Antiguidade Bíblica
4 Macabeus — Artigo Enciclopédico
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1. Lead e Ficha
O Quarto Livro dos Macabeus (gr. Μακκαβαίων Δ, Makkabaiōn D; lat. Machabaeorum IV; hebr. moderno ספר מקבים ד) tem 18 capítulos [V] e não é um livro histórico [W]: é um discurso filosófico, uma diatribe helenística, cuja tese se enuncia na primeira linha, “o assunto… é altamente filosófico, a saber, se a razão piedosa é soberana sobre as paixões” (4 Mac 1,1) [V]. Eusébio e Jerônimo, que o atribuíam a Flávio Josefo, chamavam-no “Sobre o primado da razão” (Περὶ αὐτοκράτορος λογισμοῦ; lat. De imperatrice ratione) — título descritivo antigo, provavelmente não o original [W]. O nome “IV Macabeus” veio da tradição grega, que o reuniu aos outros livros macabaicos [W].
A obra reescreve 2 Macabeus 6,18–7,42: o que o epítome de Jasão de Cirene contava em um capítulo e meio — a morte de Eleazar e da mãe com os sete irmãos sob Antíoco IV —, 4 Macabeus estende a catorze capítulos de discursos, precedidos de três capítulos de tese e de um quadro histórico [V]. O autor não quer narrar: quer demonstrar, pelos mártires, que a razão educada na Lei (παιδεία, paideia) governa o medo, a dor e o prazer [V]. Os mártires são atletas de um certame (ἀγών, agōn) cujo prêmio é a imortalidade (17,12) [V] — e é por isso o texto mais citado na discussão da expiação pré-cristã (6,28-29; 17,21-22) e um testemunho central do judaísmo helenizado da diáspora [W].
| Campo | Dado | Marcador |
|---|---|---|
| Nome grego | Makkabaiōn D (Μακκαβαίων Δ) | [V] texto |
| Título descritivo antigo | “Sobre o primado da razão” (Περὶ αὐτοκράτορος λογισμοῦ) | [W] |
| Posição no cânon | apêndice das Bíblias gregas ortodoxas; fora do cânon católico e do protestante | [V] |
| Capítulos | 18 | [V] |
| Idioma original | grego koiné (obra composta em grego, não tradução) | [V] |
| Gênero | diatribe filosófica helenística + encômio (elogio) dos mártires | [V] |
| Tese | a razão piedosa (ho eusebēs logismos) é soberana sobre as paixões | [V] |
| Protagonistas | Eleazar, a mãe e os sete irmãos; Antíoco IV como tirano | [V] |
| Autoria | anônima; judeu da diáspora; a atribuição a Josefo é hoje rejeitada | [V] |
| Datação | maioria: c. 20–130 d.C. (posições: Bickerman 20–54; Hadas c. 40; Dupont-Sommer até Hadriano); posição antiga: séc. I a.C. | [W] |
| Fonte narrada | 2 Macabeus 3–7 (reescrito) | [V] |
| Testemunhos textuais | Códices Sinaítico, Alexandrino e Venetus | [V] |
| Tradições que o recebem | ortodoxa grega (apêndice), siríaca e georgiana; ausente da Vulgata | [V] |
2. Contexto e Autoria
O livro e a sua fonte. 4 Macabeus pressupõe 2 Macabeus 3–7: a intriga de Simão contra Onias e o assalto ao tesouro do Templo (4 Mac 3,19–4,14), a reforma de Jasão e o ginásio (4,15-20), a perseguição de Antíoco e os mártires (4,21–18,24) [V]. A dependência é de conteúdo, não de estilo: onde 2 Macabeus tem Heliodoro, 4 Macabeus põe Apolônio, governador da Síria, Fenícia e Cilícia (4,2) [V], e comete pequenos erros geográficos que denunciam um autor distante da Judeia (Hadas, 1953; deSilva, 2006) [W]. O autor não cita a fonte: escreve como quem domina o episódio e o reinterpreta [W].
Gênero: diatribe, encômio, homilia? O livro combina a diatribe filosófica (objeções e respostas: 1,5.24; 3,1; 7,17), o encômio dos mártires (1,8-12; 7; 17) e a exortação final (18,1-2) [W]. Retomando Ewald e Freudenthal, uma hipótese antiga faz dele uma homilia de festa — o texto diz “nesta data comemorativa” (1,10) —, mas o livro só se apoia frouxamente em textos escriturísticos, o que enfraquece o rótulo [W]. A caracterização mais defensável é a de diatribe com moldura de encômio (van Henten, 1997; deSilva, 2006) [V].
Autor e lugar. O autor é anônimo e escreve para judeus helenizados da diáspora [V]. Não era da Judeia: o grego é o de quem pensa em grego, há um erro sobre a topografia de Jerusalém e o tom é o de quem defende uma minoria cultural (deSilva, 2006) [W]. Quatro lugares foram propostos:
- Alexandria — a hipótese clássica: afinidade com Filo e com a Sabedoria de Salomão e o peso de ser Alexandria o centro da literatura judaica grega (Swete, 1900; Toy; Barton; Jacobs; Abrahams, 1906) [W]. Contra: o livro não compartilha a linguagem da Septuaginta nem o estilo alexandrino conhecido (Norden, 1923) [W].
Datação. O livro é posterior a 2 Macabeus (c. 150–120 a.C.) e não menciona a destruição do Templo — silêncio usado, com cautela, como indício de datação alta [W]. Bickerman (1945) propôs 20–54 d.C.; Hadas (1953) situa a composição por volta de 40 d.C., sob Calígula, quando a comunidade voltou a temer a profanação do Templo [V]; Dupont-Sommer (1939) defendeu data tardia, no tempo de Hadriano (117–138 d.C.) [W]. A posição antiga — “judaísmo alexandrino do século anterior à queda de Jerusalém” (Swete, 1900) — permanece possível: o intervalo editorial é c. 20–130 d.C., com defensores do século I a.C. [W].
A atribuição a Josefo — e a sua refutação. Eusébio (História Eclesiástica III.10) e Jerônimo atribuem a obra a Flávio Josefo [W], e o texto circulou séculos nas edições de Josefo: a tradução latina de Erasmo (1517/8), a edição grega de John Lloyd (Oxford, 1590) e a versão de Whiston [V]. Ammann (2025) mostrou que Hugo Grotius foi provavelmente o primeiro a contestar por escrito a autenticidade, e que a autoria desconhecida só virou consenso no início do século XX [ACAD — DOI 10.36950/jndf.2025.20]. Os argumentos da rejeição: língua e estilo divergentes, erros históricos que Josefo não comete e ideologia incompatível — Josefo acomodava-se ao poder romano; 4 Macabeus prega a intransigência até a morte (Hadas, 1953; deSilva, 2006) [W].
