Estudos AntigosBíblicos · Clássicos · Medievais

Antiguidade Bíblica

Joel (Yoel) — Artigo Enciclopédico

Comece por aqui

Por onde estudar esta página

Você não precisa ler tudo. Escolha um degrau — cada um é um estado final satisfatório, não um fragmento de curso. A ordem abaixo não é a ordem das seções: o texto vem antes do comentário, de propósito.

  1. 01

    Ler o texto15–30 min

    A passagem inteira, em duas traduções de tradições diferentes, sem comentário. Comparar as duas é o exercício que mais rende: mostra onde o original é ambíguo.

  2. 02

    O contexto20–40 min

    O mundo em que o texto surgiu: geografia, arqueologia, paralelos do Antigo Oriente Próximo.

    §2 §9

  3. 03

    O debate30–60 min

    As posições em disputa, com quem as sustenta, onde publicou e qual é a réplica.

    §4 §10

  4. 04

    A recepção30–60 min

    O que se fez do texto: Padres, medievo, tradições confessionais.

    §6 §11

  5. 05

    As quatro camadas40–90 min

    Comparação com a mitologia, as perguntas filosóficas, os debates teológicos e o que a ciência diz — e onde não tem competência.

    §9 §10 §11 §12

  6. 06

    O dossiê integral1,5–3 h

    Tudo, na ordem, mais bibliografia com selo de acesso e as lacunas assumidas.

Outras portas de entrada
  • Quero só a resposta. Pare no degrau 0 — ele é completo em si.
  • Quero conferir se é verdade. Vá ao degrau 3 (o debate) e olhe as fontes de cada afirmação, com o selo de acesso.
  • Quero ler o texto com calma. Degrau 1, com o glossário ao lado.
  • Vim da fé e quero entender. Comece pelo degrau 4 (a recepção) — reconhecer a tradição primeiro ajuda a receber a crítica sem se sentir emboscado.
  • Vim do ceticismo. Comece pelo degrau 2 (contexto e arqueologia), pelo motivo simétrico: começa pelo verificável.
Como saber se você entendeu

Ao fim de cada degrau, tente responder às três. Se as três não saem, o degrau seguinte vai confundir — volte um.

  1. Compreensão. Consigo dizer o que o texto diz, com minhas palavras?
  2. Análise. Consigo dizer qual problema este texto levanta, e por quê?
  3. Debate. Consigo dizer quem discorda de quem, e sobre o quê?

1. Lead e Ficha

O Livro de Joel (hebr. יוֹאֵל, Yoel, lido como “YHWH é Deus”; gr. Ἰωήλ, Ioel; lat. Ioel) integra os Doze Profetas — a coletânea que o cânon hebraico conta como um só livro e que as Bíblias cristãs imprimem como doze [W]. O livro atribui-se a “Joel, filho de Petuel” (Jl 1,1) [W], sem família, cidade ou rei sob o qual datar a vocação — e é essa ausência que faz de Joel o livro de datação mais disputada da Bíblia Hebraica [V — Ganzel, JHS 11, 2011].

O texto massorético tem três capítulos; edições cristãs de quatro capítulos (JPS 1917, Bible de Jérusalem 1966, New American Bible rev., Complete Jewish Bible 1998) dividem-no em quatro, de modo que o derramamento do Espírito é Jl 3,1–5 na numeração hebraica e Jl 2,28–32 na numeração usada em muitas traduções em português [V — Wikipedia EN, Book of Joel, “Chapters”; [W] quanto a cada edição brasileira].

A matéria é um flagelo de gafanhotos que devasta vinha, figueira, trigo e pasto e interrompe o culto (Jl 1,4–20), depois descrito como exército (Jl 2,1–11) [W]. Segue-se o apelo ao jejum e à conversão (“rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes”, Jl 2,13), a restauração (“restituirei os anos que o gafanhoto comeu”, Jl 2,25), o derramamento do Espírito sobre toda a carne (Jl 3,1–5) e o juízo das nações (Jl 4[3]) [W].

CampoDadoMarcador
Nome hebraicoYoel (יוֹאֵל), filho de Petuel (פְּתוּאֵל)[W]
Posição no cânon2.º dos Doze no massorético (Oseias, Joel, Amós…)[V] — ordem LXX divergente
Capítulos3 no massorético; 4 em várias edições cristãs[V] — Wikipedia EN
EquivalênciaJl 3,1–5 hebraico = Jl 2,28–32 (3 capítulos)[V] — Wikipedia EN
Idiomahebraico bíblico, com perfil linguístico lido como tardio[W]
Autoriaanônima além do patronímico; nenhum outro Joel profetiza no AT[W]
Dataçãodisputada — do séc. IX ao séc. IV a.C. (§2)[V] — Ganzel, 2011
Manuscritos hebraicosCairense (895); Babylonicus Petropolitanus (916); Alepo (séc. X); Leningradensis (1008)[V] — Wikipedia EN
Qumran4Q78 (4QXIIc), 4Q82 (4QXIIg), Schøyen MS 4612/1, MurXII (Mur88)[V] — Wikipedia EN
Citação no NTAtos 2,17–21 (Pentecostes)[W]

Os vestígios entre os Rolos do Mar Morto são reais e parciais: 4Q78 (4QXIIc), de c. 75–50 a.C., preserva Jl 1,10–20; 2,1; 2,8–23 e 3,6–21; 4Q82 (4QXIIg), de c. 25 a.C., preserva 1,12–14; 2,2–13; 3,4–9 e 3,11–14; e Mur88 (Wadi Murabba’at, 75–100 d.C.) traz Jl 2,20; 2,26–32 e 3,1–16 [V — Wikipedia EN, com Fitzmyer e Ulrich].


2. Contexto e Autoria

Fora do seu próprio livro, nenhum texto da Bíblia Hebraica menciona Joel: não há narrativa de vocação, biografia, rei ou data [W]. O nome Yoel é comum na onomástica hebraica (cf. 1 Sm 8,2; 1 Cr 4,35; Ed 10,43) e Petuel não reaparece [W]. Rashi (1040–1105) identificou Joel com o primogênito de Samuel — identificação que Ibn Ezra recusou (“não temos como estabelecer a que geração ele pertenceu… ele não é o filho de Samuel”) [V — Ganzel, JHS 11, 2011, n. 1 e n. 8, citando Uriel Simon, 1989, 1:135].

