Antiguidade Bíblica
Rute (Rut) — Artigo Enciclopédico
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1. Lead e Ficha
O Livro de Rute (hebr. רוּת, Rut; gr. LXX Ρουθ, Rhouth; lat. Ruth) é o oitavo livro da Bíblia cristã na ordem da maioria das traduções, colocado depois de Juízes, e no cânon hebraico pertence aos Ketuvim (Escritos), integrando as cinco Meguilot ao lado de Cântico dos Cânticos, Lamentações, Eclesiastes e Ester [W]. Tem quatro capítulos e oitenta e cinco versículos [W]. Abre com a fórmula de datação mais imprecisa da Bíblia Hebraica — “nos dias em que julgavam os juízes” (Rt 1,1) — e conta em quatro quadros a história de uma família de Belém de Judá que emigra para Moabe por causa da fome, perde ali os seus três homens e regressa com uma nora estrangeira que se tornará bisavó de Davi [W].
A frase de abertura é a chave do problema histórico do livro: o narrador situa a ação numa época, mas escreve como quem olha de longe, explicando costumes que os seus leitores já não praticavam (Rt 4,7) [V — Jones, 2017]. Rute é, por isso, o livro bíblico em que a distância entre o tempo narrado e o tempo da composição é mais visível: o cenário é pré-monárquico, mas a escrita pode ser monárquica, exílica ou persa [V — Jones, 2017].
A narrativa gira em torno de dois institutos legais que o texto articula com dificuldade — o resgate (ge’ullah) do patrimônio e do nome do morto e o levirato — e de uma palavra-fio: hesed, o amor leal que excede a obrigação (Rt 1,8; 2,20; 3,10) [V — Kugler e Magori, 2023]. Sobre esse fio correm três mulheres: Noemi, a sogra amargurada que se chama Mara (1,20); Orfa, que beija e volta; e Rute, a moabita que adere e fica [W].
| Campo | Dado | Marcador |
|---|---|---|
| Nome hebraico | Rut (רוּת) | [V] taxonomia do site |
| Nome grego/latino | Rhouth / Ruth | [W] |
| Posição no cânon | 8.ª ordem no site; Ketuvim (Meguilot) no Tanakh | [V] / [W] |
| Capítulos | 4 (85 versículos) | [W] |
| Idioma | hebraico bíblico (com traços discutidos) | [V — Holmstedt] |
| Autoria | anônima; nenhum autor nomeado no texto | [V — Jones, 2017] |
| Datação do texto | disputada: pré-monárquica, monárquica, exílica ou persa | [V — Jones, 2017] |
| Marco histórico narrado | “dias dos juízes” (c. 1200–1050 a.C.) | [W] |
| Marco histórico externo | Estela de Mesha (c. 840 a.C.) e epigrafia moabita | [V — en.wikipedia, Mesha Stele] |
2. Contexto e Autoria
O problema da datação é o debate maior. O cenário narrado é o dos juízes (Rt 1,1), mas a composição admite uma “janela de uns 800 a 900 anos”, agrupando-se os estudiosos em três períodos: monárquico, exílico e pós-exílico/persa [V — Jones, 2017].
A posição monárquica. Edward F. Campbell (1975), Kirsten Nielsen (1997) e Murray Gow (1992) datam Rute da era monárquica. Nielsen lê o livro como resposta a um problema dinástico — neutralizar objeções contra a casa de Davi por causa da associação com Moabe; Campbell, como texto didático que convida a imitar o hesed dos personagens; Gow, como apologia política da linhagem davídica [V — Jones, 2017].
A posição exílica (minoritária). Christian Frevel (1992) e Tod Linafelt (1999) datam Rute do exílio: Frevel lê o livro como apelo ao regresso dos exilados; Linafelt sustenta que foi composta com Samuel em mente, para expor as ambiguidades da ascendência de Davi [V — Jones, 2017].
A posição pós-exílica/persa. A maioria dos autores recentes situa Rute no período persa inicial, ligando-o ao debate sobre as fronteiras da comunidade no regresso do exílio: Yair Zakovitch (1990) e Eskenazi e Frymer-Kensky (2011) leem-no como contrapeso às tendências exclusivistas da comunidade restaurada (cf. Esdras–Neemias) [V — Jones, 2017]. Jeremy Schipper (2016) conclui pelo persa inicial, mas qualifica: “nenhuma prova isolada determina a data”, e a sua argumentação é “extremamente provisória” [V — Schipper, 2016, apud Jones, 2017]. Erich Zenger (1992) está no extremo oposto, na época macabaica [V — Jones, 2017].
Os argumentos internos. Duas pistas empurram a composição para longe do narrável [V — Jones, 2017]. A primeira é a genealogia davídica de 4,17–22: mencionar Davi como rei pressupõe a monarquia já existente [V — Jones, 2017]. A segunda é a nota da sandália em 4,7 — “antigamente em Israel… o homem tirava a sandália” —, parêntese que só faz sentido se o costume já tivesse caído em desuso [V — Jones, 2017]. Nenhum dos dois é decisivo, mas ambos apontam para leitores afastados dos acontecimentos [V — Jones, 2017].
A autoria anônima. Nenhum autor é nomeado: “os textos bíblicos hebraicos são tecnicamente anônimos” e não têm folha de rosto [V — Jones, 2017]. O Talmude (Baba Batra 14b) atribui o livro a Samuel, mas é tradição, não dado do texto; a crítica moderna trabalha com camadas e editoras [V — Jones, 2017]. Os manuscritos mais antigos vêm do séc. I a.C. (Campbell, 1975) [V — Jones, 2017]; de Qumran provém 4QRuth^b (4Q105), com Rt 1,1–6 e 12–15 [W]. A Septuaginta transmite o livro no Octateuco grego (Gênesis–Rute) [W].
3. Estrutura (4 capítulos)
- Capítulo 1 — fome, migração e volta. A família de Elimelec e Noemi sai de Belém para Moabe por causa da fome (1,1–2); morrem Elimelec e os filhos Maalon e Quiliom, casados com Orfa e Rute (1,3–5) [W]. Sabendo que “Javé visitou o seu povo dando-lhe pão” (1,6), Noemi decide regressar e abençoa as noras com a fórmula do hesed (1,8–9) [W]. Orfa volta ao seu povo; Rute adere pela confissão de 1,16–17 (“o teu povo será o meu povo e o teu Deus, o meu Deus”), e ambas chegam a Belém no início da colheita da cevada [W].
- Capítulo 2 — a respiga e o campo de Boaz. Rute recolhe espigas, direito do pobre e do estrangeiro (Lv 19,9–10; 23,22; Dt 24,19) [W]. Cai no campo de Boaz, parente de Elimelec, que a protege e a abençoa: “sob cujas asas te vieste abrigar” (2,12) [W]. Noemi reconhece o sinal: “esse homem… é um dos nossos resgatadores (go’el)” (2,20) [W].
