Antiguidade Bíblica
Tobias (Toviyah) — Artigo Enciclopédico
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A passagem inteira, em duas traduções de tradições diferentes, sem comentário. Comparar as duas é o exercício que mais rende: mostra onde o original é ambíguo.
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1. Lead e Ficha
O Livro de Tobias (hebr. טוביה, Toviyah, “Yah é bom”; gr. Τωβίτ, Tōbit; lat. Tobias) é um dos livros deuterocanônicos do Antigo Testamento: recebido pela tradição católica e pela ortodoxa, ausente do cânon hebraico/protestante [W]. Em português o livro é conhecido como Tobias; em inglês, Tobit. Tem 14 capítulos e 297 versículos na edição católica, e vem depois de Neemias e antes de Judite [W — Wikipédia PT, Livro de Tobias].
O livro narra duas famílias e dois sofrimentos que se cruzam: em Nínive, o justo Tobit, deportado da tribo de Naftali, perde a vista depois de enterrar mortos com risco de vida; em Ecbátana, Sara, caluniada, vê morrer seus sete maridos na noite de núpcias, por obra do demônio Asmodeu [V — Fitzmyer, 2003]. As duas orações de pedido de morte (Tb 3) sobem ao mesmo tempo, e a resposta é um único envio: o anjo Rafael, que acompanha o jovem Tobias na viagem, ensina a cura do peixe, casa-o com Sara e devolve a vista ao pai [W]. O livro é, na definição que se estabilizou na crítica, uma novela didática ou conto sapiencial — “novela ou romance”, diz a introdução da Bíblia Pastoral, que “não reflete acontecimentos históricos” [V — Paulus, Bíblia Pastoral, outros livros históricos].
O eixo filológico deste dossiê são as duas (e mais) versões textuais. Tobias circula em grego em duas formas: a forma longa (GII), atestada no Códice Sinaítico, e a forma curta (GI), atestada nos Códices Vaticano e Alexandrino — a primeira cerca de 1.700 palavras mais extensa [V — Moore, 1996, p. 210, na discussão do cão; W — Grabbe, 2003]. A isso somam-se uma terceira forma grega menor (GIII), a Vulgata de Jerônimo — feita, por sua própria confissão, a partir de um aramaico hoje perdido — e os fragmentos aramaicos e hebraicos de Qumran (4Q196–4Q200), que provam uma Vorlage semítica [V — Wagner, DJD XIX, 1995; W — Fitzmyer, 2003].
| Campo | Dado | Marcador |
|---|---|---|
| Nome hebraico | Toviyah (טוביה) — “Yah é bom” | [W] |
| Nome grego / latino | Tōbit (Τωβίτ) / Tobias | [W] |
| Posição canônica | Deuterocanônico: católico (14 caps.) e ortodoxo; ausente do hebraico/protestante | [W] |
| Capítulos | 14 (297 versículos, edição católica) | [W] |
| Versões gregas | GII (longa, Sinaítico) · GI (curta, Vaticano e Alexandrino) · GIII (parcial) | [V] Moore, 1996 |
| Língua original | semítica: aramaico ou hebraico (não resolvido) | [V] Fitzmyer, 2003 |
| Testemunho de Qumran | 4Q196–4Q199 (aramaico) e 4Q200 (hebraico) | [V] Fitzmyer, 1995 |
| Vulgata | Jerônimo, a partir de Vorlage aramaica hoje perdida | [V] Gallagher, 2015 |
| Autoria | anônima; tradição atribui a Tobit | [V] Fitzmyer, 2003 |
| Datação | “entre 225 e 175 a.C.” (Fitzmyer); maioria: séc. III–II a.C. | [V] Fitzmyer, 2003, p. 51 |
| Marco narrado | fim do reino do Norte, séc. VIII a.C. (deportação para a Assíria) | [W] |
| Gênero | novela didática / conto sapiencial | [V] Paulus, Bíblia Pastoral |
2. Contexto e Autoria
O cenário narrado. Tobit, da tribo de Naftali, é deportado para Nínive por Salmanasar; serve na corte e chega a ser “comprador” real, até a queda com Senaqueribe e a restauração sob Assaradão (Tb 1,15–21) [W]. A intriga se passa entre a Assíria e a Média, em Nínive, Ecbatana (a atual Hamadan), Ragés e o Tigre — geografia do Oriente Próximo aquemênida, não do séc. VIII a.C. [W]. O autor é anônimo, e não afirma ser Tobit: escreve na terceira e na primeira pessoa sem se identificar, o que a crítica lê como pseudepigrafia — a atribuição de uma obra a uma figura venerável do passado [V — Fitzmyer, 2003].
Os anacronismos. A obra descreve uma sucessão assíria que a documentação não sustenta: apresenta Senaqueribe como filho de Salmanasar, quando historicamente é filho de Sargão II [W — Grabbe, 2003]. Erra também a geografia da Média — a distância e a topografia entre Ecbatana e Ragés não conferem com o mapa real [V — Fitzmyer, 2003, p. 51]. Para a leitura tradicional, são descuidos de um narrador distante; para a crítica, são a assinatura de um autor de novela que constrói um cenário exótico de exílio, e não um relatório de arquivo [V — Fitzmyer, 2003].
A datação. A posição dominante desde o fim do século XX é que Tobias foi composto na época helenística, no séc. III ou princípio do II a.C.: Fitzmyer propõe o intervalo de 225–175 a.C. [V — Fitzmyer, 2003, p. 51]; a Textual History of the Bible registra o mesmo “consenso de algum lugar entre 225 e 175 a.C.” [V — Littman, 2020, DOI 10.1163/2452-4107_thb_COM_0214010000]. Nickelsburg inscreve o livro no seu panorama da literatura judaica do Segundo Templo, ao lado de Ester e dos romances históricos, enfatizando o diaspora novel e a piedade da oração e da esmola [V — Nickelsburg, 2005]. Argumentos a favor da data tardia incluem o silêncio sobre a crise macabaica — se o autor escrevesse sob Antíoco IV, dificilmente a omitiria — e a distância literária com que trata a Assíria [W]. Nada é unânime quanto ao lugar de composição: Mesopotâmia, Judeia e Egito têm defensores [W].
A língua original — e a prova de Qumran. Até 1952 a questão “em que língua Tobias foi escrito?” dependia de indícios indiretos. A descoberta dos fragmentos da caverna 4 de Qumran mudou o quadro: quatro manuscritos aramaicos (4Q196–4Q199) e um hebraico (4Q200), publicados na série Discoveries in the Judaean Desert (DJD XIX, 1995) por Joseph A. Fitzmyer a partir dos apontamentos de J. T. Milik [V — Fitzmyer, DJD XIX, 1995, pp. 1–76]. Isso prova que o livro circulava em semítico antes da era cristã; não resolve, sozinho, se o original foi aramaico ou hebraico [V — Weeks; Gathercole; Stuckenbruck, 2004]. A Vulgata traz um testemunho de outra ordem: Jerônimo afirma ter traduzido Tobias às pressas a partir de um texto aramaico que lhe foi oferecido, e que hoje não existe — ponto central do estudo de Gallagher, “Why did Jerome Translate Tobit and Judith?” [V — Gallagher, 2015, pp. 356–375, DOI 10.1017/S0017816015000231]. Wagner mostrou que a Vorlage aramaica de Jerônimo difere consideravelmente dos fragmentos de Qumran, o que impede tratá-la como simples cópia [W — Wagner, 2017]. O retrato é, portanto, de uma pluralidade de tradições textuais já na Antiguidade — dado de primeira ordem, não detalhe de aparato.