3. Estrutura (18 capítulos)
A arquitetura é a de um ensaio com demonstração:
- Proêmio (1,1–12): anúncio da tese (1,1) e do método: provar pela bravura de Eleazar, dos sete irmãos e da mãe (1,7-12) [V].
- Demonstração a partir da Lei (1,13–3,18): definições (razão, sabedoria, as quatro virtudes, 1,13-18); a doutrina das paixões e dos seus dois troncos, prazer e dor (1,20-35); provas tiradas da Escritura — José contra o desejo (2,1-6), Moisés contra a cólera (2,17), Jacó contra o furor de Simeão e Levi (2,19-20), Davi contra a sede (3,6-16); e a tese de que a razão não arranca as paixões (3,1-5) [V].
- Moldura histórica (3,19–4,26): da paz sob a Lei (3,20) à intriga de Simão, ao assalto de Apolônio, à ascensão de Antíoco, à deposição de Onias, ao sumo sacerdócio comprado por Jasão e ao ginásio, até o decreto que obriga a comer alimentos impuros (4,15-26) [V] — o resumo do que 2 Macabeus narra em cinco capítulos [W].
- Eleazar (5–7): o diálogo com o tirano (5,1-13), a apologia da Lei como filosofia (5,14-38), a tortura e a oração expiatória (6,1-29) e o elogio (7,1-23) [V].
- Os sete irmãos (8–12): as promessas de Antíoco (8,1-11), a exibição dos instrumentos (8,12-14), o discurso imaginário dos covardes (8,16-26) e a morte de cada irmão, do primeiro (9) ao sétimo (12) [V].
- Os irmãos como coro (13–14): a concórdia fraterna (13,1-27) e o encômio dos sete, “sete torres” e “sete dias da criação” (14,1-10) [V].
- A mãe (14,11–17,1): o maior discurso do livro (15,1-32): a razão sobre o amor materno e as “duas urnas” (15,26-28) — mais a notícia, de terceiros, de que ela se lançou ao fogo (17,1) [V].
- Epílogo e doxologia (17,2–18,24): o encomium final, o epitáfio que conviria inscrever no túmulo (17,8-10), a interpretação expiatória (17,20-22), a última exortação (18,1-5), o discurso da mãe (18,6-19) e a doxologia (18,23-24) [V].
4. Conteúdos-chave com Debate
4.1 A tese e as quatro virtudes (1,1–18)
A obra define o λόγος (logos) como “a mente que, com reta lógica, prefere a vida da sabedoria”, e o conteúdo dessa sabedoria como educação na Lei (1,15-17) [V]. Em 1,18 aparecem as quatro virtudes — prudência (φρόνησις, phronēsis), justiça (δικαιοσύνη, dikaiosynē), coragem (ἀνδρεία, andreia) e temperança (σωφροσύνη, sōphrosynē) —, o catálogo que a tradição liga a Platão (República IV, 427e–435a) [W]. O autor opera uma transferência: as virtudes gregas tornam-se as virtudes da Lei de Moisés, e a razão que as governa é “piedosa” (eusebēs) [V].
4.2 As paixões segundo o uso — onde o autor não é estoico (1,30–35; 2,21-23; 3,1-5)
A questão central. Na leitura estoica clássica (Zenão, Crisipo), as paixões são juízos falsos e a saúde da alma exige apatia (ἀπάθεια); na peripatética (Aristóteles, Ética a Nicômaco II, 5–6), as paixões são naturais e a virtude é a sua moderação (μετριοπάθεια) [W]. Nussbaum, em The Therapy of Desire (1994), reconstruiu esse conflito como disputa entre terapias rivais da alma [W]. 4 Macabeus não adota a apatia: a razão “não arranca as paixões” e é seu “adversário” (3,5), e Deus plantou as paixões no homem, entronizando a mente sobre elas com a Lei (2,21-23); em 1,35 e na sequência, as paixões aparecem como forças a disciplinar, não a destruir [V]. Daí as leituras divergentes: Breitenstein (1976) descreve um autor eclético; Moscicke (2017) fala de absorção e adaptação de material estoico; deSilva (2006) prefere a retórica da honra e da vergonha [W]. O paradoxo fica: o livro mais grego da Bíblia grega é o que corrige a tese grega, trocando a supressão pela obedição [W].
4.3 A moldura histórica (3,19–4,26) e os limites do relato
4 Macabeus repete a história e erra em pontos que os historiadores registram: chama o saqueador do tesouro de Apolônio (4,2) em lugar de Heliodoro e faz do ginásio a ruína da nação (4,20) [V]. A moldura serve à tese, não à cronologia: a crise nasce de uma reviravolta interna — “alguns tentaram uma revolução contra a harmonia pública” (3,21) —, não de um assalto externo [W].
4.4 Eleazar (5–7): a Lei como filosofia e a recusa da aparência
O capítulo 5 é o coração apologético do livro. Antíoco propõe a Eleazar que “filosofe conforme a verdade do que é útil” (5,11); Eleazar responde que a filosofia dos judeus ensina “a temperança…, a coragem…, a justiça…, a piedade” (5,22-24) e que transgredir a Lei “em coisas pequenas ou grandes” tem igual gravidade, porque em ambos os casos a Lei é igualmente desprezada (5,19-21) [V]. A recusa decisiva vem em 6,15-22: quando lhe oferecem carne cozida para que finja comer porco, Eleazar responde que seria irracional, depois de uma vida íntegra, tornar-se “modelo de impiedade para os jovens” [V] — o primeiro caso explícito, na literatura judaica, de recusa até da aparência da apostasia [W].
4.5 Os sete irmãos (8–12): o certame e a fala do mártir
Antíoco promete cargos e amizade (8,5-8); os irmãos respondem “com uma só voz”: “estamos prontos a morrer, antes que transgredir as ordens ancestrais” (9,1) [V]. Cada irmão acrescenta um motivo: o segundo diz que “qualquer morte pela religião dos pais é doce” (9,29); o terceiro não renuncia à nobreza do parentesco (10,3); o quarto responde à amputação da língua: “Deus escuta também os mudos” (10,18-19) [V].