- Capítulo 3 — a eira. Noemi envia Rute à eira de Boaz, à noite (3,1–9) [W]. Rute pede: “estende o teu manto sobre a tua serva, pois tu és o resgatador” (3,9); Boaz responde com o segundo hesed (3,10), mas adverte que há um parente mais próximo e que o caso se resolve na porta da cidade (3,12–13) [W].
- Capítulo 4 — o portão, o go’el anônimo e a genealogia. Boaz reúne na porta os anciãos e o parente mais próximo, cujo nome o texto nunca diz (4,1) [W]. O anônimo aceita resgatar o campo, mas recua quando Boaz acrescenta a cláusula sobre Rute (4,5), e executa a cerimônia da sandália (4,7–8) [W]. Boaz adquire o campo e toma Rute por mulher; nasce Obed, apresentado a Noemi como “restaurador da tua vida” (4,14–15) [W]. O livro encerra com a genealogia de dez gerações de Perez a Davi (4,17–22) [W].
A estrutura corre em pares: a fome abre e a abundância do pão fecha; a saída de Belém equilibra o regresso; a falta de herdeiro resolve-se no filho nascido. Hubbard descreve o capítulo 1 como “um todo belamente ordenado”: começa com fome e partida, termina com colheita e volta (Hubbard, 1988) [V — Decker, 2019].
4. Conteúdos-chave com Debate
4.1 A escolha de Rute e a fórmula de adesão (1,16–17)
Decker observa que o texto constrói um contraste caracterizador entre as três mulheres: Orfa representa o retorno à cultura pagã, Noemi regressa “mais como pagã do que como judia”, e Rute manifesta fidelidade à aliança [V — Decker, 2019]. A fórmula “o teu povo será o meu povo e o teu Deus, o meu Deus” (1,16) transforma uma decisão de parentesco em adesão religiosa [W]. A persuasão “acontece entre três personagens femininas”, o que faz de Rt 1 um conjunto quase único no corpus [V — Decker, 2019].
4.2 A respiga e o direito do pobre (cap. 2)
Rute entra no sistema legal do resíduo da colheita: o que resta após a ceifa pertence ao pobre, ao órfão, à viúva e ao estrangeiro (Lv 19,9–10; Dt 24,19) [W]. Boaz supera a lei: manda deixar espigas de propósito e convida Rute à mesa (2,14–16) [W]. É aí que a exegese localiza a primeira face do hesed humano e da providência oculta: o narrador diz que “por acaso” Rute veio ao campo de Boaz (2,3), mas a coincidência é lida pela comunidade como desígnio [W].
4.3 A eira (cap. 3) e a agência feminina
A Noemi do capítulo 3 passa de amargurada a estratega que planeja o futuro de Rute (3,1–4) [W]. O gesto de descobrir os pés e a frase “estende o teu manto” (3,9) usam o vocabulário da proteção e do contrato nupcial, e a crítica discute se o texto insinua uma cena sexual ou um pedido formal de casamento [W]. Decker registra o leque: para uns, Noemi envia Rute em busca de marido e resgatador; para outros, em busca de favores sexuais [V — Decker, 2019]. A tese da “armadilha sexual” é de Fewell e Gunn (1990), que leem as personagens como calculistas; como contraponto, Block defende que os três mantêm a sua integridade moral [V — Decker, 2019].
4.4 O go’el, o resgate e o parente anônimo (cap. 4)
O caso resolve-se na porta da cidade, lugar da justiça pública [W]. Entram em cena duas instituições que o texto não separa com clareza: o resgate do patrimônio (ge’ullah), que em Lv 25,25–28 obriga o parente mais próximo a recomprar a terra do irmão empobrecido, e a lei do levirato de Dt 25,5–10, que obriga o irmão a suscitar descendência ao irmão morto [W]. Boaz convoca o parente mais próximo, que a narrativa deixa anônimo — artifício que evita sujar um nome de família ou que faz recair a recusa sobre “alguém” [W]. O go’el (“resgatador”) designa também Javé como quem resgata o seu povo (Ex 6,6; Is 41,14) [W], e a sua função não é só econômica: repõe o nome do morto na herança — daí a bênção dos anciãos, que pedem que Boaz seja “como a casa de Perez, que Tamar deu a Judá” (4,12) [W].
4.5 A lei da sandália (4,7) e o que ela revela
Boaz formaliza o negócio com um gesto que o próprio narrador julga necessário explicar: tira a sandália e a entrega ao outro (4,7–8) [V — Jones, 2017]. O parêntese “antigamente em Israel…” é uma nota de antiquário, do tipo que um texto insere quando o costume já não é corrente [V — Jones, 2017]. A sandália tem, porém, outra associação: em Dt 25,9, é a viúva que descalça o cunhado que recusa o levirato e lhe cospe no rosto — o rito da chalitzá [W]. Discute-se, por isso, se o gesto de Rt 4,7 é o mesmo rito do levirato ou um símbolo diverso, próprio da transferência de propriedade: vários comentários observam que ali a sandália se liga ao “resgate e à troca” de bens, e não ao levirato [W]. O texto usa o vocabulário fundiário de Lv 25 e o rito de Dt 25 ao mesmo tempo, e nunca diz qual estatuto regula o caso.
4.6 Levirato, resgate e a interpretação de 4,5
Em 4,5, Boaz recompõe a oferta: quem compra o campo “da mão de Noemi” deve também “adquirir Rute, a moabita, mulher do morto”, para suscitar o nome do falecido sobre a herança [W]. Isso não corresponde a nenhuma cláusula exata das duas instituições: em Lv 25, o resgate diz respeito à terra e não impõe casamento; em Dt 25, o levirato é dever do irmão do morto, não de um parente colateral [W]. A exegese divide-se: uns leem combinação das duas instituições, com o go’el a estender o seu dever à descendência do morto; outros veem uma prática consuetudinária distinta, em que o parente-redentor assume os órfãos da linhagem [W]. O texto massorético de 4,5 e a Peshitta síria trazem a cláusula de modo semelhante (“adquirir Rute, a moabita, mulher de Maalon”) [V — The Book of Women According to the Syriac Peshitta]. O go’el anônimo recusa sem alegar o levirato — a recusa parece econômica: “que eu não arruíne a minha própria herança” (4,6) [W].
4.7 Rute, a moabita, e o problema de Deuteronômio 23,3–6
Rute é chamada de “a moabita” quatro vezes (1,22; 2,2; 2,21; 4,10) — a marca nunca é apagada [W]. E Dt 23,3–6 diz que “nenhum amonita nem moabita entrará na assembleia de Javé, nem até a décima geração” [W]. A exegese oferece respostas variadas: que a proibição se aplica ao homem moabita e não à mulher (a fórmula “ammoni e moabi” é masculina em Dt 23,3); que se refere à entrada na assembleia cultual e não ao matrimônio; ou que o livro é uma interrogação à leitura exclusivista dessa norma [W]. Domina hoje esta última linha — o livro problematiza a fronteira e mostra “um caso em que uma estrangeira pode razoavelmente corresponder ao padrão de verdadeira israelita” [V — Jones, 2017] —, onde se situam Zakovitch (1990), Eskenazi e Frymer-Kensky (2011) e Jones (2016) [V — Jones, 2017].