3. Estrutura (14 capítulos)
O livro combina três fios numa arquitetura única: a história de Tobit, a história de Sara e a viagem de Tobias. A divisão mais aceita, em grandes blocos:
- Tb 1–2 — exposição. A piedade de Tobit no exílio (1,1–9); a deportação e o serviço na corte assíria (1,10–15); o enterro dos mortos e a fuga (1,16–22); a cegueira pelos excrementos de pardais e a pobreza (2,1–14) [W]. O enterro dos mortos abre o livro e define o seu herói (Tb 1,16–19; 2,3–8) [W].
- Tb 3 — as duas orações. Tobit e Sara, cada um a caminho da morte, oram a Deus; a narração faz as duas preces subirem juntas ao céu, e Deus envia Rafael para curar ambos (3,1–17) [W].
- Tb 4–5 — o testamento e o contrato. Os conselhos de Tobit ao filho, com o elogio da esmola (“a esmola livra da morte”, 4,7–11) [W]; a contratação do guia “Azarias” — o anjo disfarçado — e a partida com o cão (5,1–6,1) [V — Moore, 1996].
- Tb 6 — o peixe do Tigre e o pacto de casamento. O peixe salta do rio; Rafael manda guardar coração, fígado e fel (6,1–9); em Ecbatana, explica o casamento com Sara e o parentesco (6,10–19) [V — Askin, 2022].
- Tb 7–9 — o casamento e a cobrança. O contrato escrito na hora (7,10–14); a noite de núpcias e a expulsão de Asmodeu (8,1–18); a viagem de Rafael para recuperar o dinheiro depositado (9,1–6) [W].
- Tb 10–11 — o retorno e a cura. A angústia dos pais; a volta a Nínive; a cura da vista com o fel do peixe e o cão que corre atrás (11,1–19) [V — Moore, 1996].
- Tb 12 — a revelação do anjo. “Eu sou Rafael, um dos sete anjos que estão diante da glória do Senhor” (12,15); a exortação final à oração e à esmola (12,8) [W].
- Tb 13–14 — o hino e o testamento final. O cântico de Tobit (cap. 13) e as suas últimas palavras, com a profecia sobre Nínive e o Templo e a exortação a deixar a cidade condenada (cap. 14) [W].
A costura é o paralelismo das duas famílias: duas cenas de sofrimento, duas orações, um único anjo, uma única resposta [W]. Esse desenho é que sustenta a leitura do livro como novela — não relato de eventos, mas composição moral arquitetada de ponta a ponta [V — Nickelsburg, 2005].
4. Conteúdos-chave com Debate
4.1 As duas (e mais) versões textuais
É a questão central de Tobias, e a que reorganizou toda a pesquisa depois de 1952. O grego transmite o livro em duas famílias — GI (curta) e GII (longa) — e, por muito tempo, a regra lectio brevior potior (“a lição mais curta é preferível”) levou à preferência pela forma curta [V — Moore, 1996, p. 210]. Os fragmentos de Qumran viraram o jogo: alinham-se melhor com a forma longa (GII), a mesma do Sinaítico, e o consenso passou a tratar GII como mais próximo do original semítico [V — Moore, 1996, p. 210; W — Grabbe, 2003]. O caso-teste mais citado é o cão: aparece uma vez em GI (11,4) e duas vezes em GII (6,2 e 11,4), e o fragmento 4Q197 parece ter comportado o espaço para a palavra aramaica kelev — “cão” — no ponto em que o pergaminho está roto [V — Moore, 1996, p. 210]. A edição sinóptica de referência, que põe todas as tradições — gregas, siríaca, latina, aramaica e hebraica — lado a lado, é a de Weeks, Gathercole e Stuckenbruck, The Book of Tobit: Texts from the Principal Ancient and Medieval Traditions [V — Weeks; Gathercole; Stuckenbruck, 2004, ISBN 9783110176766]. A consequência prática para o leitor é imediata: duas Bíblias em português podem dar um Tobias mais longo ou mais curto, conforme a versão grega que a tradução seguiu (ver §7).
4.2 A caridade e o enterro dos mortos (1,16–19; 2,3–8)
O centro ético do livro não é o exorcismo nem a cura, mas a esmola e o sepultamento. Tobit arrisca a vida para enterrar os compatriotas mortos por ordem do rei (1,17–18; 2,3–8), e a exortação final do anjo resume tudo: “a oração com o jejum é boa, e a esmola com a justiça é melhor que a riqueza” (12,8) [W]. A leitura crítica lê aí o programa da diáspora: em terra estrangeira, sem Templo nem Estado, a identidade judaica se sustenta pela família, pela prática da misericórdia e pela oração [V — Nickelsburg, 2005; Ego, 2005, DOI 10.1163/9789047415329_006]. Levine radicalizou a observação: o corpo e as fronteiras do corpo — quem se toca, quem se enterra, quem se pode desposar — organizam o mundo social de Tobias, de modo que a caridade é também uma política do pertencimento [W — Levine, 1992].
4.3 Os sete maridos de Sara e o demônio Asmodeu (3,7–17; 6,14; 8,3)
Sara tem sete maridos; todos morrem antes da consumação do casamento, e a serva a acusa de os ter matado (3,7–10) [W]. O responsável é Asmodeu (gr. Ἀσμοδαῖος, Asmodaios), demônio que “amava” Sara [W]. A etimologia mais aceita remete ao iraniano Aeshma daeva, o “demônio da fúria/ira” do zoroastrismo, o que situa o nome no horizonte persa do livro [W]. Fora da Bíblia, Asmodeu reaparece como rei dos demônios nas lendas de Salomão — e o Testamento de Salomão descreve justamente o demônio que ataca os recém-casados (Test. Sal. 22) [W — intertextual.bible; Jewish Encyclopedia, “Asmodeus”]. O debate moderno divide-se entre ler Asmodeu como empréstimo persa e lê-lo como elaboração interna da demonologia judaica do Segundo Templo, ao lado de 1 Enoque e do Livro dos Vigilantes [V — Fitzmyer, 2003; W — Nickelsburg]. A leitura feminista deslocou a pergunta: o problema de Sara não é só o demônio, mas a acusação — uma mulher caluniada num mundo em que a vergonha recai sobre ela, e não sobre o mal que a atinge (ver §10) [W — Brenner, 2015].
