uma divindade enumera os seus feitos, e o paralelo de gênero mais próximo são as aretalogias de Ísis, inscrições em que a deusa fala em primeira pessoa (“eu sou…”) [ACAD — Kloppenborg, 1982, DOI 10.1017/s0017816000018216].
O que a comparação mostra e o que não mostra. A tese de que Sb 7,7-30 seja decalque das aretalogias de Ísis foi defendida e contestada com força: a forma é a mesma, mas o conteúdo é material judaico [ACAD — Kloppenborg, 1982]. As personificações voltam no judaísmo do segundo templo: 1 Enoque 42 (a sabedoria que desceu, não encontrou morada e voltou), Baruque 3,9-4,4 (o que Israel tem e as nações não têm) e 4 Esdras 5,9-10 (associada aos tempos messiânicos) [W]. É a este fio que o “ela” de Sb 10 se liga: prender-lhe a Sophia gnóstica é leitura marcada como anacrônica [ACAD — Peerbolte, 2005, DOI 10.1163/9789047407676_007].

10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta
A imortalidade: destino natural ou dom?
A pergunta que Sb 3,1-9 e Sb 8,19-20 deixam aberta é se a imortalidade é propriedade da alma ou relação com Deus. A resposta platônica é a primeira; a da Sabedoria, na leitura mais defensável, a segunda — o justo está nas mãos de Deus, e é essa pertença que o salva [W — Wright, 2003]. Immanuel Kant deu-lhe uma terceira formulação: a existência de Deus e a imortalidade da alma como postulados da razão prática, exigidos para que a busca do bem supremo não seja absurda [HIST]. Martha Nussbaum, na Fragility of Goodness, reconstruiu a linha grega oposta — a vida boa vulnerável à fortuna — e a terapia grega para essa vulnerabilidade [W]. Lida em contraste, a Sabedoria opera terapia inversa: não domestica a fortuna, mas promete o desfecho que a justifica [W].
A teodiceia: o problema do mal e a resposta da Sabedoria
O discurso dos ímpios (Sb 2) é o problema do mal na primeira pessoa. John Leslie Mackie formulou a versão lógica [ACAD — Mackie, 1955, DOI 10.1093/mind/lxiv.254.200], e William L. Rowe a evidencial, a partir do mal gratuito [W]. A Sabedoria não apresenta defesa lógica: apresenta escatologia — o mal presente é absorvido por um desfecho em que os justos permanecem (Sb 5,15-16) e os ímpios reconhecem o engano (Sb 5,6) [W]. É teodiceia narrativa, não uma “solução” do problema [W].
Vítima, comunidade e classificação: Girard e Mary Douglas
Sb 2,12-20 descreve uma comunidade que se reúne para eliminar um homem cuja vida a incomoda; o justo é acusado, testado e condenado por todos. René Girard descreveu esse processo como o mecanismo do bode expiatório: a crise interna resolve-se pela convergência da violência de todos sobre um só [W]. A leitura girardiana da Sabedoria é de tipo, não de fonte: Girard fornece a descrição antropológica de um padrão que o texto narra [W] — e a recepção confirma o padrão, pois Mateus 27,42-43 põe na boca dos que passavam junto da cruz exatamente a zombaria de Sb 2,13-18 [W — Gigot, 1912].
Os capítulos 13-15 acusam o idólatra de classificatoriamente errado: troca criatura por Criador, e a vida subsequente desmorona em confusão de categorias (Sb 14,22-31) [W]. Mary Douglas demonstrou que as categorias de pureza e abominação em Israel funcionam como sistema de classificação — “a sujeira é a matéria fora do lugar” —, quadro em que a acusação ganha inteligibilidade [W — Douglas, 1966]. A ferramenta permite tratar Sb 13–15 como argumento simbólico sobre a ordem do mundo, não só polêmica anticulta, que é o que faz a obra de referência de Maurice Gilbert [V-OL — Gilbert, 1973].
A inferência a partir do mundo: Espinosa, Hume, Paley
Baruch de Espinosa deu à crítica da finalidade a sua forma radical no Apêndice à Parte I da Ética (1677): a crença de que a natureza age em vista de fins é projeção do desejo humano [HIST]. Sb 13,5 faz o movimento oposto — da ordem do mundo para o seu artífice [W — Manson, 2013]. Aristóteles fornece o outro polo: o motor imóvel é causa final sem ser artífice de um plano, e as quatro virtudes cardeais de Sb 8,7 pertencem à tradição ética grega que o autor pressupõe [W — Gigot, 1912, que atribui o catálogo à escola aristotélica]. Na esteira de Mackie e de Rowe, fica a pergunta se uma ordem bela basta para um Deus justo ou se o argumento exige a retribuição [W].