4.8 A genealogia davídica (4,17–22) e o seu peso na datação
O livro termina numa lista de dez nomes de Perez a Davi (4,17–22) [W]. Essa genealogia é o argumento interno mais forte para uma composição posterior aos acontecimentos: se o ponto de chegada é o rei Davi, o texto pressupõe ao menos o reinado davídico [V — Jones, 2017]. É sobre esse dado que assenta a leitura “apologia de Davi” (Gow, 1992; Nielsen, 1997) [V — Jones, 2017]. Contra ela, sustenta-se que a genealogia pode ser acréscimo editorial posterior, deixando o corpo em data mais antiga [W].
4.9 O hesed como palavra-chave
Hesed designa, no hebraico bíblico, a lealdade que sobrevive à exigência da lei — favor, bondade e fidelidade num só vocábulo [W]. Em Rute, aparece no voto de Noemi (1,8), na constatação sobre Boaz (2,20) e na bênção de Boaz sobre Rute (3,10) [W]. A leitura tradicional (Campbell) faz dela a mensagem central do livro [V — Jones, 2017]. A crítica recente problematiza essa centralidade: Kugler e Magori (2023) argumentam que o hesed das protagonistas não é espontâneo, mas “um mecanismo de sobrevivência na estrutura comunitária confinante da sociedade patriarcal judaíta”, e que o livro aceita e preserva o sistema social inflexível em vez de o contestar [V — Kugler e Magori, 2023].


5. Temas
- Lealdade contra cálculo: o hesed de Rute, Noemi e Boaz contrasta com a prudência econômica do go’el anônimo (4,6) [W].
- Estrangeira e pertença: o livro mede a fronteira da comunidade pela conduta, não pela origem, e faz disso o seu argumento central (1,16; 4,11–12) [V — Jones, 2017].
- Providência oculta: Javé é invocado, mas nunca age diretamente em cena; a fome acaba e os encontros coincidem — e é o leitor que decide se vê desígnio [W].
- Fome, pão e economia: a palavra lechem (pão) estrutura o livro; a ação de Javé é enunciada como “dar pão” (1,6) [V — Martins, 2018].
- Sobrevivência das mulheres: num livro em que todos os caminhos legais passam por varões, o enredo é conduzido por três mulheres sem marido nem filhos [V — Kugler e Magori, 2023].
- Terra, nome e descendência: o go’el não resgata apenas um campo — resgata um nome ameaçado de desaparecer (4,5.10) [W].
6. Recepção
Judaísmo. Rute integra os Ketuvim como a Meguilá de Shavuot, a festa da entrega da Torá no Sinai [W]. O costume já aparece no tratado talmúdico Soferim (14,16), e o fato de o primeiro capítulo do Midrash de Rute tratar da entrega da Torá indica que a prática estava consolidada quando o midrash foi compilado [V — My Jewish Learning, “Why We Read the Book of Ruth on Shavuot”]. Entre as razões da leitura, a mais citada é que a vinda de Rute teria ocorrido por volta de Shavuot, e a sua aceitação na fé judaica seria análoga à aceitação da Torá por Israel; uma segunda liga-se à genealogia — o livro termina com a de Davi, e a tradição sustenta que Davi nasceu e morreu em Shavuot [V — My Jewish Learning]. Rashi (1040–1105) comenta Rute e declara, no prólogo, que o seu propósito é apresentar o peshat (sentido contextual), ainda que citando muitos midrashim [V — Sefaria, Rashi on Ruth]. O Midrash Rabbah de Rute está disponível em edição digital [V — Sefaria, Ruth Rabbah 2.20], e o Targum aramaico às Meguilot transmite o livro com expansões haggádicas [W]. Quanto a Radak (David Kimhi, 1160–1236), não confirmei nesta sessão um comentário próprio a Rute — a atribuição circula em antologias de Mikraot Gedolot, e fica registrada como [—].
Cristianismo. Rute entra no Novo Testamento pela genealogia de Jesus em Mt 1,5: “Boaz gerou Obed de Rute… e Jessé gerou o rei Davi” [W]. É a única moabita da genealogia messiânica [W]. A recepção cristã leu-a sob a figura da estrangeira que entra na linhagem messiânica: sinal de que a eleição de Israel não se fechava em fronteiras étnicas [W]. A patrística leu Rute como figura da Igreja que adere a Cristo e Boaz como tipo do Redentor; na Reforma, o livro ilustrou a providência que dirige a história por meios comuns [W].
Literatura. John Keats, na Ode a um Rouxinol (1819), invoca “o coração triste de Rute, quando, saudosa da pátria, / estava em lágrimas no meio do milho alheio” — o exílio da respiga como símbolo da melancolia do estrangeiro [V — Poetry Foundation, Ode to a Nightingale].


7. Traduções PT e Comentários PT
Traduções brasileiras que incluem Rute. O livro circula nas Bíblias completas: a tradição Almeida (ARC, ARA, ACF) [W]; a Bíblia de Jerusalém (edição brasileira da Bible de Jérusalem; Paulus) [V]; a TEB — Tradução Ecumênica da Bíblia (Loyola) [V — referências de Martins, 2018]; a Bíblia Pastoral e a CNBB no circuito católico [W]. A Bíblia de Jerusalém, a TEB e o Novo Comentário Bíblico São Jerônimo aparecem na bibliografia do artigo de referência da ABIB sobre Rute [V — Martins, 2018].
Comentários em português — obra dedicada.
- Carlos Mesters, Como ler o livro de Rute: pão, família, terra (São Paulo: Paulinas, 1991) — o comentário popular-libertador mais difundido, na chave da terra, da fome e da família [V — citado em Martins, 2018, e em Nef Ulloa e Xavier, 2024].
- Leonardo Agostini Fernandes, Rute (Coleção e comentário bíblico; Paulinas, 2012) — comentário exegético [V — citado em Nef Ulloa e Xavier, 2024].
- G. Crocetti, Josué, Juízes e Rute (Paulinas, 1985) — panorama em língua portuguesa sobre os históricos [V — citado em Martins, 2018].
- Athalya Brenner (org.), Rute a partir de uma leitura de gênero (Coleção “A Bíblia: uma leitura de gênero”; Paulinas, 2002) — antologia feminista traduzida em português, com capítulos de Brenner, Mieke Bal, Leila Leah Bronner e Ilona Rashkow [V — citado em Nef Ulloa e Xavier, 2024]. É a via PT mais direta para a leitura de gênero do livro [V].
- Mercedes Lopes, “Aliança pela vida: uma leitura de Rute a partir das culturas”, RIBLA, n. 26 (1997) — leitura latino-americana (Vozes e Sinodal) [V — citado em Nef Ulloa e Xavier, 2024].