4.4 A magia do fígado e do coração do peixe (6,5–9; 8,2–3)
O ponto mais desconfortável do livro para uma leitura devocional: o anjo Rafael instrui Tobias a queimar o coração e o fígado do peixe para espantar o demônio (6,5–8), e é exatamente o que ele faz na noite de núpcias (8,2–3) [W]. Trata-se de fumaça e fedor rituais, e não de oração. A literatura sobre isso é explícita: Askin, numa análise lexical do uso “ritual e medicinal” do peixe em Tobias, mostra que o vocabulário descreve um procedimento exorcístico com paralelos na prática do Oriente Próximo, e não simples remédio doméstico [V — Askin, 2022, DOI 10.5040/9780567693396.ch-007]. O livro, portanto, recorre a uma técnica mágica — e o faz pela boca de um anjo. As saídas propostas na literatura são três: (i) ler o episódio como acomodação ao repertório popular da época, sem que o autor o endosse como teologia [W]; (ii) vê-lo como etnografia de uma prática real, incorporada à narrativa porque eficaz no mundo do autor [V — Askin, 2022]; (iii) distinguir a magia do ritual de cura do peixe da oração de 8,4–8, que é o que o próprio Tobias põe no centro da noite de núpcias [W]. O dossiê registra as três sem escolher por elas — o texto diz o que diz.
4.5 O cão que acompanha (6,2; 11,4)
O cão de Tobias é um dos detalhes mais citados do livro, e um marcador textual: presente uma vez na forma curta (11,4) e duas na longa (6,2 e 11,4) [V — Moore, 1996, p. 210]. É dado folclórico — o animal que segue o herói e reconhece o dono —, sem função na trama religiosa [W]. Ska aproximou o motivo do Argos de Odisseia XVII e viu no conjunto (o guia, a viagem, o reconhecimento) um parentesco com a novela grega de viagem [W — Ska, Introdução ao AT].
4.6 A oração do cap. 3 e a oração de casamento (8,5–8)
Duas passagens definem a teologia do livro. Em Tb 3, Tobit e Sara oram ao mesmo tempo, de cidades distantes, e a narrativa diz que as duas preces foram ouvidas juntas (3,16–17) — um dos textos mais claros da Bíblia sobre a oração como acesso direto a Deus, sem mediação de culto [W]. Em Tb 8,5–8, Tobias e Sara oram antes de se unirem: “não é por concupiscência que tomo esta minha irmã, mas com verdade” (8,7), pedindo que envelheçam juntos [W]. Esta segunda oração é peça litúrgica: é leitura própria da liturgia matrimonial católica e da ortodoxa (ver §6) [W].
4.7 A lei do levirato e a herança (6–7)
Tobias casa com Sara por ser “o parente mais próximo” (6,10–13; 7,10–14), num esquema que boa parte da exegese classificou como levirato — o dever do parente de suscitar descendência ao morto [W]. O debate recente complicou essa leitura: Vos, em “Succession, Not Possession: Sarah’s Inheritance in Tobit”, mostra que o que está em jogo não é apenas o casamento da viúva, mas a herança de Sara e a continuidade do patrimônio — o vocabulário do livro aponta para sucessão, não para posse do morto [V — Vos, 2025, pp. 453–464, DOI 10.1353/cbq.2025.a970481]. A dificuldade histórica subsidiária: o contrato escrito pelo pai da noiva, e não pelo noivo, contraria a prática que a própria tradição depois normatizou — um dos motivos que a literatura rabínica alegou para excluir Tobias do cânon [V — Fitzmyer, 2003, p. 55; W].
4.8 A historicidade: anacronismos e geografia
Três ordens de dificuldade alimentam o debate. Política: Senaqueribe é tratado como filho de Salmanasar, quando o registro assírio o faz filho de Sargão II [W — Grabbe, 2003]. Cronológica: a idade de Tobit e a linha dos reis não fecham [W]. Geográfica: as distâncias e a topografia da Média estão erradas [V — Fitzmyer, 2003, p. 51]. A resposta crítica é literária: o autor não escreve história, escreve novela com fundo histórico coado de longe [V — Fitzmyer, 2003]. A resposta conservadora concentra-se no propósito moral do livro e no gênero edificante, admitindo os desvios como licença narrativa [W]. Nenhuma das duas foi refutada pelos dados: o livro não pretende ser crônica, e nada no registro externo confirma ou desmente os seus personagens (ver §12).
4.9 O conto de Ahiqar
Tobias e Ahiqar se cruzam textualmente de modo explícito: Ahiqar é chamado sobrinho de Tobias (Tb 1,21–22; 2,10), reaparece no final (11,18) e a sua história é citada como exemplo moral (14,10) [V — Lindenberger, 1983]. A História de Ahiqar é um conto aramaico anterior — o sábio caluniado, a ascensão, a queda e a reabilitação na corte assíria —, transmitido em múltiplas versões (papiro de Elefantina, manuscritos siríacos, “Achikar” armênio) [W — Lindenberger, 1983, ISBN 0801827973]. Niehr, em “Die Gestalt des Ahiqar im Tobit-Buch”, estuda como o autor de Tobias incorpora essa figura para ancorar a sua novela no mundo assírio [W — Niehr]. Mais importante que o nome é o empréstimo literário: as máximas dos dois se cruzam — provérbios sapienciais que o livro de Tobias cita ou parafraseia —, o que faz de Ahiqar o paralelo mais próximo do livro fora do cânon [V — Lindenberger, 1983].

5. Temas
- Caridade e esmola: o eixo moral — “a esmola livra da morte” (4,7–11); a prática define o justo na diáspora [W].
- Sepultamento dos mortos: a obra de misericórdia que custa a vida e que a tradição cristã depois contou entre as suas (Tb 1,17–18) [W].
- Sofrimento do justo: Tobit é cego apesar de justo; Sara é caluniada sem culpa — o livro interroga o modelo retributivo (ver §11) [W].
- Providência e anjo: a resposta de Deus não é explicação, é companhia — Rafael na estrada [W].
- Família e continuidade: casamento, herança e a promessa de descendência (ver §4.7) [V — Vos, 2025].
- Exílio e identidade: como permanecer judeu longe de Jerusalém [V — Ego, 2005].
- Oração: a eficácia das duas preces simultâneas (3,16–17) [W].
- Piedade e seus limites: o livro idealiza, e a crítica nota que a virtude de Tobit é também a sua dureza com a esposa (2,11–14) [W].

6. Recepção
Qumran. Os cinco fragmentos (4Q196–4Q200) são a recepção mais antiga de que se tem notícia: cópias judaicas de “língua semítica” anteriores ao grego atestado [V — Fitzmyer, 1995, DJD XIX]. A linha “Lord or God? Tobit and the Tetragrammaton” observa que o hebraico 4Q200 não traz o Tetragrama, mas usa Elohim (אלהים), o que indica uma edição piedosa do texto [V — estudo publicado na série de Qumran, 2003–2004; W — resumo editorial].
Judaísmo antigo e medieval. Tobias não entrou no cânon rabínico: os rabinos o lêem, mas o excluem, e a exclusão se formaliza no II século com a baraita dos vinte e quatro livros [W]. A tradição continuou conotada, porém: há manuscritos hebraicos e aramaicos medievais, e o Midrash Tanhuma atribui uma possível alusão a Tobias a Moshe ha-Darshan, do século XI [W]. O livro foi lido como história edificante, sem estatuto normativo [W].