A datação é o debate maior, e aqui cada posição vem com quem a sustenta. Ganzel observa que as propostas abrangem cinco séculos, do meado do séc. IX (sob Jeorão ben Acab) ao surgimento dos gregos no séc. IV a.C. [V — Ganzel, 2011]:

  • Séc. IX, sob Joás ou Jeorão ben Acab: popular entre autores do século XIX; os inimigos nomeados — filisteus, fenícios, Egito e Edom — convêm à data, e a ausência de assírios e babilônios deixa o leitor entre uma datação muito alta e uma muito baixa [V — Wikipedia EN, “Date”, com o Zondervan Illustrated Bible Dictionary]. Rashi e Radak datam Joel no meado do séc. IX [V — Ganzel, n. 8, com Miqra’ot gedolot ha-ma’or, 2000, pp. 120–121].
  • Início do séc. VIII, sob Uzias, com Oseias, Amós e Jonas, pela colocação de Joel entre Oseias e Amós [V — Ganzel, n. 8, com Aaron Schart, Interpretation 61, 2007, pp. 138–152].
  • Séc. VII, sob Manassés: Seder Olam [V — Ganzel, n. 8]; Yehezkel Kaufmann, Toledot ha-emunah ha-yisra’elit (Tel Aviv: Mossad Bialik, 1960, 3:331–339) [V — Ganzel, n. 8]; Duane A. Garrett, Hosea, Joel (NAC 19A; Broadman and Holman, 1997, pp. 286–294) [V — Ganzel, n. 8].
  • c. 630–587 a.C., com Jeremias, Ezequiel e Habacuque [V — Wikipedia EN].
  • c. 520–500 a.C., com o retorno dos exilados e Ageu e Zacarias [V — Wikipedia EN]: Jacob M. Myers, ZAW 74 (1962), pp. 177–195 [V — Ganzel, n. 5]; Mordechai Cogan, Joel (Mikra leyisra’el, 1994, p. 10) [V — Ganzel, n. 8]; Leslie C. Allen, The Books of Joel, Obadiah, Jonah and Micah (NICOT, 1976, pp. 19–25) [V — Ganzel, n. 8].
  • 537–520 a.C., a “restauração inicial”, entre o decreto de Ciro (538–537) e Ageu (520): Tova Ganzel, “The Shattered Dream…”, JHS 11 (2011), art. 6 [V — jhsonline.org], que lê Joel como articulação entre Ezequiel e Ageu.
  • Séc. V, no tempo de Esdras e Neemias: James L. Crenshaw, Joel (AB 24C, 1995), pp. 21–29 [V — Ganzel, n. 8].
  • c. 400 a.C. ou depois, com possíveis acréscimos ptolomaicos: John Barton, Joel and Obadiah (OTL, 2001), pp. 14–18 [V — Ganzel, n. 8], que conclui que a segunda parte do livro é posterior à primeira [V]. Indícios: os “gregos” (Jl 4,6) e a destruição de Jerusalém referida como passada (Jl 4,1.17) [V — Wikipedia EN].

Nenhuma posição venceu. Calvino não dá grande importância à datação exata [V — Wikipedia EN], e o dado de fundo permanece o de Ibn Ezra: o livro esconde a sua época [V — Ganzel, 2011, n. 1]. Daí a regra do dossiê: dizer junto com a tese o nome de quem a sustenta.

O meio cultual e a unidade. O quadro é o Templo funcionante: sacerdotes no altar, ofertas cortadas (Jl 1,9.13; 2,17), assembleia sagrada (Jl 2,15–16) [W]. A hipótese do “profeta cultual” — Sigmund Mowinckel, Psalmenstudien III (Kristiania, 1923) [W] — foi abandonada quanto ao ofício, mas explica a moldagem litúrgica do livro, legível como roteiro de lamento comunitário [W]. Quanto à unidade, Willem S. Prinsloo, “The Unity of the Book of Joel”, ZAW 104 (1992), pp. 66–81, defende-a por argumentos estruturais [V — Ganzel, n. 7]; Barton divide o livro em duas fases [V]; e a pesquisa sobre os Doze — James D. Nogalski, Schart — lê Joel como peça de articulação do corpus [W].


3. Estrutura (3 capítulos)

  • Jl 1,1–20 — Lamento pela praga e pela seca. Título (1,1); memória transgeracional (1,2–3); o quádruplo flagelo (1,4); ruína da vinha, figueira, trigo e árvores (1,5–12); ofertas interrompidas e luto dos sacerdotes (1,9.13); jejum e reunião dos anciãos (1,14); “Ai! que dia! porque o dia de YHWH está próximo” (1,15) [W].
  • Jl 2,1–11 — O exército e o dia de YHWH. O shofar em Sião (2,1); trevas, fogo devorador, a marcha que escala muros, cavalos e carros (2,2–9); terra que treme, sol e lua que escurecem (2,10); “este é o meu grande exército” (2,11) [W].
  • Jl 2,12–17 — O apelo à conversão. “Voltai para mim de todo o coração, com jejum, choro e lamento” (2,12); “rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes” (2,13); assembleia sagrada (2,15–16); oração dos sacerdotes entre o pórtico e o altar (2,17) [W].
  • Jl 2,18–27 — Restauração. O zelo de YHWH pela sua terra (2,18); a expulsão do “nortenho” (hat-tzefoni, 2,20); chuvas temporãs e tardias (2,23); “restituirei os anos que o arbeh comeu, o yeleq, o hasil e o gazam, o meu grande exército” (2,25) [W].
  • Jl 3,1–5 [2,28–32] — O Espírito sobre toda a carne. “Depois disto (achar ken) derramarei o meu Espírito sobre toda a carne: filhos e filhas profetizarão, velhos sonharão, jovens verão visões” (3,1); o Espírito também sobre escravos e escravas (3,2); prodígios cósmicos (3,3–4); “todo aquele que invocar o nome de YHWH será salvo” (3,5) [W; V quanto à numeração, via Sefaria].
  • Jl 4[3],1–21 — O juízo das nações. Reunião no vale de Josafá (emek Yehoshafat) e o processo (4,1–3.12); queixas contra Tiro, Sidom, Filisteia, Edom e Egito (4,4–8.19); a denúncia dos que venderam meninos e meninas (4,3,6); espadas forjadas — inversão de Miqueias 4,3 — e a vindima das nações (4,10–14); o rugido de YHWH desde Sião (4,16); Judá habitada para sempre e a fonte da casa de YHWH (4,18–21) [W].

Marcadores de composição. Palavras-guião amarram as partes: o shofar e o dia de YHWH nas extremidades (1,15; 2,1.11); a convocação à assembleia (1,14; 2,15); a fórmula shuvu elai, “voltai para mim”. Wilhelm R. Wendland, “Dramatic Rhetoric, Metaphoric Imagery, and Discourse Structure in Joel”, Journal for Semitics 18 (2009), pp. 205–239, analisa essa arquitetura como programa retórico [V — Ganzel, n. 7], e Prinsloo (1992, 66–81) extrai dela o argumento da unidade [V].


4. Conteúdos-chave com Debate

4.1 O flagelo (1,4–2,11; 2,25): o hebraico nomeia, a exegese divide

Jl 1,4 alinha quatro palavras, cada uma devorando o resto da anterior: הַגָּזָם (gazam), הָאַרְבֶּה (arbeh), הַיֶּלֶק (yeleq) e הֶחָסִיל (hasil) [V — NET Bible, notas a Jl 1,4 e 2,25; International Standard Bible Encyclopedia, “Locust”]. São quatro dos nomes hebraicos de gafanhoto no Antigo Testamento, e a NET os translitera porque a identificação zoológica de cada termo é disputada [V — ISBE]. O português, sem quatro nomes correntes, parafraseia (“cortador”, “migrador”, “saltador”, “devorador”), e as escolhas variam por edição [V — Nepe Search, “Enciclopédia de Joel 1:4”].

Duas leituras se enfrentam. A literal (praga real) descreve evento agrícola concreto — vinha, figueira, trigo, cevada, oliveira e pasto destruídos (1,5–12.17–20), economia do Templo interrompida (1,9.13), camponeses sem renda (1,11) —, e é hoje majoritária [W], presentes em Crenshaw (1995, pp. 21–29) e Allen (1976, pp. 19–25) [V — registros bibliográficos conferidos; páginas citadas conforme a literatura que as reporta]. A metafórica (exército invasor) lê Jl 2,1–11 com traços humanos e militares — cavalos (2,4), corredores sobre muros (2,7.9), cidade tomada (2,9), carros (2,5) — e o cap. 1 como parábola que o prepara [W]; o contra-argumento é textual: 2,25 chama o flagelo de “meu grande exército, que enviei contra vós” [W].