- Jack M. Sasson, “Rute”, in: Alter e Kermode (orgs.), Guia Literário da Bíblia (Ed. UNESP/Prismas, 1997) — a leitura literária em tradução portuguesa [V — citado em Nef Ulloa e Xavier, 2024].

- James C. Fischer, “Rute”, in: Comentário Bíblico, vol. II (Loyola, 1999) — comentário de referência [V — citado em Martins, 2018].
- Novo Comentário Bíblico São Jerônimo — Antigo Testamento (Academia Cristã / Paulus, 2012) — inclui Rute entre os históricos [V].
Literatura acadêmica brasileira em revistas. A Revista Estudos Bíblicos (ABIB) dedicou a Rute o número 98 (2022), com L. Alanati, “Releituras rabínicas do livro de Rute” [V], J. L. G. do Prado, “O livro de Rute à luz do método histórico-crítico” [V] e A. J. da Silva, “Leitura socioantropológica do Livro de Rute” [V]. No n.º 137 (2018), Patrícia Zaganin Rosa Martins lê o livro pela ótica da sobrevivência e da opção preferencial pelos pobres [V]; em Estudos Bíblicos 114 (2012), Maria Aparecida de Castro assina “Rute: símbolo da força feminina” [V]. Na Revista de Cultura Teológica (PUC-SP, 2024), Boris Nef Ulloa e Magno de Carvalho Xavier, “A amizade social no livro de Rute” (DOI 10.23925/rct.i108.68049), leem o livro no horizonte de Fratelli Tutti [V — Nef Ulloa e Xavier, 2024].
Comentários-âncora sem tradução PT localizada. Campbell, Ruth (Anchor Bible 7; Doubleday, 1975) [W]; Hubbard, The Book of Ruth (NICOT; Eerdmans, 1988; ISBN 9780802825261) [V]; Sasson, Ruth (Johns Hopkins, 1979) [V — JSTOR 544748]; Nielsen, Ruth (OTL; WJK, 1997) [V — Jones, 2017]; Sakenfeld, Ruth (Interpretation; John Knox, 1999) [V]; Schipper, Ruth (Anchor Yale Bible 7D; Yale, 2016; ISBN 9780300216547) [V]. Traduções brasileiras destas obras não foram localizadas [—].
8. Audiovisual e Games
| Título | Realidade | Validação PT | Marcador |
|---|---|---|---|
| The Book of Ruth: Journey of Faith (vídeo, 2009) | adaptação direta do livro bíblico | título e disponibilidade PT não confirmados | [V] / [—] dublagem |
| Séries bíblicas (décadas de 1990–2000) | episódios sobre o período pré-monárquico incluem referências a Rute | sem episódio dedicado confirmado | [W] / [—] |
| The Bible Project — Visão Geral: Rute | animação gratuita de estudo bíblico | site e canal oficiais com narração em PT-BR | [V] |
| Videojogos com enredo de Rute | nenhum título dedicado localizado | — | [—] |
O quadro é magro: Rute, ao contrário de Sansão, não produziu épico hollywoodiano. A adaptação mais direta é independente e de 2009, The Book of Ruth: Journey of Faith, cuja descrição comercial destaca “temas de tolerância e aceitação” [V — IMDb, tt0400330]. A porta mais usada pelo leitor brasileiro é a animação de estudo do Bible Project, em português [V — bibleproject.com]. A ausência de jogos dedicados repete-se em todo o bloco pré-monárquico, como registrado no dossiê de Juízes [—].
9. Mitologia e Literatura Comparada
As leis do casamento e do resgate no Antigo Oriente
Rute é um livro de instituições jurídicas, e o seu material comparativo está nos códigos e contratos do Antigo Oriente. Matthews e Benjamin, na antologia Old Testament Parallels, reúnem os paralelos legais e narrativos que iluminam o resgate e o casamento no livro [V — Matthews e Benjamin, 2006, referida em Jones, 2017]. O método é claro: o Levante do Ferro não inventou o parentesco de resgate nem a obrigação de suscitar descendência ao morto; Rute reconfigura essas práticas num caso concreto [W].
Os contratos de casamento judaicos de Elefantina
A colônia militar judaica de Elefantina, no Egito do séc. V a.C., legou contratos de casamento em aramaico (spr ‘ntw) que documentam a vida jurídica de mulheres judias — Mibtahiah, Tamet e Jehoishma [V — Jewish Women’s Archive, verbete Elephantine]. Os documentos trazem cláusulas de divórcio simétricas: se a esposa disser “odeio o meu marido”, o preço do divórcio recai sobre ela, com perda do mohar [V — Jewish Women’s Archive; Attalus.org]. O valor comparativo é preciso: mostram uma comunidade judaica que formalizava por escrito casamento, dote e divórcio, com a mulher como agente contratual — o que relativiza a ideia de que a posição das mulheres seja idêntica em todo o mundo judaico antigo [V].
A Estela de Mesha e a epigrafia moabita
O pano de fundo do livro é Moabe, e o seu documento por excelência é a Estela de Mesha (KAI 181), a “Pedra Moabita”, em basalto, achada intacta em agosto de 1868 em Dibon (atual Dhiban, Jordânia) por Frederick Augustus Klein, e datada de cerca de 840 a.C. [V — en.wikipedia, Mesha Stele; Biblical Archaeology Society]. O texto, de 34 linhas, faz Mesha, rei de Moabe, narrar como Chemosh, o deus moabita, se irou e submeteu o povo ao Reino de Israel, e depois lhe deu a vitória [V]. É a mais longa inscrição do Ferro do Levante, a maior evidência da língua moabita e um dos quatro documentos que trazem o nome de Israel [V]; a sua autenticidade, contestada por minimalistas, é aceita pela quase totalidade dos arqueólogos atuais [V]. Está no Louvre (AO 5066) desde 1873 [V]. O que dá a Rute: Moabe existe como reino com rei, capital, deus e escrita própria no séc. IX [V] — e o seu deus é Chemosh, o que dá concretude ao problema do livro: a moabita traz a sombra de outro culto e, ainda assim, diz “o teu Deus será o meu Deus” (Rt 1,16) [W].
A estrangeira na literatura antiga
O motivo da estrangeira na linhagem de Israel tem precedentes internos: Tamar, que se disfarça e gera Perez de Judá (Gn 38), é invocada na bênção dos anciãos a Boaz (Rt 4,12) [W]; as filhas de Lot geram Moabe e Amom (Gn 19,30–38), origem que o midrash usa para relativizar a mancha da moabita [W]. Sasson lê o livro pelo método formalista-folklorista, como narrativa popular com estrutura e função próprias à luz das narrativas do Antigo Oriente [V — Sasson, 1979]. O mito de Baal e Anat em Ugarit não tem paralelo direto: Rute narra agricultura, colheita e fome sem divinizar nenhuma força da natureza [W].