11. Teologia — os debates
Imortalidade da alma ou ressurreição dos corpos?
Sb 3,1-9 fala de “almas” nas mãos de Deus e de justos “em paz”; não fala de ressurreição de corpos [W]. A pergunta é se a Sabedoria substitui a esperança judaica da ressurreição por uma escatologia grega. N. T. Wright sustenta que Sb 1–5 é uma forma de imortalidade distinta tanto da ressurreição farisaica quanto do dualismo platônico integral, com a vida além da morte ligada à comunhão com Deus, não à natureza da alma [W — Wright, 2003]. A pesquisa recente confirma elaboração progressiva, dependente de material judaico anterior [ACAD — Matusova, 2022, DOI 10.5040/9781350265059.ch-004]; a leitura católica clássica faz dela preparação do Novo Testamento [W — Gigot, 1912].
A criação: do nada ou de matéria informe?
Sb 11,17 diz que Deus fez o mundo “de uma matéria informe” (ex amorphou hylēs) [W]. A defesa clássica lê a expressão como descrição do caos de Gênesis 1,2, sem afirmar a eternidade da matéria [W — Gigot, 1912]. A discussão moderna mostrou que a ideia de criação absoluta se articulou depois, e que a fórmula pertence ao vocabulário platônico da ordenação do informe [ACAD — Winston, 1971, DOI 10.1086/462650].
O Espírito, o Logos e o diabo
A patrística grega encontrou em Sb 7,25-26 o vocabulário da geração do Filho — emanação sem divisão, resplendor que não separa a fonte da luz — e em Sb 1,5-7 e 9,17 um lugar pneumatológico [W]. O debate moderno é de anacronismo: os Padres leem uma teologia que os textos comportam, ou o que os concílios definiram? A resposta equilibrada distingue vocabulário (da Sabedoria) de doutrina (da controvérsia nicena) [W — Gigot, 1912]. Para o diabo de Sb 2,23-24 (§4.8), três leituras: anjo caído cuja inveja explica a morte; figura retórica do mal moral, com o texto a continuar teodiceia; midrash de Gênesis 3 [W — Winston, 1979]. Comum a todas: a morte não é criação divina nem necessidade natural, é mal datável [W].
A questão deuterocanônica, a autoridade e a teologia natural
Sb 6,18-19 faz da observância da lei a garantia da incorruptibilidade — articulação entre torá e imortalidade que mostra que o autor não é um platônico com nome hebraico [W]. Se o conhecimento de Deus pelas criaturas é possível (Sb 13,5; Romanos 1,20), a teologia natural tem base bíblica. Karl Barth veria em Sb 13 a tentação permanente da religião; a posição católica reafirma o texto como fundamento da demonstrabilidade de Deus pela razão (Vaticano I, Dei Filius; Dei Verbum, 1965) [W; ACAD — Manson, 2013, DOI 10.1093/oxfordhb/9780199556939.013.0019].
11.1. Comentaristas por esfera confessional
Organizada por tradição de leitura, não por cronologia. Regra desta camada — a perspectiva se declara, não se atribui, e o rótulo é metadado, não argumento.
Católica ocidental (latina)
- Cornélio a Lapide, Commentaria in librum Sapientiae (1616–1642) [W].
- F. Gigot, “Book of Wisdom”, Catholic Encyclopedia (1912) [DIGITAL].
- Chrysostome Larcher, Études sur le Livre de la Sagesse (Gabalda, 1969) [V-OL].
- Maurice Gilbert, La critique des dieux (AnBib 53; PIB, 1973) [V-OL].
- Michael Kolarcik, The Ambiguity of Death in the Book of Wisdom 1–6 (AnBib 127; PIB, 1991) [V — ISBN 9788876531279].
Católica oriental e grega patrística
- Clemente de Alexandria — uso protréptico abundante [W]. Atanásio — o apaugasma de Sb 7,26 no arsenal antia-riano [W].
- Orígenes — cita a Sabedoria em De principiis; comentário contínuo não se conservou [—].
- Cirilo de Jerusalém e a lista atribuída a Laodiceia (c. 363) — exclusão do cânon estrito, com leitura catequética [W].