4.6 A mãe (13–17): a razão sobre o amor materno
O discurso mais famoso do livro é o da mãe (15,1-32). O autor não a apresenta como insensível: descreve o amor materno — dores do parto, leite, criação (14,13-20; 15,4-8) — e depois mostra a razão governando, não extinguindo esse amor: “a razão piedosa, dando-lhe coração de varão no meio das suas emoções, fortaleceu-a” (15,23) [V]. O argumento é deliberativo: “duas urnas” estão diante dela, morte e preservação dos filhos (15,26-28); ela escolhe a morte, porque “a religião os preserva para a vida eterna” (15,3) [V]. Duas ressalvas ficam ditas: a tradição de que ela se lançou ao fogo (17,1) é relatada como notícia de terceiros, e o nome dela não está no texto grego (§13) [W].
4.7 Expiação e resgate (6,28-29; 17,20-22) — o texto mais citado
Na oração final, Eleazar pede: “sê misericordioso com o teu povo, e que o meu castigo lhes baste; faze do meu sangue a sua purificação e toma a minha vida em troca das suas” (6,28-29) [V]. No epílogo, o autor interpreta o conjunto: os mártires “tornaram-se, por assim dizer, um resgate (ἀντίψυχον, antipsychon) pelo pecado da nação”, e “pelo sangue desses homens piedosos e pela sua morte como propiciação (ἱλαστήριον, hilasterion), a Providência divina salvou Israel” (17,21-22) [V]. van Henten (1997) mostrou que os mártires são ali apresentados como salvadores do povo — categoria decisiva para a comparação com a teologia cristã da cruz; deSilva (2006) e Droge e Tabor (1992) discutem se a linguagem é substitutiva ou litúrgica e corporativa [W]. O debate é aprofundado em §11.
4.8 Imortalidade da alma ou ressurreição do corpo? (9,22; 14,5-6; 16,13; 17,12; 18,23)
Anderson, no Anchor Bible Dictionary, observou que 4 Macabeus compartilha com Filo e com a Sabedoria de Salomão a doutrina grega da imortalidade da alma e omite deliberadamente as passagens de 2 Macabeus sobre a ressurreição do corpo (2 Mac 7,9.11.14.22-23) [W]. Aqui, os mártires são “transformados pela imortalidade” (9,22), recebem “almas puras e imortais” (18,23), e os patriarcas “não morrem para Deus, mas vivem em Deus” (7,19; cf. 16,25) [V]. A leitura dominante é que o livro fala de imortalidade, não de ressurreição corporal — mas a questão é discutida: há quem leia a “imortalidade” como linguagem da diáspora para a mesma esperança, e van Henten (1997) nota que o texto preserva a retribuição futura [W].
4.9 O epílogo (18) e a leitura da Escritura
O último capítulo põe na boca da mãe uma cadeia de citações: Abel, Isaac, José (18,11), o zelo de Finéias, os três jovens na fornalha, Daniel na cova dos leões (18,12-13), Isaías 43,2, o Salmo 34,19, Provérbios 3,18, Ezequiel 37,3 e Deuteronômio 32,39 (18,14-19) [V]. É um florilégio que funciona como argumento: a Escritura, lida em grego, prova a tese filosófica [W].
4.10 A língua e o texto
4 Macabeus foi composto em grego — não é tradução de um original semítico, ao contrário de 1 Macabeus [V]. O grego é culto, retórico, cheio de compostos, e foi classificado como “asiânico” por Norden (1923); Swete (1900) observou que, embora afetado, ele “é verdadeiramente grego” e se aproxima mais dos modelos da filosofia e da retórica helênicas do que qualquer outro livro da Bíblia grega [W]. A transmissão repousa em três unciais — Sinaítico, Alexandrino e Venetus —, em cursivos e em versões siríaca e copta; o livro não está na Vulgata [V].

5. Temas
- A razão piedosa e as paixões. A razão educada na Lei governa medo, dor e prazer (1,1; 6,31-35; 16,1-4) [V].
- A Lei como filosofia e educação. A Torá é παιδεία (paideia): formação da razão (1,17; 5,22-24) [V].
- Martírio e expiação. A morte dos justos purifica o povo e aplaca a ira (6,28-29; 17,20-22) [V].
- Imortalidade. O prêmio do certame é a vida sem fim (9,22; 17,12; 18,23) [V].
- A mãe e a maternidade heroica. O amor materno, a mais forte das paixões, é a prova mais difícil da tese (14,11–17,1) [V].
- O tirano e a teologia política. Antíoco é ímpio, não apenas inimigo; a sua derrota é teológica (9,9; 12,11-18; 18,5) [V].
- A pertença diaspórica. Obra feita para judeus longe do Templo, cuja fidelidade se joga no corpo e na mesa (4,24-26) [W].

6. Recepção
Na patrística. A recepção antiga de 4 Macabeus é homilética e litúrgica. Gregório de Nazianzo, na Oração 15 (“Sobre os Macabeus”), na festa deles em 379/381, segue quase inteiramente 4 Macabeus 5–15 e sustenta que os mártires merecem veneração igual à dos mártires cristãos [V] — e não cita 2 Macabeus, cita o tratado filosófico [W]. João Crisóstomo pregou-os em Antioquia (386) e em Constantinopla (397/405), na homilia Sobre Eleazar e os sete meninos, defendendo o culto de mártires mortos antes de Cristo [V]; Agostinho pregou três sermões (300, 301, 301A), chamando-os “mártires de Cristo” e mencionando a igreja deles em Antioquia [V].
Calendário e santuários. A festa fixou-se em 1.º de agosto (Martirológio siríaco, 411; Calendário de Cartago, 505–535; Leccionário georgiano, séc. VII) [V]. O Peregrino de Placência (c. 565/570) viu em Antioquia os túmulos dos mártires, com os instrumentos do suplício pendurados sobre eles, e um medalhão de mosaico de Cartago (séc. VI/VII) traz inscrição latina que os comemora [V]. Na transmissão erudita, o livro sobreviveu dentro das obras de Josefo (Erasmo, 1517/8; Lloyd, 1590; Whiston), até que Grotius contestasse a autenticidade e a crítica do início do século XX fixasse a autoria desconhecida (Ammann, 2025) [V]. Ao tratar mártires judeus como proto-cristãos, a recepção praticou o que Joslyn-Siemiatkoski (2009) chama de apropriação [W].
Na pesquisa moderna. As edições de Hadas (1953) e deSilva (2006) e os estudos de van Henten (1997), Tolonen (2017) e Woodward (2025) fizeram do livro um documento central da ética judaica helenizada [V].