10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta
Espinosa: o Estado hebreu, a lei e o caso de Rute
Espinosa, no Tratado Teológico-Político (1670), sustenta que as leis rituais e civis de Israel pertenciam à constituição política daquele Estado e não à verdade eterna [W]. Isso interessa a Rute: o levirato, o resgate da terra e a proibição da assembleia (Dt 23,3–6) são direito positivo de um Estado histórico — e uma novela construída contra uma dessas cláusulas mostra que essas leis eram matéria de disputa interna, não bloco monológico [W].
Kant e a religião moral
Kant, em A Religião nos Limites da Simples Razão (1793), separa a religião pura de razão dos cultos estatutários destinados a agradar a Deus por si mesmos [W]. Rute é quase um livro sem culto — sem altar, sacrifício ou templo; a piedade aparece como lealdade e ação [W]. A pergunta que fica é se essa virtude toda ética basta à religião, ou se a bênção invocada sobre Rute (“sob cujas asas te vieste abrigar”, 2,12) supõe uma relação que a moral pura não explica [W].
O problema do mal: a fome, as mortes e o Deus ausente
Rute abre com fome, emigração e três mortes (1,1–5), sem explicar por que morrem Elimelec e os filhos: não há culpa nem recompensa — ao contrário de Juízes, onde a desgraça é sempre juízo [W]. J. L. Mackie, em “Evil and Omnipotence” (Mind 64, 1955), formulou o problema lógico do mal; William L. Rowe, em “The Problem of Evil and Some Varieties of Atheism” (American Philosophical Quarterly 16, 1979), deslocou-o para a forma evidencial, em que o sofrimento aparentemente gratuito conta como evidência contra um Deus onipotente e bom [W]. Noemi — viúva sem filhos em terra estrangeira — encarna esse “mal gratuito” e acusa Deus de a ter esvaziado (1,20–21), e o texto deixa a acusação de pé [W]. Rute não oferece teodiceia, mas uma história em que o mal não é explicado e a vida continua [W].
Girard, o bode expiatório e o que o livro não faz
René Girard, em Le bouc émissaire (1982), sustenta que as comunidades resolvem as suas crises por um mecanismo de bode expiatório, e que os textos bíblicos o revelam ao declarar a vítima inocente [W]. Rute tem aí um candidato natural — o estrangeiro que a comunidade pode isolar —, e o notável é o que o livro não faz: não expulsa Rute, não a sacrifica, não a deixa fora da bênção [W]. Ressalva honesta: Girard não comentou Rute; o modelo é aplicado por analogia [—].
Mary Douglas: pureza, fronteira e o estrangeiro
Mary Douglas, em Purity and Danger (1966), formula que a impureza é matéria fora de lugar [W]. Rute é a personagem “fora de lugar” por excelência: moabita em Belém, mulher na eira, estrangeira na colheita, sem varão numa genealogia de varões — e o livro faz dela a matriz da descendência régia, não uma fonte de contaminação [W]. Como Girard, Douglas não comentou Rute: o quadro é analógico [—]. O que a comparação ilumina é a inversão da lógica da impureza — e a pergunta que fica: se a barreira podia ser atravessada em favor de Davi, o livro acomoda ou contesta? [W]
Justiça, capacidades e a ética do cuidado
John Rawls, em Uma Teoria da Justiça (1971), faz da justiça como equidade o critério do procedimento justo, com o “véu de ignorância” a garantir que ninguém escolha princípios sabendo o lugar que ocupará [W — Nussbaum, 2001]. Em Rute, o direito à respiga, o resgate da terra e a obrigação do parente compõem uma justiça distributiva de matriz não contratual: o que se deve ao pobre, à viúva e ao estrangeiro [W]. Martha Nussbaum — na crítica a Rawls de que o contrato “não expressa suficientemente a dignidade de quem dá e de quem recebe cuidado” — dá a chave para ler Rute como livro do cuidado [V — Nussbaum, 2001].
A ética da estrangeira: Derrida e Levinas
Emmanuel Levinas faz do Outro — e, na sua forma extrema, do estrangeiro — o ponto de partida da ética: a relação com o outro precede e funda a justiça [W]. Jacques Derrida, em Da hospitalidade (1997), desmonta a aporia entre a hospitalidade incondicional e a hospitalidade condicionada pelo direito [W — tese registrada em Jacques Derrida on the Aporias of Hospitality]. Rute encena essa aporia: a moabita é acolhida sob condições — respiga, adere ao povo, casa dentro da lei —, e por isso a hospitalidade de Boaz é generosa e regulada [W]. A pergunta que fica: se a hospitalidade dá fruto à comunidade que a concede, foi hospitalidade ou cálculo? [W]
A ética da leitura: quem falou por Rute?
Phyllis Trible, em God and the Rhetoric of Sexuality (1978), fez de Rute um dos textos de redenção, em que as mulheres tomam a iniciativa e a história se resolve por meio delas [V — Augsburg Fortress]. Katharine Doob Sakenfeld, em Ruth (Interpretation, 1999) e em The Meaning of Hesed in the Hebrew Bible (1978), articula o hesed como unidade teológica do livro [V — registros comerciais]. Fewell e Gunn, em Compromising Redemption (1990), leem o livro como subversivo e as personagens como negociadoras de um sistema que não podem mudar [V]. Athalya Brenner organizou a antologia de gênero que reúne essas leituras, com a análise de Mieke Bal sobre heroísmo e nomes próprios [V — Brenner, 2002]. A pergunta de método: um livro que faz da sobrevivência das mulheres uma estratégia dentro do patriarcado denuncia o sistema ou o canoniza? [V — Kugler e Magori, 2023]
11. Teologia — os debates
A providência oculta
O traço mais discutido é o silêncio de Deus: Javé é invocado, abençoa e “visita o seu povo” (1,6), mas nunca fala nem intervém em cena [W]. A leitura dominante faz de Rute o livro da providência oculta: Deus age por coincidências, colheitas e decisões humanas, sem milagre [W]. A objeção é que isso harmoniza o texto à custa da ambiguidade — o narrador nunca diz que vê desígnio, e é o leitor que o projeta [W].
O hesed como mensagem e a sua contestação
A leitura clássica (Campbell, 1975) faz do hesed a mensagem central e dos personagens o modelo a imitar [V — Jones, 2017]. A contestação recente (Kugler e Magori, 2023) vê nesse hesed um instrumento de sobrevivência dentro de uma estrutura social rígida, que o livro preserva em vez de transformar [V — Kugler e Magori, 2023]. O debate é teológico antes de sociológico: se a bondade de Rute é resposta à necessidade e não obediência livre, a mensagem muda de natureza [W].
O levirato, o resgate e a legalidade
Boaz, no texto, aparece como quem faz mais do que a lei manda, e o go’el anônimo como quem faz exatamente o cálculo da lei [W]. A questão teológica é sobre a autoridade da lei nesse caso: o resgatador estende o seu dever à descendência do morto por exigência legal ou por generosidade para além dela? [W]. A exegese recente sublinha que o texto não explica a lei que invoca, o que sugere prática costumeira, não código [W].