Há ainda a hipótese “do norte”: hat-tzefoni (2,20) é lido como massa de gafanhotos empurrada ao deserto ou como o inimigo do norte (Assíria, Babilônia) [W]. E circula uma hipótese biológica — as quatro palavras designariam fases de uma só espécie, o gafanhoto-do-deserto (Schistocerca gregaria), que alterna fase solitária e fase gregária devastadora [W] —, atraente mas não demonstrada: o texto não oferece a sequência, e a sinonímia dos quatro termos é discutida [W].

4.2 O “Dia de YHWH” e a sua história no profetismo

Joel é o profeta que mais fala do “dia de YHWH” (yom YHWH): 1,15; 2,1.11.31; 3,14 [W]. O conceito tem história:

  • Hipótese cultual. Sigmund Mowinckel, Psalmenstudien II (Kristiania, 1922), reconstruiu o dia de YHWH como a festa de entronização anual de YHWH em Jerusalém [W].
  • Hipótese da guerra santa. Gerhard von Rad, “The Origin of the Concept of the Day of Yahweh”, Journal of Semitic Studies 4 (1959), pp. 97–108, situa a origem na tradição da guerra santa: o dia em que YHWH intervém como guerreiro para salvar o seu povo [W].
  • A inflexão profética. Onde a expectativa popular via luz e libertação, Amós 5,18–20 responde com trevas: “será trevas e não luz” [W]. Joel herda a inversão e a aprofunda: ao lado de Jl 1,15 e 2,1–2 (trevas, nuvens, escuridão), introduz a salvação dentro do juízo — “todo aquele que invocar o nome de YHWH será salvo”, com um resto que sobrevive (Jl 3,5) [W]. É esse desenho duplo que passa ao Novo Testamento [W].

4.3 O derramamento do Espírito (Jl 3,1–5) e Atos 2,17–21

Este é o ponto de recepção decisivo. Em Pentecostes, Pedro explica o Espírito citando Joel: “nos últimos dias (ἐν ταῖς ἐσχάταις ἡμέραις), diz Deus, derramarei do meu Espírito sobre toda a carne” (At 2,17) [W]. Duas questões ocupam os exegetas:

  1. A citação difere do texto. No hebraico, Jl 3,1 abre com achar ken, “depois disto”; na LXX, “μετὰ ταῦτα”; em Atos, “nos últimos dias”. A substituição do meta tauta por en tais eschatais hemerais está catalogada entre as alterações conhecidas da citação de Jl em Atos 2,17a [V — Runge, “Joel 2:28–32a in Acts 2:17–21”, material acadêmico da Logos Bible Software]. Outras diferenças: a inversão velhos/jovens e o acréscimo de “sinais na terra e no céu” [W]. A conclusão usual é que se usa a LXX com adaptações, reivindicando que a promessa se cumpre “nos últimos dias” a partir dali [W].
  2. Quem é “toda a carne”. No livro, a promessa se dirige a Jerusalém e à comunidade do Templo; em Atos, amplia-se a homens e mulheres, velhos e jovens, escravos e escravas, judeus e, logo depois, “todos os que estão longe” (At 2,39) [W]. A universalização é leitura cristã, não a letra do profeta — e a diferença se diz [W].

A citação final de Jl 3,5 reaparece em Romanos 10,13 [W].

4.4 O chamado ao jejum e à conversão (2,12–17)

“Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes” (קִרְעוּ לְבַבְכֶם וְאַל־בִּגְדֵיכֶם, Jl 2,13) é uma das frases mais citadas do livro [W]. O qera das vestes é rito exterior de luto (cf. Gn 37,29; 2 Sm 1,11); Joel o desloca para o interior — sem abolir o exterior, já que convoca jejum (2,12), assembleia sagrada (2,15), santificação (2,16) e a oração dos sacerdotes (2,17) [W]. No judaísmo, a frase tornou-se formulação clássica da teshuvá; e Jl 2,15–27 é a haftará Ashkenazi do Shabbat Shuvah, o sábado entre Rosh Hashaná e Yom Kippur, enquanto os sefarditas leem Oseias 14,2–10 com Miqueias 7,18–20 [V — Jewish Theological Seminary, “Shabbat Shuvah Torah Reading”].

Debate: o chamado de Joel não contém censura moral ou social explícita — não há denúncia de injustiça nem de idolatria, o que o distingue de Oseias, Amós ou Miqueias [V — Ganzel, 2011, que usa o dado na datação]. Daí a divergência: a conversão pedida é litúrgico-ritual (restaurar o culto) ou ético-interior (mudança de coração)? A leitura histórica insiste que “voltar” significa restabelecer a relação com o Templo e com a terra [W].

4.5 Restauração e o juízo das nações no vale de Josafá (Jl 4[3])

A promessa de restauração (2,18–27) tem dois pesos: as chuvas temporãs e tardias (2,23), sem as quais não há colheita no Levante, e a restituição dos anos consumidos (2,25) [W]. O capítulo final reúne as nações para julgamento num lugar de nome simbólico — o vale de Josafá (emek Yehoshafat), “YHWH julga” —, e a exegese discute se corresponde a um vale real (Cedrom, Jezreel) ou a nome teológico criado para a cena [W]. No v. 14 aparece o vale da “decisão” (emek he-charuts), cujo substantivo é disputado: pode significar “decisão”, mas também designa o trilho de debulha; a Vulgata fixou “vale da decisão” [W].

Dois traços críticos: a denúncia do tráfico de escravos (Jl 4,3.6), um dos textos mais explícitos do profetismo contra o comércio de pessoas e indício da datação baixa [W]; e a inversão de Miqueias — onde Mq 4,3 transforma espadas em arados, Joel 4,10 ordena forjar espadas [W].

4.6 A relação literária com Amós (Jl 4,16 // Am 1,2) e a ordem dos Doze

O paralelismo mais citado: Jl 4,16 (“YHWH rugirá desde Sião… os céus e a terra tremerão”) e Am 1,2 (“YHWH rugirá desde Sião… e os pastos dos pastores lamentarão”) [W]. Três posições: Joel depende de Amós (o mais comum na exegese crítica recente) [W]; Amós depende de Joel (posição ligada à datação alta) [W]; ou ambos citam fórmula litúrgica já fixada, o que dissolve o argumento cronológico [W]. Os mesmos cenários existem para Jl 4,12 // Mq 4,3; Jl 2,2 // Sf 1,15; Jl 4,13 // Is 63,3 [W].

A ordem dos Doze integra o quebra-cabeça. O massorético traz Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias; a Septuaginta altera os seis primeiros — Oseias, Amós, Miqueias, Joel, Obadias, Jonas — sem razão evidente [V — Society for Old Testament Study, “Minor Prophets”; Cambridge, Hosea, Joel, and Amos, introdução]. Discute-se se a ordem LXX é secundária, surgida na tradução ou na transmissão grega [V — Brill, The Book of the Twelve in the Septuagint]. Em Qumran, alguns rolos mostram flutuação de ordem, o que alimentou o debate sobre a fixação da coleção [V — Brill, The Book of the Twelve at Qumran]; com honestidade, há quem considere o fenômeno sobrevalorizado, já que nenhum rolo contém os doze profetas completos [V — Journal of Hebrew Scriptures]. O dado mais antigo é literário: o Eclesiástico de Jesus ben Sirac (c. 200 a.C.) louva os “doze profetas” como conjunto (Sir 49,10) [V — Themelios, resenha de Literary Precursors to the Book of the Twelve, BZAW 217].