7. Traduções PT e Comentários PT
O caso é de escassez, e a lacuna se declara. Não localizei, nesta sessão, nenhuma tradução em português dedicada a 4 Macabeus — nem brasileira, nem portuguesa [—]. O motivo é canônico antes de editorial: o livro não está na Vulgata nem nos cânones católico e protestante, e as Bíblias de estudo em português (Bíblia de Jerusalém, Ave-Maria, Bíblia do Peregrino, TEB, edições pastorais) trazem 1 e 2 Macabeus, não 3 e 4 [W]. A Conferência Episcopal Portuguesa, que publicou o Segundo livro dos Macabeus (trad. Hermenegildo Faria, 2026, ISBN 978-989-9288-23-2) [V-WP], não publicou volumes equivalentes para 3 e 4 Macabeus [—].
A pista mais próxima: a Bíblia Grega de Frederico Lourenço. A tradução de Frederico Lourenço a partir do grego (Quetzal, seis volumes desde 2016, cerca de 80 livros) é, em língua portuguesa, a via mais provável de acesso ao livro, porque traduz o corpus da Septuaginta [W]. O Volume V, tomo 1, “os livros históricos” (Quetzal, 2023), ISBN 9789897224621, cobre o bloco histórico, onde os Macabeus se situam na ordem grega [W]; a editora anunciou o Volume VI em novembro de 2025 como último publicado, faltando o tomo 2 do Volume V [V-WP]. Não confirmei em que volume — nem se — os Macabeus foram impressos [—].
Comentários PT. Não localizei comentário exegético em português dedicado a 4 Macabeus [—], e os comentários-âncora (Hadas, 1953; deSilva, 2006; van Henten, 1997) não têm tradução portuguesa [—]: o acesso exige inglês ou grego [W].
8. Audiovisual e Games

| Título | Realidade | Validação PT | Marcador |
|---|---|---|---|
| Adaptações dedicadas a 4 Macabeus | nenhuma localizada: o livro nunca foi filmado nem dramatizado como tratado filosófico | — | [—] |
| The Old Testament (Il vecchio testamento, 1962) | filme italiano sobre a revolta macabaica, centrado em 1 Macabeus | dublagem PT não confirmada | [W] / [—] |
| Full-Court Miracle (Disney Channel, 2003) | filme juvenil que reutiliza a história de Judah Maccabee e Hanukkah | circulação PT não confirmada | [W] |
| Origins of Hanukkah (Kings and Generals) e similares | reconstruções da revolta com base em 1–2 Macabeus | legendas PT irregulares | [W] |
| Maccabees and Menorahs (Diegetic Games) | jogo narrativo de 2–5 jogadores sobre Hanucá | só em inglês | [W] |
| Leituras integrais de 4 Macabeus (YouTube, LibriVox) | há leituras em inglês (RSV e traduções livres) | nenhuma em português localizada | [W] / [—] |
| Videojogos de grande estúdio com os mártires macabeus | nenhum título relevante | — | [—] |
O padrão é o mesmo de 2 Macabeus, e mais radical: a parte da tradição macabaica que 4 Macabeus representa — a filosofia do martírio — não tem vida audiovisual [W]. O que existe é Hanukkah (1–2 Macabeus) e a sua apropriação infantil e cívica [W]; a ficha audiovisual de 4 Macabeus é, honestamente, um conjunto de lacunas [—].
9. Mitologia e Literatura Comparada
A diatribe cínico-estoica: Epicteto e Sêneca
4 Macabeus pertence a um gênero grego conhecido: a diatribe — exposição oral de um tema ético, com objeções fingidas, apóstrofes ao ouvinte e exemplos [W]. Os paralelos nomeados são Epicteto (as Diatribes, recolhidas por Arriano), Musônio Rufo e Sêneca (as Epístolas e o De ira, sobre o governo da cólera) [W]. O autor usa os mesmos recursos e o mesmo tópico — “a razão domina as paixões” —, mas o preenche com a Lei de Moisés: a razão que vence é a razão educada na Torá (1,17; 2,23) [V].
O martírio judaico e a “morte nobre” greco-romana
A literatura greco-romana tem o seu repertório de mortes exemplares: Sócrates e a cicuta (Apologia, Fédon), o sábio estoico que se retira da vida quando ela deixa de ser digna (Sêneca, Epístolas 24 e 70) e os exemplos cívicos romanos — Múcio Cévola, que queima a própria mão, e Régulo, que volta à tortura para não faltar à palavra [W]. Discute-se se o martírio judaico reformula essa tradição ou é fenômeno distinto; a resposta dominante é que 4 Macabeus absorve o modelo do “belo morrer” e o transforma pela esperança da imortalidade (Droge e Tabor, 1992; van Henten, 1997) [W].
O lógos de Filo e a aretologia da Sabedoria de Salomão
Vale olhar para dentro do judaísmo. Filo de Alexandria constrói uma filosofia do λόγος — a razão divina que ordena o mundo e modela a alma — e lê as quatro virtudes na Escritura: os quatro rios do Éden, em Legum allegoriae I, são a prudência, a coragem, a temperança e a justiça [W]. A Sabedoria de Salomão desenvolve uma aretologia do justo: o justo é provado e os ímpios o condenam (Sb 2,12-20); a alma dos justos está nas mãos de Deus e a sua esperança é imortalidade (Sb 3,1-4); a sabedoria é “hálito do poder de Deus” (Sb 7,25) [W]. Swete (1900) e Anderson (1992) aproximam 4 Macabeus dos dois pela língua, pelas imagens e pela doutrina da imortalidade da alma [W] — a comparação nomeia o campo: um judaísmo helenizado que usa vocabulário grego para afirmar a Lei.
A expiação e o Novo Testamento
O vocabulário de 6,28-29 e 17,21-22 é sacrificial: ἱλαστήριον (hilasterion, “propiciação”) reaparece em Romanos 3,25, aplicado a Cristo, e a ideia de uma morte que beneficia o povo reaparece em Marcos 10,45 e no vocabulário de Hebreus [W]. Hebreus 11,35-36 é lido por muitos como referência à tradição dos mártires macabeus, e van Henten (1997) fixou a categoria dos mártires como “salvadores do povo” [W]. Paralelo não é dependência: o Novo Testamento pode partilhar vocabulário sacrificial sem derivar de 4 Macabeus, e a crítica recente prefere falar de um ambiente conceitual comum [W].
Os “Atos dos Mártires” e o gênero posterior
4 Macabeus está na origem remota dos Atos dos Mártires: o Martírio de Policarpo, a Paixão de Perpétua e Felicidade e os relatos recolhidos por Eusébio (os mártires de Lião, que ele compara aos macabeus) retomam a estrutura do interrogatório, da recusa, do suplício e da morte exemplar [W].