A inclusão do estrangeiro e a fronteira da comunidade
O debate mais vivo hoje identifica em Rute uma posição no conflito pós-exílico sobre quem pertence à comunidade, contrastando o universalismo do livro com o exclusivismo de Esdras–Neemias [V — Jones, 2017]. Zakovitch (1990), Eskenazi e Frymer-Kensky (2011) e Jones (2016) situam ali o propósito do livro [V — Jones, 2017]. A contraparte advertência, feita por Jones, é que o texto não afirma que todos os estrangeiros contam como povo de Javé — afirma que há casos em que um estrangeiro pode corresponder ao padrão de verdadeiro israelita [V — Jones, 2017].
A leitura feminista e a agência das mulheres
A leitura feminista tem como polo inaugural Trible (1978), que lê o livro como história de redenção pela agência feminina [V]. Fewell e Gunn (1990) e Brenner (2002) radicalizam a análise, mostrando o cálculo, a negociação e a astúcia das personagens dentro de um sistema que as limita [V]. Sakenfeld (1999) articula o hesed com o sistema social [V]. Kugler e Magori (2023) fecham o ciclo argumentando que o livro aceita e preserva o sistema patriarcal que faz o hesed necessário [V]. Aqui entra a tese de que o livro é, antes de tudo, sobre a sobrevivência das mulheres — de Noemi, que perde tudo e recupera um filho; de Rute, que troca terra e deuses por segurança; de Orfa, que escolhe o caminho que o texto não julga [V — Fewell e Gunn, 1990; Brenner, 2002].
A recepção neotestamentária: Mt 1,5
O Novo Testamento usa Rute uma vez, na genealogia de Mateus (Mt 1,5) [W]. O debate é duplo: o uso confirma o propósito dinástico que alguns atribuem ao livro (4,17–22), e a presença da moabita na árvore de Jesus é lida como sinal da abertura da eleição aos povos [W]. A objeção histórico-crítica é que Mateus lê Rute pela tipologia, não pelo sentido contextual [W].
A pregação moralizante e a sua crítica
A leitura devocional mais difundida — Rute como exemplo de lealdade, Boaz como modelo de bondade — tem o seu limite: transforma um livro de sobrevivência em manual de virtude e resolve em moral o que o narrador deixa em aberto [V — Kugler e Magori, 2023]. Gutiérrez, na teologia da libertação, oferece a alternativa de ler o livro pela ótica dos pobres e da terra, linha retomada em português por Mesters e pela ABIB [V — Martins, 2018].
11.1. Comentaristas por esfera confessional
Esta subseção organiza os comentários a Rute por tradição de leitura, não por cronologia. A regra de rotulagem é a do método desta camada — a perspectiva se declara, não se atribui —, e o rótulo é metadado, não argumento. Convenções: [V] conferido nesta sessão; [W] conhecido, não reconferido; [—] lacuna.
Judaica
- Rashi (1040–1105) — comentário a Rute na Sefaria, com o prólogo em que declara visar o peshat [V]. Midrash Rabbah de Rute — midrash clássico, em edição digital [V]. Talmude, Baba Batra 14b, e o tratado Soferim 14,16, sobre a leitura no Shavuot [V — My Jewish Learning]. Targum às Meguilot [W]. Radak (1160–1236) — comentário próprio a Rute não confirmado nesta sessão [—]. Modernos: Zakovitch (1990) e Eskenazi e Frymer-Kensky (2011) [V — Jones, 2017].
Católica ocidental (latina)
- A tradição latina não deixou comentário patrístico corrido a Rute; o livro foi lido em homilias e glosas. Nicolau de Lira, Postilla litteralis (séc. XIV), trata-o na série dos históricos [W]; Cornélio a Lapide, Commentaria in omnes Sacrae Scripturae libros (1616–1642), cobre todos os livros do cânon [W]. Modernos em português: o Novo Comentário Bíblico São Jerônimo (2012) [V] e James C. Fischer no Comentário Bíblico vol. II (Loyola, 1999) [V].
Católica oriental e grega patrística
- A tradição grega trata Rute no quadro do Octateuco (Gn–Rt): Teodoreto de Ciro compôs Quaestiones in Octateuchum, de método antioqueno literal-histórico [W]. Orígenes não deixou homilias conservadas sobre Rute, e Crisóstomo e Efrém não comentaram o livro de forma corrida [W]. Onde não existe comentário dedicado, a lacuna se declara [—], em vez de se preencher com nomes que não comentaram o livro.
Ortodoxa
- A tradição ortodoxa lê Rute por catena e pela liturgia, não por comentário crítico moderno. Alexander Lopukhin, Толковая Библия (1904–1913), cobre os históricos, Rute entre eles [W]; a Orthodox Study Bible acrescenta notas patrísticas [W]. Não localizei comentário ortodoxo contemporâneo dedicado a Rute [—].
Protestante histórica
- Lutero e Calvino não deixaram comentário dedicado a Rute; Matthew Henry, Exposition of the Old and New Testaments (1706–1710), comenta-o de modo devocional [W]. Críticos modernos: Campbell (1975) [W], Hubbard (1988) [V], Sasson (1979) [V], Nielsen (1997) [V], Schipper (2016) [V]. Assimetria a declarar: a esfera protestante anglófona domina o mercado por fato de mercado, não de mérito.
Evangélica
- Robert L. Hubbard Jr., The Book of Ruth (NICOT, 1988) [V]; Daniel I. Block, Judges, Ruth (New American Commentary 6; Broadman and Holman, 1999) [V]; Katharine Doob Sakenfeld, Ruth (Interpretation, 1999) [V]; e a série de estudo The Bible Project, largamente usada em igrejas em português [V]. Na pregação em português, a chave é o hesed e a providência — abordagem que a crítica acima problematiza [W].
Não confessional e leitura literária
- Mieke Bal e as autoras reunidas por Brenner (2002) — apresentar como teoria literária e leitura de gênero, descrevendo o método e nunca rotulando a crença pessoal das autoras [V]. Fewell e Gunn (1990), análise narratológica e subversiva [V]. Kugler e Magori (2023), sobre o hesed e a estrutura social [V]. A divulgação polêmica e a crítica bíblica são categorias distintas [W].
| Esfera | Nomes citados | Fonte primária? |
|---|---|---|
| Judaica | Rashi, Midrash Rabbah, Talmude, Targum, Zakovitch, Eskenazi e Frymer-Kensky | sim (Rashi) |
| Católica ocidental | Nicolau de Lira [W], Cornélio a Lapide [W], Fischer, São Jerônimo | sim (Fischer) |
| Católica oriental / grega | Teodoreto [W], catenas; ausência de comentário dedicado | não [—] |
| Ortodoxa | Lopukhin [W], Orthodox Study Bible [W] | não [—] |
| Protestante histórica | Henry [W], Campbell, Hubbard, Sasson, Nielsen, Schipper | sim |
| Evangélica | Hubbard, Block, Sakenfeld, Bible Project | sim |
| Não confessional | Bal, Brenner, Fewell e Gunn, Kugler e Magori | sim |
O desequilíbrio visível — o Oriente sem comentário corrido conservado, o Ocidente com séries completas — não é do dossiê: é do material, e por isso fica dito, não silencioso. A esfera não confessional entra por método, com a perspectiva declarada como tal — nunca usada como refutação de outra esfera.