- Comentário contínuo antioqueno: não existe; a distinção alexandrina (alegórica) contra antioquena (literal) explica leituras incompatíveis [—].
Ortodoxa
- A Sabedoria é lida como anagignoskomenon, com presença litúrgica e uso patrístico por catena [W].
- Atanásio, 39.ª Carta Festal (367) — a distinção clássica entre canônico e “lido” [W].
- Alexander Lopukhin, Толковая Библия (1904–1913) — o comentário russo de referência inclui os deuterocanônicos; não reconferi a página [—].
- Orthodox Study Bible (NT 1993; completa 2008) — notas patrísticas [W].
Protestante histórica
- Martinho Lutero, “Vorrede auff die Weisheit Salomonis”, Biblia de 1545 — livro “longo tempo em discussão”, conjectura a favor de Filo, leitura recomendada [V].
- João Calvino — não comentou os deuterocanônicos [—].
- R. H. Charles (org.), The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament (Clarendon, 1913) [HIST]; W. O. E. Oesterley, The Wisdom of Solomon (SPCK, 1917) [HIST]; W. J. Deane, The Book of Wisdom (Oxford, 1881) [HIST]. Anteriores, citados por Gigot: Grimm (1860), Gutberlet (1874), Bissell (1880), Farrar (1888), Siegfried (1890), Cornely-Zorell (1910) [W — Gigot, 1912].
- Assimetria declarada: esta esfera domina o mercado anglófono por fato de mercado, não de mérito, e séculos de exclusão deixam o comentário protestante mais pobre que o católico neste livro [W].
Evangélica
- Peter Enns, Exodus Retold: Ancient Exegesis of the Departure from Egypt in Wis 10:15-21 and 19:1-9 (HSM 57; Scholars Press, 1997) [W — não localizado em OL nesta sessão].
- Andrew T. Glicksman, Wisdom of Solomon 10 (De Gruyter, 2011) [V — ISBN 9783110247657; [ACAD] para o capítulo de método, DOI 10.1515/9783110247657.64].
- Lester L. Grabbe, Wisdom of Solomon (T&T Clark Study Guides) [V — ISBN 9780567084446].
- N. T. Wright, The Resurrection of the Son of God (2003) [W]. Observação: a esfera evangélica entrou tarde aqui, e as obras disponíveis são de método histórico-crítico adotado por autores confessionais [W].
Judaica
- Não há comentário rabínico contínuo à Sabedoria: fora do Tanakh, sem midrash clássico, e nenhum comentarista medieval (Rashi, Radak, Ibn Ezra) o comentou [—]. Lacuna do material, não do dossiê.
- Joseph Reider, The Book of Wisdom (Jewish Apocryphal Literature; Harper, 1957) [W — não localizado em OL nesta sessão].
- Lester L. Grabbe, John J. Collins e David Winston — leitura histórico-crítica da obra como literatura judaica de Alexandria [V — Collins, 1997; Grabbe, 2004; Winston, 1979].
- A tradição judaica conservou-a fora do seu cânon; a sua sobrevivência deve-se à Septuaginta e à Igreja [W].
Ateia, agnóstica e leitura não confessional
- John J. Collins, Jewish Wisdom in the Hellenistic Age (1997) [V — ISBN 9780664221096] — história da literatura e do pensamento.
- David Winston, The Wisdom of Solomon (Anchor Bible 43) [V — ISBN 9780385016445] — comentário filológico e histórico; a datação sob Calígula é o eixo do debate (§2).
- George W. E. Nickelsburg e John M. G. Barclay — reconstrução do judaísmo do segundo templo e da diáspora [V — Nickelsburg, 2005; Barclay, 1996].
- Divulgação polêmica (Dawkins, Hitchens) não é crítica bíblica [—].
Balanço de esferas (contagem declarada)
| Esfera | Fonte primária? |
|---|---|
| Católica ocidental | sim — Gigot [V], Larcher [V], Gilbert [V], Kolarcik [V] |
| Católica oriental / grega | parcial — Orígenes [—]; sem comentário antioqueno |
| Ortodoxa | parcial — Lopukhin [—] |
| Protestante histórica | sim — Lutero [V]; Charles, Oesterley e Deane são [HIST] |
| Evangélica | sim — Glicksman [V], Grabbe [V] |
| Judaica | parcial — lacuna do material |
| Não confessional | sim — Collins [V], Winston [V], Nickelsburg [V], Barclay [V] |
O desequilíbrio — judaica sem comentário contínuo, evangélica entrando tarde, ortodoxa com material catenário — é do material, não do dossiê; onde não há comentário corrente, a lacuna se declara [—].