10. Filosofia — as perguntas que o texto levanta
Esta é a seção decisiva deste dossiê, porque 4 Macabeus é um texto filosófico: não narra para contar, mas para demonstrar uma tese ética.
A tese e as quatro virtudes — Platão
O esquema das virtudes em 4 Macabeus 1,18 é o de Platão: prudência, justiça, coragem e temperança, com a prudência (φρόνησις) à frente, porque por ela a razão governa as paixões (1,19) [V]. A fonte clássica é a República IV (427e–435a), onde as virtudes se articulam com as partes da alma e o governo da razão [W]. Onde Platão funda a ordem na estrutura da alma, 4 Macabeus funda-a na Lei: a sabedoria é “educação na Lei” (1,17) e o governador entronizado na mente recebeu a Lei (2,23) [V].
Estoicos e peripatéticos: erradicar ou moderar as paixões
A questão central. Na leitura estoica clássica (Zenão, Crisipo), as paixões são juízos falsos e a saúde da alma exige apatia (ἀπάθεια); na peripatética, que remonta a Aristóteles (Ética a Nicômaco II, 5–6), as paixões são naturais e a virtude é a sua moderação (μετριοπάθεια) [W]. Nussbaum, em The Therapy of Desire (1994), reconstruiu o debate como conflito entre terapias rivais da alma, e mostrou que a apatia estoica é posição extrema [W]. 4 Macabeus não adota a apatia: a razão “não arranca as paixões” e é seu “adversário” (3,5), e Deus plantou as paixões no homem, entronizando a mente sobre elas com a Lei (2,21-23); em 1,35 as paixões aparecem como forças a disciplinar [V]. Daí o paradoxo: Breitenstein (1976) vê um autor eclético, Moscicke (2017) fala de absorção e adaptação do estoicismo — e o livro mais grego da Bíblia grega é o que corrige a tese grega, trocando a supressão pela obedição [W].
O lógos: 4 Macabeus entre Filo e a Sabedoria de Salomão
Se a tese é grega, o conceito é judaico-helenístico. O λόγος de Filo de Alexandria é razão cósmica e princípio de leitura alegórica da Escritura; em Legum allegoriae I, os quatro rios do Éden são as quatro virtudes [W]. Em 4 Macabeus, o lógos que governa é o “lógos eusebēs” — a razão piedosa —, e o seu conteúdo é a Lei: “a razão é a mente que prefere a vida da sabedoria… e isto é educação na Lei” (1,15-17) [V]. A Sabedoria de Salomão fornece o outro termo: a imortalidade dos justos e a provação do justo (Sb 2–4) [W]. A proximidade com os dois sustenta o argumento alexandrino (Swete, 1900); o argumento contrário é que o estilo de 4 Macabeus não é o da Septuaginta de Alexandria (Norden, 1923) [W].
A escolha racional do martírio — Espinosa, Kant, Nussbaum
O problema: pode a razão prescrever a morte? O livro responde que sim, porque o cálculo inclui a imortalidade: “por este sofrimento e pela perseverança teremos o prêmio da virtude e estaremos com Deus” (9,7-8); “o prêmio era a imortalidade numa vida sem fim” (17,12) [V]. A estrutura é a de uma aposta (cf. Pascal, Pensées, 1670): se a retribuição futura existe, morrer é o movimento racional [W]. Kant é o filósofo decisivo da dignidade: na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785) e na Metafísica dos Costumes (1797), a humanidade é fim em si e a dignidade (Würde) é valor incondicional, não trocável por preço [W]. Os mártires não se suicidam, mas entregam o corpo a um bem superior à sobrevivência (5,30-38; 6,27-29): a distinção entre preço e dignidade descreve o que eles recusam — salvar-se “ao preço” da apostasia [V]. Kant, porém, condena o suicídio, e a tradição de 17,1 (a mãe que se lança ao fogo) é o caso-limite que o texto não resolve, porque a relata como notícia de terceiros [V].
Espinosa oferece o contraponto mais forte: na Ética (1677), as paixões são ideias inadequadas e a razão ganha poder ao compreendê-las (Parte IV); o homem livre “pensa na vida, não na morte” (Ética IV, prop. 67) [W]. O sábio de 4 Macabeus faz o inverso — e é obrigado a dizer, com o quarto irmão, que “Deus escuta também os mudos” (10,18-19) [V].
Nussbaum fecha o triângulo: em The Therapy of Desire (1994) e Upheavals of Thought (2001), sustenta que as emoções são juízos avaliativos e que a tentativa estoica de extirpá-las empobrece a vida ética [W]. 4 Macabeus, que faz da mãe um caso de amor materno dirigido e não suprimido (15,13-23), está mais perto de Nussbaum do que de Crisipo [W].
O problema do mal — Mackie e Rowe
O sofrimento dos justos é o problema clássico. J. L. Mackie, em “Evil and Omnipotence” (1955), formulou a versão lógica: a coexistência de um Deus onipotente, onisciente e bom com o mal seria contraditória [W]; William Rowe, em “The Problem of Evil and Some Varieties of Atheism” (1979), propôs a versão evidencial: a dor intensa e aparentemente gratuita torna o teísmo improvável [W]. 4 Macabeus responde dentro do relato: a dor é breve, é correção e é compensada pela imortalidade; e tem função redentora para o povo (17,21-22) [V]. A objeção deve ser dita: a resposta pressupõe o que está em disputa (a retribuição futura) e converte o sofrimento em instrumento [W].
Pureza, corpo e vítima — Mary Douglas e René Girard
A comida é fronteira. Mary Douglas, em Purity and Danger (1966) e Leviticus as Literature (1999), mostrou que os códigos de pureza organizam o mundo social: os animais proibidos são os que não se encaixam na classificação [W]. Em 4 Macabeus, a recusa do porco é o teste da tese, e o autor diz que transgredir “em coisas pequenas ou grandes” é igualmente grave (5,19-21) — a formulação mais radical da pureza como identidade [V]. René Girard, em La Violence et le sacré (1972) e Le Bouc émissaire (1982), leu o sacrifício como mecanismo de bode expiatório: a violência coletiva concentra-se numa vítima e produz paz [W]. 4 Macabeus tem linguagem sacrificial (17,22), mas o seu sacrifício é voluntário, a vítima é inocente e vindicada e o culpado é o poder: o esquema ilumina a linguagem e não se aplica sem resto [W].