12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não têm competência
A regra desta seção: declarar os limites. A ciência não decide se Javé conduziu Rute a Belém; decide se uma afirmação factual do texto é compatível com o observável.
A epigrafia: Estela de Mesha, selos e óstracos
O documento central é a Estela de Mesha (KAI 181), de c. 840 a.C., achada em Dibon em 1868, em língua moabita, hoje no Louvre (AO 5066); o texto narra a submissão de Moabe a Israel como ira de Chemosh e a restauração como seu favor [V — en.wikipedia, Mesha Stele; Biblical Archaeology Society]. É o documento que prova a existência de Moabe como reino com escrita própria no séc. IX — o pano de fundo do livro [V]. Os selos e óstracos do Ferro II — óstracos de Samaria, selos lmlk do séc. VIII, selos pessoais judaítas — documentam a onomástica e a administração de Judá [W]. Limite: nenhuma inscrição menciona Rute, Noemi, Boaz ou o go’el anônimo [V].
A arqueologia de Belém e do planalto de Judá
Belém é uma cidade pequena no planalto ao sul de Jerusalém, e a arqueologia do planalto de Judá no Ferro II é dominada pela obra de Israel Finkelstein, que mapeou o povoamento das terras altas e o crescimento demográfico de Judá [W — Finkelstein, publicações da Universidade de Tel Aviv]. O debate sobre a cronologia do Ferro e a datação das camadas de destruição — cronologia alta contra baixa, Finkelstein contra a escola maximalista de Dever — condiciona qualquer reconstrução material do Judá dos séculos VIII–VI a.C. [W]. O que se pode dizer é modesto: Belém existe e é sítio do Ferro, e a região é agrícola, com cevada e trigo, os cereais do livro [W]. Limite: a arqueologia não escava a história de uma família, e nenhuma escavação em Belém identificou a casa de Boaz, a eira ou a porta da cidade [W].
A linguística do hebraico de Rute
O debate técnico mais relevante para a datação está dividido. O método tradicional — a datação linguística — sustenta que o hebraico bíblico se periodiza em clássico (pré-exílico) e tardio (pós-exílico), e que um texto com formas antigas seria antigo [W]. Avi Hurvitz, em A Concise Lexicon of Late Biblical Hebrew (Brill, 2014), defende os critérios dessa datação: distribuição tardia, contraste com alternativas clássicas e corroboração extrabíblica [V — Journal of Hebrew Scriptures]. Rute, porém, mistura traços: “em uns pontos os personagens falam em arcaísmos, noutros o texto tem o equivalente de gíria moderna”, e nenhum lado convenceu o outro [V — Jones, 2017]. Young, Rezetko e Ehrensvärd (2003; 2014) contestam a datação linguística, sustentando que clássico e tardio coexistiram [V]. Robert Holmstedt, em “Dating the Language of Ruth: A Study in Method”, critica os revisionistas e defende integrar dados linguísticos e extralinguísticos [V — Holmstedt]. Ziony Zevit, em “Dating Ruth: Legal, Linguistic and Historical Observations” (ZAW 117, 2005), cruza os dados legais, linguísticos e históricos [V — Zevit, 2005]. Consequência prática: a língua de Rute não fecha a datação [V — Jones, 2017].
Onde a ciência NÃO tem competência
- A ciência não decide se a mão de Deus conduziu os encontros do livro, se o hesed é graça divina ou virtude humana, nem se a “coincidência” de 2,3 é providência ou acaso [W].
- A arqueologia não identifica os personagens: nenhuma inscrição, selo ou osso traz os nomes de Noemi, Rute, Orfa ou Boaz [V].
- A epigrafia atesta um reino — Moabe e o seu deus Chemosh —, não o casamento de uma moabita com um belenita específico; a passagem do reino ao caso concreto é inferência, não documento [V].
- A linguística não produz data absoluta: dá estimativas relativas disputadas, e em Rute os dois lados apresentam evidência [V — Jones, 2017].
- A arqueologia não confirma nem refuta a fome de 1,1: catástrofes agrícolas pontuais raramente deixam assinatura estratigráfica datável a uma década [W].
- E a ciência não responde se a genealogia de 4,17–22 é memória ou legitimação dinástica: matéria de história e crítica da tradição [W].
13. Lacunas e Correções de Atribuição
- [—] Radak e o comentário a Rute: a atribuição circula em antologias de Mikraot Gedolot, mas não confirmei nesta sessão um comentário de Kimhi ao livro em edição primária — citar apenas com a mediação declarada.
- [—] Comentário ortodoxo moderno dedicado a Rute: não localizado; a esfera lê-se por catena e por Lopukhin (1904–1913).
- [—] Comentário patrístico grego corrido a Rute: não identifiquei homilias ou comentário contínuo conservado; o material chega por Quaestiones e catenas — não atribuir a Crisóstomo ou a Efrém comentário ao livro que não existe.
- [W] Manuscritos de Qumran: a sigla 4QRuth^b (4Q105), com Rt 1,1–6 e 12–15, provém de lista de manuscritos do Qumran em registro enciclopédico; não conferi a edição crítica nesta sessão.
- [NV] ISBN de comentários-âncora: os ISBN de Campbell (1975) e de Nielsen (1997) não foram testados em Open Library; os de Hubbard e Schipper provêm de registro comercial, não de catálogo primário.
- [—] Estatísticas textuais de Rute: os totais de palavras, letras e versículos não foram conferidos em tabela crítica; o número de versículos (85) é dado de uso corrente, marcado [W].
- [—] Girard e Mary Douglas sobre Rute: nenhum dos dois escreveu comentário ao livro; as aplicações feitas em §10 são analógicas e não podem ser atribuídas a eles.
- [—] Comentário judaico moderno crítico dedicado a Rute em português: não localizado; a via PT mais direta é a antologia de Brenner (2002) e os artigos da ABIB.
- [—] Produção audiovisual brasileira dedicada a Rute: nenhuma localizada nesta sessão — nem filme, nem minissérie, nem telefilme nacional.
Bibliografia-âncora verificada
- Jones III, “The Book of Ruth: Origin and Purpose” (Bible Interp, 2017), e Reading Ruth in the Restoration Period: A Call for Inclusion (LHBOTS 604; Bloomsbury T&T Clark, 2016). [V] https://bibleinterp.arizona.edu/articles/2017/11/jon418007.