Cristianismo antigo. Clemente de Alexandria cita Tobias como Escritura (Stromata 6.12, sobre Tb 12,8) e Orígenes, que reconhece que “os judeus não o usam”, o acolhe entre os cristãos [W — de Wet, 2020, DOI 10.4102/hts.v76i4.6138]. O artigo de de Wet, “The Book of Tobit in early Christianity: Greek and Latin interpretations from the 2nd to the 5th century CE”, reúne a recepção patrística grega e latina do livro [V — de Wet, 2020]. Ambrósio usa Tobias nos seus escritos sobre a viúva e a esmola; Jerônimo o traduz a contragosto, e diz que “os hebreus o excluem do catálogo” [V — Gallagher, 2015]. Cornélio a Lapide comentou o livro inteiro no séc. XVII [W — lapide.org].
Trento e a modernidade. O Concílio de Trento (1546) fixou Tobias entre os deuterocanônicos; as confissões protestantes o mantêm entre os apócrifos — úteis para leitura, não para doutrina, na formulação luterana [W]. Na arte, “Tobias e o anjo” é um dos temas mais pintados do Renascimento: ninguém representa melhor esse gosto do que a oficina de Verrocchio — a Tobias e o Anjo da National Gallery de Londres, c. 1470–75, é atribuída à oficina (a mão de Botticelli é discutida), em têmpera de ovo sobre madeira, 83,6 × 66 cm [V — National Gallery, NG781]. Filippino Lippi pintou o seu próprio Tobias e o Anjo (c. 1475/1480, hoje na National Gallery of Art de Washington) [V — NGA, obra 370]; Savoldo fez um Tobias e o Anjo (c. 1527) para a Galleria Borghese, peça a que o museu registra a atribuição a este pintor desde 1910, depois de pertencer ao inventário como Ticiano [V — Galleria Borghese]. Rembrandt voltou ao tema várias vezes: Tobit e Ana com o cabrito (1626, Rijksmuseum, Amsterdã), O anjo deixando Tobit e sua família (1637, Louvre) e O retorno de Tobias e o anjo (c. 1627–35) [V — Rijksmuseum; W — Louvre; Wadsworth Atheneum]. Na música, a obra principal é a “ópera de igreja” Tobias and the Angel (2010) de Jonathan Dove, com libreto de David Lan, escrita para encenação comunitária e apresentada em igrejas [V — jonathandove.com; W — Wikipédia]. Na liturgia, a presença é duradoura: a leitura de Tobias 8,5–8 é uma das opções do rito do matrimônio católico, e a oração nupcial ortodoxa ecoa a fórmula “não por concupiscência, mas com verdade” [W]. É o ponto de recepção mais palpável do livro — milhões de fiéis o ouvem sem saber que o texto não está na Bíblia protestante.

7. Traduções PT e Comentários PT
Aqui o leitor brasileiro tem de decidir de que Tobias está falando. O livro existe em português em edições católicas; a versão protestante corrente simplesmente não o traz.
Bíblias brasileiras com Tobias.
- Bíblia Ave-Maria (Editora Ave-Maria) — o texto clássico da devoção católica brasileira, com o livro completo entre Neemias e Judite [W — confirmei a existência do texto no repositório Ave-Maria, não reconferi uma tiragem específica].
- Bíblia de Jerusalém (São Paulo: Paulus) — edição brasileira da Bible de Jérusalem da École Biblique; traz Tobias com introdução e notas [W].
- TEB — Tradução Ecumênica da Bíblia (Edições Loyola, nova ed. 2010, ISBN 9788515030163) — edição brasileira da TOB francesa [V — loyola.com.br].
- Bíblia Pastoral e edições CNBB — seguem o cânon católico; a nota de apresentação classifica Tobias, Judite e Ester como “novelas” [V — Biblia Paulus, outros livros históricos].
- Frederico Lourenço (trad.), Bíblia — Volume V, tomo 1: Antigo Testamento — Os Livros Históricos (Lisboa: Quetzal, 2018) — tradução direta do grego da Septuaginta, que inclui os livros históricos deuterocanônicos [V — BNP, Bibliografia Nacional Portuguesa, registro do vol. V; o volume V cobre o bloco dos históricos, onde a Septuaginta coloca Tobias]. O mesmo tradutor já publicara os sapienciais e os proféticos na coleção [V — Quetzal Editores].

Nenhuma tradução PT protestante traz Tobias: Almeida nas revisões correntes (ARC/ARA/ACF), NVI e NTLH seguem o cânon hebraico [W].
Comentários e subsídios em português.
- Ivo Storniolo; José Bortolini, Como ler o livro de Tobias: a família gera vida (São Paulo: Paulus, 2.ª ed. 1997; 1.ª ed. 1994, 62 pp.) — comentário brasileiro de bolso da série Como ler, com o livro inteiro em chave pastoral [V — catálogo do Sistema de Bibliotecas do Seminário Maior; reimpressões frequentes].
- “O livro de Tobias, Judite e Ester”, na série Cadernos de Estudo Bíblico (edição brasileira, ISBN 9788584912612) — fascículo de estudo com notas; a autoria do volume circula em catálogos ora como André Villeneuve, ora como Scott Hahn e Curtis Mitch, e a divergência não foi resolvida nesta sessão (ver §13) [V-WP — ISBN conferido em livraria; W — atribuição].
- Os comentários de referência sobre Tobias em inglês não têm tradução PT localizada [—]: Fitzmyer, Tobit (2003) [V]; Moore, Tobit (1996) [V]; Nowell, Jonah, Tobit, Judith (New Collegeville Bible Commentary; Liturgical Press) [W]; Voicu (org.), Apocrypha (Ancient Christian Commentary on Scripture, OT 15; IVP, 2010, ISBN 9780830814855) [V — ivpress.com].
8. Audiovisual e Games
| Título | Realidade | Validação PT | Marcador |
|---|---|---|---|
| Tobias and the Angel (ópera de igreja, Jonathan Dove, libreto David Lan, 2010) | obra cênica sobre o livro; apresentações e gravações amadoras | libreto e áudio não distribuídos em PT-BR | [V] jonathandove.com |
| Tobias e o Anjo (pinturas de Verrocchio, Lippi, Savoldo, Rembrandt) | tema central da pintura europeia, não audiovisual | reproduções livres em museus digitais | [V] National Gallery; Borghese |
| Vídeos devocionais em PT (YouTube, catequese, EBD) | comentários e leituras orais do livro | PT-BR abundante, sem curadoria acadêmica | [W] |
| Cinema: adaptação dedicada de Tobias | nenhuma localizada em fonte verificável; o livro aparece em consultas de público, sem filme identificado | — | [—] |
| Videojogos com enredo de Tobias | nenhum título localizado em PT-BR | — | [—] |
O padrão é claro e vale registrar: Tobias é onipresente na pintura e praticamente ausente no audiovisual. Quem quer “ver” o livro tem de ir aos museus, não às telas (ver §6). [W]
9. Mitologia e Literatura Comparada
A História de Ahiqar — o paralelo mais próximo
Chamado de sobrinho de Tobias no próprio livro (Tb 1,21–22; 2,10; 11,18; 14,10), Ahiqar é o sábio da corte assíria cuja história — calúnia, condenação, disfarce, reabilitação — circulou em aramaico desde o I milênio a.C. [V — Lindenberger, 1983]. Lindenberger fixou o texto crítico e a tradução da tradição aramaica dos provérbios [V — Lindenberger, 1983]. A comparação não é de “tema”: são provérbios que se cruzam — máximas sapienciais de mesmo teor nas duas obras —, o que faz da relação Tobias-Ahiqar o caso mais concreto de intertextualidade de todo o livro [W]. Niehr analisou especificamente a função do personagem no quadro de Tobias [W].