O governo de si e a verdade — Foucault
Foucault, em L’usage des plaisirs e Le souci de soi (1984), descreveu nas éticas greco-romanas uma “cultura de si”: técnicas (dieta, exercício, exame de consciência, askēsis) pelas quais o sujeito se constitui governando os próprios prazeres [W]. Forte: o livro apresenta a Lei como askēsis que forma a razão (1,17; 13,24) e os mártires como atletas de um treino (17,11-16) [V]. Limite: o sujeito de 4 Macabeus não se constitui a si mesmo, constitui-se pela obediência a Deus e à Lei, e o fim do exercício não é a estética da existência, é a fidelidade [W].
11. Teologia — os debates
A expiação e o resgate (6,28-29; 17,21-22)
O texto. Eleazar pede que o seu sangue seja “purificação” e que a sua vida seja dada “em troca” das do povo (6,28-29); o epílogo diz que os mártires se tornaram “resgate pelo pecado da nação” e que, “pelo sangue desses piedosos e pela sua morte como propiciação, a Providência divina salvou Israel” (17,21-22) [V]. O debate. A leitura substitutiva vê aqui expiação vicária, precursora da cruz; van Henten (1997) mostrou que a categoria dominante é a dos mártires como salvadores do povo, mas notou que a beneficiada é a nação e que o efeito declarado é a purificação da terra e o afastamento da ira, não a justificação individual [W]. A leitura litúrgica-corporativa evita “sacrifício expiatório” e fala de uma morte que purifica no quadro da Providência [W]. ἱλαστήριον em Romanos 3,25 é o ponto de contato mais citado com o Novo Testamento, e Hebreus 11,35 o mais debatido [W].
Imortalidade da alma ou ressurreição do corpo?
4 Macabeus fala de imortalidade — “transformado pela imortalidade” (9,22), “almas puras e imortais” (18,23), “os que morrem por Deus vivem em Deus” (7,19; 16,25) — e deixa de lado a ressurreição do corpo de 2 Macabeus (Anderson, 1992) [W]. Três posições: (i) o livro substitui a ressurreição pela imortalidade grega; (ii) apenas escolhe outro vocabulário, já que é compatível com a ressurreição; (iii) as duas obras usam estratégias pastorais diferentes para a mesma esperança (van Henten, 1997; deSilva, 2006) [W].
A Torá como filosofia: a apologia da Lei
A tese apologética do livro é que o judaísmo é filosofia — superior, porque é educação divina (5,22-24) [V]. Tolonen (2017) mostrou que 4 Macabeus mistura prática filosófica e escriturística de tal modo que os seus princípios não se reduzem nem à filosofia grega nem à Lei; Yli-Karjanmaa e Uusimäki (2022) mostraram que a ἀρετή nos livros gregos do Antigo Testamento se liga ao treino, à coragem e ao sofrimento com recompensa pós-morte [ACAD — DOI 10.1515/opth-2022-0207]. A questão que sobra é se a apologia heleniza o judaísmo ou o defende com armas gregas; a resposta mais comum é a segunda — a filosofia entra como retórica de resistência [W].
A autoridade de um livro apêndice
4 Macabeus não está no cânon hebraico, não está no cânon católico, não está na Vulgata nem no cânon protestante [W]. Nas Bíblias gregas ortodoxas figura como apêndice (“Μακκαβαίων Δ’ Παράρτημα”), não no corpo dos anagignoskomena; nas eslavas e russas, o apêndice traz 2 Esdras [W]. Atribui-se à Igreja georgiana a recepção canônica do livro, mas não confirmei o dado em fonte primária [—]. A pergunta teológica é direta: um livro lido e venerado (os mártires têm festa) mas fora do corpo canônico — que autoridade tem? As respostas dividem-se entre o uso litúrgico (Escritura por ser lido no Oriente) e o edificante (livro proveitoso, não regra de fé) [W].
11.1. Comentaristas por esfera confessional
A subseção organiza os comentários por tradição de leitura. Convenções: [V] conferido nesta sessão; [W] conhecido, não reconferido; [—] lacuna. A regra do método: a perspectiva se declara, não se atribui, e o rótulo confessional é metadado, não argumento.
Judaica
- O judaísmo não recebeu o livro no cânon hebraico e não há comentário rabínico clássico [W]. A leitura judaica moderna começa no século XX: Hadas (1953) e a Jewish Encyclopedia (1906), cujo verbete (Toy, Barton, Jacobs e Abrahams) já fixava o autor como judeu alexandrino, rejeitava a autoria de Josefo e assinalava “possivelmente algumas interpolações cristãs, muito poucas e insignificantes” (7,19; 13,17; 16,25) [DIGITAL]. O interesse atual passa pela ética e pela diáspora — Tolonen (2017), Ammann (2025) [V].
Católica latina
- O livro não está no cânon católico, e não há comentário católico corrido: nem Cornélio a Lapide o comentou, porque segue os livros da Vulgata [W]. A tradição católica o toca pelos mártires — Agostinho (sermões 300, 301, 301A), Pedro Crisólogo, Valeriano de Cimiez —, homilias que usam a história dos Macabeus sem depender de 4 Macabeus [V]. Para doutrina (o purgatório), a tradição usa 2 Macabeus 12,38-45, não 4 Macabeus [W].
Ortodoxa grega, eslava e siríaca
- É a esfera onde o livro tem casa: apêndice das Bíblias gregas, festa em 1.º de agosto, homilias de João Crisóstomo (Antioquia, 386; Constantinopla, 397/405) e a memória dos sete irmãos e da mãe Solomonia [V]. O comentário crítico moderno nasce nesse campo: deSilva (2006) editou o texto grego do Códice Sinaítico na Septuagint Commentary Series [V]. Nas Bíblias eslavas, o apêndice é ocupado por 2 Esdras [W]; no lado siríaco, a versão foi editada por Bensly e Barnes (1895) [DIGITAL].
Protestante histórica
- Lutero pôs os deuterocanônicos entre os “apócrifos”, mas 3 e 4 Macabeus não entraram na sua Bíblia, e o livro ficou sobretudo dentro das obras de Josefo [W]. Foi nesse meio — o humanismo protestante tardio — que nasceu a crítica à autoria josefiana, atribuída por Ammann (2025) a Grotius [ACAD — DOI 10.36950/jndf.2025.20]: a esfera deu ao livro a sua libertação editorial sem o receber no cânon [W].
Evangélica
- A esfera não recebe o livro como Escritura, mas é dela o comentário mais usado hoje: David A. deSilva, autor do comentário de 2006, lê 4 Macabeus como fonte teológica e histórica a ser estudada, não descartada [V]. Boa parte da apologética o menciona apenas para tratar da canonicidade ou do purgatório de 2 Macabeus [W]; a diferença com a esfera ortodoxa é de autoridade, não de leitura histórica [W].