O flagelo dos gafanhotos
O flagelo dos gafanhotos · Jl 1,1-12Gravura de Jan Sadeler I a partir de Maarten van Cleef (c. 1585), no acervo aberto da National Gallery of Art: o enxame de gafanhotos que cobre o país — a imagem com que Jl 1,4-12 descreve a catástrofe. O dossiê usa a cena porque é o dado concreto do livro: antes de qualquer anúncio do dia do Senhor, o profeta descreve o campo arrasado por quem não tem rei.Jan Sadeler I, after Maarten van Cleef · circa 1585 · gravura (buril) · National Gallery of Art, Washington (open access)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: CC0
A praga dos gafanhotos (Bíblia Holman)
A praga dos gafanhotos (Bíblia Holman) · Jl 1,4-12 (cf. Ex 10,12-15)Ilustração da Bíblia Holman de 1890, com o enxame devorando o que resta: a mesma cena de Jl 1, tomada da série de pragas do Egito, onde o gafanhoto é a oitava. O dossiê usa a imagem porque mostra o tema do livro lido dentro do ciclo do êxodo — e porque o gafanhoto, no Antigo Oriente Próximo, era catástrofe agrícola e sinal divino ao mesmo tempo.illustrators of the 1890 Holman Bible · 1890 · gravura (Bíblia Holman, 1890) · Bíblia Holman (1890)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

5. Temas

  • O dia de YHWH: eixo escatológico, dos sinais cósmicos ao juízo das nações e à salvação do resto (Jl 1,15; 2,1.11.31; 3,14) [W].
  • Calamidade natural como linguagem teológica: a praga é juízo e apelo ao mesmo tempo (Jl 1,4; 2,12) [W].
  • Conversão interior: o “rasgar o coração” contra o ritualismo puro (Jl 2,13) [W].
  • Culto e Templo: a interrupção das ofertas é catástrofe religiosa, não só econômica (Jl 1,9.13; 2,14.17) [W].
  • Restauração e reparação: “restituirei os anos” (Jl 2,25) — tema raro no profetismo [W].
  • O Espírito e a comunidade inclusiva: filhos, filhas, velhos, jovens, escravos e escravas (Jl 3,1–2) [W].
  • Justiça internacional, tráfico de pessoas e resto: o juízo sobre quem vendeu gente (Jl 4,3.6.19) e a invocação do nome que salva (Jl 3,5) [W].
  • A terra como personagem: vinha, animais e pasto participam do luto e da restauração (Jl 1,18–20; 2,22) [W].

6. Recepção

No judaísmo. Joel pertence aos Nevi’im, na coletânea dos Doze [W]; o Targum Jonathan a Joel está em edição digital [V — Sefaria]. Rashi e Radak comentaram o livro — o de Radak, integral, em versão digital [V — Sefaria, Radak on Joel]; Ibn Ezra e Abravanel discutiram a datação [V — Ganzel, 2011, n. 1, n. 8]; o Seder Olam situa-o sob Manassés [V — Ganzel, n. 8]. Na liturgia, Jl 2,15–27 é haftará do Shabbat Shuvah na tradição ashkenazi [V — JTS]; e “rasgai o vosso coração” tornou-se formulação clássica da teshuvá [W].

No Novo Testamento e na Igreja antiga. Atos 2,17–21 e Romanos 10,13 ancoram Joel na pregação primitiva [W]. Os comentários patrísticos chegaram pelos Doze: Jerônimo, Commentarii in prophetas minores, com o comentário a Joel escrito em 406 [V — “Fourth Century Christianity”; CCSL 76A, via BiblIndex]; Cirilo de Alexandria, Commentary on the Twelve Prophets, cujo primeiro volume cobre Oseias a Joel [V — série Fathers of the Church / CUA Press]; Teodoro de Mopsuéstia, preservado em siríaco [V]; Teodoreto de Ciro, na Patrologia Graeca 81 [W]. De Orígenes não se preservou comentário a Joel, e a Catena aurea de Tomás de Aquino cobre os Evangelhos, não os profetas [W].

Na arte e na fotografia. Joel figura no ciclo dos profetas: página de manuscrito francês do séc. XIII com inicial historiada, no Cleveland Museum of Art (fol. 353r) [V — Wikipedia EN, a partir do registro do museu], e a aquarela de James Tissot, c. 1896–1902 [V — Wikipedia EN]. Fora da iconografia, a praga que Joel descreve tem registro visual moderno de primeira ordem: o álbum da praga de 1915 na Palestina, da Colônia Americana de Jerusalém [V — loc.gov]. As leituras devocionais exploram o par “praga → dia do Senhor” e o Pentecostes, mas não substituem os comentários críticos [W].


Joel, gravura de Ghisi a partir de Michelangelo
Joel, gravura de Ghisi a partir de Michelangelo · Jl 1,1-3 (recepção)Gravura de Giorgio Ghisi (1570-1575), do Metropolitan Museum, feita a partir do Joel da abóbada da Capela Sistina, onde o profeta aparece debruçado sobre o rolo, a ler. O dossiê usa a estampa porque o Joel da Sistina é a imagem que a Europa moderna tem do livro, e o gesto de ler corresponde ao texto: o profeta interpreta a catástrofe lendo-a como Escritura.Giorgio Ghisi / Michelangelo / Pietro Facchetti · 1570–75 · gravura (buril) · The Metropolitan Museum of Art, Nova York (open access)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: CC0
Pentecostes
Pentecostes · Jl 3,1-5 (At 2,16-21)El Greco pinta, por volta de 1600, o Pentecostes que hoje está no Museu do Prado: as línguas de fogo sobre os discípulos reunidos. O dossiê usa a obra na seção de recepção porque o discurso de Pedro em At 2 cita Jl 3,1-5 — derramarei o meu Espírito sobre toda carne — como explicação do que acontece naquele dia: o livro termina no Novo Testamento.El Greco · circa 1600 · óleo sobre tela · Museu do Prado, MadriFonte: Wikimedia Commons · Licença: Public domain

7. Traduções PT e Comentários PT

Não há, no mercado brasileiro verificado nesta sessão, edição isolada de Joel em tradução nova [—]. O livro circula dentro das Bíblias completas:

  • Bíblia de Jerusalém (edição brasileira da Bible de Jérusalem; Paulus; ed. de 1981, revisão de 2002; ISBN 9788534919777) [V — Open Library]. A matriz francesa de 1966 adota a divisão em quatro capítulos, e ali o texto do Espírito aparece como Jl 3,1–5 [V — Wikipedia EN].
  • TEB — Tradução Ecumênica da Bíblia (Loyola; edição brasileira da TOB francesa; ISBN 9788515030163) [V — ficha comercial em livraria católica].
  • Almeida (ARC, ARA, ACF e Nova Almeida Atualizada) — circula com Joel em três capítulos, na numeração herdada do séc. XVII, em que Jl 2 tem 32 versículos e os cinco versículos do Espírito são 2,28–32 [V — Wikipedia EN: a King James de 1611 traz Joel em três capítulos, com o cap. 2 unindo os atuais 2 e 3; [W] quanto a cada edição Almeida]. A Bíblia Pastoral (Paulinas) e a Bíblia de Estudo NVI (Vida Nova) incluem Joel com numeração conforme o projeto de cada uma [W].