O “morto agradecido” (ATU 505)
A classificação folclórica põe Tobias sob o tipo 505 da tipologia Aarne-Thompson-Uther, o “morto agradecido”: um viajante enterra um cadáver que ninguém sepultava, e o morto, sob forma desconhecida, o acompanha e o recompensa [W — Ashliman, folclore tipo 505]. A leitura clássica é a de Hermann Gunkel, que em Das Märchen im Alten Testament (1917) inscreveu Tobias na linhagem do conto maravilhoso e não da história [HIST — Gunkel, 1917]. A proximidade com o motivo é reconhecida, mas a direção da relação nunca foi demonstrada: como em muitos paralelos folclóricos, discute-se se houve dependência ou apenas motivo comum [W].
Os demônios no Antigo Oriente Próximo
O Asmodeu de Tobias não surge do nada. A demonologia do Oriente Próximo conhece demônios que atacam a noiva, o recém-casado e o lar: as amulhetas de Arslan Tash (séc. VII a.C.) trazem uma incantação contra os “Voadores” e os “Estranguladores”, figuras que ameaçam a casa e a noite [W — Museu Nacional de Aleppo; Arslan Tash amulets]. A tradição mesopotâmica e ugarítica possui os gallû e os rābiṣu, demônios que espreitam a soleira [W]. A pergunta metodológica correta não é “de onde Tobias copiou Asmodeu”, mas como o livro judaico reorganiza esse material numa teologia em que Deus envia o remédio e o anjo governa o mal [V — Fitzmyer, 2003].
A novela antiga e a Odisseia
Jean-Louis Ska chamou atenção para o parentesco com a novela grega de viagem: o guia que conduz o jovem herói, o reconhecimento ao regresso, o cão que identifica o dono — traços que a Odisseia também tem [W — Ska]. O paralelo é de gênero e de motivo, não de dependência literária direta [W]. Beate Ego situou Tobias na linhagem da literatura sapiencial e do romance da diáspora, ao lado de Ester e de Daniel, gêneros que ensinam a viver sob poder estrangeiro [V — Ego, 2005, DOI 10.1163/9789047415329_006]. A comparação serve, assim, para medir diferença: onde a novela grega termina em reconhecimento e glória, Tobias termina em esmola, casamento e louvor.

10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta
O cânon como problema filosófico: Espinosa
Baruch Espinosa, no Tractatus Theologico-Politicus (1670), ao discutir o cânon hebraico e a autoridade dos livros, sustenta que a fronteira entre “canônico” e “não canônico” é uma decisão humana, não uma propriedade intrínseca dos textos — o que relativiza justamente o argumento “os hebreus o excluíram” [W — Espinosa, TTP, 1670, cap. 10]. Tobias é o caso-teste perfeito: um livro judeu, escrito em semítico, recebido por comunidades judaicas de Qumran e excluído depois pela tradição rabínica, e canonizado por outro conjunto de comunidades [W]. A questão “o que faz um livro ser Escritura?” fica, com Tobias, sem resposta textológica — é histórica [W].
Teodiceia: por que o justo é cego?
Kant, em Über das Misslingen aller philosophischen Versuche in der Theodizee (1791), concluiu que a razão não pode justificar Deus diante do mal; John L. Mackie, em “Evil and Omnipotence” (Mind 64, 1955), formulou o problema do mal como contradição entre onipotência, bondade e existência do mal; William L. Rowe, “The Problem of Evil and Some Varieties of Atheism” (American Philosophical Quarterly 16, 1979), transformou-o em argumento evidencial [W]. Tobias enfrenta a versão antiga do problema — a retribuição — e responde com uma correção: o justo padece sem ter pecado, e a explicação não vem em forma de teorema, mas de anjo enviado (Tb 3,16–17) [W]. O livro não defende que o sofrimento é mérito; defende que ele não é a medida moral de quem sofre [W].
Acusação e bode expiatório: René Girard
A estrutura do cap. 3 pode ser lida com as ferramentas de René Girard: uma comunidade em crise acusa a mulher, todos se convencem da culpa (a serva acusa Sara de ter matado os maridos), e o texto revela a mentira da acusação — o “mecanismo do bode expiatório” de Le bouc émissaire (1982) [W — Girard, 1982]. No caso de Tobias, porém, há uma diferença: a vítima é inocentada por dado externo — o demônio é nomeado, o mal é de outro —, o que enfraquece a acusação sem destruir a comunidade [W]. A exegese cobra a objeção de sempre: o esquema sociológico não é o do autor bíblico, e coincidência de estrutura não é influência [W].
Pureza, corpo e fronteira: Mary Douglas
Mary Douglas, em Purity and Danger (1966), mostrou que as leis de pureza organizam o mundo por classificação, e que o corpo é onde a fronteira social se inscreve mais visivelmente [W]. Tobias oferece três marcadores: o cadáver que Tobit enterra — contato impuro assumido como dever (Tb 1,17–18) —, o cão, animal impuro, que caminha com o herói, e a noite de núpcias, em que a pureza depende de uma oração e não apenas de um rito [W]. A objeção é que o livro visa menos a taxonomia do que a lealdade: enterrar os mortos é fidelidade ao povo, não exercício ritual [V — Ego, 2005].
O rosto, o morto e o outro: Levinas e Ricoeur
O enterro dos mortos — que abre o livro e define o seu herói — é, na linguagem de Emmanuel Levinas, a relação ética com o outro antes de qualquer cálculo: o rosto que “não se pode matar” chega até o corpo já morto, e o dever de sepultar é o modo mais nu dessa responsabilidade [W — Levinas, Totalité et Infini, 1961]. Paul Ricoeur, em La symbolique du mal (1960), oferece a chave complementar: o símbolo do demônio não é uma física, é o modo pelo qual o mal se diz — pede interpretação, não tradução [W — Ricoeur, 1960]. Em Tobias, o mal tem nome (Asmodeu), tem vítima (Sara) e tem remédio (um anjo): é o contrário de uma teodiceia abstrata.
Corpo, deficiência e cuidado: Nussbaum
A cegueira de Tobit, a sua dependência da esposa e da família, e a obrigação de cuidado que a filha e o filho assumem compõem um retrato que interessa à filosofia política contemporânea. Martha Nussbaum, em Frontiers of Justice (2006), argumenta que uma teoria da justiça deve incluir as pessoas com deficiência e as relações de cuidado que as sustentam, e não tratá-las como exceção [W — Nussbaum, 2006]. Tobias, com dois milênios de antecedência, põe no centro da narrativa um homem velho, cego e dependente — e faz dele o justo por excelência [W].