Não confessional e balanço
- A crítica não confessional — van Henten (1997), Hiebert (2012; 2020), Tolonen (2017), Uusimäki (2022), Woodward (2025), Ammann (2025) — fornece o aparato primário de referência [V]. O desequilíbrio é visível: a esfera católica não tem comentário corrido, a judaica tem erudição sem liturgia, e a ortodoxa tem liturgia e um comentário crítico, sem série exegética própria [W]. | Esfera | Nomes citados | Fonte primária? | |---|---|---| | Judaica | Hadas [V]; Jewish Encyclopedia (1906) [DIGITAL]; Ammann [ACAD — DOI 10.36950/jndf.2025.20]; Tolonen [ACAD — DOI 10.1163/15700631-12341133] | sim | | Católica latina | Agostinho, Pedro Crisólogo, Valeriano [V] (sermões, não comentário) | parcial | | Ortodoxa (grega, eslava, siríaca) | Crisóstomo [V]; deSilva [V]; Bensly e Barnes [DIGITAL]; Solomonia na liturgia [W] | sim (deSilva) | | Protestante histórica | Grotius [ACAD — DOI 10.36950/jndf.2025.20]; Lutero [W]; edições de Josefo (Erasmo, Lloyd, Whiston) [V] | parcial | | Evangélica | deSilva [V] | sim | | Não confessional | van Henten, Hiebert, Tolonen, Uusimäki, Woodward [V] | sim |
12. Ciência — o que as ciências dizem, e onde não têm competência
A regra desta seção: declarar os limites. A ciência não decide se o livro é revelado; decide se as afirmações que ela pode testar são compatíveis com o que se conhece.
A crítica textual: os três unciais, Rahlfs e o texto grego
Como o livro foi composto em grego, a crítica textual não busca um original hebraico: busca o texto do autor por trás das cópias [W]. Os testemunhos principais são três unciais: o Códice Sinaítico (séc. IV, que traz 1 e 4 Macabeus), o Códice Alexandrino (séc. V, com 1–4 Macabeus) e o Códice Venetus (séc. VIII/IX, da biblioteca de São Marcos, em Veneza) [W]. A edição padrão é a de Rahlfs, a Handausgabe da Septuaginta (1935), revista por Hanhart (editio altera, 2006) [W]. Adams (2008) estudou o texto do Alexandrino [ACAD — DOI 10.1177/0951820708089936]; Hiebert (2012) analisou o problema do “texto grego antigo” do livro e, em 2020, redigiu a síntese da evidência manuscrita para a Textual History of the Bible [ACAD — DOI 10.1163/9789004241732_008; DOI 10.1163/2452-4107_thb_COM_0210040200].
As versões: siríaca, copta e a ausência na Vulgata
4 Macabeus não está na Vulgata e não tem transmissão latina antiga: circulou em grego e, nas traduções, sobretudo em siríaco, versão editada por Bensly e Barnes (1895), com um memra anexo; há também um fragmento copta [DIGITAL]. No Ocidente, o livro foi lido dentro dos volumes de Josefo (Erasmo, 1517/8; Lloyd, 1590) [V].
A arqueologia do culto: Antioquia, Constantinopla, Cartago
A arqueologia documenta o culto, não o evento. Os dados são os túmulos dos mártires em Antioquia, com os instrumentos do suplício pendurados sobre eles, vistos pelo Peregrino de Placência (c. 565/570) [V]; a igreja dos mártires macabeus junto a Constantinopla (Cronista Pascoal, 626) [V]; o medalhão de mosaico de Cartago, com inscrição latina que os comemora (séc. VI/VII) [V]; e a rede de calendários que fixa a festa em 1.º de agosto [V].
A filologia da datação e a hipótese da proveniência
Os argumentos de proveniência são estilísticos e lexicais — o estilo “asiânico” (Norden, 1923), o uso de palavras raras nos autores alexandrinos (Hadas, 1953), os erros geográficos (deSilva, 2006) — e todos são frágeis como medida: Peterson (1994) mostrou que não há medida comum capaz de distinguir Alexandria, Antioquia, a Ásia Menor e a Judeia [W]. A conclusão honesta: a filologia fixa um intervalo de datação (c. 20–130 d.C., com defensores do séc. I a.C.) e não fixa o lugar [W].
Onde a ciência NÃO tem competência
- A crítica textual determina qual texto é mais antigo e mais provável; não determina se ele é inspirado, nem se os mártires foram recebidos na glória [W].
- A arqueologia pode escavar o santuário de Antioquia ou o mosaico de Cartago; não pode verificar o martírio nem a expiação (6,28-29; 17,21-22) — nenhuma inscrição os nomeia [W].
- As ciências naturais descrevem a fisiologia da dor; não decidem se o sofrimento dos justos é compatível com a bondade divina — questão da filosofia e da teologia (§10, §11) [W].
- A psicologia descreve estratégias de tolerância à dor e a força do vínculo materno; não mede a “razão piedosa” nem decide se a escolha dos mártires foi racional em sentido normativo [W].
- A filologia decide que o livro não é de Josefo — juízo histórico verificável (Ammann, 2025) —, mas não decide se ele diz a verdade sobre Deus [W].

13. Lacunas e Correções de Atribuição
- 4 Macabeus não é a “quarta parte” de uma série. Não é sequência de 1, 2 e 3 Macabeus: é um tratado filosófico que reescreve 2 Macabeus 6–7 (e 3–4). O número é rótulo grego tardio [W].
- Não é de Flávio Josefo. Eusébio e Jerônimo o atribuíram a Josefo e a obra circulou nas edições dele por séculos; Grotius foi provavelmente o primeiro a contestar por escrito, e o consenso da autoria desconhecida só se firmou no início do século XX (Ammann, 2025) [ACAD — DOI 10.36950/jndf.2025.20].
- “Sobre o primado da razão” é título descritivo, atestado em Eusébio e Jerônimo; o título transmitido é “Macabeus IV” [W].
- A mãe é anônima no texto grego. Solomonia (ortodoxa), Shmouni (siríaca), Hannah (midrash) e Solomne (arte cristã) são acréscimos da recepção [W].
- Eleazar muda de perfil entre as obras. Em 2 Macabeus é escriba (2 Mac 6,18); em 4 Macabeus é “chefe do rebanho”, de família sacerdotal (5,4) [V]. 6. O livro não está na Vulgata nem no cânon ocidental. Nas Bíblias gregas é apêndice; nas eslavas, o apêndice traz 2 Esdras [W]. A afirmação de que é “canônico só na Igreja georgiana” não foi confirmada em fonte primária nesta sessão [—].