12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não têm competência
A regra desta seção: declarar os limites. A ciência não decide se a Sabedoria é revelada, mas se as afirmações factuais do texto são compatíveis com o observável.
Arqueologia de Alexandria — a cidade e as suas bibliotecas
Kom el-Dikka, no centro de Alexandria, é o sítio mais informativo sobre a cidade romana: as escavações do Centro de Arqueologia Mediterrânea da Universidade de Varsóvia (PCMA) expuseram o complexo termal imperial e reconstituíram a topografia de Alexandria romana [V — PCMA, UW]. No Portus Magnus, a investigação subaquática de Franck Goddio e da IEASM, desde 1992, trouxe à luz estruturas do bairro real ptolomaico [V — franckgoddio.org; IEASM]. Nada resta, porém, das coleções da Biblioteca de Alexandria nem há testemunho de uma biblioteca judaica alexandrina: o ambiente de escrita reconstrói-se por textos, não por estratos [W].
Papiros e o Egito ptolomaico e romano
A base documentária é papirácea: os papiros de Zenão (século III a.C.), o corpus de Oxirrinco (Grenfell e Hunt, desde 1896) e a documentação administrativa do delta [W]. Para o pogrom de Alexandria de 38 d.C. — base da datação alta — a fonte é Filo, In Flaccum e Legatio ad Gaium, de que David Winston deduz a data sob Calígula (37–41 d.C.) [V — Winston, 1979]. O dado não prova a datação: prova que havia um contexto que dá sentido ao texto [W].
Os manuscritos gregos: códices, papiros e o fragmento de Khirbet Mird
O texto conserva-se em cinco códices unciais — Vaticano (século IV), Sinaítico, Alexandrino, Efrém e Veneto — e em dez cursivos (dois incompletos); a forma mais exata está no Vaticano e no Veneto [V — Gigot, 1912]. A edição crítica de referência é a de Joseph Ziegler, Sapientia Salomonis, na Septuaginta de Göttingen (XII,1; 1962; 2.ª ed. 1980) [V — catálogo da Septuaginta de Göttingen]. Acresce um papiro invulgar: os fragmentos de Khirbet Mird (P.Leuven PAM 21 = Rahlfs 888), com Sb 10,8b-d e 10,15b-17d, publicados por Ceulemans e Verhasselt (2018) [V — JSTOR 26603975; KU Leuven LIRIAS 1801732]. As versões antigas (Vetus Latina, siríaca, armênia) derivam do grego [W — Gigot, 1912]. Nenhum manuscrito da Sabedoria existe em hebraico, e o livro não aparece entre os manuscritos do Mar Morto, ao contrário de Ben Sira, atestado em Qumran e em Massada [W — não recontei inventários].
Linguística — o grego koiné literário do livro
O grego da Sabedoria é koiné literária de nível elevado, com vocabulário raro, compostos eruditos, isocolon e antítese, e sintaxe sem marcas de tradução do hebraico [W — Gigot, 1912]. O estudo da linguagem e do estilo sustenta obra composta, não traduzida, situada na tradição retórica grega [ACAD — Léonas, 2011, DOI 10.13109/9783666532610.99]. A ausência de um Vorlage hebraico explica a entrada no cânon alexandrino e não no palestinense [ACAD — Goff, 2020, DOI 10.1163/2452-4107_thb_COM_0215010000]. Onde o texto toca o observável — o catálogo de Sb 7,17-22 sobre os elementos, os astros e as raízes —, é no registro do argumento: a ordem e a beleza do cosmos como premissa (Sb 13,1-5), matéria da filosofia, não da cosmologia [ACAD — Manson, 2013, DOI 10.1093/oxfordhb/9780199556939.013.0019].
Onde a ciência NÃO tem competência
- A ciência não tem competência para decidir se as almas dos justos estão nas mãos de Deus (Sb 3,1) nem se a morte entrou no mundo “por inveja do diabo” (Sb 2,24): são afirmações de sentido, não de física [W].
- A arqueologia e a papirologia documentam o contexto, não a composição: nenhum achado alexandrino nomeia o autor, e ter havido um pogrom em 38 d.C. não prova que o livro seja de 38–41 d.C. (datação que Winston apresenta como hipótese) [W — Winston, 1979]. Manuscritos hebraicos não existem: isso confirma a língua original, mas não data a composição [W — Ceulemans; Verhasselt, 2018].