11. Teologia — os debates
O modelo retributivo e a sua correção
A teologia que a narrativa pressupõe é a da retribuição: a fidelidade traz bênção, a infidelidade traz castigo — o esquema que atravessa o Deuteronômio e a literatura sapiencial [W]. Tobias complica-o: o justo fica cego, e a inocente é acusada [W]. Gerhard von Rad descreveu esse modelo como o horizonte de boa parte do Antigo Testamento e notou que os livros sapienciais o problematizam por dentro; Tobias faz o mesmo por outro caminho — não com debate como Jó, mas com narrativa [W]. O final feliz não “resolve” o problema: restitui a vista e a casa, mas não explica o sofrimento, e a literatura crítica reconhece nesse silêncio a maturidade teológica do livro [V — Nickelsburg, 2005].
Angelologia: Rafael e os sete
Tobias atesta uma angelologia desenvolvida: Rafael não é apenas mensageiro, é companheiro, guia, curandeiro e exorcista; e o seu nome — “Deus cura” — antecipa o desfecho [W]. Em 12,15 ele se diz “um dos sete anjos que estão diante da glória do Senhor” e apresenta as orações dos fiéis (12,12) [W]. Isso faz de Tobias um elo na história da angelologia entre o Livro dos Vigilantes, Daniel e a literatura apocalíptica [V — de Wet, 2020]. Debate: o anjo é desenvolvimento tardio da religião israelita ou traço antigo reprimido? A literatura sobre o tema divide-se [W].
O cânon: deuterocanônico ou apócrifo
A questão canônica é histórica e tem datas. Trento (1546) fixou Tobias entre os livros recebidos pela Igreja católica; as confissões protestantes seguem o cânon hebraico e o deixam entre os apócrifos, úteis para edificação, sem autoridade doutrinal [W]. A tradição ortodoxa o recebe e o usa liturgicamente [W]. A tese que circula entre exegetas católicos — de que a forma curta (GI) teria sido conservada por ser a mais usada na liturgia — deve ser anotada como hipótese e não como dado: o que se pode afirmar com segurança é que a transmissão cristã conheceu ambas as formas e que a Vulgata ocidental seguiu uma terceira via, aramaica [V — Gallagher, 2015; W].
Matrimônio, esmola e o sacramento
A teologia prática de Tobias é robusta: o casamento é escolha de Deus (6,18), o amor é “com verdade” (8,7), a esmola “livra da morte” (4,10) e a oração “com o jejum” é melhor que a riqueza (12,8) [W]. Daí a sua presença nos rituais de casamento — católico e ortodoxo — e nos catecismos sobre a esmola [W]. É também a razão da sua exclusão em algumas tradições: um livro que faz da obra um caminho de salvação foi lido com desconfiança por teologias da graça [W].
11.1. Comentaristas por esfera confessional
Esta subseção organiza os comentários a Tobias por tradição de leitura. A regra de rotulagem é a do método: a perspectiva se declara, não se atribui; o rótulo é metadado, não argumento. Convenções: [V] conferido nesta sessão; [W] conhecido, não reconferido; [—] lacuna. Onde a obra não foi conferida em edição primária, isso é dito no lugar.
Judaica
- Cânone rabínico — Tobias fora do cânon; os vinte e quatro livros são fixados pela baraita talmúdica, e o livro é lido como edificante, não normativo [W]. Não há comentário rabínico clássico contínuo a Tobias localizado [—].
- Amy-Jill Levine, “Diaspora as Metaphor: Bodies and Boundaries in the Book of Tobit”, em Diaspora Jews and Judaism (orgs. J. A. Overman e R. S. MacLennan, 1992) — o ensaio mais influente sobre o livro no último meio século, numa leitura que parte da diáspora judaica [W — Levine, 1992].
- Andrew B. Perrin, “An Almanac of Tobit Studies: 2000–2014” (Currents in Biblical Research 13, 2014, pp. 107–142) — balanço bibliográfico do campo [V — DOI 10.1177/1476993X14532750].
Católica ocidental (latina)
- Jerônimo (c. 347–420) — traduz Tobias do aramaico e o defende com reserva; a Vulgata resultante é a base da recepção latina [V — Gallagher, 2015].
- Cornélio a Lapide (1567–1637) — Commentaria in Tobiam, comentário corrido capítulo por capítulo, com a exposição do peixe do Tigre e das orações de Tb 3 [W — lapide.org].
- Irene Nowell, OSB — Jonah, Tobit, Judith (New Collegeville Bible Commentary; Liturgical Press) — comentário católico de uso corrente nos EUA [W].
- Joseph A. Fitzmyer, SJ — Tobit (Commentaries on Early Jewish Literature; de Gruyter, 2003, ISBN 9783110175745) — o comentário crítico de referência, com edição dos fragmentos de Qumran [V — OL9716763M].
Católica oriental e grega patrística
- Clemente de Alexandria (c. 150–215) — cita Tobias como Escritura (Stromata 6.12) [W].
- Orígenes (c. 185–254) — acolhe Tobias entre os livros cristãos, embora registre a exclusão judaica; não se conservou comentário contínuo ao livro [W — de Wet, 2020].
- Ambrósio de Milão (c. 339–397) — usa Tobias nos escritos sobre a esmola e a viuvez [W — de Wet, 2020].
- Didymus o Cego (313–398) — correção: não há comentário a Tobias entre os papiros de Tura; os comentários ali achados cobrem Gênesis, Eclesiastes, Jó, Zacarias e Salmos [V — BYU, Didymus Papyrus].
Ortodoxa
- A tradição ortodoxa lê Tobias sobretudo na liturgia — o livro entra nas leituras do rito do casamento — e nas catenas patrísticas [W].
- Voicu (org.), Apocrypha (Ancient Christian Commentary on Scripture, OT 15; IVP, 2010, ISBN 9780830814855) recolhe os Padres gregos e latinos, incluindo material sobre Tobias [V — ivpress.com].
- Comentário ortodoxo-eslavo contínuo a Tobias não localizado nesta sessão [—].
Protestante histórica
- Martinho Lutero — Prefácio ao livro de Tobias (Bíblia alemã, 1534): o livro não está no cânon, mas é “útil e bom para ler” [W].
- Bíblia de Genebra (1560) — conserva Tobias entre os apócrifos, lidos mas não doutrinais [W].
- Comentário confessional protestante contínuo a Tobias não localizado [—]; o livro é tratado em obras de conjunto sobre os apócrifos.
Evangélica
- David A. deSilva — Introducing the Apocrypha (Baker) dedica seção própria a Tobias, com contexto e mensagem [W].
- Sever J. Voicu (org.) — Apocrypha (ACCS; IVP) — a série patrística da tradição evangélica americana [V].
- Andrew B. Perrin — o balanço bibliográfico de 2014 (ver acima) é leitura de referência também nesta esfera [V].
Balanço de esferas (contagem declarada)
| Esfera | Nomes citados | Fonte primária? |
|---|---|---|
| Judaica | Levine [W], Perrin [V], cânone talmúdico [W] | sim (Perrin) |
| Católica ocidental | Jerônimo [V], a Lapide [W], Nowell [W], Fitzmyer [V] | sim (Jerônimo, Fitzmyer) |
| Católica oriental / grega | Clemente [W], Orígenes [W], Ambrósio [W]; Didymus [V] — corrigido | parcial |
| Ortodoxa | liturgia [W], Voicu/ACCS [V] | parcial |
| Protestante histórica | Lutero [W], Genebra [W] | não (não conferidos) |
| Evangélica | deSilva [W], Voicu [V], Perrin [V] | parcial |
O desequilíbrio — o Oriente e a esfera protestante com material fragmentário, o Ocidente latino e o mundo anglófono com séries completas — não é do dossiê: é do material, e por isso fica dito. Onde não há comentário corrente, a lacuna se declara [—], em vez de se preencher com nomes que comentaram outros livros.