Comentários e auxílios em português (verificados).

  • Luiz A. S. Rossi, Como ler o livro de Joel (São Paulo: Paulus, 1998) — volume da série “Como ler a Bíblia”, citado em artigo da Theologica Xaveriana (Redalyc) e em artigo brasileiro sobre a redação final de Joel [V — Redalyc; artigo “A motivação apocalíptica na redação final do livro de Joel”]. ISBN e páginas não conferidos [—].
  • José Luis Sicre, Profetismo em Israel: o profeta, os profetas, a mensagem (trad. brasileira; Vozes) — referência geral sobre profetismo, com os Doze, citada ao lado de Rossi na bibliografia acadêmica em português [V — Redalyc; ISBN não conferido [—]].
  • Novo Comentário Bíblico São Jerônimo — Antigo Testamento (Paulus; ed. brasileira do Jerome Biblical Commentary, org. R. E. Brown, J. A. Fitzmyer e R. E. Murphy; ISBN 9788534948333) — introdução e comentário a cada livro, Joel incluído [V — Open Library].
  • Artigos acadêmicos em português:A motivação apocalíptica na redação final do livro de Joel: uma leitura libertadora contra o imperialismo grego” (Editora Científica; PDF aberto) [V] e “Joel e a esperança em um Deus universal e libertador” (Theologica Xaveriana / Redalyc) [V]; ambos trabalham datação e universalismo em chave latino-americana.

Septuaginta em português europeu. Frederico Lourenço publica pela Quetzal a tradução da Bíblia Grega em volumes [W]; não identifiquei, nesta sessão, qual volume abrange os Doze [—].

Comentários-âncora em inglês, sem tradução em português localizada [—], todos com registro em Open Library e ficha na bibliografia final: Wolff (Hermeneia, 1977), Crenshaw (AB 24C, 1995), Barton (OTL, 2001), Allen (NICOT, 1976), Hubbard (TOTC, 1989), Prinsloo (BZAW 163, 1985), Assis (T & T Clark, 2013), Seitz (ITC, 2016), Sweeney (Berit Olam, 2000) e Nogalski (Eerdmans, 2023) [V].


8. Audiovisual e Games

TítuloRealidadeValidação PTMarcador
Visão Geral: Joel (Bible Project / Bible Project Português)animação sobre estrutura e sentido do livro, dublada em PT-BRtítulo e canal PT-BR confirmados[V]
Guia de leitura de Joel (bibleproject.com/guides/book-of-joel)síntese literária e teológica do livroversão em português no canal e no site[V]
The Locust Plague of 1915 Photograph Album (Colônia Americana de Jerusalém; Library of Congress)documentação fotográfica da última grande praga de gafanhotos na região — o análogo visual mais próximo de Jl 1coleção digital aberta; legendas em inglês[V]
Minissérie ou filme dedicado a Joelnenhum localizado com ficha técnica verificável: as séries bíblicas cobrem Josué, Juízes, Reis e Daniel, não Joel[—]
Vídeos “filme completo de Joel” em plataformas abertasmaterial amador e/ou gerado por IA, sem créditos de direção, roteiro ou elenco: não é adaptação verificável[—]
Videojogos com Joel ou com a praganenhum título dedicado localizado[—]

Observação de honestidade. Joel é um dos livros bíblicos sem tradição de adaptação audiovisual: não há filme clássico, peça musicada nem ópera baseada no livro, ao contrário de Sansão, Judite ou Ester [—]. Os vídeos de estudo em português (canais católicos e evangélicos, aulas de professores como Luiz Sayão) são divulgação, não edição crítica [W].


9. Mitologia e Literatura Comparada

O lamento comunitário: o gênero em que Joel se encaixa

A forma de Jl 1 é a do lamento comunitário: convocação dos anciãos, enumeração de perdas, choro dos agricultores, interrupção do culto, petição final (Jl 1,2–20; 2,17) [W]. Hermann Gunkel, com Joachim Begrich, sistematizou o gênero na Einleitung in die Psalmen (Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1933), com os Salmos 44, 60, 74, 79, 80 e 83 como núcleo dos lamentos nacionais [W]; Claus Westermann, em Praise and Lament in the Psalms (Atlanta: John Knox, 1981), discutiu a relação entre lamento e louvor [W]. Joel reelabora o gênero profeticamente: não se dirige a YHWH em nome do povo, e sim convoca o povo a dirigir-se a YHWH — o que faz de Jl 1 quase um rito de lamento prescrito [W].

Do lado oriental, o gênero tem parentes documentados: os lamentos de cidade mesopotâmicos. O Lamento pela Suméria e Ur (ETCSL 2.2.3), composto após a queda de Ur sob os elamitas, chora a destruição de cidades e santuários [V — ETCSL, Universidade de Oxford]; o Lamento por Ur segue a mesma forma [V — Wikipedia EN, Lament for Ur, com as edições de Kramer e Jacobsen]. Em ambos, o desastre é lido como decisão divina — a operação teológica que Joel faz com os gafanhotos [W]. A comparação vale pelo que aproxima (desastre, luto coletivo, busca do porquê divino) e pelo que separa: ali os deuses são múltiplos e o desastre vem do humor deles; em Joel há um só Deus com aliança e um chamado à conversão [W].

Gafanhotos na documentação do Oriente Próximo

O gafanhoto é, na documentação do Oriente Próximo, o emblema da multidão devastadora — e a Bíblia o usa fora de Joel: os midianitas cobrem o vale “como gafanhotos” (Jz 7,12), e Apocalipse 9,3–7 constrói sobre o mesmo repertório a sua praga [W]. O paralelo bíblico interno mais direto é a oitava praga do Egito (Êx 10,1–20), com a mesma leitura: desastre natural como sinal e juízo [W].

Onde a fonte falta, o dossiê diz. Procurei uma inscrição do Oriente Próximo antigo que registre uma praga de gafanhotos lida como juízo divino — nos corpus assírio, babilônico, egípcio ou ugarítico — e não encontrei fonte verificada que a apresente nesses termos [—]; arriscar uma inscrição específica aqui seria inventar. O que a documentação oferece é o topos e o gênero (o lamento) [W]. Em compensação, há um registro moderno excepcionalmente documentado: a praga de 1915 na Palestina [V — loc.gov; Semantic Scholar, The 1915 Locust Plague in Palestine].

Os paralelos ugaríticos e a teofania

O aparelho imagético de Jl 2,10 e Jl 4,16 — o rugido da voz divina, terra e céu que tremem, sol e lua que escurecem — é o padrão do deus-guerreiro que a pesquisa comparativa levou de Ugarit para a Bíblia: Frank Moore Cross, Canaanite Myth and Hebrew Epic (Cambridge: Harvard University Press, 1973), formulou o type-scene do guerreiro divino, cuja linguagem reproduz o vocabulário da teofania de Baal no Ciclo de Ugarit (Ras Shamra, escavado desde 1929) [W]. Os paralelos são reais, e o monoteísmo transforma a função: em Ugarit, o combate do deus integra um politeísmo; em Joel, a teofania é o dia único de um só Deus que julga nações e salva o resto [W].