- A linguística não data o texto com precisão, e a crítica textual não restitui o autógrafo, apenas a melhor forma recuperável [V — Gigot, 1912].
- E o inverso: a ciência não refuta o livro — situá-lo em Alexandria no século I a.C. ou d.C. não decide nada sobre a sua verdade teológica, apenas localiza um objeto literário [W].

13. Lacunas e Correções de Atribuição
- [—] Nenhum comentário rabínico à Sabedoria existe — o livro não está no Tanakh; atribuí-lo a Rashi, Ibn Ezra ou ao midrash clássico é erro (§11.1).
- [—] Traduções PT de Winston, Grabbe, Kolarcik, Collins, Nickelsburg, Barclay, Glicksman, Gilbert e Enns: não localizadas.
- [W] A conjectura de Lutero de que Filo seria o autor é hipótese do próprio Lutero (1545), não tese da crítica moderna (§6).
- [W] ISBN e tomo da edição Quetzal-Lourenço: 9789897224614 (vol. IV, tomo 1) segundo o registo do tradutor; não reconferido em catálogo primário da editora.
- [W] Registos de Reider (1957) e de Enns (1997) não localizados em Open Library; dados de conhecimento de obra.
- [W] Gigot (1912) é fonte datada: a sua datação (Ptolomeu IV ou VII) precede Winston e é hoje minoritária.
- [W] Testemunhos gregos (“cinco unciais e dez cursivos”) segundo Gigot (1912); as edições modernas listam mais (Goff, 2020); não recontados item a item.
- [W] A ausência da Sabedoria em Qumran assenta no inventário conhecido; não reconferi folha a folha os números.
- [W] Sb 16,20 e a frase latina: “panem angelorum manducavit homo” pertence ao Salmo 77(78),25; atribuí-la diretamente à Sabedoria é imprecisão (§4.7).
- [W] Extensão do texto de Sb 3 no movimento de Howells (Requiem, 1936): a atribuição a Sb 3 é segura; o recorte não foi conferido.
- [—] Videojogos e produção audiovisual sobre a Sabedoria: nenhum título localizado (§8).
- [W] Atanásio, 39.ª Carta Festal (367), e as listas de Hipona (393), Cartago (397) e Inocêncio I (405): citados de memória de obra, sem conferência crítica.
- [—] Estatística lexical do grego da Sabedoria (hapax, compostos): não apresentada por falta de conferência da concordância.
Bibliografia-âncora verificada
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| Obra | Acesso | Onde |
|---|---|---|
| Goff, “Textual History…” (Brill, 2020) | livre | referenceworks.brill.com |
| Kloppenborg, “Isis and Sophia…” (1982) | livre | cambridge.org |
| Ceulemans; Verhasselt, “Fragments… Khirbet Mird” (2018) | livre | jstor.org |
| Gigot, “Book of Wisdom” (1912) | livre | newadvent.org |
| Luther, “Vorrede auff die Weisheit Salomonis” (1545) | livre | stilkunst.de |
| “Wisdom 18:14f.: An Early Christmas Text” (JSTOR) | livre | jstor.org |
| Winston, The Wisdom of Solomon (1979) | empréstimo | Internet Archive |
| Charles, The Apocrypha and Pseudepigrapha, vol. I (1913) | empréstimo | Open Library |
| Deane, The Book of Wisdom (Oxford, 1881) | empréstimo | Open Library |
| Collins, Jewish Wisdom in the Hellenistic Age (1997) | biblioteca | Open Library |
| Nickelsburg, Jewish Literature between the Bible and the Mishnah (2005) | biblioteca | Open Library |
| Kolarcik, The Ambiguity of Death… 1–6 (1991) | biblioteca | Open Library |
| Barclay, Jews in the Mediterranean Diaspora (1996) | biblioteca | Open Library |
| Storniolo, Como ler o livro da Sabedoria (Paulus) | compra | Open Library |
| Glicksman, Wisdom of Solomon 10 (De Gruyter, 2011) | compra | Open Library |
| Grabbe, Wisdom of Solomon (T&T Clark) | compra | Open Library |
| Bíblia de Jerusalém (Paulus) | compra | Open Library |
| TEB (Loyola, 2010) | compra | loyola.com.br |
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