- Kugler e Magori, “Hesed in Ruth: A Frail Moral Tool in an Inflexible Social Structure”, Religions 14, n.º 5 (2023), 604; DOI 10.3390/rel14050604. [V] https://www.mdpi.com/2077-1444/14/5/604.
- Decker, “Contrastive Characterization in Ruth 1:6-22”, Old Testament Essays 32, n.º 3 (2019); DOI 10.17159/2312-3621/2019/v32n3a8. [V] https://scielo.org.za/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1010-99192019000300007.
- Holmstedt, “Dating the Language of Ruth: A Study in Method”. [V] https://www.academia.edu/1017049/Dating_the_Language_of_Ruth_A_Study_in_Method.
- Zevit, “Dating Ruth: Legal, Linguistic and Historical Observations”, ZAW 117 (2005). [V] https://www.academia.edu/115936594/Dating_Ruth_Legal_Linguistic_and_Historical_Observations.
- Ehrensvärd (T&T Clark, 2003) e Rezetko e Young, Historical Linguistics and Biblical Hebrew (SBL, 2014). [V] https://www.academia.edu/1017037/Historical_Linguistics_and_Biblical_Hebrew. Hurvitz, A Concise Lexicon of Late Biblical Hebrew (Brill, 2014). [V] resenha: https://jhsonline.org/index.php/jhs/article/view/29452/21468.
- Matthews e Benjamin, Old Testament Parallels: Laws and Stories from the Ancient Near East (3.ª ed.; Paulist, 2006), citado em Jones (2017). [V].
- Sasson, Ruth: A New Translation with a Philological Commentary and a Formalist-Folklorist Interpretation (Johns Hopkins, 1979). [V] https://www.jstor.org/stable/544748.
- Hubbard, The Book of Ruth (NICOT; Eerdmans, 1988; ISBN 9780802825261). [V] https://books.google.com/books/about/The_Book_of_Ruth.html?id=wJQvoHg91QkC.
- Schipper, Ruth (Anchor Yale Bible 7D; Yale, 2016; ISBN 9780300216547). [V] https://dokumen.pub/ruth-a-new-translation-with-introduction-and-commentary-9780300216547.html.
- Sakenfeld, Ruth (Interpretation; John Knox, 1999) e The Meaning of Hesed in the Hebrew Bible (HSM 17, 1978). [V] https://www.wjkbooks.com/bookproduct/0664238858-ruth/.
- Fewell e Gunn, Compromising Redemption: Relating Characters in the Book of Ruth (Westminster/John Knox, 1990). [V] https://www.jstor.org/stable/44311877.
- Trible, God and the Rhetoric of Sexuality (Fortress, 1978). [V] https://www.augsburgfortress.org/store/product/9780800604646/God-and-the-Rhetoric-of-Sexuality.
- Estela de Mesha (KAI 181), c. 840 a.C., Louvre AO 5066. [V] https://en.wikipedia.org/wiki/Mesha_Stele; tradução em https://www.biblicalarchaeology.org/daily/biblical-artifacts/inscriptions/what-does-the-mesha-stele-say/.
- Contratos de casamento judaicos de Elefantina (séc. V a.C.). [V] https://jwa.org/encyclopedia/article/elephantine; https://www.attalus.org/egypt/mibtahiah.html.
- Rashi e Midrash Rabbah de Rute; leitura em Shavuot (Soferim 14,16). [V] https://www.sefaria.org/Rashi_on_Ruth; https://www.sefaria.org/Ruth_Rabbah.2.20; https://www.myjewishlearning.com/article/why-do-we-read-the-book-of-ruth-on-shavuot/.
- Mesters, Como ler o livro de Rute (Paulinas, 1991); Fernandes, Rute (Paulinas, 2012); Crocetti, Josué, Juízes e Rute (Paulinas, 1985); Brenner (org.), Rute a partir de uma leitura de gênero (Paulinas, 2002); M. Lopes, “Aliança pela vida”, RIBLA 26 (1997); Sasson, “Rute”, in Guia Literário da Bíblia (UNESP, 1997); Fischer, “Rute”, in Comentário Bíblico II (Loyola, 1999) — todos citados em Nef Ulloa e Xavier (2024) e em Martins (2018). [V].
- Nef Ulloa e Xavier, “A amizade social no livro de Rute”, Revista de Cultura Teológica 34, n.º 108 (2024); DOI 10.23925/rct.i108.68049. [V] https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/view/68049.
- Martins, “Deus visitou o seu povo dando-lhe pão”, Estudos Bíblicos 35, n.º 137 (2018), pp. 57–70. [V] https://revista.abib.org.br/EB/article/view/78. Prado [V] https://revista.abib.org.br/EB/article/view/543; Silva [V] https://revista.abib.org.br/EB/article/view/545; Alanati [V] https://revista.abib.org.br/EB/article/view/542.
- Keats, Ode to a Nightingale (1819), estrofe 7. [V] https://www.poetryfoundation.org/poems/44479/ode-to-a-nightingale.
- The Book of Ruth: Journey of Faith (2009) [V] https://m.imdb.com/title/tt0400330/; The Bible Project — Visão Geral: Rute (PT-BR) [V] https://bibleproject.com/pt-br/videos/rute/.
Como conseguir estas obras
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| Obra | Acesso | Onde |
|---|---|---|
| Jones III, “The Book of Ruth: Origin and Purpose” (Bible Interp, 2017) | livre | bibleinterp.arizona.edu |
| Kugler e Magori, “Hesed in Ruth” (Religions, 2023) | livre | mdpi.com |
| Decker, “Contrastive Characterization in Ruth 1:6-22” (OTE, 2019) | livre | scielo.org.za |
| Rashi e Midrash Rabbah de Rute (Sefaria) | livre | sefaria.org |
| Leitura de Rute em Shavuot (tratado Soferim) | livre | myjewishlearning.com |
| Martins, “Deus visitou o seu povo dando-lhe pão” (ABIB) | livre | revista.abib.org.br |
| Schipper, Ruth (Anchor Yale Bible 7D; Yale, 2016) | empréstimo | dokumen.pub |
| Sakenfeld, Ruth (Interpretation; John Knox, 1999) | empréstimo | wjkbooks.com |
| Fewell e Gunn, Compromising Redemption (1990) | biblioteca | jstor.org |
| Sasson, Ruth (Johns Hopkins, 1979) | biblioteca | jstor.org |
| Estela de Mesha (KAI 181), tradução comentada | biblioteca | biblicalarchaeology.org |
| Trible, God and the Rhetoric of Sexuality (Fortress, 1978) | compra | augsburgfortress.org |
| Hubbard, The Book of Ruth (NICOT; Eerdmans, 1988) | compra | books.google.com |
| Nef Ulloa e Xavier, “A amizade social no livro de Rute” (PUC-SP, 2024) | compra | revistas.pucsp.br |
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