10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta

Espinosa: o que vale a profecia

Baruch Espinosa, no Tractatus Theologico-Politicus (1670), dedica o capítulo 2 à profecia e o capítulo 10 aos “livros restantes do Antigo Testamento”, onde trata da reunião dos Doze num só volume [V — edição Early Modern Texts, capítulos 2 e 10]. O ponto que interessa a Joel: a profecia é matéria de imaginação, não de conhecimento intelectual, e o valor do profeta está na obediência e na mensagem moral, não na física ou na cronologia [W]. A datação deixa, então, de decidir o valor do livro — e é contra essa separação que a exegese confessional moderna se reformula [W].

Kant: o “fim de todas as coisas” e a data que não se prediz

Immanuel Kant, em Das Ende aller Dinge (1794), trata dos “últimos dias” como ideia moral e reguladora, não como cronologia previsível [W]. Frente a Joel — que diz que o dia de YHWH está próximo (Jl 1,15) sem dizer quando —, Kant formula a pergunta de ouro: uma promessa escatológica não datada é verificável? É a questão do atraso da parusia [W].

Mackie e Rowe: a praga que não escolhe vítimas

A praga destrói indistintamente: a vinha de quem tem vinha, a oferta do Templo, a mesa do pobre. John Leslie Mackie, em “Evil and Omnipotence” (Mind 64, n.º 254, 1955, pp. 200–212), formulou o argumento lógico do mal: onipotência e bondade perfeitas seriam incompatíveis com a existência do mal [W]. William L. Rowe, em “The Problem of Evil and Some Varieties of Atheism” (American Philosophical Quarterly 16, n.º 4, 1979, pp. 335–341), propôs a versão evidencial, com o animal inocente que sofre sem propósito aparente [W]. Joel responde com a estrutura juízo → conversão → restauração; a objeção é que a restauração depende de quem se converte, e a perda de quem não se converte — inclusive de quem não tem parte no erro imputado — permanece. Terá a resposta poder explicativo ou apenas consolador? [W]

Girard: o juízo das nações e a vítima

René Girard, em Violence et le sacré (1972) e em Je vois Satan tomber comme l’éclair (1999), descreve a crise mimética e o mecanismo do bode expiatório: sociedades em crise restauram a unidade pela expulsão ou morte de um sujeito coletivamente culpabilizado [V — Open Library]. Os leitores de Girard aplicam a Joel — e aqui isso se apresenta como aplicação de leitores, pois não localizei comentário de Girard sobre o livro [—] — a inversão segundo a qual o texto não narra o linchamento fundador, e sim um juízo sobre os violentos e a denúncia do comércio de escravos (Jl 4,3.6), colocando-se ao lado da vítima [W]. A crítica é conhecida: o juízo de Joel é ele mesmo violento (as nações destruídas), e o argumento corre o risco de sacralizar de novo a violência divina [W].

Mary Douglas: o gafanhoto entre a comida e a praga

Mary Douglas, em Purity and Danger (London: Routledge and Kegan Paul, 1966; ISBN 9780415066082), interpreta as leis alimentares de Levítico como um sistema de classificações que organiza a experiência do mundo [V — Open Library]. O caso do gafanhoto é instrutivo: Levítico 11,22 lista expressamente os gafanhotos como alimento puro para Israel, com nomes que incluem o arbeh — a mesma palavra do flagelo de Jl 1,4 [W]. O mesmo animal é comida legítima e catástrofe nacional; o que muda é o lugar do bicho no sistema. A autora revisou depois essa leitura em Leviticus as Literature (Oxford, 1999) [W].


11. Teologia — os debates

O dia de YHWH: criação do profetismo ou herança do culto?

Permanece o debate de §4.2: Mowinckel deriva o dia de YHWH da festa de entronização [W]; von Rad, da guerra santa [W]; a exegese posterior tende a ver em Amós 5,18–20 a virada teológica que converte a expectativa de luz em trevas [W]. Para Joel, a questão é se ele descreve o dia como evento futuro ou o usa como moldura retórica para urgir a conversão agora — e o livro parece fazer as duas coisas [W].

Os gafanhotos: dois eventos, um evento, ou uma metáfora?

Discute-se se Jl 1 e Jl 2 descrevem a mesma praga em dois registros ou duas catástrofes sucessivas, e se o “exército” de 2,1–11 é biológico ou militar [W]. Nenhuma hipótese resolve todos os dados: 2,11 chama o fenômeno de “seu exército” e 2,25 de “meu grande exército”, com vocabulário militar aplicado a insetos [W].

Arrependimento: rito ou ética?

A ausência de censura moral explícita (Ganzel, 2011 [V]) distingue Joel de quase todo o profetismo clássico. A leitura cristã tradicional acentua a interioridade (“rasgai o coração”); a histórico-crítica acentua o quadro cultual: pede-se o restabelecimento do culto e a intercessão dos sacerdotes (Jl 2,17) [W]. Se o pedido é ético, o livro julga a vida cotidiana; se é cultual, convoca uma liturgia de crise [W].

Universalismo, apocalíptica e Templo

Jl 3,1–2 promete o Espírito a filhos, filhas, velhos, jovens, escravos e escravas, mas o destinatário imediato é Sião e os que invocam YHWH (Jl 3,5) [W]: a leitura cristã, a partir de Atos 2,39, leu aí a inclusão dos gentios; a judaica mantém a particularidade de Israel e do Templo; a crítica pós-colonial observa que o universalismo pode apagar o particularismo afirmado [W]. Joel está entre os textos que preparam a apocalíptica, mas não tem a periodização da história nem os anjos intérpretes: é proto-apocalíptico [W]. E a interrupção das ofertas (Jl 1,9.13) com a oração dos sacerdotes (2,17) põe o livro sob o signo da economia sacrificial — donde a divergência entre quem o lê como crítica ao ritualismo e quem o lê como teologia do culto interrompido e restaurado [W].

11.1. Comentaristas por esfera confessional

Esferas cobertas: judaica, católica (romana ocidental e grega/oriental), ortodoxa, protestante histórica e evangelical. A regra de rotulagem é a do método desta camada — a perspectiva se declara, não se atribui; e o rótulo é metadado, não argumento (“é católico” não refuta o que ele demonstra; “é ateu” não refuta o que ele demonstra). Convenções: [V] conferido nesta sessão; [W] conhecido, não reconferido; [—] lacuna.

Judaica

  • Rashi datou Joel no meado do séc. IX e o identificou com o filho de Samuel — identificação recusada por Ibn Ezra [V — Ganzel, JHS 11, 2011, n. 1 e n. 8, com Uriel Simon, 1989]; texto em plataforma digital [V — Sefaria, Rashi on Joel]. Radak (1160–1236) também o situa no séc. IX [V — Sefaria, Radak on Joel; Ganzel, n. 8]. Abravanel comenta o livro e discute a datação [V — Ganzel, n. 8]; o Seder Olam situa-o sob Manassés [V — Ganzel, n. 8]; o Targum Jonathan é aramaico interpretativo [V — Sefaria].
  • Estudos israelenses contemporâneos: Mordechai Cogan, Joel (Mikra leyisra’el, 1994) [V — Ganzel, n. 8]; Elie Assis, The Book of Joel (T & T Clark, 2013) [V — Open Library].
  • A tradição lê Joel como história própria, não como prefiguração da Igreja; a haftará do Shabbat Shuvah (Jl 2,15–27) faz do livro texto de penitência [V — JTS].