- “Imortalidade da alma” em vez de “ressurreição do corpo” é hipótese. A omissão da ressurreição corporal de 2 Macabeus 7 (Anderson, 1992) é discutida, e a interpretação da imortalidade é objeto de debate [W].
- As “interpolações cristãs” foram superestimadas. A hipótese do início do século XX (Jewish Encyclopedia, 1906: 7,19; 13,17; 16,25) foi abandonada: o livro é judaico de ponta a ponta [W].
- [—] Proveniência: Alexandria, Antioquia, Ásia Menor e a Judeia seguem em disputa, sem medida decisiva (Peterson, 1994) [—].
- [—] Tradução e comentário PT: nenhum localizado; a via possível é a Bíblia Grega de Lourenço, cujo volume com os Macabeus não confirmei [—].
- [—] Audiovisual: nenhuma adaptação localizada; o material existente é de 1–2 Macabeus e de Hanukkah [—].
Bibliografia-âncora verificada
- Hadas, The Third and Fourth Books of Maccabees (Dropsie College / Harper, 1953). [HIST] Internet Archive.
- Dupont-Sommer, Le Quatrième Livre des Machabées (École des Hautes Études 274, Paris, 1939). [HIST] WorldCat.
- deSilva, 4 Maccabees: Introduction and Commentary on the Greek Text in Codex Sinaiticus (Brill, 2006). [V] ISBN 9789047408512. Brill.
- van Henten, The Maccabean Martyrs as Saviours of the Jewish People (Brill, 1997). [V] ISBN 978-90-04-10976-6. Brill.
- Anderson, “4 Maccabees”, em Charlesworth (org.), The Old Testament Pseudepigrapha 2 (Doubleday, 1985; reed. Yale, 2010). [V] ISBN 9780300140200. Internet Archive.
- Rahlfs (ed.), Septuaginta (Stuttgart, 1935); rev. Hanhart (editio altera, 2006). [W] ISBN 9783438051196.
- Hiebert, “In Search of the Old Greek Text of 4 Maccabees”, em Text-Critical and Hermeneutical Studies in the Septuagint (Brill, 2012), pp. 127–143. [ACAD — DOI 10.1163/9789004241732_008].
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- Adams, “The Alexandrinus Text of 4 Maccabees”, JSP (2008). [ACAD — DOI 10.1177/0951820708089936].
- Tolonen, “Managing the Ancestral Way of Life in the Roman Diaspora”, JSJ 48 (2017), pp. 113–141. [ACAD — DOI 10.1163/15700631-12341133].
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- Woodward, “Derisive laughter and shame in 4 Maccabees”, JSP 34/4 (2025), pp. 322–342. [ACAD — DOI 10.1177/09518207251340002].
- Ammann, “Did Josephus write 4 Maccabees?”, Judaica. Neue Digitale Folge 6 (2025). [ACAD — DOI 10.36950/jndf.2025.20].
- Moscicke, “The Concept of Evil in 4 Maccabees: Stoic Absorption and Adaptation”, JJTP 25 (2017), pp. 163–195. [W] Brill.
- Breitenstein, Beobachtungen zu Sprache, Stil und Gedankengut des Vierten Makkabäerbuchs (Schwabe, 1976). [HIST].
- Bickerman, “The Date of Fourth Maccabees” (1945), em Studies in Jewish and Christian History I (Brill, 1976). [HIST].
- Norden, Die antike Kunstprosa (Teubner, 1923). [HIST].
- Swete, An Introduction to the Old Testament in Greek (Cambridge, 1900). [DIGITAL] Internet Archive.
- Toy; Barton; Jacobs; Abrahams, “Maccabees, Books of”, The Jewish Encyclopedia (1906). [DIGITAL] jewishencyclopedia.com.
- Bensly; Barnes, The Fourth Book of Maccabees and Kindred Documents in Syriac (Cambridge, 1895). [DIGITAL] Internet Archive.
- Cult of Saints (Oxford), S00303 — “Maccabean Martyrs, pre-Christian Jewish martyrs of Antioch”: Gregório de Nazianzo, Crisóstomo, Agostinho, Prudentius, Peregrino de Placência, Martirológio siríaco, Leccionário georgiano. [V] csla.history.ox.ac.uk.
- Codex Sinaiticus Project — edição digital do manuscrito (4 Macabeus incluído). [DIGITAL] codexsinaiticus.org.
- Orthodox Church in America, “7 Holy Maccabee Martyrs” (1.º de agosto) — Abim, Antonius, Gurias, Eleazar, Eusebonus, Alimus, Marcellus e a mãe Solomonia. [V] oca.org.
- Bíblia Grega, trad. Frederico Lourenço — Volume V, tomo 1: “os livros históricos” (Quetzal, 2023). [W] ISBN 9789897224621; Quetzal.
- Conferência Episcopal Portuguesa (trad. Hermenegildo Faria), Segundo livro dos Macabeus (2026). [V-WP] ISBN 978-989-9288-23-2.
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| Codex Sinaiticus Project (manuscrito digital) | livre | codexsinaiticus.org |
| Yli-Karjanmaa; Uusimäki, “Good Life, Brave Death…” (Open Theology, 2022) | livre | doi.org |
| Ammann, “Did Josephus write 4 Maccabees?” (Judaica, 2025) | livre | doi.org |
| Orthodox Church in America, “7 Holy Maccabee Martyrs” | livre | oca.org |
| Hadas, The Third and Fourth Books of Maccabees (1953) | empréstimo | Internet Archive |
| Anderson, “4 Maccabees”, OTP vol. 2 | empréstimo | Internet Archive |
| Swete, An Introduction to the Old Testament in Greek (1900) | empréstimo | Internet Archive |
| van Henten, The Maccabean Martyrs as Saviours… (Brill, 1997) | biblioteca | WorldCat |
| Rahlfs; Hanhart, Septuaginta (1935; 2006) | biblioteca | WorldCat |
| Hiebert, “10.4.2 Greek” (Textual History of the Bible, 2020) | biblioteca | doi.org |
| Adams, “The Alexandrinus Text of 4 Maccabees” (2008) | biblioteca | journals.sagepub.com |
| deSilva, 4 Maccabees (Brill, 2006) | compra | Brill |
| Hiebert, “In Search of the Old Greek Text” (Brill, 2012) | compra | doi.org |
| Woodward, “Derisive laughter and shame…” (JSP, 2025) | compra | journals.sagepub.com |
| Tolonen, “Managing the Ancestral Way of Life…” (JSJ, 2017) | compra | doi.org |
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