12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não têm competência
A regra desta seção: declarar os limites. A ciência não decide se Tobias é revelado; decide se as afirmações factuais do texto são compatíveis com o observável.
Arqueologia: Nínive, Ecbatana e o silêncio das inscrições
Nínive foi escavada a partir de 1840 por A. H. Layard e a sua biblioteca de Assurbanípal chegou aos museus europeus [HIST — Layard, 1849]. Ecbatana é identificada com a atual Hamadan, no Irã, com níveis medos e aquemênidas [W]. O ponto que vale registrar é negativo: nenhuma inscrição, em qualquer escavação, menciona Tobit, Tobias, Sara ou Asmodeu [W]. Isso não refuta o livro — ausência de evidência não é evidência de ausência —, mas fixa o que se pode e não se pode afirmar: não há suporte externo para os personagens, apenas para o cenário em que a novela os coloca [W].
Epigrafia: os reis da Assíria e os erros do livro
Os anais assírios confirmam Salmanasar V (726–722 a.C.), Sargão II (721–705) e Senaqueribe (704–681), e registram a deportação de populações do Levante [W]. É contra esse registro que os erros do livro aparecem: Senaqueribe não é filho de Salmanasar, e a linha dinástica do texto não confere [W — Grabbe, 2003]. A conclusão que o dado permite é histórico-literária, não teológica: o autor trabalhava com memória imprecisa do Império Assírio, ou não tinha como objetivo a precisão [V — Fitzmyer, 2003].
Linguística e crítica textual: Qumran, o aramaico e as recensões
A contribuição decisiva da linguística é a dos fragmentos de Qumran: 4Q196–4Q200 mostram que o livro existia em aramaico e hebraico antes do grego, e a comparação com as recensões gregas é o eixo da edição sinóptica de Weeks, Gathercole e Stuckenbruck [V — Weeks; Gathercole; Stuckenbruck, 2004]. A linguística dá datação relativa (a língua do livro é do aramaico da época do Segundo Templo) e não uma data absoluta de composição [V — Fitzmyer, 1995]. A Vulgata de Jerônimo e a sua Vorlage aramaica perdida acrescentam um ramo que complica o stemma em vez de o simplificar [V — Gallagher, 2015].
Medicina e farmacologia: o fel do peixe
O uso do fel do peixe sobre os olhos (Tb 11,8; 6,9) e a fumigação com coração e fígado (6,5–8) foram analisados quanto ao vocabulário e à plausibilidade prática: Askin mostra que a linguagem do livro descreve um procedimento ritual e medicinal codificado, com paralelos na prática do Oriente Próximo [V — Askin, 2022]. A farmacologia pode dizer que certas biles têm efeito irritante e que fumigações produzem fumaça acre; não pode dizer que isso expulse um demônio [W].
Onde a ciência NÃO tem competência
- A ciência não decide se o anjo Rafael apareceu a Tobias, se Asmodeu existiu ou se as duas orações foram ouvidas juntas: são afirmações de sentido, não de física [W].
- A arqueologia não identifica personagens do livro; nenhuma inscrição os menciona [W].
- A paléografia e a linguística dão intervalos e estimativas relativas disputadas, não datas absolutas [V — Fitzmyer, 1995].
- A medicina pode descrever o efeito de um remédio; não pode decidir se uma cura é milagre [W].
- A teologia do livro — que a esmola “livra da morte” e que o justo é ouvido — não é objeto de verificação empírica [W].
- E o inverso vale: situar Tobias no séc. II a.C., ou mostrar os seus anacronismos, não refuta o livro — apenas localiza historicamente um objeto literário [V — Fitzmyer, 2003].

13. Lacunas e Correções de Atribuição
- [V] — Correção: Didymus o Cego. Não há comentário a Tobias entre os papiros de Tura; os comentários ali encontrados cobrem Gênesis, Eclesiastes, Jó, Zacarias e Salmos. Atribuir-lhe um comentário a Tobias seria erro [V — BYU, Didymus Papyrus].
- [V] — Correção: recensões e códices. A forma longa (GII) está no Sinaítico; a curta (GI), no Vaticano e Alexandrino (Moore, 1996, p. 210; Grabbe, 2003). Formulações que põem a forma longa “no Vaticano” e a curta “só no Alexandrino” misturam os dois eixos.
- [W] Atribuição do Tobias e o Anjo da National Gallery: o museu credita a oficina de Verrocchio, com a mão de Botticelli discutida; citações que dão a obra como “de Botticelli” simplificam o problema de atribuição [V — National Gallery, NG781].
- [W] Autoria do fascículo brasileiro de Tobias/Judite/Ester (Cadernos de Estudo Bíblico, ISBN 9788584912612): catálogos divergem entre André Villeneuve e Scott Hahn e Curtis Mitch; a atribuição não foi resolvida [V-WP — ISBN; W — autoria].
- [—] Filme dedicado a Tobias: nenhuma adaptação cinematográfica foi localizada em fonte verificável [—].
- [—] Videojogos: nenhum título dedicado localizado em PT-BR [—].
- [—] Traduções PT dos comentários-âncora (Fitzmyer, Moore, Weeks et al., Nowell): não localizadas [—].
- [W] Volume V da Bíblia de Lourenço (Quetzal, 2018): o volume (Os Livros Históricos, tradução do grego) foi conferido no catálogo da BNP; não reconferi o sumário folha a folha para garantir que Tobias figura em todos os tomos [V — BNP; W — conteúdo].
- [—] Comentário rabínico clássico contínuo a Tobias: não localizado (o livro não está no cânon) [—].
- [W] ISBN da Bíblia Ave-Maria: a presença de Tobias é atestada pelo conteúdo; o registro de uma tiragem específica não foi conferido [W].
- [—] Contagem exata de linhas dos fragmentos de Qumran: sigo a descrição de Moore (1996, p. 210) e a de Fitzmyer (DJD XIX); não recontrei folha a folha [V; W].
Bibliografia-âncora verificada
- Fitzmyer, Joseph A., Tobit (Commentaries on Early Jewish Literature; Berlin: de Gruyter, 2003). [V] ISBN 9783110175745; OL: https://openlibrary.org/books/OL9716763M.
- Moore, Carey A., Tobit: A New Translation with Introduction and Commentary (Anchor Bible 40A; New York: Doubleday, 1996). [V] ISBN-10 0385189133; OL: https://openlibrary.org/books/OL806381M · reimpr. ISBN 9780300139969: https://openlibrary.org/books/OL26053696M.
- Weeks, Stuart; Gathercole, Simon; Stuckenbruck, Loren (orgs.), The Book of Tobit: Texts from the Principal Ancient and Medieval Traditions (Berlin: de Gruyter, 2004). [V] ISBN 9783110176766; OL: https://openlibrary.org/books/OL9017479M.