Católica ocidental (latina)

  • Jerônimo, Commentarii in prophetas minores — o comentário a Joel é de 406, completando a série dos Doze; texto crítico em CCSL 76A [V — “Fourth Century Christianity”; BiblIndex].
  • Glossa ordinaria e Nicolau de Lira, Postilla litteralis (séc. XIV) — a leitura medieval latina se faz por glosa e postila [W].
  • Cornélio a Lapide, Commentaria in omnes Sacrae Scripturae libros (1616–1642) — cobre todos os livros do cânon, Joel incluído [V — escopo atestado; volume de Joel não paginado nesta sessão].
  • Agostinho não deixou comentário a Joel (as Quaestiones in Heptateuchum param em Juízes) e a Catena aurea de Tomás de Aquino cobre os Evangelhos, não os profetas [W].
  • Modernos: Novo Comentário Bíblico São Jerônimo — AT (Paulus; ISBN 9788534948333) [V] e as notas da Bíblia de Jerusalém (Paulus) [V].

Católica oriental e grega patrística

  • Cirilo de Alexandria, Commentary on the Twelve Prophets — o primeiro volume cobre Oseias a Joel, com exegese cristológica [V — série Fathers of the Church / CUA Press].
  • Teodoro de Mopsuéstia (c. 350–428), Commentary on the Twelve Prophets — preservado em siríaco, com leitura literal-histórica e antifigurativa [V — registros de edição]. Teodoreto de Ciro, Commentary on the Twelve Prophets, na Patrologia Graeca 81, método antioqueno [W].
  • Orígenesnão se preservou comentário a Joel; dizer que ele comentou o livro é erro [—]. De João Crisóstomo e Efrém o Sírio não há comentário corrido a Joel: o material chega por homilias e catenae [W].
  • A distinção alexandrina (alegórica) contra antioquena (literal) explica por que a mesma passagem produziu leituras incompatíveis: para Alexandria, o exército é figura de potências espirituais; para Antioquia, é fato histórico [W].

Ortodoxa

  • Alexander Lopukhin, Толковая Библия (1904–1913) — comentário russo de referência, com seção própria, “Толкование на книгу пророка Иоиля” [V — azbyka.ru]. A Orthodox Study Bible (NT 1993; completa 2008) traz notas de acento patrístico, Joel incluído [W].
  • A tradição ortodoxa lê Joel sobretudo pela liturgia (a leitura de Joel nas vésperas de Pentecostes, ligada a Atos 2) e por catena, mais que por comentário crítico moderno [W].

Protestante histórica

  • João Calvino, Commentaries on the Twelve Minor Prophets — o comentário a Joel, Amós e Obadias abre a série; tradução inglesa integral em arquivo digital [V — archive.org; CCEL]. Calvino não dá grande importância à datação exata [V — Wikipedia EN].
  • Martinho Lutero, Lectures on the Minor Prophets — as preleções incluem Joel, em Luther’s Works, vol. 18 (Concordia) [V — catálogo da editora]. Matthew Henry, Exposition of the Old and New Testaments (1706–1710), tem seção a Joel [W].
  • Crítica moderna protestante: Wolff (Hermeneia, 1977) [V]; Barton (OTL, 2001) [V]. Assimetria declarada: a esfera protestante domina o mercado anglófono por fato de mercado, não de mérito.

Evangelical e evangélica brasileira

  • David Allan Hubbard, Joel and Amos (TOTC; IVP, 1989; ISBN 9780851116426) — comentário evangélico de referência, com datação alta [V]; Leslie C. Allen, The Books of Joel, Obadiah, Jonah and Micah (NICOT, 1976; ISBN 9780802825315) — técnico, com datação pós-exílica [V]; Duane A. Garrett, Hosea, Joel (NAC 19A, 1997) — datação no séc. VII [V — Ganzel, n. 8].
  • Thomas J. Finley, Joel, Amos, Obadiah (Wycliffe) e David W. Baker, Joel, Obadiah, Malachi (NIVAC, 2006) — linha de aplicação [W].
  • No Brasil, a recepção passa por escola dominical, pregação expositiva e vídeos de divulgação (por exemplo, aulas do professor Luiz Sayão) [W]: divulgação, não exegese crítica comparada.

Não confessional, ateia e agnóstica (por método)

  • James L. Crenshaw, Joel (AB 24C, 1995) [V]; John Barton, Joel and Obadiah (OTL, 2001) [V]; James D. Nogalski, The Books of Joel, Obadiah, and Jonah (Eerdmans, 2023) [V]; Willem S. Prinsloo, The Theology of the Book of Joel (BZAW 163, 1985) [V] — análise histórico-crítica, literária e estrutural, com a perspectiva de método declarada, não a confissão. Crítica bíblica de método secular e divulgação polêmica sobre a Bíblia são gêneros diferentes, e o dossiê não os confunde [W].

Balanço de esferas (contagem declarada)

EsferaNomes citadosFonte primária?
JudaicaRashi [V], Radak [V], Ibn Ezra [V], Abravanel [V], Seder Olam [V], Targum Jonathan [V], Cogan [V], Assis [V]sim (Rashi, Radak, Targum)
Católica ocidentalJerônimo [V], Glossa [W], Nicolau de Lira [W], Cornélio a Lapide [V], Novo Comentário São Jerônimo [V]sim (Jerônimo)
Católica oriental / gregaCirilo [V], Teodoro de Mopsuéstia [V], Teodoreto [W], Orígenes [—]sim (Cirilo, Teodoro)
OrtodoxaLopukhin [V], Orthodox Study Bible [W], liturgia e catena [W]sim (Lopukhin)
Protestante históricaCalvino [V], Lutero [V], Matthew Henry [W], Wolff [V], Barton [V]sim (Calvino, Lutero)
EvangelicalHubbard [V], Allen [V], Garrett [V], Finley [W], Baker [W]sim (Hubbard, Allen)
Não confessionalCrenshaw [V], Barton [V], Nogalski [V], Prinsloo [V]sim (os quatro)

O desequilíbrio visível — o Oriente grego com séries patrísticas sobre os Doze, o Ocidente medieval com glosa e postila, e a modernidade concentrada no mercado anglófono — não é do dossiê: é do material, e por isso fica dito. Onde não há comentário (Orígenes sobre Joel), a lacuna se declara.


12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não têm competência

A regra desta seção: declarar os limites. A ciência não decide se Joel é revelado; decide se uma afirmação factual do texto é compatível com o observável — e, neste livro, quase tudo o que ela pode oferecer é enquadramento, não verificação.

Arqueologia: o que a praga não deixou

Uma praga de gafanhotos não produz estrato arqueológico: não há destruição por fogo, colapso de muros ou camada de cinzas. O que a arqueologia oferece a Joel é o quadro do Período Persa em Yehud — província pequena, de economia agrícola e Templo reconstruído —, estudado por Diana Edelman e por John W. Carter, The Emergence of Yehud in the Persian Period (Sheffield Academic Press, 1999) [V — Carter citado na bibliografia de Ganzel, 2011]. Nenhuma escavação relaciona-se diretamente com os eventos de Joel [—]. Israel Finkelstein, que reordenou o debate do Ferro com a “cronologia baixa”, não produziu estudo sobre uma praga de gafanhotos de época persa [W].

Epigrafia: nenhuma inscrição nomeia Joel

Não há inscrição do Oriente Próximo que mencione Joel, filho de Petuel, nem praga de gafanhotos datada que se possa ligar ao livro [—]. A epigrafia fornece contexto — as moedas de Yehud, os dossiês de Elefantina e Samaria datam o mundo de um profeta pós-exílico —, não o profeta [W]. Conclusão metodológica: texto sem testemunho epigráfico não é texto falso — apenas não se confirma por essa via [W].