- Fitzmyer, Joseph A., “Tobit”, in Qumran Cave 4.XIV: Parabiblical Texts, Part 2 (DJD XIX; Oxford: Clarendon, 1995), pp. 1–76. [V] registro: https://www.scienceopen.com/document?vid=d0007186-d880-490c-97fa-6f5bcd81ba00.
- Nickelsburg, George W. E., Jewish Literature between the Bible and the Mishnah (2.ª ed.; Minneapolis: Fortress, 2005). [V] ISBN-10 0800637682; OL: https://openlibrary.org/books/OL3403857M.
- Abegg, Martin; Flint, Peter; Ulrich, Eugene (orgs.), The Dead Sea Scrolls Bible (San Francisco: HarperOne, 2002). [V] ISBN 9780060600648; OL: https://openlibrary.org/books/OL7279633M.
- Lindenberger, James M., The Aramaic Proverbs of Ahiqar (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1983). [V] ISBN 0801827973; OL: https://openlibrary.org/books/OL3497883M.
- Voicu, Sever J. (org.), Apocrypha (Ancient Christian Commentary on Scripture, OT 15; Downers Grove: IVP Academic, 2010). [V] ISBN 9780830814855; https://www.ivpress.com/apocrypha.
- Perrin, Andrew B., “An Almanac of Tobit Studies: 2000–2014”, Currents in Biblical Research 13 (2014), pp. 107–142; DOI 10.1177/1476993X14532750. [ACAD] https://doi.org/10.1177/1476993X14532750.
- Gallagher, Edmon L., “Why did Jerome Translate Tobit and Judith?”, Harvard Theological Review 108 (2015), pp. 356–375; DOI 10.1017/S0017816015000231. [ACAD] https://doi.org/10.1017/S0017816015000231.
- Askin, Lindsey A., “Binding Asmodeus: A Lexical Analysis of the Ritual and Medical Use of Fish in Tobit”, in New Perspectives on Ritual in the Biblical World (2022), cap. 7; DOI 10.5040/9780567693396.ch-007. [ACAD] https://doi.org/10.5040/9780567693396.ch-007.
- Vos, “Succession, Not Possession: Sarah’s Inheritance in Tobit”, The Catholic Biblical Quarterly 87 (2025), pp. 453–464; DOI 10.1353/cbq.2025.a970481. [ACAD] https://doi.org/10.1353/cbq.2025.a970481.
- de Wet, Chris L., “The Book of Tobit in early Christianity: Greek and Latin interpretations from the 2nd to the 5th century CE”, HTS Teologiese Studies 76 (2020); DOI 10.4102/hts.v76i4.6138. [ACAD] https://doi.org/10.4102/hts.v76i4.6138.
- Littman, Robert J., “14.1 Textual History of Tobit”, in Textual History of the Bible (Brill, 2020); DOI 10.1163/2452-4107_thb_COM_0214010000. [ACAD] https://doi.org/10.1163/2452-4107_thb_COM_0214010000.
- Ego, Beate, “The Book of Tobit and the Diaspora”, in The Book of Tobit: Text, Tradition, Theology (Leiden: Brill, 2005), pp. 41–54; DOI 10.1163/9789047415329_006. [ACAD].
- Storniolo, Ivo; Bortolini, José, Como ler o livro de Tobias: a família gera vida (2.ª ed.; São Paulo: Paulus, 1997; 1.ª ed. 1994). [V] catalogação no Sistema de Bibliotecas do Seminário Maior (Bazaglia, Paulo Sérgio, rev.).
- Lourenço, Frederico (trad.), Bíblia — Volume V, tomo 1: Antigo Testamento — Os Livros Históricos (Lisboa: Quetzal, 2018). [V] registro na BNP: https://bibliografia.bnportugal.gov.pt.
- TEB — Tradução Ecumênica da Bíblia (São Paulo: Loyola, nova ed. 2010). [V] ISBN 9788515030163; https://www.loyola.com.br/produto/biblia-teb-nova-edicao-2392.
- Verrocchio (oficina de), Tobias and the Angel (c. 1470–75), National Gallery, Londres, NG781. [V] https://www.nationalgallery.org.uk/paintings/workshop-of-andrea-del-verrocchio-tobias-and-the-angel.
- Savoldo, Giovanni Girolamo, Tobias and the Angel (c. 1527), Galleria Borghese, Roma. [V] https://www.collezionegalleriaborghese.it/en/opere/tobias-and-the-angel.
- Dove, Jonathan, Tobias and the Angel (ópera de igreja, libreto de David Lan, 2010). [V] https://www.jonathandove.com/tobias-and-the-angel.html.
- Arslan Tash amulets — incantação contra os “Voadores” e os “Estranguladores”. [W] https://en.wikipedia.org/wiki/Arslan_Tash_amulets.
- Ashliman, D. L., “The Grateful Dead: Folktales of Type 505”. [W] https://sites.pitt.edu/~dash/type0505.html.
- BYU Library, Didymus Papyrus — conteúdo dos códices de Tura. [V] https://lib.byu.edu/collections/didymus-papyrus/.
Como conseguir estas obras
A bibliografia de um site didático não é a de uma tese: cita o que importa e o leitor consegue alcançar. O selo diz por onde — e a tabela está ordenada por acessibilidade, do que se lê hoje ao que só se compra.
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| Obra | Acesso | Onde |
|---|---|---|
| Perrin, “An Almanac of Tobit Studies” (2014) | livre | doi.org |
| de Wet, “The Book of Tobit in early Christianity” (2020) | livre | doi.org |
| Ashliman, “The Grateful Dead: Folktales of Type 505” | livre | pitt.edu |
| BYU Library, Didymus Papyrus | livre | lib.byu.edu |
| National Gallery, Tobias and the Angel (NG781) | livre | nationalgallery.org.uk |
| Dove, Tobias and the Angel (2010) | livre | jonathandove.com |
| Nickelsburg, Jewish Literature between the Bible and the Mishnah (2005) | empréstimo | Open Library |
| Lindenberger, The Aramaic Proverbs of Ahiqar (1983) | empréstimo | Open Library |
| Fitzmyer, Tobit (2003) | biblioteca | Open Library |
| Moore, Tobit (1996) | biblioteca | Open Library |
| Weeks; Gathercole; Stuckenbruck, The Book of Tobit (2004) | biblioteca | Open Library |
| Abegg; Flint; Ulrich, The Dead Sea Scrolls Bible (2002) | biblioteca | Open Library |
| Storniolo; Bortolini, Como ler o livro de Tobias (Paulus) | compra | paulus.com.br |
| Voicu (org.), Apocrypha — ACCS OT 15 (IVP, 2010) | compra | ivpress.com |
| Lourenço (trad.), Bíblia — Vol. V: Os Livros Históricos (Quetzal, 2018) | compra | bnportugal.gov.pt |
| TEB — Tradução Ecumênica da Bíblia (Loyola, 2010) | compra | loyola.com.br |
Selo [esgotado] não aparece aqui: quando a obra não é alcançável de nenhuma forma, o texto aponta o substituto acessível ao lado dela.