Linguística: a datação do hebraico de Joel e o método em crise

O perfil linguístico de Joel é lido pela maioria como tardio (período persa), um dos argumentos centrais das datações baixas [V — Ganzel, 2011]. O método, porém, está sob ataque. Avi Hurvitz — cujo programa exige que uma palavra seja “exclusiva ou predominantemente” tardia, com atestação externa no hebraico pós-bíblico e no aramaico — revisita o problema dos aramaísmos, que a crítica costuma usar para datar textos [V — resenha em Journal of Hebrew Scriptures; estudos em JSTOR]. Ian Young e Robert Rezetko, em Linguistic Dating of Biblical Texts (Equinox, 2008; ISBN 9781845530822), argumentam que os dados não sustentam uma cronologia linguística absoluta, porque a variação reflete também gênero, registro e proveniência [V — Open Library]. Aplicado a Joel: perfil relativo tardio, compatível com as datações persas, sem data absoluta nem decisão entre 520 e 400 a.C. [W].

Climatologia e paleoclimatologia: por que as pragas acontecem

A biologia do gafanhoto-do-deserto (Schistocerca gregaria) explica o fenômeno melhor que qualquer argumento literário: o inseto alterna entre fase solitária inofensiva e fase gregária devastadora, e a mudança é desencadeada pela densidade populacional, que explode em anos de chuvas abundantes depois de secas. É o que a FAO documenta: as populações diminuem nas secas e os surtos seguem cheias e ciclones [V — FAO, Locust Watch]; estudo recente em Scientific Reports confirma o padrão de secas seguidas de precipitação excessiva atraindo os gafanhotos [V — Scientific Reports (2024), s41598-024-73250-w]. A sequência de Joel — seca (1,17–20) e praga (1,4–12) — não é climaticamente implausível: é o perfil em que o fenômeno ocorre [W]. O registro histórico regional reforça: a praga de 1915 na Palestina começou em fevereiro, se instalou em março e abril e durou até junho, fotografada pela Colônia Americana de Jerusalém [V — loc.gov; Semantic Scholar]. A paleoclimatologia reconstrói ciclos de aridez no Levante, mas não identifica um enxame específico do séc. IX, VI ou IV a.C. [W].

Onde a ciência NÃO tem competência

  • A ciência não decide se os gafanhotos eram “o exército de YHWH” (Jl 2,11.25), nem se foi YHWH quem os enviou: causalidade teológica não é confirmável nem refutável por observação [W].
  • A arqueologia não pode provar nem refutar a praga, porque o fenômeno não deixa estrato — ausência de evidência material não é evidência de ausência [W]. A epigrafia não nomeia o profeta, e a inexistência de menção não prova que o livro seja tardio nem que Joel não existiu [W].
  • A linguística dá estimativa relativa, não data absoluta, e o próprio método está em disputa (Hurvitz contra Young e Rezetko) [V].
  • A climatologia descreve o regime em que pragas de gafanhotos ocorrem — não data uma praga antiga específica nem identifica a do livro [W].
  • Nenhuma ciência responde se “o dia de YHWH” é evento futuro, nem se o derramamento do Espírito de Jl 3,1–5 se cumpriu em Atos 2: isso é matéria de teologia e hermenêutica [W].

Um enxame de gafanhotos em movimento
Um enxame de gafanhotos em movimento · Jl 1,4-12 (fenômeno natural)Fotografia de um enxame de gafanhotos da família Acrididae, do arquivo científico do CSIRO (Austrália, 2007). O dossiê usa a imagem na seção de ciência porque o livro de Joel descreve, antes de tudo, um fenômeno identificável: os gafanhotos migratórios que consomem o país, cuja relação com secas e ventos a entomologia estuda — e cuja devastação é a mesma que o texto chama de exército.division, CSIRO · 2007-07-31 · fotografia (CSIRO ScienceImage) · CSIRO, Austrália (imagem CC BY 3.0)Fonte: Wikimedia Commons · Licença: CC BY 3.0

13. Lacunas e Correções de Atribuição

  1. [—] Nenhum comentário brasileiro dedicado a Joel com ficha completa: o volume de Luiz A. S. Rossi, Como ler o livro de Joel (Paulus, 1998), existe e é citado em bibliografia acadêmica em português, mas ISBN e páginas não foram conferidos.
  2. [—] Nenhuma inscrição do Oriente Próximo que registre praga de gafanhotos como juízo divino foi localizada. O topos existe; a cena epigráfica equivalente a Jl 1, não.
  3. [—] Orígenes, Agostinho e a Catena aurea: Orígenes não deixou comentário a Joel; Agostinho não comentou Joel; e a Catena aurea de Tomás de Aquino compila os Padres sobre os Evangelhos. Atribuir a qualquer deles um comentário a Joel é erro.
  4. [—] Frederico Lourenço e os Doze: não identifiquei qual volume da Bíblia Grega (Quetzal) abrange os Doze Profetas.
  5. [W] Datações de Rashi e Radak: chegam por citação de segunda mão (Ganzel, 2011, a partir de Miqra’ot gedolot ha-ma’or, 2000); não reconferi edições rabínicas primárias.
  6. [W] O “vale da decisão” (Jl 4,14): a tradução de emek he-charuts é tradicional, mas o substantivo também designa o trilho de debulha; o dossiê não resolve a escolha.
  7. [—] Estatísticas de Joel (palavras, letras ou vocábulos do massorético), [—] produção audiovisual dedicada com ficha técnica verificável e [—] comentário de René Girard sobre o livro não localizados; os vídeos de “filme completo de Joel” não têm créditos e têm indícios de geração por IA.

Bibliografia-âncora verificada

Como conseguir estas obras

A bibliografia de um site didático cita o que importa e o leitor consegue alcançar; o selo diz por onde, do que se lê hoje ao que só se compra.

6 livre · 3 emprestimo · 3 biblioteca · 2 compra.

ObraAcessoOnde
Ganzel, “The Shattered Dream” (JHS 11, 2011)livrejhsonline.org
Lopukhin, “Толкование на книгу пророка Иоиля”livreazbyka.ru
Radak e Rashi sobre Joel; Targum Jonathan a Joellivresefaria.org
Runge, “Joel 2:28-32a in Acts 2:17-21”livrelogos.com
FAO, Locust Watch — clima e gafanhoto-do-desertolivrefao.org
Praga de 1915 na Palestina — álbum fotográfico (LoC)livreloc.gov
Calvino, Commentaries on the Twelve Minor ProphetsempréstimoInternet Archive
Wolff, Joel and Amos (Hermeneia, 1977)empréstimoInternet Archive
Jerônimo, Commentarii in prophetas minores (CCSL 76A)empréstimoBiblIndex
Crenshaw, Joel (Anchor Bible 24C, 1995)bibliotecaOpen Library
Assis, The Book of Joel (T & T Clark, 2013)bibliotecaOpen Library
Young e Rezetko, Linguistic Dating of Biblical Texts (2008)bibliotecaOpen Library
Bíblia de Jerusalém (Paulus; ISBN 9788534919777)compraOpen Library
Novo Comentário Bíblico São Jerônimo — AT (Paulus)compraOpen Library

Selo [esgotado] não aparece aqui: as obras clássicas citadas (Wolff, Crenshaw, Jerônimo) continuam alcançáveis por empréstimo digital ou em biblioteca.